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domingo, 16 de setembro de 2018

"Na Bulgária, caçar refugiados é um desporto"







Viagem à fronteira mais ignorada da Europa, no sul da Bulgária, onde há grupos paramilitares de patrulha, campos de refugiados que são um desespero, deportações e detenções inexplicáveis. Daqui percebe-se um continente inteiro. 


Os refugiados são para manter longe de vista. Custe o que custar



"Hoje é um bom dia para ir à caça", e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu de Yambol, no sul da Bulgária - está limpo. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder - e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.


"Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo-o-terreno. 

Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero." O que é que fazem exatamente? "Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto", diz. "Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que põem a Europa em perigo. 

Não os podemos, nem vamos, deixar entrar."





Dinko tornou-se famoso na Bulgária há dois anos quando, depois de entregar 12 sírios às autoridades, o canal de televisão bTV o apresentou como "o super-herói que está a lutar pela pátria." Dias depois, o primeiro-ministro veio agradecer publicamente a ajuda dos civis que apoiam a polícia na monitorização da fronteira: "O vosso contributo é bem-vindo", disse então Boyto Borisov.


Em 2016, Bruxelas pagou seis mil milhões à Turquia para travar o fluxo de refugiados para a Europa, depois de quase dois milhões de pessoas terem entrado na União no ano anterior. E foi nesse momento que os grupos paramilitares do país vizinho ganharam espaço para crescer. "A Bulgária construiu um muro e passou a impedir entradas sem atender a causas humanitárias nem a pedidos de asilo", diz Martin Dimitrov, jornalista do diário búlgaro 24 Horas e especialista em questões de imigração. "A palavra de ordem agora é expulsar, doa a quem doer."






Dinko Valev e o seu exército têm hoje carta-branca para caçar os refugiados que quiserem. Na sucata que também é centro de operações, o homem apressa-se nos contactos, amanhã é dia de ir ter com as patrulhas. Um bom dia para a caça, como ele disse antes. Há hoje menos gente a passar a fronteira? "Há cada vez mais." Mesmo com o muro? "Eles cortam o arame, mas nós não os deixamos entrar." O que fazem aos refugiados que encontram? "Entregamos à polícia, mas se resistirem damos-lhes uma sova." Já mataram alguém? Uma pausa, Dinko não responde. A conversa acaba aqui.


A fronteira mais esquecida


A aldeia de Rezovo não tem mais de uma vintena de casas, mas tem mais de uma centena de bandeiras búlgaras penduradas nas janelas, nos postes elétricos, nas árvores. 

Tem um monumento que assinala onde estamos: no extremo sudeste da União Europeia. Um pequeno ribeiro, altamente vigiado pela polícia marítima, separa a Bulgária da Turquia. Na margem norte, mesmo encostada à água, há uma enorme vedação, e essa é uma imagem estranha - um curso de água murado, para que ninguém o atravesse.







"Temos a fronteira mais bem guardada da Europa", orgulhava-se em junho deste ano o primeiro-ministro búlgaro no Parlamento Europeu. "Proponho que a Europa feche todas as suas fronteiras como nós fechámos, para que mais nenhum refugiado possa entrar." Estes 267 quilómetros de raia com a Turquia estão vedados por arame farpado, de três a quatro metros de altura. Há unidades policiais em todas as aldeias do sul e há as milícias civis, toleradas pelo governo de Sófia.


Quando toda a gente estava a olhar para os refugiados que atravessavam o Mediterrâneo pela Itália e sobretudo pela Grécia, ou que eram travados por terra na Croácia e na Hungria, a Bulgária foi-se mantendo fora do radar - apesar de lhe pertencer a maior fronteira terrestre com a Turquia. Entre os refugiados, no entanto, aquela passagem era conhecida como a mais cruel.


"Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano"

Keyhan Yusefi, um jornalista curdo de 37 anos, decidiu há três anos que só tinha uma hipótese de se manter vivo: chegar à Europa. "Quando o Daesh chegou ao Iraque, os jornalistas tinham a cabeça a prémio e eu não era exceção", conta agora ao DN. "No dia em que fui à escola buscar o filho de um colega meu que tinha sido assassinado tomei uma decisão. 

Tinha chegado a hora."


Largou a pé de Duhok e atravessou a fronteira com a Turquia - 12 horas, sem problemas de maior. "Depois meti-me num autocarro para Istambul e acabei por ficar lá um mês, a preparar o salto." Na noite de 28 para 29 de dezembro de 2015 chegou ao norte do país, tentou entrar por Rezovo. "Lembro-me que nevava intensamente e que fui perdendo de vista as pessoas que tentavam passar comigo. Muitas foram apanhadas na fronteira e mandadas voltar para trás. Morreram de frio na floresta."


Ele e mais três rapazes conseguiram passar a rede. Começaram a subir os montes quando lhes apareceu um grupo de homens mal encarados - eram os guardas do Movimento Nacionalista de Dinko Valev. "Eu só gritava que era jornalista, mas fui espancado até não ter forças para resistir. Depois entregaram-me à polícia." Durante três noites não o deixaram dormir, conta, mantinham-no acordado à base de murros e pontapés.


"Depois prenderam-me dez dias num campo de refugiados, de onde não podia sair." Lembra-se que as casas de banho estavam imundas, que os chuveiros não funcionavam, nada. "Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano." 

No primeiro dia em que lhe foi dada permissão de saída do campo fugiu.





Durante três meses percorreu o continente oculto até chegar à Suécia, onde tinha família. Aí, entregou-se às autoridades. "Mandaram-me de volta para a Bulgária porque era aqui que tinha o primeiro registo. Então voltaram a espancar-me e torturar-me. Mas o facto de ir para a Suécia permitiu que eu tivesse uma oportunidade de pedir de asilo." Se receber resposta positiva, garante, sairá imediatamente do país.


Em março deste ano, a comissão parlamentar europeia de Liberdades Civis visitou a fronteira da Bulgária com a Turquia. O relatório final é bastante claro: "Os abusos dos direitos humanos mantêm-se persistentes." 

Além dos casos de espancamento e tortura, "agora os refugiados veem-se empurrados para trás sem oportunidade sequer de fazer um pedido de asilo". Martin Dimitrov, jornalista búlgaro, resume o estado das coisas neste momento: "Batemos nuns quantos refugiados e deixamos que muitos morram. 

Os outros, simplesmente, tratamo-los mal."




Muros altos com vedações eletrificadas. Três blocos de edifícios robustos, com as paredes descascadas. Um posto de vigia com vista para o enorme terreiro onde um rapaz sírio, vestido com uma camisola de Cristiano Ronaldo, e esta ainda é do Real Madrid, se torna todas as tardes estrela local de futebol. Isto é o campo de refugiados de Harmanli, o maior do país, a 40 quilómetros da fronteira turca. Isto também é uma antiga prisão, convertida em albergue improvisado em 2015. Isto continua a ser uma prisão, dizem os que lá vivem.



Crianças que perderam ou se perderam dos pais são uma boa parte dos que sobram em Hamanli. Os habitantes da vila chamam-lhe "os fantasmas".



Até ao final de 2016, a Bulgária tinha acolhido oficialmente 60 mil refugiados (o governo calcula que um número dez vezes superior tenha atravessado o país sem registo) e mais de 25 mil pessoas foram colocadas aqui, apesar de as instalações não terem capacidade para mais de sete mil. Na vila de Harmanli, que não tem mais de dez mil habitantes, as tensões começaram a notar-se. Uma das medidas mais simbólicas foi o facto de os búlgaros proibirem os refugiados de pendurar publicamente - em árvores e em estações de autocarro - o anúncio dos seus mortos.


No outono de 2016, a extrema-direita organizou uma série de manifestações a exigir o encerramento do campo e a deportação dos estrangeiros. Em novembro, houve um motim entre os refugiados, que se queixavam da falta de condições sanitárias e de estarem presos sem culpa formada. A polícia marchou sobre a multidão, centenas de estrangeiros foram detidos e, depois, deportados.


Saleha Naimi é um dos 264 fantasmas que sobram em Hamanli. É essa a alcunha que os habitantes da vila dão hoje aos poucos refugiados que ainda permanecem no campo - são sobretudo crianças que chegaram aqui sozinhas e gente à espera de resposta a pedidos de asilo e reunificações familiares. Na Bulgária, em 90% dos casos, diz o relatório publicado no início de agosto pela Fundação de Acesso aos Direitos, uma organização não governamental que defende os direitos civis dos refugiados, esses pedidos são recusados.



Nas árvores e nas paragens dos autocarros penduram-se os anúncios dos mortos. Mas apenas dos búlgaros, se algum refugiado morre, o anúncio é arrancado.



Afegã, 60 anos, Saleha era professora e, precisamente por ser mulher, instruída e a ensinar outras mulheres a escrever, tinha a cabeça a prémio pelos talibãs. "Eu morava numa das zonas mais conservadoras do país e tive de mudar-me para Cabul. 

Nós chamamos-lhe Caboom, por causa das bombas e dos atentados." Ali, apesar de tudo, podia dar aulas. Mas as coisas complicaram-se no final de 2015, quando o marido quis casar a sua filha, de 16 anos, com um homem de 64.


Pegou imediatamente na rapariga e fez-se ao caminho. Com a ajuda de alguns trabalhadores internacionais chegou ao Irão e daí passou de autocarro a fronteira para a Turquia. 

"Depois estive quatro noites na floresta, sem qualquer comida e apenas um cantil de água, até conseguir entrar na Bulgária." Foi apanhada pela polícia na fronteira e nem quiseram saber a sua história. "Fiquei presa, em total isolamento, durante 22 dias." Só quando saiu percebeu que estava em Hamanli.





Como tinha uma filha menor pôde pedir asilo. Está há dois anos e meio à espera da resposta. No início de 2017, à medida que o campo se esvaziava, pediu para ocupar uma das salas livres e fazer ali uma escola para as crianças refugiadas. "Quando comecei tinha 200 alunos, agora não são mais de 20. Não tenho qualquer apoio ou materiais de trabalho. 

Mas, se não fizer este esforço, estas crianças - que estão sozinhas - não vão ter quaisquer ferramentas para se defender do mundo."


Ivan Cherescharov, presidente da Caritas búlgara, diz que não há hoje qualquer apoio para os três mil refugiados que sobram no país. "Somos nós que damos 100% das ajudas, mas o governo deixou de nos dar qualquer financiamento." O relatório da Fundação de Acesso aos Direitos também não deixa dúvidas: "Os refugiados não têm acesso a direitos básicos e estão a ser expulsos da Bulgária em total desrespeito pelos direitos europeus.

" O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados já condenou este abandono búlgaro. Ivan diz que está em marcha um plano europeu: "Se ninguém os vir, eles não existem."


Não voltarás


Hoje houve várias pessoas a receber resposta aos seus pedidos de asilo e o desespero toma conta dos fantasmas de Hamanli. Ahmad Waheed e a mulher, Shaimamuri, estão preocupados. Têm ambos 70 anos e o seu pedido de estatuto foi rejeitado. 

"Voltar ao Afeganistão não é uma opção", diz o homem num inglês sem mácula. "Mas também não temos forças para andar a tentar passar a fronteira outra vez."





Muitos dos que são deportados tentam voltar a entrar na Europa, mas a maioria acaba por ficar na Turquia, onde há três milhões de refugiados. "O problema é que na Turquia entram grupos radicais que também nos perseguem", diz o homem. O seu crime não foi seu, foi do filho: foi tradutor das tropas britânicas durante dois anos. O rapaz foi morto pelo Daesh e os velhotes fizeram-se à estrada. Pensaram que Londres podia acolhê-los, mas nem o Reino Unido nem a Bulgária os querem. Agora não sabem o que fazer.


Num quarto ali ao lado há uma família que se abraça num longo choro. Hamid Mohammadi, um sírio de 35 anos, acabou de receber ordem de deportação para casa - consideraram que tinha imigrado por questão económica. Sumaya, 28, é a sua mulher. Ela vai poder ficar com os dois filhos do casal - Suhil, de 6 anos, e Avshia, de 3. Mas agora hesita: "Volto contigo, a nossa família lutou demasiado para se manter unida."





Vieram há dois anos, quando elementos do Daesh começaram a ameaçar Hamid por trabalhar para uma empresa de cimento ucraniana e, aos olhos do grupo terrorista, estava a compactuar com os infiéis. "Não foi fácil atravessar a Turquia com uma criança de 1 ano e outra de 4. Mas o pior foi chegar à fronteira." Pagaram três mil euros a um passador que os fez caminhar durante dez horas até passarem a vedação. 

"Quando chegámos à Bulgária, ele disse que afinal o preço era de oito mil euros. Disse-lhe que não tinha dinheiro e ele disse que ia ficar com os meus filhos para os vender." Ao seu lado, Sumaya chora e confirma tudo.


Hamid começou a gritar: "Help, help, help.

" E diz que teve uma sorte danada porque, passados uns minutos, apareceu um grupo de vigilantes - o homem não consegue determinar se era o movimento de Dinko Valev ou qualquer outro. "Deram-me uns pontapés, fiquei preso um mês, mas pelo menos a minha família permaneceu junta." Agora, a Europa que eles acreditaram poder mantê-los a salvo é a Europa que os obriga a separar-se. 


"Há um provérbio no meu país que diz que, se gritares, alguém acabará por te ouvir", diz Sumaya. "Mas como é que podemos ser ouvidos se nos empurram de volta para o deserto?"





Crianças que perderam ou se perderam dos pais são uma boa parte dos que sobram em Hamanli. Os habitantes da vila chamam-lhe "os fantasmas".









Nas sucatas que gere nos arredores de Yambol, Dinko financia uma milícia de 50 homens, sete tanques e um helicóptero.



O pai dos rapazes, que fez tudo para a família permanecer unida, recebeu agora ordem de deportação. A mãe e as criaças podem ficar na Europa.




Avshia tinha apenas 1 ano quando chegou à Bulgária. Os passadores da fronteira tentaram ficar com ele e o irmão, provavelmente para os venderem. A família conseguiu chegar a Hamanli. Vivem neste quarto há dois anos.




As instalações do campo de Harmanli não oferecem condições dignas para o alojamento de seres humanos, diz um relatório judicial. A solução não está a passar por melhorar as condições, antes expulsar os refugiados.




Ahmad Waheed e a mulher, Shaimamuri, tiveram de fugir do Afeganistão porque o filho era tradutor das Forças Armadas britânicas. Têm a cabeça a prémio, mas receberam ordem de deportação.



Nas árvores e nas paragens dos autocarros penduram-se os anúncios dos mortos. Mas apenas dos búlgaros, se algum refugiado morre, o anúncio é arrancado.





Só a Cáritas búlgara dá apoio aos cerca de três mil refugiados que ainda permanecem no país. O seu presidente, Ivan Cherescharov, condena o governo do país e da Europa. "Retiraram-nos todo o financiamento."





Saleha decidiu montar uma escola para as crianças que vivem no campo de refugiados de Hamanli. Não tem quaisquer apoios, mas sabe que, se ninguém fizer nada, aquelas crianças perderão a escolaridade.




Sahena é professora, fugiu do Afeganistão para poder ensinar mulheres a ler e para impedir que o seu marido casasse a filha de 16 anos com um homem de 64. Dois anos depois, espera asilo.



Muros altos e vedações de arame, para que os refugiados não possam sair. Chegaram a estar aqui 25 mil refugiados, quando a população da vila não ultrapassa os dez mil.





Crianças e idosos são os que sobram no campo de refugiados de Hamanli. Hoje, são pouco mais de duas centenas, há dois anos eram 25 mil. Mais de 90% foram deportados.






O campo de refugiados de Hamanli está instalado numa antiga prisão. Quem aqui vive diz que continua a sê-lo.





O jornalista búlgaro Martin Dimitrov, especialista em assuntos de imigração, diz que há uma nova palavra de ordem na Europa: manter os refugiados longe de vista.


O nacionalismo búlgaro tem crescido por oposição aos refugiados. Bruxelas, no entanto, elogia Sófia. O país tem-se mantido debaixo de um radar que está a olhar para a Grécia e para a Hungria.




Keyan Yusefi, jornalista curdo, espera encontrar a salvação na Europa. Afinal encontrou um mundo onde faltam direitos e sobram abusos.






É nas aldeias ao sul de Yambol que Dinko recruta os seus homens. No coração de uma Bulgária esquecida, a caça aos refugiados não é apenas tolerada, é também aplaudida.






Dinko Valev é líder de um grupo paramilitar búlgaro que caça refugiados na fronteira com a Turquia.





A Bulgária construiu uma vedação para proteger toda a sua fronteira com a Turquia. E usa todos os métodos para repelir quem chega aqui em fuga. A Europa quer mantê-los longe de vista.




Fugiram da Síria, quando atravessaram a fronteira os passadores tentaram ficar com as crianças para pagarem a dívida. Conseguiram salvar-se e pedir asilo. As notícias que chegam são cruéis: o pai vai ser deportado, a mãe e os filhos podem ficar.
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