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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A PROFESSORA FEMINISTA QUE DEFENDE O DIREITO DE ODIAR OS HOMENS



A polarização da política de identidades está chegando a novos níveis estratosféricos. Após o sucesso, o movimento #MeToo parece ter dado lugar a surtos mais radicais do feminismo que levam a desvirtuar um movimento de justiça ao transformá-lo em uma guerra dos sexos. Um caso bastante notável ficou em evidência faz alguns dias quando o Washington Post publicou um artigo de opinião escrito por Suzanna Danuta Walters, professora da Universidade do Nordeste, em Boston, e diretora de uma publicação de estudos de gênero, chamada Signs.

Professora feminista americana defende o direito a odiar todos os homens
Suzanna pergunta-se inicialmente "por que não podemos odiar os homens?", e depois lista as diferentes injustiças e violações de direitos humanos que as mulheres estão submetidas -segundo ela, de maneira universal-. Sem dúvida, a injustiça ou desigualdade é alarmante e requer contínua atuação e influência na consciência coletiva, mas Suzanna apela à noção da feminidade como vítima que deve ser isenta e a lutar sem quartel pelo sentido da existência da mulher (após a morte de Deus, só nos restam "religiões" seculares como o feminismo, o socialismo, o conservadorismo, o neoliberalismo, etc.) Sua solução é "a ira feminina" e que os homens, sem mais nem menos, devem entregar o mundo às mulheres:
De modo que, homens, se realmente estão #WithUs [#Conosco] e não querem que os odiemos pelos milênios de aflições que produziram e das quais se beneficiaram, comecem com isto: ajudem para que possamos nos sustentar sem que nos derrubem com golpes.

Prometam votar unicamente por mulheres feministas. Nós podemos lidar com isso. E por favor, deem-se conta de que suas lagrimas de crocodilo já não serão secadas por nós. Temos todo o direito de odiá-los. Fizeram-nos muito mau. #BecausePatriarchy[#DevidoAoPatriarcado]. Já é hora de jogar duro a favor da Equipe Feminista. E ganhar.
Chama a atenção que o Washington Post, um dos meios com mais tradição e prestígio nos Estados Unidos, publique isto. Não porque Suzanna não deva ter o direito de se expressar -inclusive ainda que seja literalmente uma propagadora do discurso de ódio, a primeira emenda americana defende este direito-, senão porque o WP e outros meios sempre foram críticos com a polarização na sociedade, com as fake news e posturas políticas baseadas em emoções e não em informação objetiva e racional.

Certamente, a mídia se enriquece ao abrir o leque a uma maior diversidade de opiniões, mas um meio sério e responsável não tem por que, supostamente em aras da liberdade de expressão ou da "igualdade de gênero", ajudar a publicar ideias cáusticas, que apelam a uma verdadeira animadversão e inclusive convite à violência.

Estas ideias sugerem que a violência -à que são submetidas as mulheres- deve ser contestada com violência e que a desigualdade deve ser contestada com desigualdade, mas no outro extremo. Ou talvez o WP pense igual a Suzanna e então isto é um sintoma de uma condição geral sumamente preocupante da atualidade, especialmente porque a política de identidades parece estar dominando tematicamente as universidades, reduzindo a educação superior a um pleito de sexos e a uma luta de poder.

Os argumentos de Suzanna não só são fundamentalistas; incorrem em uma série de falácias. Por exemplo, supor que todas as mulheres são feministas e estão alinhadas com os postulados do feminismo, buscam o poder e desejam ter as coisas que os homens zelosamente guardam para si. Ademais, como seu artigo deixa muito claro, não existe tal coisa como um feminismo único que possa ser claramente definido, motivo pelo qual é absurdo pensar que as mulheres em conjunto possam ser "feministas", nesse caso, extremistas.
Professora feminista americana defende o direito a odiar todos os homens
De qualquer forma, é altamente reducionista e dicotômico postular uma realidade dividida em dois bandos em conflito, as mulheres (todas) e os homens (todos) -ela mesma diz que todos os homens devem ser incluídos no mesmo balaio de defensores do patriarcado e opressores das mulheres-, com o risco de que, se isso não for feito, o estado opressivo e a impunidade reinante nunca cessará.

Suzanna fala de "ele", o homem em geral, mas também necessariamente de lambuja de qualquer homem em particular -marido, pai, filho e demais- e questiona as verdadeiras intenções de "ele":

- "Será que talvez, se realmente ele estivesse ao nosso lado, isto tudo não teria acabado faz muito tempo?"

Este razoamento não admite meio-tom: todos os homens somos agentes do patriarcado -seu pai, seu filho, seu amigo- e portanto, não se deve confiar em nenhum -a menos de que abertamente se declare um "mangina" e se submeta a seu mandato-.

Assim, Suzanna contra-ataca as ideias medievais de que "todas as mulheres são bruxas" ou que as mulheres são essencialmente pecaminosas (ideias que certamente não eram universais dentro da Igreja, senão que eram -da mesma maneira que as ideias de Suzanna não são as que representam o feminismo- as ideias de uma interpretação radical da Bíblia) com um argumento que leva implícita a ideia de que todos os homens são opressores, violadores (ao menos, dos direitos das mulheres) e ineptos. Isto é obviamente uma versão caricaturesca da realidade, e bastante perigosa, por verdade.

É também uma falácia sustentar que não é ilógico odiar todos os homens. Obviamente, é ilógico -e mais ainda, desumano- odiar a todo um grupo pelas faltas de uns tantos. Qual é a diferença entre dizer: por que não podemos odiar todos os homens? E por que não podemos odiar todos os brancos? Ou os negros? Vocês já podem imaginar aonde isto vai nos levar se seguir obstinadamente pelo mesmo caminho.

A razão pela qual todos os homens não devem ser odiados é a mesma razão pela qual os judeus, os mexicanos os iraquianos, [coloque sua opção aqui], não devem ser odiados. Inclusive, odiar a todos os homens é ainda mais irracional e perigoso, simplesmente porque é uma grande misantropia, que estende ainda mais a faixa do ódio. 

Para não seguir promovendo a cultura do ódio e da polarização, é importante mencionar que as ideias de Suzanna não representam o grosso do feminismo e que seria igualmente estúpido e irresponsável generalizar e sugerir que todas as feministas são fundamentalistas e odeiam os homens e demais. Certamente, há lugar no mundo para o feminismo.

No entanto, pessoalmente parece-me importante diferenciar entre o que é uma busca de justiça e uma franca luta de poder. O discurso onde tudo é visto em termos de poderio, de grupos que buscam se impor a outros, é um tanto míope: esquece que os grupos, e os sexos em particular, buscam também se unir, se ajudar, se amar. Não me parece ingênuo enfatizar isto; é parte indispensável da necessária (re)educação para transformar a dinâmica social. A meu julgamento, Jung disse de maneira perfeita:

- "Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro."

Não há dúvida de que o mundo é uma constante disputa para evoluir, mas também há colaboração -e o ser humano tem a capacidade de dirigir sua evolução biológica através da inteligência e da compaixão-. Esta concorrência colaborativa, esta tensão no centro da vida, significa buscar igualdade de oportunidades sem anular as diferenças e recompensar justamente os resultados sobressalentes, a própria variedade (algo que já faz a natureza).

Não há nada de errado na busca do "empoderamento" de grupos ou pessoas "desempoderadas", mas o fim não justifica os meios. A motivação correta para retificar a desigualdade é o desejo de justiça, não de vingança e, mais ainda, o amor e não o ódio. Este seria o verdadeiro feminismo, a verdadeira influência do poder matriarcal. Buda disse certa vez que:

- "O ódio jamais pode cessar com ódio. O ódio só pode cessar com amor. Esta é uma lei eterna."
Professora feminista americana defende o direito a odiar todos os homens
Suzanna Danuta Walters.
No final o ódio causa mais mal a quem odeia do que ao odiado. O ódio transforma as mulheres em vítimas. Não acho que as mulheres realmente se sintam cômodas ou gostem de se identificar com a vítima, se definirem como vítimistas. É verdade que a história está cheia de injustiças e, portanto, é uma possibilidade entendível assumir o estado de "vítima".

No entanto, se falamos de "empoderamento" das mulheres como indivíduos é uma contradição promover o discurso do vitimismo (ou coitadismo), além de cometer a falácia de transpor o estado de vítima de uma mulher em específico -que, digamos, foi violada- a todas as mulheres, que não são vítimas só por serem mulheres. Em lugar da cultura da vítima, existe a possibilidade heroico-empática, de líderes civis como King e Gandhi. O próprio Martin Luther King defendeu o caminho criativo e "redentor" do amor, em detrimento do caminho destrutivo do ódio.

Não pude evitar o clichê de falar do amor como solução milagrosa a tudo, porque acho que neste caso em especial seja admissível. Pois finalmente o que está em jogo é o amor e a própria criatividade, que são em grande parte a relação energética entre o feminino e o masculino, o fogo vital que surge dos opostos.

É até ridículo pensar que os homens e as mulheres possam se odiar sistematicamente -significaria um mundo em suspense, uma abdicação do ser-. O que o homem no fundo sente pela mulher é amor. O que a mulher no fundo sente pelo homem é amor. Esse amor é às vezes misterioso, mágico e cheio de temor e dúvidas. É um amor tanto biológico (desejo) como espiritual (compaixão).

Quando este amor não encontra saída pode produzir frustração e violência, mas segue existindo um instinto de unidade, ternura e felicidade. O fato de que esse amor não seja onipresente no mundo se deve à ignorância -como a de Suzanna-. A ignorância não se elimina com ódio e violência, se elimina com amor e sabedoria.

É por isso que acho importante, às vezes, entrar neste tipo de discussões politizadas -ainda que costumo evitá-las no MDig-, porque um artigo como o de Suzanna só contribui ao ódio e à ignorância e faz com que este clima de tensão beligerante fique cada vez mais inflado e provoque a desconexão entre os dois princípios criadores cuja dança é a própria vida.
Fonte: WP.


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