O sucesso de bilheteria de 2018 vai muito além de um filme de super-herói
Por Alessandra Monterastelli, Isabella Rocha e Luiza Vilela
É indiscutível a importância do filme Black Panther (“Pantera Negra”) em termos de representatividade, uma vez que seu elenco é majoritariamente composto por pessoas negras (ao ver o cartaz do filme na entrada de um cinema nos EUA, onde os personagens aparecem de forma poderosa, um homem fez um comentário que resume o sentimento daqueles que finalmente podem se identificar nas telas: “então é assim que os brancos se sentem o tempo todo!”). O personagem principal do filme, T’Challa, torna-se rei de Wakanda, nação fictícia superdesenvolvida e fruto da união de cinco tribos. O filme vai muito além do entretenimento típico dos filmes de super-heróis da Marvel, e além da representatividade, aborda discussões políticas e sociais, desde o colonialismo e a cultura africana até a opressão e o feminismo.

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A questão colonialista

O filme coloca o debate racial de maneira sutil mas altamente perceptível, mostrando como questões históricas de exploração do continente africano são cruciais para entender e contar a história do povo negro e do racismo. O filme traz a tona uma reflexão de como até hoje é cultivado um pensamento que tem suas raízes no colonialismo e nas teorias eugenistas do século XIX.
No século XIX, permeava pela Europa os pensamentos eugenistas e o Darwinismo Social, ambas teorias racistas e xenófobas, apoiadas basicamente na ideia falsa da supremacia branca. Com a segunda revolução industrial, o auge do capitalismo industrial e a ideia de desenvolvimento e “avanço da civilização”, nações europeias imperialistas passaram a invadir e colonizar outros países, por meio de influência militar e da dominação econômica. Os principais alvos foram a África e a Ásia. O argumento era “levar a civilização” a quem consideravam “inferiores”, pretexto para explorar seus povos e suas terras de acordo com seus interesses.
Entre 1884 e 1885 houve a Partilha da África, em que países como Reino Unido e França dividiram o continente entre si, ignorando os povos e tribos que lá estavam. Nos séculos anteriores, a África já havia sofrido com a captura de negros pelos europeus para escravização no ocidente. A herança da colonização até hoje é sentida no continente, e os países responsáveis pouco fazem para pagar sua dívida histórica. O racismo é persistente, o que fica claro no comportamento da União Europeia quanto aos refugiados, com líderes e povo repetindo frases xenófobas, além da notável falta de recepção com as famílias.
Uma das heranças negativas dessa época que persistem até hoje é o pensamento muitas vezes comum de que a cultura africana é inferior a Ocidental (basta lembrar da fala de Donald Trump em fevereiro, quando ofendeu e diminuiu países africanos e o Haiti). O filme faz um grande contraponto a isso: lembra como a cultura do continente africano é rica e importante. Quando a atriz Lupita Nyong’o foi questionada sobre como se sentia em ver a cultura africana celebrada em um filme, ela respondeu: “é libertador. Nós viemos de um continente muito rico, mas que foi assaltado, explorado e abusado. O colonialismo reescreveu a nossa história e mudou nossa narrativa global para a pobreza, sendo que a riqueza do continente não é contada nessa escala global. O que esse filme faz é trazer o futurismo, mas também as culturas ancestrais do continente; a diversidade desse filme é específica do continente africano”.

Wakanda representa o que a África poderia ter sido

Wakanda nasceu da união entre tribos, é superdesenvolvida, tecnológica e igualitária, sem deixar de lado as tradições de seu povo, mas pelo contrário: reforçando sua cultura. O acesso ao vibranium (metal mais precioso e resistente do planeta) possibilitou a evolução e o progresso inacessíveis a outros países africanos, submetidos à constante exploração do imperialismo capitalista; o país não sofreu as adversidades destrutivas do colonialismo europeu. Logo no começo do filme, a história de como o país se desenvolveu rapidamente com a força do metal é contada como uma lenda: no passado distante, um enorme meteorito maciço composto de vibranium caiu em Wakanda, e foi desenterrado uma geração antes dos eventos do presente. A exposição ao vibranium transformou todos os nativos da região, e por meio dele a nação se formou da forma tecnológica como é apresentada no filme. A radiação do vibranium se espalhou por grande parte da flora e da fauna de Wakanda, incluindo a erva em forma de coração comida pelos membros do Culto da Pantera. No filme, há uma mitologia de um Deus Pantera Negra, cultuado pelo povo de Wakanda, que dá poderes aos reis. O Culto da Pantera, auxiliado pelas propriedades de uma erva com os poderes dos deuses, torna a tribo dominante do país, com o seu líder – e por consequência, o rei de Wakanda – chamado de Pantera Negra.
Mas o poder de Wakanda está além do Vibranium. A atriz Lupita Nyong’o, que faz o papel da guerreira Nakia, lembra na entrevista que, apesar do vibranium, “Wakanda é especial porque nunca foi colonizada, então ela faz com que todos nós imaginemos o que poderia ter sido possível se a África tivesse tido a chance de se desenvolver e se descobrir”. A representação de Wakanda no continente africano talvez tenha sido uma das maiores ideias do filme. Wakanda é forte, é inovadora, é tecnológica, é sustentável. Tanto no filme quanto nos quadrinhos, é a nação mais avançada do mundo, tanto social quanto tecnologicamente – uma utopia afrofuturista onde tecnologia avançada e tradições se convergem.
Nave do filme Pantera Negra, Marvel Comics, Disney Movies em Wakanda,
Nave do filme Pantera Negra, Marvel Comics, Disney Movies em Wakanda.
A localização… Bem, isso trouxe inúmeros questionamentos. Por ser uma nação escondida (literalmente escondida, é preciso ter o vibranium correndo nas veias para ter acesso ao local) é muito difícil localizá-la com precisão. Nos quadrinhos, o ponto geográfico de Wakanda varia ao longo da história. Há fontes que a colocam ao norte da Tanzânia, enquanto outras, como o Marvel Atlas #2 (1988), que foi o padrão seguido pelo filme do Pantera Negra (2018), mostram a fronteira com o Lago Turkana, perto do Sudão do SulUganda, QuêniaSomália e Etiópia (e cercado por outros países ficcionais como Azania, Canaã e Narobia).
O fato de Wakanda ter sido formada pela união entre tribos contrária, em primeiro lugar, a ideia ocidental de que os povos orientais são “naturalmente violentos”; e faz pensar que, talvez se não fosse pelas guerras e desavenças causadas pela presença dos europeus, nações como a do filme seriam formadas. A ideia de supremacia dos valores europeus, também se evidencia em outro argumento errôneo, mas comum: de que os povos colonizados não reagiram ou lutaram o suficiente para se libertar (o que em si já é falso; sabe-se de inúmeras revoltas duramente reprimidas, ou da brutal violência que impediu reações organizadas). Mas, afinal, nem todas as culturas apoiam-se na ideia de luta, expansionismo e violência: Wakanda, por exemplo, apesar das suas armas potentes, nunca quis se expandir e dominar outros povos; pelo contrário, evita ser descoberta para não haver guerra.
Uma nação tão tecnológica assim foi inserida no continente africano, o que indica a enorme disparidade com a real situação da África depois do colonialismo. A representação de uma África forte e desenvolvida como Wakanda remete ao passado do continente africano, com metais preciosos e poderosos recursos naturais.

Movimentos de libertação e os Panteras Negras nos EUA

A historiadora Roberta Quirino, em artigo publicado no Medium, faz uma reflexão interessante: a relação entre Killmonger (primo de T’Challa, cujo pai e antigo rei matou o pai de Killmonger), que quer tomar o trono de Wakanda, e o pan-africanismo.
Killmonger questiona onde estava Wakanda quando o resto do continente e seus afrodescendentes espalhados pelo mundo sofriam com os males cotidianos da opressão, da injustiça e do racismo. Killmonger, que sonha com Wakanda, vive na pele o que os afrodescendentes sofrem fora do país africano: é interessante pensar que ele teria passado sua infância nos anos 90, auge da guerra às drogas de Reagan, que ceifou inúmeras vidas de negros e negras nos subúrbios norte-americanos.
O Pan-africanismo foi um movimento de libertação que se tornou destaque no 5º Congresso Pan-africano, realizado em Manchester em outubro de 1945, quando os representantes africanos se tornaram maioria e colocaram a libertação da África colonizada como principal pauta a ser debatida. Os principais pontos levantados foram a emancipação e a total independência dos africanos e dos outros grupos raciais submetidos à dominação das potências europeias, a revogação imediata de todas as leis raciais e outras leis discriminatórias, a liberdade de expressão, de associação e de reunião, bem como a liberdade de imprensa, a abolição do trabalho forçado e a igualdade de salários para um trabalho equivalente, o direito ao voto e à elegibilidade para todo homem ou mulher com idade a partir de vinte um anos e por fim o acesso de todos os cidadãos à assistência médica, à seguridade social e à educação.
 Malcom X faz discurso para centenas de pessoas nos EUA

Malcom X faz discurso para centenas de pessoas nos EUA

O discurso de Killmonger, portanto, estaria influenciado diretamente pelo pan-africanismo. No final, T’Challa percebe que a autopreservação de seu país foi prejudicial não somente ao continente africano, mas a todos aqueles que poderiam ser ajudados pela tecnologia afrofuturista do reino que ele comanda e tudo que dela provém. A ideia de união do povo negro é vislumbrada, mas também a da união entre todos os povos, e de que lutar contra as injustiças de qualquer natureza é um dever de todos os seres humanos.
“Poder e Igualdade”

“Poder e Igualdade”

Garoto com a camiseta de Angela Davis

Garoto com a camiseta de Angela Davis
O filme também traz outro movimento impossível de não lembrar, até pelo nome do longa e no próprio discurso de Killmonger: o dos Panteras Negras, nos anos 60. O Partido construiu um programa revolucionário e anti-imperialista, partindo da experiência de vida das populações afroamericanas. A violência policial atingia principalmente os negros (até hoje) nos EUA; além disso na mesma época surgiram grupos racistas e neonazistas como a Ku Klux Klan (KKK), que cometia crimes e ataques contra a população afrodescendente. Aproveitando a legislação dos Estados Unidos, extremamente permissiva em relação ao porte de armas de fogo, os Panteras Negras instruíam a população a se armar e a impedir batidas policiais sem mandado, ou ataques de supremacistas brancos. Em algumas ocasiões, os Panteras seguiam viaturas policiais carregando armas, a Constituição e outros códigos legais, a fim de impedir prisões abusivas.
A autodefesa pregada pelos Panteras se mantinha cuidadosamente nos marcos da legalidade, mas deixava explícito que o Estado servia a alguns e não a outros, como explica o grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da Universidade de Brasília em um artigo sobre o assunto. Além da autodefesa, também fizeram diversas manifestações contra a Guerra do Vietnã, contra a discriminação em escolas e universidades, pela inclusão de história afroamericana nos currículos e por melhores condições de vida nas penitenciárias; iniciaram também programas sociais, como café da manhã para crianças pobres, clínicas médicas gratuitas e transporte para familiares visitarem presidiários. Tais programas eram instalados em bairros negros, mas aberto a todos. Os Panteras mantiveram boas relações com grupos da esquerda branca e com outros segmentos minoritários, promovendo a união contra as injustiças de um sistema desigual e racista.
Membros do Partido dos Panteras Negras, EUA, 1967
Membros do Partido dos Panteras Negras, EUA, 1967
Jornal dos Panteras Negras, por volta de 1968

Jornal dos Panteras Negras, por volta de 1968

Por que tão encantador?

A fotografia do filme é um ponto que merece muita atenção, pois toda a caracterização vai além daquilo que se espera e já foi visto em filmes de super-heróis. Pela primeira vez o negro é retratado em um filme desse gênero como protagonista de sua própria história, e isso é visível na estética. A estudante angolana de relações internacionais da PUC-SP, Suzana C’Muricio, conta que se sentiu muito representada por ser africana. A estética do seu povo é retratada de uma forma única, com uma imensa riqueza de detalhes que vai desde as vestimentas até o dialeto, passando pelo ritmo da música. Vale lembrar que em várias partes do filme, o idioma utilizado em Wakanda é o ‘xhosa’, a língua natal de 8,2 milhões de pessoas, falado como segunda língua por 11 milhões — a maior parte delas mora no sudeste do país de Mandela.
A estética não sofreu influência da colonização branca que estamos acostumados e por isso a representação da beleza natural negra é vista como bela. Nenhuma personagem tem o cabelo alisado, todas os exibem de forma natural: seja com tranças ou careca.
Uma das cenas mais marcantes e cenograficamente bonita do filme é o duelo para descobrir o novo rei de Wakanda. Povos de diferentes tribos presenciaram essa cena, como espectadores. É nessa hora que vemos a riqueza de detalhes, pois esses povos representam que existem na vida real e a caracterização é muito semelhante. As cinco tribos que compõem Wakanda são todas inspiradas em diferentes tribos existentes no continente africano, cada um com o seus ideias, com sua cultura própria.
As atrizes Danai Gurira e Lupita Nyong’o da revista Enterneinment

As atrizes Danai Gurira e Lupita Nyong’o
A força feminina é algo que arrepia qualquer espectador que tenha o mínimo de noção das dificuldades de ser mulher em nossa sociedade. O protagonista da trama é o Pantera Negra, mas em diversos momentos essas mulheres assumem seus papéis de maneira tão incrível que roubam o protagonismo do super-herói. São elas, inclusive, que o guiam durante sua jornada para combater o vilão. Os momentos de interação entre T’Challa, Shuri (sua irmã mais nova), Otoye (general do exército do rei) e Nakia (membro da guarda real do rei) são extremamente baseados em mútuo respeito, e as sugestões delas, ao contrário dos demais filmes da Marvel, são levadas em consideração.
Suzana fica meio feliz ao relembrar de cada uma das personagens: “não consegui encontrar um errinho machista se quer”. Mulheres negras são colocadas como guerreiras, mas em nenhum momento perdem a essência de ser mulher. Ao mesmo tempo em que são extremamente fortes ao ponto de vencer homens em batalhas, também são doces, românticas,belas, inteligentes, mães, irmãs e namoradas. Mulheres, em seu mais vasto sentido, e mulheres reais. A estudante comemora e diz que era isso que faltava para as meninas negras do mundo inteiro. Isso as permite enxergar o tamanho da sua potência enquanto feminino e fazer entender que elas podem ser aquilo que quiserem, sem perder a sua essência feminina.

Detalhes cinematográficos e africanidades

  1. Jordan já disse que se inspirou em Cidade de Deus (2002), filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, para construir seu personagem e isso reforça a ideia de tornar o filme global; como explica Quirino, Pantera Negra tem o potencial de quebrar fronteiras geográficas para mostrar negras e negros representados na tela de maneira que escapa somente à representação da escravidão, por exemplo.

O filme toca de maneira global, não deixando de trazer  inúmeros detalhes da cultura africana. Um exemplo é a adoração aos ancestrais, muito presente em tribos africanas, ou na figura do sacerdote Zuri. O papel do sacerdote nas tribos é aconselhar e auxiliar com a parte espiritual e sempre saudar os ancestrais, uma vez que sem estes, o presente não seria possível. O vínculo com a espiritualidade, envolvendo os rituais e vestes, também faz menção a cultura das diferentes tribos africanas.  Outro fator interessante é que a língua usada no filme pelos wakandanos não é inventada, mas sim a língua xhosa, um dos 11 idiomas oficiais da África do Sul. Nelson Mandela e a cantora Miriam Makeba são alguns de seus falantes mais famosos.

Um quadrinho de 1966 com um protagonista negro… e rei!

O primeiro quadrinho do Pantera Negra foi lançados em julho de 1966, com roteiro e direção de Stan Lee e ilustração de Jack Kirby, dois meses antes do criação do partido dos Panteras Negras (Partido Anti-segregacionista, fundado em setembro de 1966 na Califórnia) nos Estados Unidos. T’challa, o rei do país escondido fictício Wakanda, na Africa, foi o primeiro super herói negro criado por uma editora de mainstream e desencadeou uma série de outros super-heróis negros, como Luke Cage, Falcão, Blade, Raio Negro, Cyborg etc. Além de ser o primeiro super-herói negro, o Pantera Negra é também considerado a primeira Graphic Novel da Marvel Comics, ou seja, o primeiro romance escrito na estética de quadrinhos da Marvel.
A primeira publicação da série, no entanto, não foi para as bancas em revistinha única  e sim acoplado aos demais super-heróis da época na revista Fantastic Four (julho-agosto de 1966).

Há quem diga que o T’challa foi um símbolo de força para o movimento dos Panteras Negras, mas os criadores dizem que a inspiração veio em homenagem a outro movimento histórico. O lampejo de “Black Panther” teria sido uma reverência a um batalhão de tanques de mesmo nome, também como um sinal de respeito ao esquadrão Tuskegee (primeiro esquadrão de caça dos Estados Unidos formado apenas por pilotos negros). Ainda assim, quando questionados, Stan Lee e Jack Kirby afirmam que o quadrinho não tinha vínculo com o partido dos Panteras Negras. Segundo eles, a inspiração veio de um herói da Literatura Pulp, que tinha uma pantera negra como aliada em suas aventuras. Para evitar confusão, os criadores ainda tentaram mudar o nome do super-herói para “Black Leopard” (Leopardo Negro), mas por um curto período de tempo. Mais a frente, ele reassumiu o nome anterior em uma das edições dos quadrinhos de Avengers.
O filme segue à risca algumas edições dos quadrinhos, e traz deles também grandes referências, como o covil do Pantera Negra  (no filme, o laboratório de Shuri, irmã de T’Challa); o uniforme negro e prateado com os mesmos padrões dos quadrinhos, assim como a referência das demais tribos. Em aspectos culturais, a Marvel realmente fez seu dever de casa: uma pesquisa aprofundada na cultura Africana, um sucesso de bilheteria e um primor em críticas sociais.
Depois de ver esse filme, por mais críticas positivas (e negativas) que tenham, há uma certeza: temos um filme revolucionário em mãos. E estamos loucos para falar dele quantas vezes forem necessárias.

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