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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Patriarcado partilhou apelo ao voto no Basta. "Foi uma imprudência"



Página do Patriarcado de Lisboa no Facebook partilhou post com um gráfico em que se relacionava as posições dos partidos políticos com a "defesa da vida". DN questionou a diocese e a publicação foi entretanto retirada.





O DN questionou o gabinete de comunicação do Patriarcado sobre este apelo ao voto em partidos que têm um discurso contrário à doutrina social da Igreja e ao que tem dito o Papa Francisco, por exemplo em matéria de refugiados, migrantes e de acolhimento dos estrangeiros. O DN quis ainda saber se critérios como a defesa de políticas que promovem a exclusão social, a pobreza e o desemprego não são contrárias à defesa da vida.
O gabinete de comunicação limitou-se a confirmar que a publicação ia ser retirada, "por não ter ficado claro" que o Patriarcado não se reverá em todas estas posições. "A única coisa que defendemos em matéria de defesa da vida é a que está" na carta pastoral dos bispos portugueses, divulgada a 2 de maio, sobre as eleições deste ano.
post esteve visível mais de duas horas, com comentários a questionar a sua publicação e outros a elogiar as "três opções" que os católicos têm para votar. É esta a posição do Patriarcado, questionou de novo o DN. Do lado do Patriarcado, a resposta foi a mesma: "Admitimos que foi uma imprudência. Para o Patriarcado, é essencial que toda a gente tenha a possibilidade de discernir o seu voto." Isso significa apontar o voto em partidos que contrariam a doutrina social da Igreja, insistiu o DN. "Para não criar qualquer dúvida, retiramos o post e remetemos a posição do Patriarcado para a Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa."
post em causa é da responsabilidade da Federação Portuguesa pela Vida (FPV), que explica que "foi feito um questionário aos candidatos ao Parlamento Europeu de cada partido" e que "o quadro está de acordo com as respostas dadas" por cada partido.
PS, Bloco de Esquerda e PAN são os três partidos que, no entendimento da FPV, devem ser riscados da opção de voto dos católicos: são contra todos os critérios definidos de "defesa da vida". A CDU (cujo símbolo é omitido) tem alguns pontos "nem a favor nem contra", incluindo contra a eutanásia. No Parlamento, os dois parceiros da CDU votaram de modo diferente: o PCP rejeitou a morte assistida, ao contrário do PEV, que até apresentou uma iniciativa legislativa.
Também o PSD e o Aliança merecem mais dúvidas do que garantias, de acordo com a avaliação deste movimento.


A um comentário que aponta o facto de o Aliança ser contra a eutanásia, partilhando um texto de Santana Lopes, em que o líder deste partido se manifesta contra a morte medicamente assistida, a FPV explica que "a resposta da Aliança foi que não podiam responder", pelo que colocaram o partido "nem a favor nem contra" na avaliação sobre a posição do partido.
O Patriarcado partilhou a imagem dizendo que "a Federação Portuguesa pela Vida reuniu, em gráfico, as posições, acerca da defesa da vida, dos diferentes partidos políticos que se candidatam às próximas eleições europeias".
Em 1974, logo depois do 25 de Abril, os bispos portugueses tomaram a decisão de não apoiar a criação de um partido cristão e defenderam que nenhum partido se podia arvorar como único representante da Igreja Católica, apesar de ao longo dos anos da democracia alguns reivindicarem essa matriz. "A palavra de ordem era preparar os cristãos para a pluralidade democrática, portanto partidária", recordava em 2009 o então cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.
A nota pastoral dos bispos portugueses, que agora o Patriarcado invoca, avisa logo no seu primeiro ponto que "toda a vida humana tem igual valor", defendendo o "direito à vida na sua gestação", "na fase do seu crescimento", "por parte de jovens comprometidos", "nas relações familiares", "da parte dos idosos" e o "direito a viver até ao fim". Ou seja, rejeita-se, na linha oficial da Igreja Católica, o aborto e a eutanásia.
Mas o texto dos bispos portugueses também define categoricamente que são "inaceitáveis as correntes inspiradas no 'nacionalismo de exclusão' que vêm ganhando força em vários países", completando: "Não estamos imunes a um clima de medo e desconfiança em relação aos estrangeiros, bem como o perigo de os encarar como concorrentes a postos de trabalho ou ameaça ao nosso nível de vida, esquecendo que muitos de nós buscam o mesmo estatuto e nível de vida noutros países." E os bispos citam Francisco, quando o Papa disse sobre as migrações, no Dia Mundial da Paz, em 2018, que "alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a olhá-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz".
"São inaceitáveis as correntes inspiradas no 'nacionalismo de exclusão' que vêm ganhando força em vários países."
Neste documento defende-se ainda o "direito à vida na sua componente económica", reiterando que "a pobreza conduz à violação dos direitos humanos", ou "na sua componente demográfica", onde se define a necessidade de combater "a precariedade do trabalho" e um "mínimo de estabilidade laboral".
Estes critérios (entre outros, definidos no texto da Conferência Episcopal) são esquecidos pelo gráfico simplista da Federação Portuguesa pela Vida. E este gráfico esquece ainda partidos candidatos ao Parlamento Europeu, como por exemplo o Partido Democrático Republicano (PDR), a Iniciativa Liberal ou o Livre.
Segundo um comentário dos administradores da página, "o Basta e o Nós Cidadãos, tal como o Aliança, foram incluídos porque responderam ao questionário que foi enviado a todos os partidos concorrentes às eleições europeias". Os que não o fizeram não foram incluídos.



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