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segunda-feira, 14 de maio de 2018

A raiva às mulheres sem medo


A forma como em Portugal se reage à afirmação pública de mulheres é um tratado de misoginia e sexismo. O caso da espanhola Irene Mozo, que escreveu cona num cartaz político e mostrou pêlos nas axilas, é eloquente.
Dezenas de milhares de pessoas na rua para defender uma miúda violada por um grupo de energúmenos e gritar por justiça. Um convento de carmelitas descalças a fazer um post no Facebook para a apoiar e homenagearA Polícia Nacional de Espanha a publicar um tuite no mesmo sentido. Dezenas de políticos a censurar uma decisão judicial que, apesar de ter condenado os violadores a uma pena pesada - nove anos de prisão - e de ter considerado que a vítima não consentiu livremente nos atos sexuais a que a submeteram, não qualificou como violenta a forma como foi submetida. O próprio Rajoy a admitir que a lei precisa de ser melhorada.
Olho para Espanha e tenho inveja. A frase "fazes a uma, fazes a todas" é ali levada a sério. Há uma consciência da relação de poder entre homens e mulheres e do facto de que a igualdade estatuída na lei há algumas décadas ainda não a aboliu. Há a noção de que é preciso denunciar e lutar. Que há muito a fazer até chegarmos onde temos de chegar, onde é justo.
E tenho inveja porque em toda a minha vida nunca vi em Portugal mulheres aos milhares nas ruas para defender outra, para se defenderem. Nunca vi uma reação assim face a decisões judiciais sexistas e insultuosas - e se as houve, basta lembrar as do juiz desembargador Neto de Moura, que em 2017 citou a Bíblia, o Código Penal de 1886 e os castigos aplicados às "mulheres adúlteras" para "enquadrar" o ataque de um homem com uma moca de pregos à ex mulher; a da Relação de Porto, em 2011, relativa à violação de uma paciente grávida pelo seu psiquiatra, absolvendo-o por "não ter usado muita violência"; a do Supremo Tribunal Administrativo que em 2014 decretou que a partir dos 50 o sexo já não tem importância para as mulheres porque já não podem ter filhos.
O que vi, demasiadas vezes, foi o contrário: ataques selváticos a mulheres por todos os motivos possíveis, sempre a reconduzirem-se ao essencial -- serem mulheres. O que vejo é raiva. Raiva em geral às mulheres e, o que é pior, de mulheres a mulheres. Uma raiva mesquinha, achincalhante, ignorante, de quem com ou sem consciência disso defende o statu quo e a chamada "ordem natural das coisas".
Olhar para os ataques de que Irene foi alvo por exemplo no Twitter, onde deu mostras de uma inteligência, capacidade argumentativa e pedagógica e paciência impressionantes, é assistir a uma espécie de catálogo das reações a uma mulher que ousa erguer-se no espaço público. Desde logo, a apreciação física: uma parte considerável dos comentários, de homens e mulheres, foram sobre o corpo de Irene. Particularmente significativa é a fúria contra os pêlos nas axilas, aliás um clássico: de cada vez que surge uma imagem de mulher que não se depila temos uma espécie de linchamento generalizado. Sucedeu com Madonna, com a filha de Madonna e em inúmeros outros casos.
Deus e o diabo estão nos detalhes. E este é muito esclarecedor do policiamento obsessivo do corpo feminino e da prescrição do que neste é admissível, ou seja, do que este pode fazer e ser - do que uma mulher pode ser e fazer, porque as mulheres são vistas sobretudo como corpos. Equiparar a não depilação, como tantas vezes vi fazer, a uma espécie de manifestação anti-natureza, como se as mulheres não tivessem naturalmente pêlos e a ideia do corpo feminino como corpo depilado não fosse um decreto cultural e social, um padrão de comportamento, é de um tal absurdo que custa a crer. E, no entanto, é o que temos. Haverá melhor prova da ausência de desconstrução dos papéis de género e de pensamento sobre o assunto, da forma como as pessoas dão como adquiridos e inquestionáveis totais ridículos e como reagem irracionalmente quando são postos em causa?
Igualmente eloquente foi a reação ao uso do calão "cona". Se em Espanha o termo "coño" é bastante mais comum e "aceite" que cá, a questão fundamental torna a ser o que é considerado aceitável numa mulher - um cartaz empunhado por um homem com a palavra ou a sua congénere masculina jamais atrairia um milionésimo da indignação e seria visto como uma manifestação de humor. Mas numa mulher o uso daquela palavra é considerado "grosseiro" e "impróprio", portanto violento. A agressividade e a violência, mesmo se discursivas, são vistas como não "pertencendo" ou "ficando bem" às mulheres, como típicas dos homens; um homem agressivo é assertivo e corajoso; uma mulher agressiva é desequilibrada, histérica, "masculina" - "anti-natural", portanto. Porque as mulheres devem ser submissas e doces e, claro, caladinhas.
Resgatar uma palavra usada como insulto e rebaixamento das mulheres e erguê-la como desafio, com orgulho, num cartaz político, tinha de fazer rebentar os curtos fusíveis de quem nunca dedicou um segundo a pensar sobre estereótipos de género e a forma como conformaram e conformam o nosso mundo, quanto mais na opressão que significam para mulheres - e homens. Irene saiu à rua para gritar que está farta dessa opressão e que não tem medo. E é isso, ela sabe, que mais assusta e enraivece a turba: não termos medo.

Fernanda Câncio
www.dn.pt

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