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sábado, 25 de março de 2017

O MUNDO PARA LÁ CAMINHA


poesia: António Garrochinho


Mitos e sinais das unhas


A unha, objeto de numerosas crenças, torna-se uma fonte de informações médicas e médico-legais.


Conforme as épocas e os meios, as unhas são longas ou curtas. Para os chineses, as unhas longas são sinal de distinção
No meio de um deserto de areias e rochas, a descoberta de uma mastaba, em 1964, na necrópole de Saqqarah, Egito, trouxe revelações surpreendentes. Ali estavam as tumbas de Niânkhkhnoum e Khnoumhotep, que viveram na V dinastia do antigo Império, em 2400 a.C. Segundo as inscrições nas paredes, os dois irmãos eram encarregados das manicures do faraó.
A descoberta comprova como, desde a mais remota Antigüidade, as unhas têm sido objeto de cuidados especiais. Presentes em rituais e diversas crenças ancestrais, as unhas também foram utilizadas em poções de amor ou receitas miraculosas, capazes de livrar os doentes de seus tormentos. Embora as fórmulas à base de unhas não constituam uma terapia comprovada, médicos e legistas atualmente recorrem a elas em busca de sinais do corpo. 
As Virtudes das Unhas
GEORGES ACHTEN COMPAROU A UNHA a um "semipêlo ignorado". Sua composição é próxima à dos pêlos e cabelos, mas há várias diferenças. Enquanto o cabelo sofre os caprichos de um ciclo evolutivo - os fios crescem, caem e perdem a cor -, a unha está submetida a um monótono crescimento. Seu surgimento se dá ao final do quarto mês de vida intra-uterina e, após o nascimento, a unha da mão cresce cerca de 1 mm a cada dez dias e a do pé, a metade disso. A velhice desacelera o crescimento, que finalmente se detém na morte, contrariando algumas idéias infundadas segundo as quais o tecido continua a crescer após a morte.
Todos os vertebrados superiores têm unhas. Nos pássaros e carnívoros, elas tornam-se garras, e nos ungulados como, por exemplo, os ruminantes, transformam-se em cascos. Apenas os homens e os primatas possuem unhas planas. Este apêndice desempenha várias funções. Ele protege a extremidade vulnerável dos dedos contra os choques e o frio e permite uma apreensão precisa dos objetos pequenos. A unha, considerada uma ferramenta, agarra, arranha, belisca mas, principalmente, assegura uma sensibilidade tátil. Quando pegamos um objeto, a unha detecta as informações táteis que permitem aos dedos ajustar sua pressão à natureza do objeto em questão. Na ausência da unha, dizemos que o dedo está cego. Um gesto simples como abotoar a roupa pode tornar-se tão desajeitado sem esse tecido que o resultado fica comprometido. Em tradições hoje abandonadas, as parteiras na Itália e na França afiavam a unha de um dos dedos polegares e a usavam para cortar o cordão dos recém-nascidos.
As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos
Poderes mágicos não eram atribuídos apenas ao pó do chifre dos rinocerontes. As virtudes conferidas aos restos de unhas também soam surpreendentes. Para males do estômago, reumatismos ou convulsões de uma criança, bastavam alguns restos de unhas e tudo ficava bem. A única dificuldade era conhecer o ritual, a posologia. Para impedir as convulsões de crianças, a prática mais disseminada consistia em enterrar ou queimar fragmentos de unha, ou reuni-los em um pequeno saco e colocá-lo sob o berço. Para um doente febril, havia, em toda a Europa, um único remédio: enterrar seus restos de unha em uma encruzilhada, de preferência à noite. Na Alemanha, para lutar contra problemas de estômago, cortavam-se e enterravam-se sob uma goteira 20 fragmentos das unhas das mãos e dos pés do doente. No sul da França, para fazer cessar as náuseas e os vômitos, fazia-se o paciente ingerir pó de unha.
De acordo com o médico francês Xavier Bichat (1771-1802), e também segundo o naturalista Jean-Baptiste Lamarck, seu contemporâneo, a unha é um "singular espaço anatômico que se presta a uma leitura filosófica", como relata Nicolas Postel-Vinay, escritor e médico que analisou a Anatomia Geral, de Bichat. Os antigos tratados de anatomia não eram apenas descritivos, mas, freqüentemente, ricos em digressões ideológicas. A Anatomia de Bichat estava marcada por uma filosofia vitalista, que tentava compreender as fronteiras da morte e da vida. Situada nas extremidades do corpo, a unha representava os limites de separação entre a vida e a morte, a civilização e a selvageria, o animal e o humano.
Em sua Anatomia Geral, Bichat consagra às unhas um artigo inserido na seção Épidermoïde. Segundo ele, a epiderme e as unhas são "espécies de corpos inorgânicos". O selvagem, o animal e o inorgânico são limites para a expressão do humano. A unha é um corpo "estranho", exterior à vida, uma marca que reflete a perspectiva vitalista, em que a vida se caracteriza por um movimento de expansão do simples ao complexo e do mole ao duro. Bichat constata que as unhas dos pés dos idosos tornam-se "extremamente grossas".
As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos
Bichat trata, em seguida, de outras questões, principalmente a da relação entre a unha e a sociabilidade humana. "Unha polida e cuidada, marca de decoro; unha em forma de garra, marca de animalidade." Algumas pessoas, entretanto, fazem do crescimento das unhas um ponto de honra, para satisfazer um desejo estético ou uma vontade de se diferenciar. Os chineses consideravam as unhas longas um sinal de elevada distinção: entre os mandarins, o comprimento das unhas simbolizava os esplendores da ociosidade e da preguiça.


Ainda hoje, os dançarinos balineses deixam crescer as unhas da mão esquerda. Com isso, provam que não precisam suportar o trabalho cotidiano no arrozal e que a sua arte basta para prover suas necessidades. Montesquieu observou em sua obra magistral, O Espírito das Leis, que "há vários lugares na Terra em que se deixa crescer as unhas para sinalizar que não se trabalha". Dois séculos mais tarde, alguns habitantes do Extremo Oriente ostentam unhas com quase 70 cm. O recorde mundial cabe a um indiano. Suas unhas da mão esquerda, cuidadosamente enroladas, têm um comprimento total de mais de 6 metros (ver foto ao lado).
Sob as unhas longas, a sujeira acumula-se facilmente. Quando não há higiene, diversos microrganismos podem se desenvolver. A sujeira acumulada sob a unha forma um meio que contém mofos, como o Aspergillus flavus e o Aspergillus parasiticus, dos quais muitas variedades produzem as aflatoxinas, substâncias tóxicas. Há também as micotoxinas, metabólitos de mofos, que estão entre os tóxicos naturais mais poderosos da Natureza. A manutenção das unhas é, portanto, vital.
Hora Marcada
Por muito tempo o dia consagrado ao cuidado das unhas foi escolhido segundo critérios precisos. Na França, cortar as unhas nos dias "em R" (mardi/terça-feira, mercredi/quarta-feira, vendredi/sexta-feira) trazia infortúnios e fazia crescer pequenas peles em torno da unha. Na Holanda, o cuidado às sextas-feiras provocava doenças; na Dinamarca, aparar uma unha no domingo traria aborrecimentos. Para os portugueses, o sábado era dia proibido, pois estava reservado para que o demônio cortasse as unhas. Se a data importava, o lugar também: na Antigüidade, era proibido cuidar das unhas a bordo de uma embarcação, sob pena de atrair tempestades.
As unhas freqüentemente entravam na composição de poções de amor ou para as dores dos apaixonados. Para ser eficazes, esses líquidos mágicos deveriam ser preparados de preferência às sextas-feiras, dia de Vênus. Segundo os anglo-saxões, para enamorar um homem bastava misturar uma colher de café de unhas a uma bebida e fazer o eleito beber, sem saber de sua composição. Desde a Idade Média, na França e na Inglaterra, as moças carregavam, como amuleto, as unhas de seus amados para "amarrá-los" pelo casamento.

Com o recurso adicional de sedução, desde a Antigüidade as mulheres embelezam suas unhas. Durante séculos, as moças elegantes poliram as unhas com a ajuda de uma fina poeira abrasiva, geralmente de pedra-pomes, e passaram diversas tinturas, em particular de hena, utilizada no Egito Antigo e ainda em moda no norte da África. Na América Central, até os anos 70, as prostitutas tinham unhas coloridas e ornadas com motivos decorativos.
O esmalte de unhas só foi descoberto nos anos 20, em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Sua produção se deu a partir da nitrocelulose, um explosivo obtido ao se fazer as fibras de celulose, obtidas do algodão ou da madeira, reagirem em uma solução concentrada de ácido nítrico. Após a ebulição, a nitrocelulose torna-se solúvel nos solventes orgânicos e, depois da evaporação, deposita-se em uma película dura e brilhante, chamada de laca. Em 1930, Charles Revson teve a idéia de utilizar pigmentos opacos para colorir esta laca incolor e, em 1932, criou a Revlon.

Desde 1930, os esmaltes evoluíram, adquirindo as mais diversas cores e eliminando risco de alergia. Alguns deles são utilizados para tratamentos, já que atravessam a placa ungueal. Os esmaltes antifúngicos, por exemplo, combatem certas onicomicoses, doenças causadas por fungos que destroem a unha. Um esmalte de cortisona está sendo testado para combater a psoríase das unhas. Liberando medicamentos imunomoduladores, ele poderia agir sobre as verrugas que se desenvolvem sob a unha, eliminando-as sem soltar a placa, intervenção necessária hoje. Observar as unhas pode revelar características mais ou menos fundamentadas sobre as pessoas. Os elegantes as mantêm cuidadas e coloridas; os ansiosos costumam roê-las.
Unhas Reveladoras
DO EXAME DAS UNHAS E DE SUAS LESÕES, os médicos extraem informações confiáveis. Por exemplo, contrariando uma idéia disseminada, as manchas brancas não estão vinculadas à falta de cálcio, mas, às vezes, a uma carência de zinco. As manchas amarelas são freqüentes nas pessoas que fumam muito, mas também naquelas que seguem um longo tratamento antibiótico com ciclinas. Algumas unhas apresentam faixas negras como códigos de barras, que surgem em decorrência, por exemplo, de disfunções hormonais (uma insuficiência das glândulas supra-renais), da ingestão de certos medicamentos citotóxicos ou de tumores da matriz ungueal. A forma e a textura das unhas também fornecem indicações. Unhas convexas e sem brilho encontram-se às vezes em pessoas acometidas por uma doença cardíaca ou pulmonar crônica grave. Costuma-se dizer que unhas secas e frágeis resultam de falta de vitaminas A, B ou E ou de uma carência de cálcio, mas a suplementação, muitas vezes proposta, nem sempre é eficaz. Mas sabemos tratar de unhas côncavas, que assinalam um eventual déficit de ferro na criança.
O estudo da unhas é também uma fonte de informações em medicina legal e, mais especialmente, criminal. Vestígios de sangue ou de terra sob as unhas constituem indícios, da mesma forma que os arranhões que elas podem deixar. Certa vez, os policiais da Scotland Yard investigavam um desaparecimento. Eles só haviam encontrado uma unha no chão de uma adega londrina. Entraram em contato conosco e pediram nossa ajuda. Estabelecemos então que a unha pertencia a uma mulher, não em razão de sua forma, mas porque continha ferro. Nas mulheres que usam esmaltes coloridos, a queratina ungueal retém por mais tempo os óxidos de ferro presentes nos corantes. A análise toxicológica das unhas em medicina legal pode revelar os sinais nas unhas produzidos pelo envenenamento por arsênico: faixas brancas transversais em todas as unhas (as faixas de Mees).
Mas esse domínio, rico em promessas, ainda deve ser decifrado. Os resultados poderiam ser empregados na luta contra o doping, em que o exame das unhas fornece algumas informações. Pesquisadores britânicos desenvolveram uma técnica baseada na análise da extremidade livre das unhas dos dedos do pé que poderia evidenciar, antes de uma competição, traços de produtos ilícitos dopantes, como a testosterona e a preguenolona, mais de um ano após seu emprego (a renovação de uma unha do dedo do pé ocorre entre 12 e 18 meses). Este método foi testado com êxito na busca por sinais de heroína ou de cânabis nos toxicômanos. A onicologia - a ciência das unhas - passou a ser uma realidade científica com crescentes possibilidades terapêuticas, tornando indispensável a inserção da semiologia das unhas no ensino e na prática médicos.

Mitos e sinais das unhas


Conforme as épocas e os meios, as unhas são longas ou curtas. Para os chineses, as unhas longas são sinal de distinção
No meio de um deserto de areias e rochas, a descoberta de uma mastaba, em 1964, na necrópole de Saqqarah, Egito, trouxe revelações surpreendentes. Ali estavam as tumbas de Niânkhkhnoum e Khnoumhotep, que viveram na V dinastia do antigo Império, em 2400 a.C. Segundo as inscrições nas paredes, os dois irmãos eram encarregados das manicures do faraó.

A descoberta comprova como, desde a mais remota Antigüidade, as unhas têm sido objeto de cuidados especiais. Presentes em rituais e diversas crenças ancestrais, as unhas também foram utilizadas em poções de amor ou receitas miraculosas, capazes de livrar os doentes de seus tormentos. Embora as fórmulas à base de unhas não constituam uma terapia comprovada, médicos e legistas atualmente recorrem a elas em busca de sinais do corpo.
As Virtudes das Unhas

GEORGES ACHTEN COMPAROU A UNHA a um "semipêlo ignorado". Sua composição é próxima à dos pêlos e cabelos, mas há várias diferenças. Enquanto o cabelo sofre os caprichos de um ciclo evolutivo - os fios crescem, caem e perdem a cor -, a unha está submetida a um monótono crescimento. Seu surgimento se dá ao final do quarto mês de vida intra-uterina e, após o nascimento, a unha da mão cresce cerca de 1 mm a cada dez dias e a do pé, a metade disso. A velhice desacelera o crescimento, que finalmente se detém na morte, contrariando algumas idéias infundadas segundo as quais o tecido continua a crescer após a morte.

Todos os vertebrados superiores têm unhas. Nos pássaros e carnívoros, elas tornam-se garras, e nos ungulados como, por exemplo, os ruminantes, transformam-se em cascos. Apenas os homens e os primatas possuem unhas planas. Este apêndice desempenha várias funções. Ele protege a extremidade vulnerável dos dedos contra os choques e o frio e permite uma apreensão precisa dos objetos pequenos. A unha, considerada uma ferramenta, agarra, arranha, belisca mas, principalmente, assegura uma sensibilidade tátil. Quando pegamos um objeto, a unha detecta as informações táteis que permitem aos dedos ajustar sua pressão à natureza do objeto em questão. Na ausência da unha, dizemos que o dedo está cego. Um gesto simples como abotoar a roupa pode tornar-se tão desajeitado sem esse tecido que o resultado fica comprometido. Em tradições hoje abandonadas, as parteiras na Itália e na França afiavam a unha de um dos dedos polegares e a usavam para cortar o cordão dos recém-nascidos.
As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos
Poderes mágicos não eram atribuídos apenas ao pó do chifre dos rinocerontes. As virtudes conferidas aos restos de unhas também soam surpreendentes. Para males do estômago, reumatismos ou convulsões de uma criança, bastavam alguns restos de unhas e tudo ficava bem. A única dificuldade era conhecer o ritual, a posologia. Para impedir as convulsões de crianças, a prática mais disseminada consistia em enterrar ou queimar fragmentos de unha, ou reuni-los em um pequeno saco e colocá-lo sob o berço. Para um doente febril, havia, em toda a Europa, um único remédio: enterrar seus restos de unha em uma encruzilhada, de preferência à noite. Na Alemanha, para lutar contra problemas de estômago, cortavam-se e enterravam-se sob uma goteira 20 fragmentos das unhas das mãos e dos pés do doente. No sul da França, para fazer cessar as náuseas e os vômitos, fazia-se o paciente ingerir pó de unha.

De acordo com o médico francês Xavier Bichat (1771-1802), e também segundo o naturalista Jean-Baptiste Lamarck, seu contemporâneo, a unha é um "singular espaço anatômico que se presta a uma leitura filosófica", como relata Nicolas Postel-Vinay, escritor e médico que analisou a Anatomia Geral, de Bichat. Os antigos tratados de anatomia não eram apenas descritivos, mas, freqüentemente, ricos em digressões ideológicas. A Anatomia de Bichat estava marcada por uma filosofia vitalista, que tentava compreender as fronteiras da morte e da vida. Situada nas extremidades do corpo, a unha representava os limites de separação entre a vida e a morte, a civilização e a selvageria, o animal e o humano.

Em sua Anatomia Geral, Bichat consagra às unhas um artigo inserido na seção Épidermoïde. Segundo ele, a epiderme e as unhas são "espécies de corpos inorgânicos". O selvagem, o animal e o inorgânico são limites para a expressão do humano. A unha é um corpo "estranho", exterior à vida, uma marca que reflete a perspectiva vitalista, em que a vida se caracteriza por um movimento de expansão do simples ao complexo e do mole ao duro. Bichat constata que as unhas dos pés dos idosos tornam-se "extremamente grossas".


As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos

Bichat trata, em seguida, de outras questões, principalmente a da relação entre a unha e a sociabilidade humana. "Unha polida e cuidada, marca de decoro; unha em forma de garra, marca de animalidade." Algumas pessoas, entretanto, fazem do crescimento das unhas um ponto de honra, para satisfazer um desejo estético ou uma vontade de se diferenciar. Os chineses consideravam as unhas longas um sinal de elevada distinção: entre os mandarins, o comprimento das unhas simbolizava os esplendores da ociosidade e da preguiça.
Ainda hoje, os dançarinos balineses deixam crescer as unhas da mão esquerda. Com isso, provam que não precisam suportar o trabalho cotidiano no arrozal e que a sua arte basta para prover suas necessidades. Montesquieu observou em sua obra magistral, O Espírito das Leis, que "há vários lugares na Terra em que se deixa crescer as unhas para sinalizar que não se trabalha". Dois séculos mais tarde, alguns habitantes do Extremo Oriente ostentam unhas com quase 70 cm. O recorde mundial cabe a um indiano. Suas unhas da mão esquerda, cuidadosamente enroladas, têm um comprimento total de mais de 6 metros (ver foto ao lado).

Sob as unhas longas, a sujeira acumula-se facilmente. Quando não há higiene, diversos microrganismos podem se desenvolver. A sujeira acumulada sob a unha forma um meio que contém mofos, como o Aspergillus flavus e o Aspergillus parasiticus, dos quais muitas variedades produzem as aflatoxinas, substâncias tóxicas. Há também as micotoxinas, metabólitos de mofos, que estão entre os tóxicos naturais mais poderosos da Natureza. A manutenção das unhas é, portanto, vital.

Hora Marcada

Por muito tempo o dia consagrado ao cuidado das unhas foi escolhido segundo critérios precisos. Na França, cortar as unhas nos dias "em R" (mardi/terça-feira, mercredi/quarta-feira, vendredi/sexta-feira) trazia infortúnios e fazia crescer pequenas peles em torno da unha. Na Holanda, o cuidado às sextas-feiras provocava doenças; na Dinamarca, aparar uma unha no domingo traria aborrecimentos. Para os portugueses, o sábado era dia proibido, pois estava reservado para que o demônio cortasse as unhas. Se a data importava, o lugar também: na Antigüidade, era proibido cuidar das unhas a bordo de uma embarcação, sob pena de atrair tempestades.

As unhas freqüentemente entravam na composição de poções de amor ou para as dores dos apaixonados. Para ser eficazes, esses líquidos mágicos deveriam ser preparados de preferência às sextas-feiras, dia de Vênus. Segundo os anglo-saxões, para enamorar um homem bastava misturar uma colher de café de unhas a uma bebida e fazer o eleito beber, sem saber de sua composição. Desde a Idade Média, na França e na Inglaterra, as moças carregavam, como amuleto, as unhas de seus amados para "amarrá-los" pelo casamento.
Com o recurso adicional de sedução, desde a Antigüidade as mulheres embelezam suas unhas. Durante séculos, as moças elegantes poliram as unhas com a ajuda de uma fina poeira abrasiva, geralmente de pedra-pomes, e passaram diversas tinturas, em particular de hena, utilizada no Egito Antigo e ainda em moda no norte da África. Na América Central, até os anos 70, as prostitutas tinham unhas coloridas e ornadas com motivos decorativos.

O esmalte de unhas só foi descoberto nos anos 20, em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Sua produção se deu a partir da nitrocelulose, um explosivo obtido ao se fazer as fibras de celulose, obtidas do algodão ou da madeira, reagirem em uma solução concentrada de ácido nítrico. Após a ebulição, a nitrocelulose torna-se solúvel nos solventes orgânicos e, depois da evaporação, deposita-se em uma película dura e brilhante, chamada de laca. Em 1930, Charles Revson teve a idéia de utilizar pigmentos opacos para colorir esta laca incolor e, em 1932, criou a Revlon.


Desde 1930, os esmaltes evoluíram, adquirindo as mais diversas cores e eliminando risco de alergia. Alguns deles são utilizados para tratamentos, já que atravessam a placa ungueal. Os esmaltes antifúngicos, por exemplo, combatem certas onicomicoses, doenças causadas por fungos que destroem a unha. Um esmalte de cortisona está sendo testado para combater a psoríase das unhas. Liberando medicamentos imunomoduladores, ele poderia agir sobre as verrugas que se desenvolvem sob a unha, eliminando-as sem soltar a placa, intervenção necessária hoje. Observar as unhas pode revelar características mais ou menos fundamentadas sobre as pessoas. Os elegantes as mantêm cuidadas e coloridas; os ansiosos costumam roê-las.

Unhas Reveladoras


DO EXAME DAS UNHAS E DE SUAS LESÕES, os médicos extraem informações confiáveis. Por exemplo, contrariando uma idéia disseminada, as manchas brancas não estão vinculadas à falta de cálcio, mas, às vezes, a uma carência de zinco. As manchas amarelas são freqüentes nas pessoas que fumam muito, mas também naquelas que seguem um longo tratamento antibiótico com ciclinas. Algumas unhas apresentam faixas negras como códigos de barras, que surgem em decorrência, por exemplo, de disfunções hormonais (uma insuficiência das glândulas supra-renais), da ingestão de certos medicamentos citotóxicos ou de tumores da matriz ungueal. A forma e a textura das unhas também fornecem indicações. Unhas convexas e sem brilho encontram-se às vezes em pessoas acometidas por uma doença cardíaca ou pulmonar crônica grave. Costuma-se dizer que unhas secas e frágeis resultam de falta de vitaminas A, B ou E ou de uma carência de cálcio, mas a suplementação, muitas vezes proposta, nem sempre é eficaz. Mas sabemos tratar de unhas côncavas, que assinalam um eventual déficit de ferro na criança.
O estudo da unhas é também uma fonte de informações em medicina legal e, mais especialmente, criminal. Vestígios de sangue ou de terra sob as unhas constituem indícios, da mesma forma que os arranhões que elas podem deixar. Certa vez, os policiais da Scotland Yard investigavam um desaparecimento. Eles só haviam encontrado uma unha no chão de uma adega londrina. Entraram em contato conosco e pediram nossa ajuda. Estabelecemos então que a unha pertencia a uma mulher, não em razão de sua forma, mas porque continha ferro. Nas mulheres que usam esmaltes coloridos, a queratina ungueal retém por mais tempo os óxidos de ferro presentes nos corantes. A análise toxicológica das unhas em medicina legal pode revelar os sinais nas unhas produzidos pelo envenenamento por arsênico: faixas brancas transversais em todas as unhas (as faixas de Mees).


Mas esse domínio, rico em promessas, ainda deve ser decifrado. Os resultados poderiam ser empregados na luta contra o doping, em que o exame das unhas fornece algumas informações. Pesquisadores britânicos desenvolveram uma técnica baseada na análise da extremidade livre das unhas dos dedos do pé que poderia evidenciar, antes de uma competição, traços de produtos ilícitos dopantes, como a testosterona e a preguenolona, mais de um ano após seu emprego (a renovação de uma unha do dedo do pé ocorre entre 12 e 18 meses). Este método foi testado com êxito na busca por sinais de heroína ou de cânabis nos toxicômanos. A onicologia - a ciência das unhas - passou a ser uma realidade científica com crescentes possibilidades terapêuticas, tornando indispensável a inserção da semiologia das unhas no ensino e na prática médicos.
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MILUNKA SAVIC FOI A MULHER SÉRVIA MAIS CONDECORADA MAS TERMINOU FAZENDO LIMPEZA NUM BANCO

Não sei quantas vezes já repeti isso, mas não me cansarei de fazer: - "Ser mulher ao longo da história foi uma profissão de risco.". Esta é a história de Milunka Savic, uma mulher que nasceu no povoado de Koprivnica, na Sérvia, hoje território croata, em 1889. Ela lutou nas guerras dos Bálcãs e na Primeira Guerra Mundial. Ferida em nove ocasiões, Milunka foi a mulher mais condecorada na história das guerras, e, não obstante, terminou a vida como senhora da limpeza em um banco.

Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
A juventude de Milunka é uma incógnita, ninguém sabe nada. Ela só apareceu em 1913, com 24 anos, quando seu irmão caçula foi chamado para se juntar as filas para lutar contra a Bulgária na Segunda Guerra dos Bálcãs. Como era seu irmão menor, ela não ia permitir que nada lhe ocorresse e decidiu ocupar seu lugar.

A jovem cortou o cabelo, vestiu-se com roupas de homens e apresentou-se com o nome de seu irmão. Poucas semanas depois de seu alistamento, e sem nem tempo para pensar na encrenca onde tinha se metido, entrou em combate contra os búlgaros na Batalha de Bregalnica (atual Macedônia) onde recebeu sua primeira medalha por bravura e sua primeira ferida de guerra.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Milunka foi levada a um hospital e, logicamente, descobriram que era uma mulher. Quando seu oficial foi informado do engano, decidiu perdoá-la pelo valor mostrado no campo de batalha e disse que ela podia seguir carreira como enfermeira, se quisesse. Milunka fez questão de dizer que só serviria a sua pátria lutando na frente. Para dar uma lição naquela jovenzinha teimosa, seu superior disse que iria pensar antes de tomar uma decisão e que voltasse no dia seguinte. Mas Milunka não ia ceder, e colocando-se em posição de "sentido" disse:
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
- "Eu aguardo aqui mesmo senhor!" E ali permaneceu nessa posição. Depois de uma hora o oficial foi dar uma olhada e lá estava a marrenta no mesmo lugar; duas horas, do mesmo jeito e sem piscar. Na quarta hora, vendo que a pertinaz não ia ceder, ordenou-lhe que voltasse à frente com sua divisão de infantaria.

Durante 5 anos não teria trégua para Sérvia nem para a sargento Milunka, e ainda não tinha decorrido um ano da derrota dos búlgaros nas Guerras Bálcãs quando estourou a Primeira Guerra Mundial e Milunka seguiria demonstrando seu brio.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Em dezembro de 1914, na Batalha de Kolubara, os sérvios derrotaram às forças do Império austro-húngaro e nossa protagonista foi ferida com estilhaços de uma metralhadora e acabou recebendo a Ordem da Estrela de Karadjordje, a mais alta condecoração civil e militar outorgada pelo Reino da Sérvia. E não seria a única ocasião, pois em 1916 voltou à receber por capturar ela sozinha 23 soldados inimigos no rio Crna.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Apesar destes episódios bem sucedidos, a guerra não ia bem e o exército sérvio se viu obrigado a se retirar e evacuar os civis. Na retirada para a costa tiveram que suportar os contínuos ataques das forças austro-húngaras e uma penosa travessia pelas montanhas nevadas atravessando Montenegro, Kosovo e Albânia. Desde a costa foram evacuados por barcos franceses e britânicos até a ilha de Corfu, onde fizeram o balanço da situação: proteger dezenas de milhares de civis naquela travessia tinha custado muitas baixas ao exército sérvio e 7 ferimentos em Milunka.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Em Corfu reagruparam o exército sérvio que se uniu aos franceses para seguir lutando. A fama de Milunka entre os soldados aliados foi crescendo dia a dia, à mesma velocidade que as condecorações recebidas: duas da Legião de Honra de França, uma Ordem imperial e militar de São Jorge russa, uma Ordem de São Miguel e São Jorge britânica e a Cruz de Guerra Francesa (a única mulher da Primeira Guerra Mundial).
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Após a guerra Milunka Savic recusou uma oferta do governo francês para instalar-se em Paris, além de uma substancial pensão, para voltar a sua terra natal onde se casou e teve uma filha. Divorciada pouco tempo depois e esquecida por seu país, teve que subsistir trabalhando onde podia.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Ainda assim, apesar de suas dificuldades econômicas, adotou três meninas órfãs de guerra. Em 1927 encontrou um trabalho estável como zeladora de um banco de Belgrado. Quando as coisas começavam a funcionar, e que tinha sido "promovida" a intendente do escritório do diretor, estourou a Segunda Guerra Mundial. Durante a ocupação alemã na Sérvia ela ficou presa no campo de concentração de Banjica por colaborar com a resistência. Conseguiu sobreviver no campo e, mais uma vez, a outra guerra.
Milunka Savic, a mulher mais condecorada da história que terminou a vida como senhora da limpeza
Logo depois da guerra, recebeu um "reconhecimento" do governo sérvio em forma de uma pequena pensão, mas que não lhe permitiu abandonar sua velha casa, quase em ruínas, em que vivia com suas três filhas pequenas. Ela teve que esperar vários anos ainda, e graças à pressão da opinião pública e outros veteranos de guerra, para que o governo, dada sua difícil situação, lhe concedesse um apartamento. Milunka morreu em Belgrado, em 5 de outubro de 1973, com 84 anos e foi enterrada com honras militares em Novo Groblje.


www.mdig.com.br

Alemanha vai encalhar navio no gelo por um ano na 'maior expedição científica ao Polo Norte'


Embarcação de pesquisa vai coletar dados para ajudar a melhorar modelos climáticos que preveem aquecimento da região

Uma em+preitada alemã está sendo consierada a maior pesquisa já planejada ao Ártico.
Um navio de pesquisa de 120 metros de comprimento, o Polarstern, deverá encalhar e flutuar pelo mar de gelo do Polo Norte. A viagem de 2.500 quilômetros começa em 2019 e deve durar um ano.
Pesquisadores esperam reunir informações sobre a região onde o clima vem mudando rapidamente. Mês passado, a extensão do gelo do Ártico foi a menor já registrada (durante a era dos satélites) para o mês de janeiro, com temperaturas vários graus acima da média de longo prazo.
"A redução do gelo do Ártico vem ocorrendo muito mais rapidamente do que os modelos climáticos podem prever, então precisamos de modelos melhores para ter previsões mais precisas para o futuro", disse o professor Markus Rex, que coordenará o chamado projeto MOSAiC.
"Há uma previsão de que em poucas décadas o Ártico não tenha gelo no verão. Esse seria um mundo diferente e precisamos saber disso antecipadamente; precisamos saber se isto vai ou não ocorrer".
Rex detalhou o plano durante o encontro anual da Associação Americana para Avanços da Ciência (AAAS, na sigla em inglês).
O pesquisador alemão do Instituto Alfred Wegener, em Bremerhaven, disse que a expedição custará 63 milhões de euros (R$ 207 mihões), dos quais a maior parte já está financiada, com contribuições de parceiros internacionais estratégicos. Reino Unido, Rússia, China e Estados Unidos estão entre eles.
A missão lembra a expedição do explorador norueguês Fridtjof Nansen que, por volta de 1890, foi o primeiro a chegar ao Polo Norte e flutuar pelo mar congelado.
Uma escuna chamada Tara também atravessou o oceano de gelo - das águas da Sibéria até o Estreito de Fram - da mesma maneira, há uma década.


Mas o Polarstern é uma enorme plataforma científica e sua lista de tarefas e objetivos faz os esforços anteriores na região parecerem pequenos.
"Estamos embarcando vários equipamentos: muitos contêineres com instrumentos de medição, sensores de uso remoto para serem instalados no local, disse Rex.
"Vamos coletar amostras de água, gelo e ar, além de instalar acampamentos no mar gelado próximo ao Polarstern e a até 20-30 quilômetros de distância. E toda a instalação vai ficar à deriva pelo Ártico. Isto vai nos dar novas e fascinantes informações sobre o sistema climático".
A equipe do MOSAiC planeja até instalar uma pista de decolagem para que um avião de pesquisa auxilie o Polarstern
Será uma expedição complicada para os cientistas envolvidos, especialmente durante meados do inverno, quando o Sol não surgirá no horizonte. Os pesquisadores também terão que estar alertas à aproximação de ursos polares predadores.
Mas o professor Rex disse que a empreitada é vital para a compreensão da região remota, destacando sua importância até para quem vive longe do Polo Norte.
"Um polo mais quente afetaria os padrões climáticos em latitudes médias (entre os trópicos e os polos Sul e Norte)", ele disse à BBC News.
"O aquecimento do Ártico signfica que o contraste existente entre o Polo Norte e nossas latitudes será reduzida no futuro. Isto significa que o ar gelado do Ártico poderá chegar às nossas latitudes, e o ar mais quente de latitudes baixas, ao Polo Norte. Isto certamente provocará um grande impacto no clima".
O Polarstern deverá ser posicionado no gelo marinho em meados de 2019, com a previsão de ser liberado um ano depois.


g1.globo.com

UMA MONTANHA NA INDONÉSIA COM UM RITUAL BIZARRO

Gunung Kemukus é uma montanha em Java, a principal ilha da Indonésia, que a cada 35 dias recebe muçulmanos de todo o país para participar de um ritual insólito.
O evento acontece em uma data auspiciosa segundo o ciclo Wetonan, que sobrepõe os cinco dias do antigo calendário javanês aos sete dias do calendário moderno (7×5=35).
Quando a escuridão cai no misterioso local, os peregrinos acendem velas e se sentam em esteiras ao redor das sagradas árvores dewadaru e das raízes retorcidas de enormes figueiras.
Na montanha “mágica”, há um túmulo no qual se acredita estarem guardados os restos mortais de um legendário príncipe e de sua amante.
Orações e flores dão início a ritual

Adultério em troca da boa sorte

“O jovem príncipe Pangeran Samodro fugiu com a rainha Nyai Ontrowulan, que era sua madastra”, conta Keontjoro Soeparno, psicólogo social da Universidad Gadjah Mada em Yogyakartax, na Indonésia.
“Eles se esconderam em Gunung Kemukus.”
Até o dia em que, flagrados durante uma relação sexual, foram assassinados e enterrados no cume da montanha.
Os peregrinos acreditam, assim, que se cometerem adultério nesse local serão “abençoados com boa sorte”, explica Seoparno, que estudou o ritual durante 30 anos.
Por isso, Gunung Kemukus é também conhecida como a “montanha do sexo”.

Evento acontece em data auspiciosa segundo ciclo Wetonan

Regras do jogo

O ritual começa com orações e oferendas de flores ao túmulo de Pangeran Samodro e Nyai Ontrowulan.
Em determinado momento, os peregrinos devem banhar-se em um dos dois riachos sagrados da montanha. E, em seguida, fazer sexo com uma pessoa desconhecida.
“Para receber bênçãos e dinheiro, é preciso fazer sexo com alguém que não seja seu marido ou mulher. Tem de ser alguém que você não conheça”, destaca Soeparno.
“Além disso, deve ser em Juman Pon (quando a sexta-feira coincide com Pon, um dos cinco dias do calendário javanês). A relação sexual tem de acontecer a cada 35 dias sete vezes consecutivas, de forma que dure em torno de um ano”, explica.
“Se por algum acaso não seja possível completar as sete vezes, é preciso começar tudo de novo. Essa é a parte difícil, especialmente para quem não é tão jovem.”
“O compromisso entre os dois é muito significativo: eles têm de trocar telefones e endereços, e combinar aonde vão se encontrar da próxima vez.”

Comida e teto

As noites mais concorridas podem reunir até 8 mil peregrinos.
“A maioria é dona de pequenos negócios. Eles esperam que, se completarem o ritual, suas vendas vão melhorar, vão ganhar muito dinheiro e terão muito sucesso”, afirma Soeparno.
Desde a década de 90, a montanha ganhou uma pequena infraestrutura para acomodar a multidão.
Além do santuário, há um restaurante onde é possível comprar chá, macarrão e amendoim. Na parte de trás dele, é possível alugar um dos dois pequenos quartos.
Vejo uma mulher de véu e um homem, ambos com cerca de 50 anos, sumindo atrás de uma cortina para completar o ritual em um dos quartos. Ao tentar entrevistá-los, eles fogem, e a dona se aproxima para pedir que deixemos o local.
Casais se encontram debaixo de figueiras

“O que acontece é que eles só estão juntos aqui na montanha. Se aparecerem na TV e seus respectivos cônjuges souberem disso, terão problemas. Aconteceu isso antes com o ex-proprietário desse restaurante: um homem apareceu na TV falando com uma mulher em uma noite e seus familiares o viram. A família ficou arrasada e o casal se divorciou”, afirmou.
Anteriormente, os casais faziam sexo ao ar livre, mas depois começaram a alugar quartos por valores irrisórios.

Em segredo

Dentro do santuário, Pak Slamat está lendo o Alcorão. Quando terminar, vai procurar uma amante.
“Aqui há muitas pessoas que te dizem que funciona, que antes de vir aqui seu negócio não estava dando certo e depois se recuperou. Deve ser controlado por Alá (Deus). Não há ninguém maior do que Alá”, afirma.
“Se vejo uma mulher que esteja disponível, me aproximo dela. Não ligo só para a aparência. O que vem de dentro é o mais importante. Já que estamos fazendo sexo com um objetivo, nossa motivação interna deve ser a mesma”, acrescenta.
Pak Slamat é casado e tem três filhos. Sua mulher não sabe onde ele está – ela acredita que ele esteja na mesquita, rezando.
“Ela não teria permitido que eu viesse para cá, mas o importante é que eu estou fazendo isso pelo bem dos negócios.”
Milhares chegam sozinhos em busca de um acompanhante. Os que estão no meio do ritual devem encontrar o(a) mesmo(a) acompanhante das vezes anteriores.

Sem laços

No santuário também está Ibu Winda, uma mulher de 60 anos vestida com uma blusa flourida dourada, uma minissaia curta, meias de prata e uma jaqueta de couro. Ela ostenta um batom vermelho brilhante e seu rosto está todo maquiado.
“Tenho quatro filhos, além dos netos. Se meu marido me pergunta, digo que estou trabalhando para meu negócio funcionar bem. Se eu lhe dissesse que viria a Kemukus, ele não me permitiria vir”, diz ela.
Nos últimos dez anos, Winda, que tem uma barraca de frutas no povoado onde mora, vem à “montanha do sexo” para se encontrar com o mesmo homem.
“Ele me disse que se ficasse com ele por pelo menos três anos, me levaria a Meca (Arábia Saudita) para fazer a peregrinação do Hajj (a maior importante do Islã). Ele chegou, inclusive, a vir me buscar no meu povoado. Mas eu tenho uma família, por isso só falamos por telefone. Quando viemos aqui, nos comportamos como marido e mulher”, diz.
“Desde que comecei a vir com ele, meus negócios vão de vento em popa. Bendito seja Alá”, completa.
Ritual remonta a adultério de príncipe com madrasta

Mistura javanesa

Mulheres com véus e outras com pouca roupa se misturam a homens de meia idade. Eles vão formando pares, ora debaixo de árvores ou dos bares de karaokê.
O ritual, porém, não é uma prática do Islã.
Na verdade, restringe-se à Indonésia, e trata-se de uma mescla de tradições religiosas com influências islâmicas, hindus, budistas e animistas conhecido popularmente como kejawen.
Nos últimos anos, com o país caminhando rumo ao Islamismo mais ortodoxo, o governo local vem tentando encorajar uma versão mais “familiar” do evento, mais afinada aos preceitos do Islã.
As autoridades preferiam que o aspecto sexual do ritual fosse negligenciado, mas não decidiram proibi-lo.
“Esse é um lugar de turismo religioso; a religião é formada por crenças e tradições, incluindo as de nossos ancestrais”, diz M. Suparno, coordenador de turismo de Gunung Kemukus.

Passagem do tempo

Até os anos 80, não havia nem restaurantes nem bares na “montanha do sexo”. Só árvores.
Mas na década seguinte, Gunung Kemukus desenvolveu, inclusive, uma “zona vermelha”.
Na medida em que a noite avança, as pessoas se dirigem aos bares de karaokê que se localizam ao longo dos becos perto do santuário e do túmulo. Em um deles, seis homens estão em um sofá vendo uma mulher cantar e dançar de uma maneira muito sexual.
“Costumava ser diferente. As pessoas realmente tinham relações sexuais ao ar livre. Mas o governo local decidiu que isso não era uma boa ideia e instalou cabanas de bambu. Como resultado, a prostituição tomou conta”, diz Soeparno.
O professor calcula que cerca da metade das mulheres que vão à montanha são trabalhadoras do sexo.
Montanha fica a 28 km a nordeste da cidade de Solo, um dos redutos mais radicais da Indonésia

Ritual valioso

Em todo o caso, o santuário tornou-se muito valioso em outro sentido.
Os aldeãos locais começaram a cobrar por cada veículo que entrava na área. O governo local, por sua vez, cobrava taxas tanto dos peregrinos quanto dos proprietários dos restaurantes e quartos.
Com o aumento da popularidade do ritual, o departamento de turismo passou a ganhar cada vez mais dinheiro.
Em 2014, as autoridades abriram uma clínica especializada em tratar doenças venéreas, distribuir preservativos e fazer testes de HIV.
“Quando uma tradição é praticada por tanto tempo, não é possível livrar-se dela. A prostituição brotou dessa tradição e pensei que necessitávamos de uma clínica para lidar com as consequências. Assim, podemos tornar algo negativo em positivo”, indica Mohammad Rahmat, que trabalha para o governo local.

Resultados

Na “montanha do sexo”, existem várias maneiras para que alcançar a “meta”.
Mulheres como Dian não têm muito problema.
Com um pano rosa na cabeça e jeans, está cercada por um grupo de homens em jaquetas de couro em meio a nuvem de fumaça.
Dian já completou seu ritual, mas voltou ao local para agradecer.
“Vim porque no passado minha vida era muito difícil”, diz.
“Meu marido me deixou e tenho três filhos, dois adotados e um nosso”, acrescenta.
“Meus amigos me disseram que minha vida ficaria mais fácil se viesse aqui. E depois de cumprir o ritual, muitas coisas mudaram. Sinto que agora tudo está realmente mais fácil; não é como antes. O resultado foi positivo”, conclui.
via BBC


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