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terça-feira, 26 de junho de 2018

O fotógrafo húngaro que a PIDE prendeu



Nicolás Muller privilegiou a fotografia documental e humanista, militância partilhada com os compatriotas Capa e Brassaï. A retrospetiva Nicolás Muller. Obras-Primas, revela imagens inéditas do Portugal pobre vivido na ditadura de Salazar

No abc da grande fotografia modernista, Nicolás Muller não é o primeiro nome que atiraríamos para a mesa. E, no entanto, este fotógrafo húngaro, um mestre praticamente desconhecido entre nós, documentou o Portugal de pés descalços da década de 1930 que Salazar não queria revelar ao mundo
Estas são imagens dominadas pelo preto e branco, tiradas pelo «turista interminável», batismo da mostra de homenagem feita após a morte de Muller, em 2000. Também se lhe poderia chamar refugiado – para usar uma das palavras obrigatórias do presente. É que o fotógrafo húngaro representa bem a história do século XX europeu: foi obrigado a saltar fronteiras e a exilar-se em vários países devido à ascensão do nazismo e à perseguição aos judeus instigada por Hitler. É com esse estatuto que Nicolás desembarcará igualmente em Portugal, o dito paraíso neutral que Salazar promovia no mundo.

EXÍLIO EUROPEU

Filho de boas famílias, Nicolás Muller cedo abandonou a advocacia, para desgosto do pai. Aos 24 anos, a morar em Budapeste, começa a fotografar para a editora Athaenaeum. O confronto com a realidade despertar-lhe-à a vocação humanista que marcará toda a sua longa carreira. Em 1937, o fotógrafo percorreu toda a Hungria humilde, «feudal e repressiva», onde os trabalhadores dos campos viviam em casebres, comendo pouco, nada sonhando. «Aprendi o que a fotografia pode significar como arma, como documento autêntico de uma realidade existente. Foi aí que me converti numa pessoa e num fotógrafo engagé, comprometido», contou Muller.
Um ano depois, em 1938, quando rebenta a notícia de que Hitler invadira Viena, o pai telefona-lhe, recomendando-lhe que saia imediatamente do país. Nicolás agarra num baú e na câmara fotográfica, e inicia o seu longo exílio. Em Paris, respira «pela primeira vez» o ar da liberdade, e conhece os compatriotas fotógrafos André Kertész, Robert Capa, Brassaï. «Brassaï e Cartier-Bresson são os fotógrafos com quem mais me identifico», admitiria anos mais tarde. No Café Flore, é apresentado a Picasso e Dora Maar. «Picasso viu as minhas fotos e escolheu duas ou três, queria comprá-las. Eu não quis aceitar-lhe dinheiro, e como sabia pouco francês e era tonto, nem me ocorreu pedir-lhe que autografasse ou desenhasse algo nas costas de uma imagem. E assim fiquei sem [ter] um Picasso», confessou anos mais tarde.
Com trabalhos já publicados nas revistas Regards (do Partido comunista), Match, Paris Plaisirs, Plaisirs France, Nicolás Muller percebe, em 1939, os inequívocos sinais da guerra que aí virá: Hitler cresce, ameaçador, sobre as fronteiras vizinhas. «Paris já não era um sítio para um fotógrafo húngaro que balbuciava a língua de Molière. Consegui que a France Magazine me encomendasse uma reportagem sobre Portugal e, com dor no coração e na câmara, despedi-me de Paris», escreveu então.

O «PAÍS NEUTRAL»

A ideia da reportagem era fazer um retrato do próprio Salazar – que, obviamente, nunca se concretizará. Corre o mês de Setembro, quando Muller desembarca do comboio em Portugal. Isto é, fica retido em Vilar Formoso, onde acaba por alugar uma casa. Uma das fotografias patentes na retrospetiva é um belo e melancólico retrato tirado na vila raiana: uma rapariguinha, vendedeira enrolada em roupas pretas e rodeada de sacas de batas, sentada no chão e encostada a um cesto de frutas. O olhar, esse, não se sabe onde estará.
O pai vem novamente em seu socorro: membro do Rotary Club, move os cordelinhos para que o filho consiga um salvo-conduto para Lisboa, onde se instalará numa pensão em pleno Chiado. O fotógrafo parte à descoberta do norte português, viajando por Coimbra, Porto, Guimarães, Meadela, Barcelos, Póvoa de Varzim. Sobre a Invicta, dirá: «Agradou-me o seu porto, cheio de bulício, com um colorido vivo e a ponte de Eiffel.» Parte substancial do portefólio português de Nicolás Muller afadiga-se em torno de barcaças amontoadas, de operários a descarregar sal e conservas à força de braços. Perto, há miúdos de pés descalços e sujidade nas bochechas. Três mulheres - o inverso das Três Graças - refugia-se no chão, com a presença de um polícia em segundo plano. Um homem dorme, derrotado, no empedrado à sombra de uma canga de bois.
O Portugal da década de 1930, visto pela câmara deste húngaro, é um país pobre, desesperançado, dominado, adivinha-se, pelas elites e pela religião. Retratos de senhores bem fardados em grupos protocolares e queixos levantados contrastam com mulheres conversadeiras e humildes. Numa das fotografias, uma longa fila de seminaristas passa, como rebanho ordeiro, à frente da fachada do Hotel Francfort. Do outro lado do passeio, da vida, estão os homens com dentes mal tratados e camisas sujas, mulheres envelhecidas décadas antes do tempo, crianças enroladas em cobertores rotos…

DESAGRADO DE DITADOR

A composição das fotografias de Nicolás Muller, muitas vezes tiradas de cima para baixo, ou viceversa, acentua dramaticamente esta realidade, desviando-a do registo despido de militância. A denúncia faz-se. E Portugal é, aqui, deveras, um fado triste. O retrato não é favorecedor à iconografia de pequeno paraíso aldeão, cultivada por Salazar. E os seus peões tratarão do assunto com as armas costumazes: Muller é preso pela pela PIDE e encarcerado 1na Cadeia do Aljube, condenado co um aviso de quinze dias para abandonar o país.
À saída da cadeia, o fotógrafo húngaro tinha correspondência do pai, eterno protetor, a propor-lhe uma solução: que se batizasse para não levantar suspeitas. Em terra apreciadora de santinhos coniventes, Salazar poderia apreciar o gesto... Com a ajuda da dona da pensão e do pároco da igreja em frente, Nicolás lá recebe os sacramentos. Mas o exílio noutro país já é inevitável: o seu próximo destino será Tânger, em Marrocos. Na maleta, leva as fotografias portuguesas, de que agora se revela um núcleo 
Mas Nicolás Muller. Obras-primas mostra mais do que esse enrugado Portugal. Depois de sete anos a captar cenas marroquinas, o fotógrafo húngaro, então casado com uma espanhola, abrirá um estúdio de fotografia em Madrid – muito bem sucedido junto de público e de elites inteletuais. Em 1990, declara: «Já me sinto velho e muito cansado. A única coisa que ainda me dá prazer é ver a minha mimosa em flor e desfrutar do seu perfume.» A árvore de que fala Muller está na casa das Astúrias, o seu último exílio. Um lugar sobre o qual afirmará: «A vida de cada um consiste numa montanha de erros e algum gesto acertado, e o meu único gesto acertado foi construir esta casa em Andrin.» Talvez pudesse ter dito a mesma coisa sobre um lugar na paisagem portuguesa - se Salazar não tivesse ficado desagradado com a sua vontade de tirar fotografias.












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