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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Cristiano Ronaldo estava a pedi-las?


PEDRO TADEU



A atitude do Herói Tribal perante o sexo envolve um padrão duplo clássico. 

Quando casa é o típico marido apaixonado que gosta profundamente da mulher. Antes, porém, quando é solteiro, costuma tratar as raparigas como puros objetos sexuais a levar para a cama o mais rapidamente possível e o máximo de vezes possível. Sendo jovem e no auge da forma física, a sua virilidade constitui forte atrativo para as bonitas raparigas das franjas da tribo. 
Arrastadas pelo fascínio da sua imagem pública, elas oferecem a possibilidade de conquistas sexuais repetidas, e a obsessão do jogador em "marcar" depressa adquire um significado adicional".


A citação é da tradução editada pela Europa América em 1985 de um livro que Desmond Morris lançou na Inglaterra, quatro anos antes: A Tribo do Futebol.

Quando vejo na televisão, pela enésima vez, a filmagem da cena de dança numa discoteca de Cristiano Ronaldo com Kathryn Mayorga, que terá antecedido o ato sexual que motiva uma acusação de violação, relembro o padrão comportamental identificado pelo zoólogo inglês: a mulher vista pelo herói tribal dos tempos modernos como puro objeto sexual; o homem visto pelas jovens também como um objeto, adorado pelas massas, que pode ser uma conquista sexual sua.

Nesse estudo (há uma reedição recente) os jogadores de futebol são apresentados como os heróis de uma tribo moderna, o clube que representam.

Em torno do clube e, portanto, da tribo, gravitam os seus membros, cuja organização e relações seguem padrões de tribos ancestrais. Há território tribal (os estádios), há chefes tribais (os presidentes e diretores) há feiticeiros (os treinadores e dirigentes desportivos), há sequazes (os sócios e os adeptos), símbolos, mascotes, dialeto, rituais, cânticos, celebrações e, até, estandartes e pinturas de guerra que glorificam as vitórias e esconjuram as derrotas dos heróis que lutam, combatem ou caçam em nome da tribo: os jogadores.

Nos anos 80 do século passado a indústria do futebol já era enorme mas estava ainda longe da sofisticação empresarial dos nossos tempos. E, no entanto, o comportamento emocional e social desse universo corresponde hoje, quase inteiramente, à descrição datada de Desmond Morris.


A sofisticação empresarial do futebol trouxe, porém, a tribo para uma consequente sofisticação das suas práticas, desconhecida da época em que esse livro foi campeão de vendas: o herói tribal, o jogador, ao ser visto sobretudo como um ativo, ao ver o seu valor como mercadoria sobrepor-se ao seu valor como símbolo identitário do clube, passou, por um lado, a ser gerido pelos chefes tribais como um mercenário, um gladiador traficável em benefício dos interesses da tribo e, por outro lado, para proteção e valorização desse património, a ter todos os aspetos da sua vida controlados pelos líderes da tribo, desde a sua preparação, formação, educação e boa parte da vida pessoal e, obviamente, sexual.


Cristiano Ronaldo veio da Madeira aos 14 anos para a tribo do Sporting Clube de Portugal. Viveu em Alvalade, no lar dos jogadores e, mais tarde, durante uma fase de transição, em unidades hoteleiras de Lisboa, pagas pelo clube.

Instituições como a Academia de Alcochete, que entretanto foram sendo criadas, passaram a servir de internatos (Cristiano foi dos primeiros a frequentá-la) e, seguindo a analogia de Desmond Morris, são equivalentes a quartéis de formação de guerreiros tribais.

Quando foi vendido ao Manchester United, à medida que o seu valor de mercado ia subindo até valores astronómicos e os seus rendimentos financeiros pessoais batiam recordes, além do controlo da tribo, a vida de Cristiano Ronaldo passou também a ser controlada pelos interesses de patrocinadores, empresários, relações públicas, advogados e de toda uma estrutura corporativa que vive, depende, influencia, trabalha, serve e serve-se do herói tribal.

Todos os minutos da vida de Cristiano Ronaldo não são espontâneos (como acontece a grande parte dos heróis da tribo do futebol), são preparados, agendados, organizados - mesmo os privados, mesmo os sexuais.

Neste contexto parece-me praticamente impossível que no Verão de 2009, aquando da transferência do avançado do Manchester United para o Real Madrid por 94 mihões de euros, com todos os focos mediáticos em cima dele, as férias em Las Vegas de Cristiano Ronaldo não tivessem sido planeadas e acompanhadas ao pormenor, incluindo a ida em concreto à discoteca onde a dança com Kathryn Mayorga foi gravada em vídeo. 
É provável que o próprio encontro com a jovem norte-americana tivesses sido previamente combinado.

Acho tristíssimo que os que vêem Cristiano Ronaldo como um Herói da Tribo sobreponham esse valor ao valor da liberdade e autodeterminação sexual de qualquer indivíduo - homem ou mulher - e que, por isso, relativizem a possível violação com um "ela estava mesmo a pedi-las" ou com outros "mimos" semelhantes, muitas vezes contraditórios com manifestações de solidariedade anteriores, já aqui analisados por Fernanda Câncio. Para esta gente, a defesa da tribo vale mais do que o avanço da civilização. Isso angustia-me.

Tão mau como isso é não dar oportunidade real e leal a Cristiano Ronaldo de rebater as alegações e fazer um julgamento apressado das circunstâncias que envolvem a acusação de que é alvo: mas a máquina que gravita em volta dele terá, certamente, oportunidade de colocar a rodar os aparelhos de defesa do Herói da Tribo, tal como fez no caso de fuga ao fisco em Espanha.

Mas acho igualmente grave o branqueamento generalizado que este tipo de acusações - semelhantes à onda de denuncias de abusos sexuais que atinge estrelas de Hollywood - faz do negócio de lenocínio que se esconde, várias vezes, por detrás destes escândalos.

Até parece que todos - os pro e os contra do movimento MeToo, os pro e os contra no caso de suspeita de violação de Cristiano Ronaldo que acham que a rapariga em causa era uma prostituta - olham para o proxenetismo como uma banalidade perfeitamente aceitável.

O mundo do crime do tráfico sexual, particularmente de mulheres, diz-me a experiência jornalística, passa pelos clubes e por toda a tribo que gravita em torno dos heróis do futebol. Este mundo de crime alimenta, promove e institucionaliza a organização quotidiana da vida de muitos jogadores. 

Estes, cercados, enquadrados, isolados da sociedade, dificilmente têm escapatória a um padrão anacrónico de comportamento na forma como vêem as mulheres, semelhante ao parágrafo com que abri este texto, escrito há 37 anos por Desmond Morris.

Boa parte da maneira de Cristiano Ronaldo pensar e ver o mundo foi construída, balizada e educada dentro da tribo do futebol, na qual, no papel de sequazes, figuram os nossos políticos mais notáveis, como o Presidente da República e o primeiro-ministro, que até decidiram mostrar, nesta altura, o apreço que têm por ele.

Para além da sua extraordinária vontade de ser melhor, para além do seu talento natural, para além do seu notável trabalho individual, a tribo do futebol empurrou Cristiano Ronaldo, decisivamente, para a construção de uma personalidade que o pudesse levar às maiores conquistas. Isso fez dele o que ele tinha de ser dentro de campo: um homem que burilou um carácter obsessivamente competitivo, egocêntrico e egoísta.

O que não sabemos é se esse carácter dentro do campo, construído por ele e por toda a tribo do futebol que o criou, tem correspondência equivalente na personalidade pessoal de Cristiano Ronaldo fora do campo.

Se assim for, então todos os que se indignam com o insulto deitado para cima de Kathryn Mayorga quando, ao ver o vídeo dela a dançar com o Herói da Tribo, se diz "ela estava mesmo a pedi-las", podem placidamente retribuir com um equivalente moralista em defesa da acusação de violação que ela agora avança: "ele estava mesmo a pedi-las".


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