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domingo, 12 de agosto de 2018

"Foi a ganância e nada mais que a ganância que deu cabo da nossa serra"


Nos montes mais escondidos do Algarve há pastores, lenhadores e destiladores de medronho que viram a serra de Monchique ser destruída ao longo de 15 anos. O pior incêndio de 2018 não foi surpresa para ninguém

Foi José Casimiro Duarte quem fez soar o alarme. Andava com os gados ao pasto quando viu o primeiro núcleo de chamas eclodir mesmo em frente ao lugar das Taipas, nos terrenos que hoje constituem um eucaliptal chamado Perna da Negra. Era sexta-feira, 3 de agosto, e o homem rumava a casa com 32 cabras para o almoço.
Ali não havia rede de telemóvel, por isso correu para o alto do barranco para ligar aos bombeiros. A chamada passou, às 13.32 eram acionados os meios de combate para um incêndio que acabaria por se tornar o pior deste ano em Portugal. Sete dias de fogo deram conta de 27 mil hectares de terreno na serra de Monchique. Quase três Lisboas.
"Então agora, vão dizer outra vez que o eucalipto não tem culpa nenhuma disto?" Aqui, no lugar de ignição do fogo, não há grande volta a dar-lhe. Tudo o que se vê à volta do pastor é uma paisagem densa de árvores, e todas da mesma espécie. Eucalyptus globulus, milhões deles, cobrem todo este vale da serra.
"Quando o vento levantava eu só via as cascas das árvores começarem a voar para diante e isto espalhou-se num instante." A aldeia onde vive foi evacuada mas ele, à conta do rebanho, chegou atrasado e já não teve quem o levasse da Foz do Carvalhoso. José Casimiro viu o fogo marchar sobre tudo, foram mais as casas aqui que arderam do que as que ficaram de pé. "E eu agarrado às chibas, a ver se não nos tocava a morte." Salvaram-se, homem e bichos. "O vento levou outro destino."
Nos últimos dias a conversa de Monchique tem-se centrado na organização do combate às chamas e nas suas responsabilidades políticas. Mas quando se desce ao lugar onde o fogo começou percebe-se que há uma discussão para fazer antes dessa. A pergunta de um cuidador de cabras pode ser mais sábia do que a discussão de um país inteiro. "Como é que deixaram plantar aqui tantos eucaliptos depois de 2003?"

"Um monumento à ganância"

Quem sai de Monchique e atravessa a Estrada Nacional 266 em direção a Odemira não percebe a densidade do mato que existe nos vales que não se veem do alcatrão. Junto à estrada o eucaliptal está queimado, sim, mas apresenta-se ordenado, há espaço entre as árvores, os terrenos estão limpos. Quando se desce para a Perna da Negra, no entanto, um outro cenário revela-se.
É o sétimo dia de incêndio e Domingos Patacho, engenheiro florestal e especialista em política florestal da Quercus, vem a Monchique para ver aquelas propriedades. Fica impressionado: são quilómetros e quilómetros de árvores plantadas com uma intensidade fora do comum e nenhuma preocupação com a gestão do espaço. "Aqui pensou-se numa coisa e numa coisa apenas: o lucro. Isto é um monumento à ganância."
Nas cumeadas a floresta está mais organizada, mas no vale, precisamente o lugar mais perigoso para o fogo, chegam a ver-se 1500 árvores por hectare, quando a gestão eficiente aconselharia metade. "Com o tempo quente, com os níveis de humidade baixos e com esta densidade de arvoredo estavam aqui reunidas as condições para uma tempestade perfeita. Foi o que aconteceu."
A maioria dos eucaliptos está na segunda gestação, o que significa que foram plantados entre o final de 2003 e o início de 2004. Meses depois do primeiro grande fogo em Monchique, semeou-se gasolina na serra.
José Raimundo, o pastor, ouve a conversa e anuiu. Começa a apontar uma a uma as manchas enegrecidas. Este terreno era do senhor João, aquele era da dona Antónia, o outro do Manuel Paiva. Tinham eucalipto? "No alto do monte sim. Mas aqui em baixo só havia sobreiro e medronho."

Um namoro antigo

A serra de Monchique foi um dos primeiros lugares do país onde as celuloses investiram, no final dos anos 1960. Uma boa parte do eucaliptal que há na serra pertence às antigas Soporcel e Portucel, hoje Navigator Company. Abastece a fábrica de Setúbal e, quem atravessar por estes dias a A2, é provável que encontre na estrada vários camiões carregados de madeira a transportar o que escapou ao fogo.
O facto é que é da Navigator a floresta mais cuidada e vigiada. "O problema são muitas vezes os privados que se estabelecem à volta para alimentar esta indústria", diz o ambientalista da Quercus. "No país estima-se agora que exista um milhão de hectares de eucaliptos, mas apenas 155 mil são propriedade das celuloses."
Nas últimas duas décadas do século XX a exploração tornou-se dominante em Monchique, como em muitas outras zonas do país. Ao desenvolvimento de sementes em laboratório aliaram-se as técnicas de cultivo intensivo, que tornaram o eucaliptal na mina de ouro da região. "Houve muita gente nessa altura a converter o seu montado e os seus medronhais para eucaliptal", diz Domingos Patacho. "Mas havia apesar de tudo uma paisagem mais diversa do que agora. E, também, mais imune ao fogo."
A chamada lei do eucalipto livre, aprovada pela então ministra da Agricultura Assunção Cristas em 2013, abriu portas à plantação intensiva em qualquer parte, sem autorização nem aviso prévio
Os 40 mil hectares que arderam em 2003 deram um novo fôlego à produção florestal. No final de 2003, uma única empresa comprou três mil hectares de terreno para ali plantar eucaliptal. Mas é impossível saber o número exato da área tomada pela espécie australiana. O presidente da Câmara de Monchique, Rui André, queixa-se disso constantemente.
"Mesmo que conheçamos os proprietários do terreno, a lei não nos permite saber quais as densidades, quais as zonas de corte, quais as áreas de replantação. O mercado do eucalipto funciona sem que ninguém o controle", diz o autarca do PSD. "Se nós soubéssemos quais as zonas que tinham sido cortadas, por exemplo, tínhamos podido levar para lá as cisternas dos bombeiros e impedido as chamas de avançar."
A chamada lei do eucalipto livre, aprovada pela então ministra da Agricultura Assunção Cristas em 2013, abriu portas à plantação intensiva em qualquer parte, sem autorização nem aviso prévio.
"E é deste conjunto de fatores que chegamos aqui, a um cenário como a Perna da Negra", diz Domingos Patacho. "E, se nada for feito, ele voltará a repetir-se." O ambientalista teme que nada mude com este fogo de Monchique. Uma coisa é certa: expansão do eucaliptal não haverá.
"Apesar de, depois dos incêndios de 2017, o governo ter proibido que novas áreas sejam colonizadas, a replantação intensiva é permitida nas zonas onde já existia eucaliptal. Agora olhe em volta e veja o que vai acontecer quando esta densidade calamitosa de eucaliptos for substituída por uma nova?" A única solução, afiança, é arrancar uma parte dos eucaliptos de vez.

A renovação da dor

"Agora chega, vou-me embora", e Maria Martins Fernando tem de engolir o choro se quiser continuar a falar. Era a última habitante do Canivete, um ermo de cinco habitações ao fundo daquele vale isolado. A casa ardeu e hoje a mulher veio retirar o que sobrou dos seus haveres. Encontra umas panelas carbonizadas, talvez se safem. Há um mealheiro cheio de moedas de escudo. Uma boneca com que a neta gostava de brincar.
Tem 71 anos e mudou-se para esta casa aos 7. Ali se casou, criou três filhos, ficou viúva, e sempre que a descendência tentava convencê-la a mudar-se para a vila a mulher resistia. "Esta era a minha terra, o meu chão. Foi aqui que construí tudo o que sou. E agora tudo ardeu."
As chamas entraram pelo telhado, destruíram primeiro a sala, depois o quarto, por fim a cozinha. Vê-la agora a passear-se pelos escombros à procura das memórias é como olhar para uma cria que perdeu a mãe. "Isto era o meu chão", repete.
Foi aqui, neste fim do mundo, que começou o grande fogo de 2003. Maria Fernando lembra-se bem, estava deitada a dormir a sesta quando ouviu um barulho que parecia chuva. "Foi ali, naqueles eucaliptos atrás do montado", e um dedo coberto de fuligem aponta para norte. "A não mais de 200 metros."
Nessa altura ainda era vivo o marido, e tinham uma neta a seu cargo. Apesar de o fogo ter consumido tudo, safaram-se porque à volta da casa só existiam sobreiros, árvores que ardem mais lentamente e lhes deu tempo para salvarem a vida à mangueirada.
Neste ano andava fora de casa quando o fogo chegou. "Tinha ido a Monchique ter com o meu filho e já não me deixaram passar a estrada de volta." O seu problema, mais do que a casa, eram as galinhas e os coelhos. "Pobrezinhos dos bichos, morreram todos queimados. Eram a minha companhia." Desmancha-se, fica uns minutos em silêncio, depois lá se recompõe. "Sabe porque é que isto ardeu? Foi a ganância e apenas a ganância. Foi isso que deu cabo da nossa serra."
De repente aparece António Fernando, 53 anos, o seu primogénito. A mãe corre a mostrar-lhe o mealheiro e o homem agacha-se para contar as moedas, era da sua infância aquele tesouro. "Foi a ganância, pois foi", diz com uma raiva que ecoa nos montes em volta. "Foi o eucalipto, e eu estava farto de dizer à minha mãe que aqui havia demasiado. Não quero pensar o que seria dela se nesse dia estivesse para aqui sozinha."
António deixou a escola aos 13 anos e, desde então, tornou-se lenhador. Trabalha apenas com sobreiro e medronheiro, não que tenha uma paixão particular por estas árvores - é que estas foram as que conheceu toda a vida e são as únicas que sabe trabalhar. A família tinha um hectare no Canivete, dava para tirar uma arroba de cortiça a cada sete anos, dava para fazer licor de medronho para consumo familiar. Foi-se.
"Em 2003 tentaram comprar-me isto para fazer eucaliptal, mas o meu pai sempre disse que o medronho é que era o produto da nossa terra - e eu sou teimoso. Então nunca vendi." Os vizinhos venderam todos.
Até há 15 anos, o vale do Canivete tinha apenas um pequeno eucaliptal a 200 metros da casa dos Fernando, o tal onde começou o fogo. Agora está carregadinho de uma ponta à outra, e as únicas árvores que resistiam à monotonia eram as que rodeavam aquela casa. Foram sobreiros, foram medronheiros, agora são só toros carbonizados, parecem enormes lápis que alguém enfiou no solo.
"Agora chega, vou-me embora", anuncia Maria Martins Fernando com uma cara fechada. Ela e o filho carregam a carrinha com as sobras das labaredas, entram e despedem-se de vez. A vida que sempre conheceram acabou agora.

Uma estratégia certeira

Quando, em setembro de 2003, se extinguiram as últimas chamas do mais imponente incêndio a que o Algarve assistiu, um novo ator entrou no terreno. "Nessa altura, a ENCE, a maior celulose espanhola, comprou uma série de terrenos na serra de Monchique para plantar eucalipto. Tinham uma fábrica de transformação em Huelva e aqui adquiriam a matéria-prima", explica Rui André, presidente da câmara. A maior parte dos negócios foi firmada através de uma empresa chamada IberFlorestal, que ainda hoje opera na região. Possui uma série de terrenos e assegura o corte e o transporte da madeira que antes ia para a ENCE - e hoje ruma à Navigator. Há dias, em entrevista ao Público, o gestor da empresa descartava responsabilidades na sobreprodução de Eucalyptus globulus. "Não são os eucaliptos que provocam os incêndios", disse Rui Oliveira, explicando que a empresa tinha o seu próprio corpo de combate aos incêndios e tinha limpo os terrenos. "Ao lado das nossas propriedades, os terrenos estavam por limpar."
Durante dez anos, nunca ninguém soube quantos hectares de terreno ao certo a ENCE adquiriu. A resposta só chegou em 2013, quando a celulose espanhola decidiu terminar a sua unidade de produção na Andaluzia e anunciou num comunicado "decidir vender os três mil hectares que possuía em Monchique a um fundo internacional." O Jornal de Negócios, nessa altura, tentou apurar a propriedade do fundo de investimento, mas nunca conseguiu.
"O que se passou foi que, depois do fogo de 2003, muitas famílias desistiram de viver na serra e os terrenos iam ficar ao abandono. Então, perante a hipótese de venda ou aluguer, não hesitaram", diz Emílio Vidigal, presidente da Associação de Proprietários Florestais do Barlavento Algarvio - ASPAFLOBAL. A história que Maria Fernando conta em 2018 - "agora acabou" - é o terreno fértil para as plantações de eucalipto florescerem. À medida que se abandona o interior, ganha-se espaço para a produção.
Emílio Vidigal representa 500 produtores. Diz que 70% são pequenos proprietários, é a floresta explorada em minifúndio. "Os outros 30 são as empresas de celulose e duas ou três grandes famílias que têm aqui terrenos." Foram essencialmente estes que ficaram com os terrenos que eram da ENCE e lançaram semente de eucalipto à Perna da Negra, o lugar de ignição de 2018.
Também há dias, e também no Público, Vidigal acusou o governo de ter há sete meses um plano de ordenamento florestal para aprovar naqueles precisos terrenos, e do qual não obtivera resposta. O Ministério da Agricultura não respondeu ao jornal, mas emitiu no dia seguinte um comunicado dizendo que o que havia era uma candidatura a fundos europeus para montar esse projeto.
Mas porque é que os produtores não construíram à partida um eucaliptal seguro? "Estão a ser mal geridos, efetivamente. Mas o Estado não pode continuar a não querer investir numa produção que traz riqueza ao país. E, muito mesmo, à economia local", respondeu ao DN.

O sonho do medronho

Há um ano, João Rochato e Amanda Baganha mudaram-se para uma casa na Taipa, mesmo em frente à Perna da Negra. Têm dois filhos, Theo e Aurora, ambos nascidos em casa. São naturalistas e acreditaram que podiam transformar a sua casa numa habitação autossustentável. A luz vem de um painel fotovoltaico, a água do poço, depois tinham a horta e os animais que arderam. O fogo trocou-lhes as voltas.
"A horta ardeu toda, animais só sobraram os cães, e os terrenos que tenho aqui atrás de casa estão reduzidos a cinzas", diz João - e um desconsolo sem fim. Trabalha como técnico de manutenção na barragem de Odelouca, mas o seu sonho era outro, era fazer uma destilaria para o medronho.
"Tenho um terreno de eucalipto, já estava plantado quando cheguei. Deram-me 7500 euros por ele e eu, sim senhor, levem. Queria plantar medronheiros, mas a pressão é muito grande." Ele explica: os madeireiros andam atrás dele a dizer que lhe põem as sementes, tratam das árvores, fazem os cortes e vendem os troncos. Ele não precisa de ter qualquer trabalho, é esperar sentado e receber capital a cada dez anos. "É preciso muita força de vontade para fazer outra coisa. Ainda mais que a população aqui é envelhecida, ou então mora longe. O que é que esta gente há de fazer?"
Em junho, a Navigator anunciou um programa especial para os proprietários dos terrenos em Monchique. Pagava 500 euros por hectare para replantar de forma eficiente os terrenos que não atingiam a melhor produtividade. "Esses fundos já quase se esgotaram", diz Emílio Vidigal, "mas contamos que na próxima semana a empresa de celuloses estabeleça um programa de apoios para continuarmos a produção."
Passaram 15 anos desde um fogo que deu cabo de tudo e agora veio outro, que o povo diz ter sido ateado pela ganância. O presidente da Câmara de Monchique, Rui André, diz que esta é uma oportunidade única para inverter os erros do passado. Fala de uma série de projetos com árvores autóctones, diz que o sobro e o medronho são futuro para o seu concelho.
Ao fim da tarde do dia em que o fogo foi dominado, quando se preparava para levar novamente as cabras para o curral, José Casimiro, o pastor, levantou o cajado em despedida e atirou toda a sua sabedoria para os ares. "Queira Deus vocês não tenham de vir cá outra vez daqui a dez anos para contar a mesma história." Deu meia volta e rumou com as chibas para casa.


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