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domingo, 2 de julho de 2017

A ENTREVISTA DA JOANA, AQUELA QUE NÃO DESISTE , AQUELA QUE FALA MUITO BEM, AQUELA QUE DIZ QUE: Os candidatos [do Bloco de Esquerda e do PCP] escolheram dar um sinal de que não estão interessados em ganhar eleições, estão interessados em apoiar a candidatura de Fernando Medina.

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 “O Bloco perdeu a irreverência toda com a geringonça”


A ex-deputada do BE anunciou esta semana a candidatura a Lisboa pelo Nós, Cidadãos! e promete uma campanha “surpreendente”.

Joana Amaral Dias aceitou o convite do Nós, Cidadãos! para se candidatar à Câmara de Lisboa e garante que corre por “amor à camisola”. Define-se como “ativista política” e promete uma campanha “criativa” e “surpreendente”. 
Anunciou esta semana a candidatura a Lisboa. O que a motivou? 
O Nós, Cidadãos! convidou-me para fazer este combate. Foi um convite que me fez sentido porque as principais candidaturas que até agora se apresentaram são, na verdade, pseudocandidaturas.
Revê-se ideologicamente neste partido? Não é um projeto mais conotado com o centro-direita?
Não. É uma coisa extremamente heterogénea que tem como ponto agregador a questão da cidadania, a possibilidade de a vida democrática e política ser mais aberta em vez de serem sempre os mesmos partidos e, basicamente, os mesmos protagonistas. 
Embora, em Portugal, os novos projetos não tenham conseguido vingar, ao contrário do que aconteceu noutros países europeus que foram afetados por esta crise.
Não é bem assim. Se olharmos para fenómenos como Rui Moreira na Câmara Municipal do Porto, estamos a ver aí claramente um sintoma de uma versão portuguesa disso de que está a falar. Se olharmos para a eleição do Presidente da República e a forma como ele fez a campanha eleitoral, estamos a olhar para outro sintoma disso mesmo. Acho que essas novas e renovadas formas de fazer política vão vestindo diferentes roupagens e em Portugal também existem. Não são iguais às que existem em Espanha ou na Grécia, mas também existem.
A solução deixou de estar nos partidos tradicionais?
Olhando para estas candidaturas a Lisboa, acho que a solução não está nos partidos tradicionais. Assunção Cristas candidata-se por uma questão de afirmação. A candidatura de Teresa Leal Coelho não é por Lisboa, é para fazer uma perninha a um amigo. A candidatura do Medina é porque o poder lhe caiu no colo e o comboio continua. As restantes candidaturas são da geringonça. Os candidatos [do Bloco de Esquerda e do PCP] escolheram dar um sinal de que não estão interessados em ganhar eleições, estão interessados em apoiar a candidatura de Fernando Medina.
É um apoio indireto?
É evidente. O João Ferreira é deputado europeu. Tem alguma intenção séria de ganhar a câmara? Vai a todas? O sinal que a esquerda dá nesta campanha é que a geringonça está em marcha para a Câmara de Lisboa. Como sou muito crítica da geringonça, gostava que tivéssemos candidatos autónomos e independentes com projetos criativos e próprios para a cidade. Os problemas da cidade de Lisboa estão diagnosticados há décadas e em todas as eleições autárquicas nós ouvimos a mesma ladainha. É o problema da habitação...
O turismo veio agravar alguns desses problemas.
O turismo é uma inevitabilidade, mas esses problemas já existiam e nunca foram resolvidos. O diagnóstico é repetido há anos. Fernando Medina comporta-se como presidente às segundas, quartas e sextas, e às terças, quintas e sábados é o cordeirinho de Deus que, agora sim, ao fim de dois anos e meio, vai resolver os problemas da habitação, dos transportes, do estacionamento... 
Vamos por partes. Como se resolve o problema da habitação?
Resolve-se da maneira que toda a gente diz que se resolve, a começar pelo Fernando Medina, mas depois ninguém consegue resolver. A renda média em Lisboa é de 830 euros. Isto não é comportável para nenhuma família. Isto não é compatível com os ordenados médios dos portugueses. É excelente que venha turismo para a cidade, mas nós temos de resolver, agora mais do que nunca, este problema. A câmara tem de criar uma bolsa imobiliária altamente acessível para que as pessoas possam viver em Lisboa. As pessoas estão a ser despejadas em bairros como a Mouraria, Alfama... A câmara tem de acudir a estas situações.
Seriam programas para a classe média?
Sim. Com certeza
Qual seria a renda que a câmara pedia?
Tem de haver rendas a partir dos 150 ou 200 euros.
O problema do trânsito é outro dos que ninguém consegue resolver.
Eu não aceito o ataque que é feito sistematicamente aos automobilistas que são residentes em Lisboa. As pessoas têm o direito de utilizar o carro. Eu, por acaso, sou utilizadora de transportes públicos, mas gostava de perguntar ao Fernando Medina ou à Assunção Cristas se usam o metro ou a Carris. Falam de poleiro. Provavelmente, nunca usaram o metro nem o autocarro na vida e, portanto, demonizam os automobilistas em Lisboa porque não conhecem a realidade. 
Utiliza os transportes públicos?
Eu, embora seja utilizadora frequente dos transportes públicos, tenho muitas situações na vida em que sou obrigada a utilizar o carro. Tenho um pai com 70 e tal anos que teve um AVC há cinco e tem dificuldades de mobilidade. Não posso pôr o meu pai no metro. Obviamente, tenho de utilizar o carro. Na minha situação há milhares de pessoas em Lisboa, com dificuldades de mobilidade. Tenho uma filha com 16 meses, não consigo andar com ela no metro. Grande parte das estações de metro não tem elevador para a superfície. Isto é uma obra assim tão dispendiosa? Houve dinheiro para fazer obras entre o Saldanha e o Marquês, obras que podem ser bonitas, mas não são fundamentais. Isto são obras muito simples e pouco dispendiosas que melhorariam imenso a qualidade de vida dos lisboetas. 
Não há excesso de carros na cidade?
Há muitos carros porque as pessoas não têm alternativas. Já sabemos que precisamos de parques dissuasores e transportes públicos articulados para que a pessoa chegue à cidade e possa deixar o carro. Podem ser construídos silos verticais. É uma ideia utilizada na maior parte das cidades europeias. O que é feito às fortunas de lucro que faz a EMEL? Porque não é utilizado esse dinheiro para criar soluções para os transportes?
Acha que é excessiva a atuação da EMEL?
É absolutamente excessiva. Os lisboetas sentem-se perseguidos pela EMEL. Os lisboetas têm de ter uma discriminação positiva. Pelo menos nos locais onde trabalham. Tem de haver, pelo menos até que sejam resolvidos os problemas dos transportes públicos, alguma tolerância. Não aceito que a autarquia transforme a vida dos lisboetas num inferno.
Tornou-se mais conhecida quando foi deputada pelo Bloco de Esquerda, entre 2002 e 2005. Como começou a ligação à política?
Desde muito nova, desde os 17 anos, que fiz parte de movimentos e associações cívicas e, quando o Bloco de Esquerda nasceu, eu era dirigente numa associação que operava na zona centro do país e trabalhava com pessoas que tinham sido completamente marginalizadas: sem-abrigo, prostituição de rua, heroinómanos de longo curso... Tínhamos um grande ativismo social. Continuo, aliás, a definir-me como ativista política. Sempre me vi assim e é essa identidade que mantenho. 
Conseguiu aplicar essa vontade de intervir nos anos em que foi deputada na Assembleia da República?
É um pouco diferente, mas eu apanhei uma altura de grande ativismo no parlamento, porque foi a guerra no Iraque. O Bloco tinha só três deputados e trabalhávamos imenso.
Mais tarde saiu do Bloco de Esquerda. Desiludiu-se com a política? 
Com a política, não estou desiludida. A política é um combate por uma vida melhor. Com a vida partidária, nunca tive grandes ilusões... A verdade é que tudo se complicou quando aceitei o convite de Mário Soares para ser mandatária da Juventude. Nessa altura, o Bloco discordava. Continuo a achar, ainda hoje, que o Bloco devia ter apoiado Mário Soares. O Bloco, indiretamente, veio a dar--me razão, porque cinco anos depois apoiou a candidatura de Manuel Alegre, reconhecendo que tinha de haver alguma convergência. Com essa divisão à esquerda, tivemos de aguentar na Presidência da República dez anos de Cavaco Silva. Tudo se complicou nessa altura, mas eu continuo e continuarei o meu percurso político. 
Foi esse caso pontual que levou à rutura com o Bloco?
Houve várias coisas. O Bloco tinha como promessa inicial e como um dos seus objetivos ser um movimento de movimentos, ou seja, integrar estes movimentos de cidadãos. Tinha essa promessa e abandonou-a. Não é por acaso que o Bloco tem uma implantação autárquica muito fraca. O Bloco abandonou a política local, mostrou grande desinteresse pela questão da cidadania ativa e pelos movimentos sociais. Isso desiludiu-me muito, porque acho que fazer esta política tradicional, muito parlamentarista, muito alocada só aos lugares de poder, é curto. É uma coisa com a qual não me identifico muito. 
O Bloco perdeu alguma irreverência?
Agora perdeu a irreverência toda, com a geringonça. Já vinha perdendo alguma, na minha perspetiva; agora, com a geringonça, perdeu-a toda. Estou estupefacta com algumas... Eu nunca fui grande adepta da ideia da geringonça, porque é muito importante haver uma boa oposição em democracia. 
Uma boa oposição de esquerda?
De esquerda e de direita. Eu já sabia que a direita estava ligada à máquina, em vida artificial, com Pedro Passos Coelho. Como se confirma. Não haver oposição, não haver debate e não haver confronto não é saudável para uma democracia. Tem de haver confronto e, por isso, nunca fui adepta da geringonça
Há muita gente que não era adepta desta aliança e passou a ser.
Eu estou ao contrário. Não era e agora sou menos ainda. Sempre achei que o consenso mata a alternativa e a prova está à vista. Agora sou ainda menos porque se passeiam os Lacerdas Machados da vida e ninguém faz nada. São feitos negócios na banca de levar as mãos à cabeça e ninguém faz nada. Deu-se em Portugal a maior catástrofe da nossa contemporaneidade e não vejo nenhuma exigência enérgica da parte da oposição. Eu não quero uma oposição que faça prova de vida. Quero uma oposição que, com razões fundamentadas e sérias, questione aquilo que tem de questionar, fiscalize aquilo que tem de fiscalizar e apresente alternativas. 
Concorda com aquela ideia de que o António Costa meteu o Bloco e o PCP no bolso?
Voltamos ao início da conversa. Olhe para os candidatos à Câmara de Lisboa. Acha que o PCP e o Bloco mostram alguma vontade de fazer real oposição ao Fernando Medina? Nunca fui adepta da geringonça porque sempre achei que o consenso mata a alternativa, e quando vejo uma oposição tão tímida, um escrutínio tão débil e tão frágil sobre tudo o que este governo tem feito, fico ainda mais descontente. António Costa não tem, neste momento, oposição, Fernando Medina não tem oposição, e isso é preocupante, porque uma democracia madura tem de ter debate e discussão. 
Falou da tragédia dos incêndios em Pedrógão Grande. Defendeu já que a ministra se devia ter demitido. Porquê?
Sim. As mesmas pessoas que pediram a demissão de todos os ministros da direita por erros que fizeram agora dizem que não se pode pedir a demissão da ministra porque isso seria a maneira melhor de não se discutirem responsabilidades. Não é verdade. A melhor maneira de não se discutirem responsabilidades é aquilo que está a acontecer. É evidente que houve muitos erros. A ministra não foi logo ao local. Já o ano passado, durante a época terrível dos fogos em agosto, a ministra estava de férias no Algarve. Por acaso, estávamos na mesma festa numa das noites em que aconteceu um grande incêndio. Só que eu não era ministra e podia estar na festa, a dra. Constança é que não. Isto para dizer que a ministra devia demitir-se e continuava-se o apuramento das responsabilidades. É evidente que ela não tem capacidade para o ocupar o cargo. Se não se assumem responsabilidades políticas nesta situação, então não se assumem em nada. 
O país estava a viver alguma euforia com os bons resultados económicos, mas também no futebol ou na música. Como é que um país pode lidar com esta situação em que num dia está perto da euforia e no outro é confrontado com as suas fragilidades e com uma tragédia brutal como a que aconteceu em Pedrógão Grande?
Isto é o que nós chamamos em clínica o princípio da realidade. Estávamos a viver alguma euforia por coisas boas, desde as nossas vitórias na bola até ao controle do défice, são tudo coisas positivas que me deixam muito contente, mas são tudo coisas da ordem do funcionamento, e não da ordem estrutural. Aquilo que os incêndios demonstram é que, apesar de algumas vitórias, as questões que são de longo prazo e que são estruturais estão por resolver. Continuamos a ser um país desorganizado, um país que abandona as suas gentes e as suas terras, um país cheio de interesses em que a política vive numa teia altamente promíscua com interesses económicos. Foi uma chamada à realidade da forma mais cruel que podia existir, e isso é um embate muito duro. Vamos ver como é que o país reage e isso depende da forma como a classe política vai responder a esta tragédia. 
Voltando ao seu percurso político. O PS também a convidou, nos tempos de José Sócrates, para candidata a deputada. 
Sim, mas não aceitei. Na altura, achei que era o mais correto. Quanto mais tempo passa, mais eu acho que fiz bem. Foi José Sócrates e a sua equipa que me convidaram para ser deputada, e eu achei que devia recusar. Foi melhor assim. Se eu estivesse preocupada em ser deputada ou com os cargos, já tinha aceite um desses convites e não andava aqui a fazer combates com pequenos partidos. A fazer campanhas sem dinheiro. Eu faço isto por amor à camisola. 
Como vai ser esta campanha para a Câmara de Lisboa?
As campanhas que tenho feito são campanhas com um orçamento quase nulo, mas com gente muito empenhada e muito criativa. O “Agir” já fez uma campanha eleitoral assim nas últimas eleições legislativas e esta vai ser igual. Vai ser uma campanha surpreendente. Com o “Agir” tivemos ações como aquela de colocar uma faixa na Assembleia da República com a inscrição “vendido”, a bandeira da Grécia no Castelo de São Jorge. Esta campanha vai ser igualmente animada. Até um pouco mais, porque nós já apurámos alguns métodos de ação.
Nessa altura deu muita polémica a fotografia que tirou para a revista “Cristina”. Houve quem achasse que estava a utilizar o corpo para ganhar votos. 
A maternidade é uma coisa natural. Essa história tem um início que vale a pena repor. Eu achei que devia ter a hombridade de dizer aos eleitores que estava grávida. Felizmente, tudo se resolveu e tenho uma filha espetacular mas, inicialmente, a gravidez era de risco e a minha médica pediu-me alguma contenção nas viagens. Achei normal fazer uma conferência de imprensa a dizer: “Estou grávida e, se for eleita, não serei eu a ocupar o cargo”. E fiquei espantadíssima quando as pessoas começaram a dizer que eu estava a instrumentalizar a minha gravidez e a atacar os direitos das mulheres. Diziam: “Se estás grávida, vai para casa. Se é uma gravidez de risco, estás a pôr em risco o teu bebé.” Tenho muita pena, mas não admito que ataquem os direitos das mulheres, e muito menos nas questões da maternidade. E, portanto, aquela capa foi uma capa pensada, provocatória e arriscada. Certamente não era para ganhar votos, porque qualquer pessoa sabe que era arriscada. Era para dizer que a gravidez é uma coisa natural. Portugal continua a ser um país que ataca violentamente as mulheres. E, portanto, acho que fiz muito bem.
Não a surpreendeu a polémica?
Não, claro que não. Sabia muito bem que ia dar polémica. A polémica é reveladora da parte mais conservadora e, curiosamente, até de uma parte muito conservadora da esquerda. Parece que, para alguma esquerda, as mulheres só podem despir-se se for para defender os direitos dos gays. Eu também defendo e estou nessa batalha na primeira linha, mas as mulheres também podem usar o seu corpo para defenderem os direitos da maternidade. Quem se revelou mais com essa capa foi essa esquerda muito conservadora que usa um verniz muito cosmopolita, mas depois, à noite, chega a casa e é do mais chauvinista que se possa conhecer.
O facto de ser uma figura pública cria--lhe alguma dificuldade na sua profissão? As pessoas confundem a psicóloga com a personagem que veem na televisão?
Não há rosa sem espinhos. Tem uma parte boa porque algumas pessoas procuram-me porque me ouviram na televisão e gostaram. Tem uma parte complicada e que é preciso resolver, que é as pessoas projetarem certas coisas. Uma figura pública não deixa de ser um boneco, não deixa de ser uma persona, e é natural que as pessoas projetem nessa persona certas coisas. Isso tem de ser desconstruído e trabalhado nos primeiros contactos com a pessoa. Há um trabalho extra que tem de ser feito. Tenho aprendido a lidar com isso e tem sido uma aprendizagem, porque não há assim tanta gente, tantos profissionais da saúde mental, com essa exposição. 
Até que ponto é que esta crise, para além dos problemas económicos, afetou a saúde mental das pessoas?
Trouxe muitos problemas porque o mundo inteiro viveu os primeiros 15 anos do novo milénio de forma completamente maníaca, sempre lá em cima. Aqueles filmes como “O Lobo de Wall Street” mostram bem como as pessoas estavam muito maníacas. Não é por acaso que a cocaína é a droga de eleição do século xxi. É uma droga eufórica. E, portanto, o final dessa crise é uma grande ressaca, uma enorme depressão e a exposição das fragilidades. As coisas maníacas nas sociedades e nas pessoas individuais visam proteger as enormes fragilidades. Se olharmos para o sistema financeiro do século xxi. percebemos que ele estava com enormes fragilidades. Essa fuga em frente escondia as fragilidades. Escondia as fragilidades financeiras e económicas, mas também escondia as nossas fragilidades individuais. E, portanto, quando essa crise estoira e começa a haver esta fase descendente, as pessoas também se revelaram. Deixaram de poder fazer férias no Brasil na Páscoa e na República Dominicana no verão. 
Foram obrigadas a abrandar.
Exatamente. Tiveram de abrandar as suas partes maníacas e confrontar-se com os seus insucessos, os falhanços e, muitas delas, com situações muito dramáticas. Aqui no meu consultório apanhámos muitas situações em que as pessoas passaram de contextos muito confortáveis, até quase ociosos, para contextos muito diferentes em que perderam o emprego, as casas… Assistimos aqui a algumas derrocadas pessoais e situações de insolvência. Foi um choque muito violento. As pessoas começam agora a recuperar psicologicamente e a viver com as suas fragilidades. É natural que todos tenhamos tendência a negar as nossas fragilidades e procuremos ativar os nossos mecanismos de sobrevivência e defesa o mais possível. Isso é natural mas, em excesso, tem uma fatura pesada. Foi a que nós andámos todos a pagar ultimamente.
ionline.sapo.pt

GERINGONÇAS


CÃES, CÃES E DONOS QUE SÃO CÃES


A MIM JÁ ME ACONTECEU EM PORTIMÃO SER ATACADO POR DOIS CÃES DE RAÇA BOXER ESTANDO EU PARADO A OBSERVAR UM TRABALHO QUE TINHA TERMINADO NUMA MORADIA DE UM FAMILIAR.

TIVE QUE ME DEFENDER A PONTAPÉ E FUI FELIZ AO ACERTAR DEBAIXO DA BOCA DE UM DELES QUE RECUOU LEVANDO O OUTRO A IMITÁ-LO.

RECLAMEI COM A DONA QUE ESTAVA POR PERTO A FAZER QUE NÃO ERA NADA COM ELA E QUE TEVE O DESCARAMENTO DE DIZER QUE EU ESTAVA A PONTAPEAR OS ANIMAIS.

A GAJA FOI ESPERTA ! SABENDO QUE NÃO PODERIA ANDAR POR ALI COM OS ANIMAIS À SOLTA E SEM BUÇO, TRATOU LOGO DE DEFENDER-SE.

MAIS TARDE EU E UNS AMIGOS FOMOS À CASA DA SENHORA QUE TEVE QUE ENROLAR A LÍNGUA PARA NÃO SER LEVADA ÀS AUTORIDADES.

Vais demorar o dobro do tempo para chegar onde queres , se parares a atirar pedras a todos os cães que ladram pelo caminho.
Pois é ! e se não levar pedras ? se não tiver alguma que esteja por ali solta ?

Sou devorado pelos cães de luxo, aqueles que nem os ossos nos deixam, aqueles treinados para gostar de carne humana e que vivem só para treinar os dentes nos pacíficos cidadãos mesmo aqueles que adoram animais.

António Garrochinho

O imposto que ajudou à união dos patrões e à queda da República



Criada em 1924, a União dos Interesses Económicos, impulsionada pela 
Associação Comercial de Lisboa, serviu como ponto de encontro dos patrões 
contra o sistema parlamentarista da Primeira República.


O golpe militar de 28 de Maio de 1926 acabou por servir de base ao Estado Novo de Oliveira Salazar
Foto
O golpe militar de 28 de Maio de 1926 acabou por servir de base ao Estado Novo de Oliveira Salazar 


“A lei do selo constitui uma violência contra o comércio”, escrevia João Pereira da Rosa, dirigente da Associação Comercial de Lisboa, num artigo publicado em O Século no dia 11 de Setembro de 1924.
O artigo de Pereira da Rosa, ligado ao movimento patronal ( e mais tarde procurador da Câmara Corporativa do Estado Novo), surgia na sequência de um conflito cada vez mais evidente entre grandes comerciantes e o Governo republicano, que ganhara novos contornos com a portaria das novas taxas de selagem para bebidas alcoólicas e perfumarias. Esta lei, publicada nos jornais de 26 de Agosto, encarecia o custo dos produtos, com benefícios para os cofres do Estado.

Menos de dois meses antes, a ACL já tinha realizado uma assembleia extraordinária onde aprovara uma moção onde defendia que as pastas da agricultura, comércio, finanças e colónias deviam ser administradas por personalidades sem “interferências políticas” e que, se necessário, o Chefe de Estado deveria impor essas medidas contra o Parlamento.
A primeira reacção dá-se logo numa reunião da Associação Comercial de Lisboa (ACL) a 10 de Setembro, afirmando-se que, pelo seu impacto económico, esta “não se pode cumprir”. Decide-se ainda pela criação de uma comissão especializada e uma manifestação de desagrado, que passaria pelo encerramento dos estabelecimentos comerciais no dia em que a referida comissão fosse recebida pelo Governo. Mas se o imposto foi um mote para a demonstração de desagrado, este funcionou mais como ponto de agregação do que motivo único de descontentamento.
É ainda referida a necessidade de um “movimento patriótico tomar a responsabilidade, por delegacia nos seus melhores componentes, das pastas de natureza económica e financeira, num Governo de salvação nacional, no objectivo único de, pondo em práticas as suas doutrinas, tanta vez recusado pelos governos, salvar o País da derrocada que se avizinha”.
O tom claramente anti-parlamentarista dos responsáveis da ACL (presidida por Adriâno Júlio Coelho, tinha como vice-presidente Mosés Amzalak, que virá a ocupar a presidência em 1926) é rapidamente condenado pelo Parlamento e pelo Senado, com os republicanos a considerarem a moção um “incitamento ao crime”.

A criação da UIE

No domingo de 28 de Setembro reúnem-se “representantes de todas as associações comerciais, industriais e agrícolas de todo o País para apreciarem e deliberarem sobre a continuação do movimento iniciado pelas forças económicas da capital, acerca dos decretos sobre selo e contribuição recentemente criados”. Nascia então a União dos Interesses Económicos (UIE).
A UIE, Impulsionada pela ACL, teve o apoio dos comerciantes e industriais do Porto, seguindo-se os agricultores, cuja associação é dominada por José Pequito Rebelo (monárquico, ligado ao Integralismo Lusitano) e Joaquim Nunes Mexia (proprietário agrário, foi deputado sidonista e virá a apoiar a Ditadura Militar, assumindo a pasta da Agricultura.
Estavam plantadas as sementes da organização civil que congregará as forças dos patrões contra o regime republicano, mesmo se a UIE era dominada pelos comerciantes, cujos interesses, muitas, vezes, se opunham aos dos industriais.
O ponto de viragem do patronato dera-se entre 1922 e 1923. Por um lado, sente uma necessidade de união após a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921 (que conduz ao exílio voluntário, ou fuga, de Alfredo da Silva, proprietário da CUF, que chega a ser alvo de atentado em Leiria, quando se dirigia para Espanha), e perante o perigo de avanço do programa dos radicais. Por outro lado, a sua luta deixa se ter como alvo principal o operariado, focando-se, assim, mais nos programas de Governo.
“A ACL pode assim orgulhar-se de, ao fim de poucas semanas de uma campanha conduzida de forma exemplar, ter conseguido unir contra a República a quase totalidade das associações patronais”, escreve António José Telo. O historiador destaca que “só numa altura de grave crise como a que então se atravessava tal seria possível”, levando assim à formação de “uma organização patronal claramente política e virada contra o sistema de partidos e a República”.
Por esta altura, numa nova reunião que envolveu elementos dirigentes da ACL, da Associação Comercial do Porto (ACP) e da Associação Industrial Portuguesa (AIP), Pereira da Rosa declara que “as forças vivas do País, num movimento colectivo, sem precedentes, vinham oferecer o seu concurso e a sua colaboração ao Governo para se fazer uma remodelação do actual serviço de impostos. O comércio, a indústria e a agricultura querem pagar mas não como querem que eles paguem”. E acrescenta: “Os erros e os desmandos que fizeram cair a monarquia hão-de derrubar igualmente este regime”. As posições iam endurecendo, e o jornal O Século começa a publicação de uma série de entrevistas com personalidades que formarão a UIE, e que se inicia com Alfredo Augusto Ferreira, da ACL, publicada a 1 de Outubro de 1924.
Este responsável é apresentado como membro da comissão organizadora da UIE. “Houve a necessidade de criar um organismo novo, a UIE, que consubstanciará as aspirações máximas das associações de classe integradas no movimento e promoverá a sua execução ampla e largamente sem ter de subordinar-se às leis estatuárias das associações de classe”, explica Augusto Ferreira. Para já, continuava a resistência à selagem das garrafas de bebidas e perfumes, entre fiscalizações do Governo e incitamentos ao seu não cumprimento por parte da ACL. E contestava-se o novo acordo com a Companhia dos Tabacos (ligada do grupo Burnay), que fazia subir as taxas de importação de tabaco estrangeiro.
Na noite de 10 de Outubro, é determinado o corte, em reunião da ACL, de “quaisquer relações com o governo actual”, ao mesmo tempo que se elabora a estratégia de protesto através do encerramento dos estabelecimentos comerciais e industriais. Na rua, um grupo de pessoas clamava contra a reunião, onde a própria polícia marcava uma presença visível, através de personalidades como o comissário geral, Ferreira do Amaral. No final da reunião, João Pereira da Rosa é preso, com a acusação de crime de sedição. Só seria solto cinco dias depois, sob fiança.
O Governo ainda tenta ir ao encontro dos patrões em Dezembro, alterando a lei. Mas em vão. A lei era uma boa arma de combate, e cinco associações comerciais de Lisboa, -- entre as quais está a ACL--, e a Associação Industrial do Porto, entregam um parecer ao Parlamento, dizendo que “esse decreto apenas contém a disposição pela qual ficam isentos do pagamento do imposto os refrigerantes vulgarmente conhecidos por «pirolitos». Tudo indicava que este recente decreto facilitasse a aplicação do imposto do selo. Tal, porém, não sucedeu”. No Parlamento, as associações contam com o apoio dos nacionalistas e dos monárquicos, que atacam o Governo.
Através de O Século, propriedade da SNT, adquirida por Mosés Amzalak, Carlos de Oliveira e João Pereira da Rosa, os patrões e a UIE foi fazendo a sua campanha. Contra eles estará o Governo de José Domingues dos Santos, apoiado pela ala esquerda do PRP, e que toma posse a 22 de Novembro de 1924.

O encerramento da ACL

A UIE começa em Dezembro desse ano a preparar-se para as eleições legislativas do ano seguinte, com uma reunião no Porto, tendo já em vista o recenseamento eleitoral. Para tal, multiplicar-se-á em deslocações para dezenas de localidades, e todas as capitais de província. Em termos organizacionais, a UIE funcionava com uma Junta Central (conselho directivo), que se reúne com o conselho de delegados das comissões distrital. Além destas, havia ainda, nas distritais, as comissões municipais e as comissões paroquiais.
A Junta Central era formada por João Pereira da Rosa (presidente da Junta Central da UIE), Levi Marques da Costa (vice-presidente da AIP e vice-presidente da Junta Central), Alfredo Ferreira (ACL), Carlos de Oliveira (ACL), Roque da Fonseca(ACL), Nunes Mexia (União Agrária), , César Azevedo (AIP), António de Assis Camilo (ACL) e Eduardo Maria Rodrigues (Associação Comercial de Lojistas). Afonso Galvão de Castro era o seu secretário-geral.
No entanto, a 5 de Fevereiro de 1925 a ACL é dissolvida pelo Governo. O Século publica a nota do Diário de Governo onde a decisão é anunciada, e onde se afirma que “ultimamente, a Associação Comercial de Lisboa, por mais de uma vez, se tem desviado do cumprimento dos fins para que foi instituída, claramente expressos nos seus estatutos; considerando que essa atitude tomou, recentemente, um carácter de verdadeira rebelião contra os poderes constituídos, revelada já pelo modo como promoveu o não acatamento dos seus consócios da lei 1:633 de 17 de Julho de 1924 e o seu regulamento respeitante imposições fiscais”.
Esta, dizia-se, passou a ser um “grémio político, tendente a promover a desordem e capaz de gerar males sociais difíceis de calcular (...)”. Poucas semanas depois, a UIE sofre um atentado à bomba contra a sua sede provisória do Porto. E, com o encerramento da ACL, a campanha da UIE perde intensidade e velocidade, embora não cesse, avançando com a publicação das suas directrizes e apelando ao recenseamento dos seus apoiantes. Entre as suas reivindicações e teorias estão o apoio às forças produtivas nacionais, menor peso e intervenção estatal, e a aproximação ao proletariado. Para todos os efeitos, defendia-se um Governo de força e ordem.

O princípio do fim da República

A 18 de Abril dá-se um golpe militar conservador encabeçado general Sinel de Cordes, com o Governo a responder com o estado de sítio, suspensão das garantias constitucionais, e censura à imprensa. 
O Século é encerrado sob suspeita de ligação ao golpe, e apenas sairá de novo para as ruas no dia 6 de Maio. Carlos de Oliveira, destacado dirigente da UIE e um dos proprietários do jornal, é preso, após ter sido descoberto um documento incriminatório relacionado com o golpe em sua casa, no segredo da sua secretária pessoal.
A polícia faz mesmo uma rusga a O Século. João Pereira da Rosa, esse, deslocara-se para o estrangeiro, afirmando o diário que motivado por questões “de doença”. Pereira da Rosa dirá, meses mais tarde, que se o Chefe do Governo tivesse ouvido as associações patronais, na figura da ACL, com o desejo de nomeações técnicas para as pastas ministeriais de relevo, “talvez se tivesse evitado o 18 de Abril”. A Associação Comercial de Lisboa acaba por ser reaberta a 11 de Julho, sob a égide da UIE e onde marcam presença todos os responsáveis das associações patronais lisboetas.
Logo na semana seguinte, a 19 de Julho, dá-se novo golpe de Estado, onde desponta como líder um dos responsáveis pela implantação da República, José Mendes Cabeçadas. As forças conservadoras tentavam a sua sorte, e a UIE envereda agora por uma campanha política mais profunda, ao mesmo tempo que O Século chega a defender os golpes de 18 de Abril e de 19 de Julho.
No campo político, e apesar de tudo o seu esforço, o resultado da UIE é pouco animador para os seus defensores. Os patrões vêem seis deputados serem eleitos, dos quais cinco são empossados, e um senador eleito e empossado. Entre os nomes estão Joaquim Nunes Mexia, Eduardo Fernandes de Oliveira, José Maria Álvares, José Rosado da Fonseca e San’Ana Marques.
Após as eleições, a UIE parece esmorecer, com as associações a assumirem novamente a dinâmica de representação de classes. A 17 de Dezembro, depois das legislativas de Novembro que voltam a dar a vitória do Partido Democrático, toma posse o 45º Governo, liderado por António Maria da Silva. Sem que se soubesse, este ficaria para a História como o último Governo da 1.ª República.
“O Governo foi forçado a demitir-se ante a galharda atitude do Exército, fiel intérprete do sentimento pátrio”. Era assim que O Século se referia, a 30 de Maio, ao movimento militar iniciado no Norte pelo General Gomes da Costa e que está na origem da Ditadura Militar, berço do Estado Novo. Acrescentava o jornal: “Não devem esquecer, os revolucionários triunfantes, que, enquanto os partidos dominarem, aberta ou encapotadamente” iriam persistir, dizia, os casos de corrupção e fraude, com perdas de dinheiro para o erário público.
Era dado todo o apoio das forças económicas ao golpe, com forte peso da ACL, sublinhando a ideia anti-parlamentarista, mas, mais do que isso, anti-partidária, sinónimo de corrupção. Na noite de 7 de Junho, reunida em assembleia, a ACL apoia de forma incondicional o golpe, oferecendo a sua colaboração. E, no simbólico dia 10 de Junho, reúne-se a Junta Central da UIE, oferecendo o seu apoio ao Governo, afirmando que “a UIE não quer senão boa administração, ordem, liberdade de trabalho e aproveitamento máximo dos valores sociais que formam a reserva produtora do País”.
António de Oliveira Salazar faz a sua estreia como ministro da Finanças, e o Tenente-Coronel Passos e Sousa assume a pasta do comércio. No mesmo dia, este último tem ainda a oportunidade de participar no 92º aniversário da ACL. Aqui, afirma-se que “fora assim que a Associação Comercial, levando os seus protestos a toda a província, conseguira fazer o ambiente propício ao movimento de salvação que acabava de sair vitorioso”. Cumprido o seu objectivo, a UIE acabaria por ser oficialmente extinta em 1937, já com Estado Novo de Oliveira Salazar fortemente estabelecido no país. 

Principais fontes e bilbiografia:

Jornal O Século, 1 de Janeiro de 1924 a 16 de Junho de 1926; Livro de actas da Associação Comercial de Lisboa, 1924 – 1926; Relatórios da Associação Comercial de Lisboa de 1923 a 1926. 
FRANÇA, José-Augusto, «Os anos 20 em Portugal»; História de Portugal, direcção de José Mattoso; TELO, António José. As associações patronais e o fim da República, in «O fascismo em Portugal»; TRINDADE, Luís, «História da Associação Comercial de Lisboa»


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146 Anos da Comuna de Paris


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A Comuna de Paris (18 de Março/28 de Maio de 1871) foi a primeira revolução em que classe operária partiu “ao assalto dos céus”(Marx) por reconhecidamente ser a única que era capaz de iniciativa social e política.
A Comuna de Paris não aparece por geração espontânea. As suas raízes históricas mais próximas encontram-se na Revolução Francesa, nos seus episódios mais decisivos como a Tomada das Tulherias, o fim da monarquia, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, preâmbulo da nova Constituição. É a herdeira política da ala mais radical dirigida por Robespierre que acaba guilhotinado pelos conjurados corruptos do Thermidor. Mas também na Conspiração para a Igualdade (1796) de Babeuf. Na insurreição de 1848, afogada num banho de sangue que se propagou pela Europa no ficou conhecido pela Primavera dos Povos. Uma longa linha de lutas e insurreições operárias no séc. XIX. Será a última desse século, a primeira a triunfar, mesmo que por um pequeno lapso de tempo, em que, se ergueram em simultâneo as bandeiras do patriotismo e do internacionalismo. Um marco histórico para as revoluções que lhe sucederam, nomeadamente a Revolução de Outubro. Foi a primeira revolução socialista da história da humanidade.
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História da Comuna de Paris
Paris vivia situação turbulenta depois de Napoleão III ter assinado a rendição na guerra entre a França e a Prússia. A revolta era generalizada. Os operários franceses que viviam sob duras condições de trabalho se já não concordavam com a rendição da França mais revoltados ficaram quando o governo, para resolver os custos da guerra, lançou novos impostos sobre os trabalhadores para solucionar os problemas das dívidas contraídas.
A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por operários, a que se juntaram milícias populares de cidadãos e soldados que se amotinaram. Um governo revolucionário foi organizado na base de comités de bairro que elegeram um Comité Central, onde figuravam representantes da Federação dos Bairros, blanquistas, proudhonistas, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, por impulso de Karl Marx. Confluíam várias tendências políticas dos socialistas aos anarquistas, proletariado e pequena burguesia, artistas e escritores. O vácuo político deixado pelo governo que, impotente para conter a revolta, tinha fugido para Versalhes, foi ocupado pelos revolucionários.
A Comuna foi proclamada. A seu primeiro édito é esclarecedor: “a abolição do sistema de escravidão do salário de uma vez por todas”. O sistema eleitoral sofreu uma viragem radical. A democracia directa foi instituída em todos os níveis da administração pública. A polícia foi abolida e substituída pela Guarda Nacional. A educação foi secularizada, a previdência social foi instituída. O poder da burguesia foi posto em causa. O alarme na Europa não podia ser maior.
O governo de Thiers, depois de ter sido humilhado pela Prússia com a coroação do imperador Guilherme II no palácio de Versalhes, negociou com o Império Alemão a libertação dos soldados franceses para recompor o exército e atacar Paris. A desproporção de forças não podia ser maior. 100 000 soldados a mando de Versalhes contra 18 000 milicianos da Comuna. A cidade, apesar de heroicamente defendida, foi tomada de assalto. A repressão que se seguiu foi de uma imensa brutalidade, como tem sido sempre, ontem e hoje, contra quem ousa afrontar mesmo pelo uso do voto o poder instituído, como se assistiu no Chile ou quando na Indonésia, Suharto massacrou um milhão de militantes comunistas que ameaçam vencer as eleições.
REPRESSÃO1
20 000 comunards foram imediatamente executados. 40 000 foram presos, torturados e executados. Esses eram os considerados “contumazes” pelos Conselhos de Guerra de Versalhes que julgaram e condenaram 13 450 cidadãos. Contam-se nos autos 80 crianças, 1320 mulheres, 12 050 homens. O número de mortos às mãos do governo de Thiers é calculado em 80 000.
A Comuna de Paris acabou por ser uma causa desesperada. Uma causa indispensável na luta de massas pelo que se aprendeu para lutas futuras. Os canalhas burgueses de Versalhes colocaram os Parisienses perante uma alternativa: ou respondiam ao desafio ou sucumbiam sem combate. Neste último caso, a desmoralização da classe operária seria uma desgraça maior que a perda de um qualquer número dos seus chefes (Marx /Guerra Civil em França)
 Apontar para o Futuro
Pela primeira vez na História da Humanidade, simples operários ousaram tomar nas suas mãos os privilégios dos que se julgam seus “superiores naturais”. Ousaram formar com os seus iguais, o seu próprio governo. É admirável a actividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas, que os governos nos dois séculos anteriores. Era o ímpeto revolucionário de corte radical com o passado, o triunfo dos sans-culotes sobre os jacobinos que os tinham traído na Revolução Francesa.
Enumerar os principais decretos da Comuna de Paris é revelador do que era novo porque, como escreveu Rimbaud, “é preciso ser resolutamente moderno, aguentar o passo dado”. A Comuna não recuou em muitos passos para o futuro ainda hoje actuais. O trabalho nocturno foi abolido; oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas; residências vazias foram desapropriadas e ocupadas; todos os descontos em salário foram abolidos; a jornada de trabalho foi reduzida, chegou-se a propor a jornada de oito horas; os sindicatos foram legalizados; instituiu-se a igualdade entre os sexos; projectou-se a autogestão das fábricas; o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos; testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos; o casamento foi simplificado, tornou-se gratuito; a pena de morte foi abolida; o cargo de juiz tornou-se electivo; o Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser propriedade do Estado; a educação tornou-se gratuita, laica e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de frequência mista;
COMUNICDO COMUNAa Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade; instituiu-se um escritório central de imprensa; o serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos; todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos; traçou-se um plano para a rotação de trabalhadores; organizou-se uma Escola Nacional de Serviço Público; os artistas passaram a autogestionar os teatros e editoras; o salário dos professores foi duplicado; o internacionalismo foi posto em prática: o fato de ser estrangeiro não era irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, polacos, húngaros, que defenderam mais patrioticamente a França que os vendidos aos interesses particulares na esteira do bispo Cauchon que entregou Joana D’Arc aos ingleses ou dos que actualmente rastejam às ordens do grande capital sem pátria.
Ensinamentos para Hoje e Amanhã
A Comuna tem um papel de relevo na elaboração da teoria revolucionária em Marx, Engels e Lenine. O ensaio de Marx, A Guerra Civil em França, é um livro maior. O texto de Marx, tem a particularidade de depois de, em 1870, ter feito vários avisos à classe operária sobre os perigos de acções prematuras, evidenciar um enorme entusiasmo com a Comuna sem deixar de criticar os seus erros, as suas fragilidades. Ao analisar as debilidades políticas da direcção comunard não coloca em causa a Comuna. O seu objectivo é retirar lições da derrota para robustecer a resistência, as futuras revoluções. Via nessa experiência histórica um alcance imenso.
“Seria evidentemente muito cómodo fazer história se só se devesse travar a luta em condições infalivelmente favoráveis (…) Graças ao combate travado em Paris a luta da classe operária contra a classe capitalista e o seu Estado capitalista entrou numa fase nova (…) Qualquer que seja a maneira como as coisas aconteçam no imediato será um ponto de partida de importância histórica mundial.” (…) “Um passo em frente da revolução proletária universal, um passo real, bem mais importante que centenas de programas e de raciocínios” Marx, livro citado.
Em 1917 com a Revolução de Outubro em marcha, Lenine escreve O Estado e a Revolução, ensaio central na sua vasta obra política. A Comuna de Paris, os textos de Marx são o ponto de partida para as suas teses sobre a natureza de um Estado Socialista, em que não basta apoderar-se do Estado e fazê-lo funcionar para os seus próprios fins. Exige-se a sua transformação impondo a democracia proletária (ditadura do proletariado) contra a democracia burguesa (ditadura da burguesia). Democracia burguesa que não hesita em recorrer à mais feroz repressão, quando a sente necessária para a sua sobrevivência. Em que, mesmo “na mais democrática das repúblicas, a mais ampla democracia representativa, nunca conseguirá eximir-se às consequências devastadoras que é a separação entre representantes e representados. Separados desde logo económica e socialmente, permite que os representantes manipulem os representados de acordo com os seus próprios interesses”.(O Estado e a Revolução, Lenine)  Na realidade, ontem como hoje, a liberdade não é igual entre todos. A liberdade de um trabalhador, por razões sociais e económicas, não é igual à de um capitalista, o que levou Orwell a considerar que “para sermos corrompidos pelo totalitarismo não é necessário viver num país totalitário”.
Essas as grandes lições da Comuna de Paris. Uma experiência revolucionária impar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. Uma chama de esperança revolucionária na longa história, feita de êxitos e fracassos, da luta pela transformação do mundo e da vida.
COMUNARDS
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