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quarta-feira, 1 de março de 2017

lá por ser legal....


AS FRONTEIRAS DO PODER JUDICIAL







A acusação formal do Vice-Presidente de Angola pelo Ministério Público português, num caso de corrupção, suscitou-me algumas reflexões que gostaria de partilhar com o leitor. Porque, na verdade, o caso me pareceu politicamente muito complexo e delicado!

João de Almeida Santos – Jornal Tornado, editorial

Em particular, pelos efeitos que está a provocar no sistema de poder angolano, quando está em curso um processo eleitoral e uma complexa transição de poder, mas também nas relações bilaterais, tendo já causado a suspensão da visita da Ministra da Justiça a Angola e também, provavelmente, a do Primeiro-Ministro, António Costa.

E até me pareceu que seria legítimo pensar, pelo simbolismo e alcance da decisão, que o Ministério Público português acabou de assumir o poder de “declarar guerra” a um Estado estrangeiro soberano! Sim, porque Manuel Vicente é um cidadão estrangeiro, número dois do Estado angolano e, por isso, também detentor de imunidade diplomática, não se sabendo sequer qual o destino que terão as cartas rogatórias enviadas e não estando o alegado ilícito enquadrado no raio de acção do Tribunal Penal Internacional, dada a sua natureza! Temos, pois, neste caso, ingredientes mais do que suficientes para suscitar uma reflexão profunda sobre os limites da acção do Ministério Público (MP). Num registo muito claro e limitado: a acção e os seus efeitos sobre o sistema de poder angolano e sobre as relações entre os nossos dois países.


A justiça e a política

E, a este propósito, não pude deixar de recordar o desmantelamento do sistema político italiano, nos anos ’90, pelo Juiz Antonio di Pietro, que, mais tarde, teria de se retirar da política por motivos menos nobres. E confesso, vistas as consequências, que até tenho dúvidas se o que se seguiu melhorou o sistema de governo de Itália. E as incursões do Juiz espanhol Baltazar Garzón por terras do Chile, até cair em desgraça. Num assunto que, todavia, se enquadrava claramente no raio de acção do TPI. E também me lembro do grande paladino da verdade, o Procurador Ken Starr, que perseguiu o Presidente Bill Clinton até ao quase impeachment, por este, que era casado, não ter revelado publicamente que teve um “affaire” com a Senhora Lewinsky. E, mais recentemente, do Juiz Sérgio Moro, que divulgou um telefonema entre Lula da Silva e a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff (tendo, posteriormente, pedido desculpa por ter feito o que não devia). E dos processos a Sarkozy por financiamento partidário, acabando este afastado da corrida ao Eliseu. E, também, do processo em curso contra o candidato presidencial François Fillon (já em queda nas sondagens), que pode vir a ser acusado judicialmente por ter dado emprego (aparentemente injustificado) a sua mulher. E de Marine Le Pen que se recusa a depor durante o período eleitoral, num processo que envolve fundos partidários, por este interferir directamente nos destinos da República, em jogo nestas eleições. E a lista não teria fim. Parece que estamos, portanto, perante uma crescente interferência da justiça nos processos políticos, nacionais e internacionais, em largo espectro!

O caso

Um procurador português está acusado de ter arquivado um processo que visava Manuel Vicente – agora acusado formalmente pelo MP, enquanto corruptor -, a troco de dinheiro. Coisa grave, sem dúvida. A começar pelo próprio MP que, através de um dos seus, se vê envolvido em actos de corrupção. E a acabar em alguém que se encontra neste momento no vértice de um Estado soberano com quem Portugal tem relações muito estreitas. E é aqui que surge o problema e a dificuldade. Ou seja, o problema da relação entre meios e fins, entre causas e efeitos, quando a desproporção se torna gigantesca, colocando-se a questão da adequação de uns em relação aos outros. E quando os efeitos se tornam incomensuravelmente maiores do que as causas, como dizia François Furet a propósito dos efeitos da Grande Guerra sobre a história mundial. Pode haver pequenos gestos (que até sejam correctos) que, por conterem em si um grande potencial devastador, devam ser muito bem avaliados antes de serem praticados. Às vezes, o problema até se pode resolver com o bom-senso. Mas quando se trata de instituições do Estado é mesmo obrigatório introduzir sempre nos processos decisionais a variável “consequências” (sobre a sociedade, sobre as gerações futuras ou sobre as relações internacionais). Porque, na verdade, alguns actos de normal e justificada administração podem induzir efeitos em boomerang tão intenso sobre o sistema que seja aconselhável evitá-los ou tratá-los com o maior cuidado. No caso do Vice-Presidente de Angola, os autores da acusação formal e a hierarquia do Ministério Público calcularam os efeitos devastadores que esta acusação formal – e a correspondente divulgação – poderia ter? Angola é um Estado soberano e o acusado é a segunda figura deste Estado. Não poderia esta acção vir a ser considerada, como, de resto, já foi, um acto de agressão de Portugal a Angola, com todas as consequências que isso poderia ter, designadamente para as empresas e pessoas que estão estabelecidas neste país e para as relações ente dois Estados soberanos com tantos interesses comuns? O MP já tem o poder de “declarar guerra” a um Estado soberano, provocando efeitos infinitamente superiores à sua causa? Alguém diria: “É a política, estúpido!”. E com razão.

Estranhas coincidências!

O que não deixa de ser curioso é que Manuel Vicente é também atingido na Operação Marquês, por contactos mantidos com José Sócrates, ao mesmo tempo que é uma figura em queda no sistema de poder angolano, primeiro na Sonangol e, depois, na Presidência, uma vez que foi preterido em relação ao agora anunciado sucessor de José Eduardo dos Santos, João Lourenço. A pergunta maliciosa que ocorre fazer é a seguinte: com esta acusação não estará o Ministério Público português a interferir no processo de defenestração política de Manuel Vicente, em Angola? Se o visado fosse, por exemplo, João Lourenço o MP agiria nos mesmos moldes? E com que consequências? E esta acusação tem alguma relação simbólica com o desenlace da Operação Marquês (por via de Sócrates e de Ricardo Salgado)? Porquê, agora? O “Expresso” do passado Sábado dá-nos bem conta dos efeitos desestabilizadores que esta acção do MP está a ter numa Angola que se prepara para eleições, para uma profunda transição no poder e para novos reequilíbrios de poder.

De qualquer modo, e até por estas razões, este é um dos casos em que o efeito é certamente muito superior à causa e, por isso, deveria ter sido tratado com o necessário cuidado.

O papel da Procuradora-Geral da República

A pergunta que ocorre fazer é a seguinte: que papel tem neste processo a Senhora Procuradora-Geral da República (PGR), enquanto máxima responsável do Ministério Público e pessoa (formalmente) da confiança do poder político? Calculou os efeitos que esta acção do MP iria ter em Angola? É que pela natureza do cargo o PGR tem particulares responsabilidades na gestão de dossiers desta natureza, ou seja, de dossiers que implicam níveis mais elevados de poder institucional e mais ainda quando se trata de Estados estrangeiros. Não é por acaso que o PGR é proposto pelo Primeiro-Ministro, é nomeado pelo Presidente da República e não tem que ter requisitos formais iguais aos dos outros magistrados. Ou seja, em palavras muito claras, o PGR tem funções que ultrapassam em muito o plano meramente jurídico, devido à sua posição de charneira, de ligação e de interface do poder político com o poder judiciário. Mesmo que os seus poderes sejam limitados, o PGR tem certamente de estar em condições de, pelo menos, exercer uma responsável “magistratura de influência”! Caso contrário, verificar-se-á um injustificável desequilíbrio entre o seu estatuto e o seu efectivo poder! Por isso, se esta acção do MP for considerada como intempestiva e politicamente disruptiva, a Senhora Procuradora-Geral da República terá nisso a sua quota parte de responsabilidade. E, a ser assim, não deixará de haver quem já comece a sentir saudades dos tempos do PGR Cunha Rodrigues! Não se discute, de modo algum, que a justiça deva ser cega. Mas, certamente, existem bordões procedimentais que podem ajudar na escolha do caminho mais adequado…

Os media e a justiça

Este assunto chama a atenção uma vez mais – e é isso que aqui, no essencial, está em causa – para o poder excessivo que o poder judiciário está a exibir, e não só em Portugal. Este poder está a transformar-se cada vez mais numa sofisticada e eficaz arma de luta pelo poder (veja-se, por exemplo, o que está a acontecer hoje em França)! Sobretudo quando se verifica uma crescente personalização da política e, por isso, uma mais fácil imputabilidade (ética e jurídica) de quem detém o poder. E, neste processo, o establishment mediático tem-se constituído como parte activa, tornando-se ele próprio sujeito de investigações muito pouco claras quanto aos fins. Um ministro ameaça com as suas decisões a posição de um canal televisivo, põem 15 ou 20 jornalistas a investigar a sua vida e, depois, com resultados à mão, julgam-no em prime time, ao mesmo tempo que accionam um processo judicial. Chama-se a isto jornalismo de investigação. Que tanto pode ser honesto como desonesto, não esquecendo que os media se comportam como um poder, desde os tempos remotos do Tocqueville de “Da democracia na América”. Os casos abundam, para um lado e para o outro. Mas uma coisa é certa: as garantias (jurídicas) que ao longo dos séculos foram penosamente conseguidas, caem como castelos de cartas perante esta novíssima forma de “administração da justiça”! Os casos são cada vez mais frequentes. Acresce, ainda, que se tem vindo a verificar uma promiscuidade absolutamente intolerável entre o poder judiciário e o establishment mediático na gestão dos processos. O mais conhecido é o do ex-Primeiro-Ministro José Sócrates, com a divulgação ao minuto das peças processuais obtidas por assistentes ao processo que continuam a desempenhar as funções de jornalistas sobre o mesmo processo onde são assistentes (ferindo o respectivo código ético [1]). O segredo de justiça já passou à história, ultrapassado que foi pelos factos. Não é, todavia, de hoje esta promiscuidade, havendo já uma vasta bibliografia sobre o assunto.

Separação de poderes?

Mais interessante ainda é a posição dos próprios agentes políticos sobre tudo isto. Em Portugal assobia-se para o lado, na esperança de que a vida pessoal não venha a ser investigada por jornalistas ou pelo Ministério Público, não compreendendo que, assim, já se está a agir sob coacção, aumentando o poder de quem subtilmente infunde medo. A fórmula é conhecida e já enjoa: “à política o que é da política, à justiça o que é da justiça”; e, já agora, “à imprensa o que é da imprensa”, enquanto, no mais indefinido dos critérios, tudo é considerado de “interesse público”. Muito bem, se a justiça e um certo jornalismo não estivessem cada vez mais a entrar no terreno da política, exorbitando claramente das competências e funções! É-se escutado e investigado, directa ou indirectamente, a pretexto de uma denúncia, que até pode ser anónima. Um modo cómodo e até agradável de investigar, sobretudo se for depois de jantar. O espectro de um big brother, que não é político, paira sobre a nossa frágil democracia. É certo que a separação de poderes é fundamental, mas também é certo que os poderes são separados, não sendo hierarquicamente iguais, e não podendo ser a separação válida num só sentido, a de quem tem o poder de escutar. Na verdade, enquanto a legitimidade do poder legislativo é de natureza, digamos, ontológica, a do poder judicial é de natureza meramente técnica. Só que esta tecnicidade, a que acresce autonomia plena, já se tornou verdadeiramente ontológica, tal foi o crescimento do seu poder invasivo junto dos outros poderes.

A anemia do poder político

A verdade é que por muitas outras razões – designadamente devido à globalização, à dependência dos mercados financeiros internacionais, a que se juntam as famosas agências de rating, à crise da representação, à personalização excessiva do poder e à natureza do novo espaço público – o poder político de natureza representativa está cada vez mais anémico. Mas também é verdade que os agentes políticos nada fazem para reverter a situação, deixando-se, por um lado, nas mãos dos populistas (como está a acontecer) e, por outro, nas mãos de outros poderes (designadamente mediático e judiciário) de que estão a ficar cada vez mais reféns. Até pelas fragilidades pessoais que uma boa parte das elites tem vindo a revelar perante a cidadania.

Tudo estaria bem se por detrás desta utopia interesseira e perigosa da transparência total não estivessem também interesses ocultos que se protegem iluminando com os holofotes de serviço os pecadores presentes no palco da política, ao mesmo tempo que favorecem aqueles que, nos bastidores, melhor sintonizam com as suas próprias estratégias e interesses.

Enfim

Regressando, pois, ao começo deste artigo, o caso de Angola levanta uma questão de fundo acerca dos limites da acção do Ministério Público, quando se verifique que ela se inscreve num claro quadro onde os efeitos superam em grande medida as causas, implicando dimensões que interferem directamente no funcionamento global do sistema social ou das relações internacionais. O que parece ser o caso de Angola: anulada a visita da Ministra da Justiça (por acaso de origem angolana), em causa a visita oficial do nosso PM a Angola para a resolução de urgentes problemas financeiros das empresas que lá operam, eleições presidenciais, transição do poder, complexos reajustamentos no sistema de poder angolano, etc., etc…

O poder judiciário tem o dever de se proteger a si próprio, porque quando assistirmos ao fim da sua própria credibilidade, depois da queda de credibilidade do sistema financeiro, o caminho ficará aberto para soluções onde todos temos a perder, incluído ele próprio. E os populismos estão a encontrar cada vez mais terreno fértil para a conquista de um poder que tenderá a não respeitar, esse sim, a separação de poderes!

[1] Cfr. Jornal Tornado, 31/10/2015 – “Assistente é alguém com interesse na condenação do arguido. Deixa de ser Jornalista“, por Dr. Tomaz de Albuquerque, Advogado


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EM 2004 HOMEM CONSTRUI TANQUE CASEIRO E QUIS DESTRUIR A CIDADE

O que você faz quando fica chateado com o governo? Publica um textão no Facebook? Em 2004 ainda não existia a rede social, então esse cara furioso de Granby, no estado americano do Colorado, decidiu equipar um grande trator, construir um tanque caseiro e sair pelas ruas destruindo propriedades do governo. Depois de anos de protestos, petições e reuniões, Marvin John Heemeyer sentiu que se tornara uma vítima da corrupção governamental. O soldador, foi obrigado a fechar sua oficina mecânica devido a alterações de zoneamento obscuras e assim perdeu a disputa legal.

Homem furioso fabricou um tanque caseiro e tentou destruir a cidade inteira
Eventualmente, ele foi forçado a desistir da disputa na justiça e teve que vender suas terras. Mas ele tinha um plano final para realizar sua vingança: Marvin se trancou em uma oficina secreta e equipou um velho trator de esteira Komatsu com placas de blindagem que combinavam concreto e várias folhas de aço para proteger a cabine e motor.
Homem furioso fabricou um tanque caseiro e tentou destruir a cidade inteira
Ademais equipou o veículo com várias armas, como rifles de e alto calibre em várias portes do tanque.
Homem furioso fabricou um tanque caseiro e tentou destruir a cidade inteira
Ele ainda instalou câmeras frontais e traseiras para que pudesse ver pelo monitores do painel interno o que tinha em volta dele.
VÍDEO

Ele demoliu a prefeitura da cidade, a casa do prefeito, a delegacia de polícia, entre muitas outras edificações. A polícia local foi chamada para conter, mas depois de mais de 200 tiros e três bombas, perceberam que era impossível parar o tanque improvisado.
VÍDEO

O dia de fúria finalmente chegou a seu fim depois que o motor do trator emperrou e Marvin tirou a própria vida antes que as autoridades fossem capazes de prendê-lo.


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A família que disputa eleições pela extrema-direita na França há 40 anos e nunca esteve tão perto da Presidência

Le PenDireito de imagemVARIOUS
Image captionVários membros de família Le Pen seguiram carreira na política e são brigados entre si
Polêmicas, brigas, traições, processos judiciais e até um atentado marcam a história da família Le Pen, do partido de extrema-direita Frente Nacional (FN), que disputará pela sétima vez as eleições presidenciais na França, em abril.
É a primeira vez, nas votações presidenciais dos últimos 43 anos, que a FN, partido populista e que se diz "antissistema", vem liderando as pesquisas do primeiro turno. Marine Le Pen, com 26% a 27% das intenções de voto, teria participação assegurada na disputa final.
Mas, até hoje, nenhuma pesquisa sobre o segundo turno, que será em maio, apontou a possibilidade de ela se tornar presidente: ela obteria entre 38% e 42% dos votos.
Entretanto, a menos de dois meses das eleições, uma eventual vitória de Marine passou a ser considerada possível por analistas e políticos de outros partidos, em particular após as surpresas da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e da aprovação do Brexit no Reino Unido, dois resultados que contrariaram quase todas as pesquisas de opinião.

Especialistas estimam que o enfraquecimento do candidato da direita, François Fillon, do partido Os Republicanos, após acusações de que teria dado um emprego fantasma à esposa, aliado à divisão da esquerda francesa criam condições favoráveis para Le Pen nestas eleições.
Esta é sua segunda disputa presidencial desde que assumiu, em 2011, o comando do partido fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen, no início dos anos 1970.
Jean-Marie Le PenDireito de imagemAFP
Image captionLe Pen chegou a participar de grupo que reivindicava a volta da monarquia na França

Volta da monarquia

Jean-Marie Le Pen disputou todas as eleições presidenciais entre 1974 e 2007, com exceção do pleito de 1981, que elegeu François Mitterrand.
Isso significa que um eleitor francês de 60 anos viu o sobrenome Le Pen em todas as cédulas de voto desde que começou a votar, exceto uma vez.
Aos 88 anos, o deputado Jean-Marie é um personagem controverso da vida política francesa, conhecido por declarações racistas e antissemitas que já resultaram em mais de 20 condenações na Justiça por apologia de crime de guerra, banalização de crimes contra a humanidade e incitação ao ódio e à violência racial.

Uma de suas declarações mais polêmicas, feita nos anos 1980 e repetida em 2015, foi a de que as câmaras de gás utilizadas pelos nazistas "são um detalhe da História" da Segunda Guerra.
Ele também sugeriu que o vírus Ebola poderia resolver o problema da superpopulação mundial.
Contrariando as pesquisas, Jean-Marie passou para o segundo turno da eleição presidencial de 2002, em que foi derrotado por Jacques Chirac.
Para analistas, ele só tinha chegado ao segundo turno porque muitos eleitores da esquerda, certos de que o socialista Lionel Jospin se classificaria, não foram votar no primeiro turno. Na votação decisiva, Le Pen teve um desempenho modesto, conseguindo apenas cerca de 18% dos votos. O vencedor, Jacques Chirác, foi eleito com mais de 82%.
Conhecido pela capacidade de eletrizar seus partidários em seus discursos, Jean-Marie, formado em direito e ciências políticas, lutou nas guerras da Indochina, atual Vietnã (época em que conheceu o ator Alain Delon, que se tornou seu amigo), e da independência da Argélia.
Le Pen foi acusado de ter praticado tortura na Argélia e processou os jornais que fizeram essas alegações.
Na faculdade de direito, começou a militar para a Restauração Nacional, movimento político que reivindica a volta da monarquia na França.
Marine fazendo campanha em Mont Saint Michel, FrançaDireito de imagemCHARLY TRIBALLEAU
Image captionSob o comando de Marine Le Pen, partido tenta abandonar imagem de racista e xenófobo, mas mantém discurso nacionalista e anti-imigração

Linhagem

Em 1960, Jean-Marie se casou com Pierrette Lalanne e teve três filhas.
Marine Le Pen, de 48 anos, é a mais nova. A mais velha, Marie-Caroline, lançou-se cedo na política, mas foi renegada pelo pai nos anos 1990, para se aliar a um micropartido de extrema-direita, o Movimento Nacional Republicano, surgido a partir de um racha na FN.
O pai considerou isso uma traição e a relação continua rompida. Acreditava-se que Marie-Caroline seria sua sucessora.
Na época, ela foi eleita conselheira regional (equivalente a deputado estadual) pela FN, antes de migrar para o partido concorrente. Hoje, é corretora imobiliária.
Apenas em 2011, mais de dez anos depois, Marine retomou o contato com a irmã mais velha, com a qual também tinha rompido na mesma época que o pai.
A outra irmã, Yann, também esteve ligada ao partido, mas com funções mais modestas. Trabalhou como telefonista e na organização de eventos - e chegou a ser despedida duas vezes, uma delas pela necessidade de cortar custos.
Yann é a mãe de Marion Maréchal-Le Pen, a mais jovem deputada da história política do país, eleita aos 22 anos. Maréchal, hoje com 27 anos, é aliada do avô e defende a linha dura do partido, em detrimento da linha mais branda imposta pela tia Marine.
Frequentemente, ela tem divergências com a tia Marine, em temas como aborto.
Yann foi a única filha de Jean-Marie a visitá-lo quando ele foi hospitalizado, no ano passado, em razão de um edema pulmonar.
Marion Maréchal-Le PenDireito de imagemAFP
Image captionDeputada mais jovem a se eleger no país, Marion Maréchal-Le Pen é tida como sucessora do avô na 'linha dura' da FN

Mudanças

As relações entre Jean-Marie e Marine também foram rompidas, quando ela o expulsou do partido, em 2015, após novas declarações antissemitas do pai. Por decisão da Justiça, Jean-Marie continua sendo presidente de honra da FN, mas o partido entrou com recurso.
"Tenho minha personalidade e minha própria percepção do exercício de responsabilidades. Durante quarenta anos, Jean-Marie Le Pen representou a Frente Nacional. Hoje, sou eu, e não ele, a encarregada de seu futuro e de suas ideias", afirmou, na época, Marine.
Apesar da briga, ele emprestou 6 milhões de euros para a campanha presidencial da filha.
A presidente da Frente Nacional optou, nos últimos anos, por tentar limpar a imagem de racista, xenófobo e antissemita que o partido tem desde os tempos polêmicos de seu pai. Seu slogan de campanha é "Em nome do povo."
Ela mantém um duro discurso anti-imigração, dá destaque à criação de empregos e promete proteger o que chama de perdedores da globalização, focando no cidadão comum francês, sua "prioridade nacional".
Nas eleições presidenciais de 2012, quase 40% do eleitorado operário votou em Marine. Ela levou 17,9% dos votos no primeiro turno, a melhor votação nacional da história da FN, mas que não foi suficiente para levá-la ao segundo turno.
Jean-Marie Le Pen e a ex-mulher Pierrette em 1980Direito de imagemAFP
Image captionSeparação de Jean-Marie e Pierrette (à esq.) causou escândalo na França nos anos 1980

Revista 'Playboy'

As brigas e escândalos na família também envolvem a mãe de Marine Le Pen, Pierrette.
Nos anos 1980, ela abandonou a mansão em que morava com Jean-Marie, nos arredores de Paris, para viver com um jornalista que escrevia uma biografia sobre o marido.
Para se vingar do ex-marido, após uma conturbada separação judicial, ela posou para a revista Playboy com acessórios de camareira, fazendo tarefas domésticas.
Pierrette declarou que fez isso para mostrar a maneira como o marido a tratava. Ela foi a primeira mulher de um político francês a posar nua. Na época, Marina chamou a mãe de "lixão público".
A família também tinha sido vítima de um atentado em 1976. Uma explosão provocada por dinamite pulverizou parte de um prédio em que a família morava em Paris.
Ninguém ficou ferido. Até hoje o caso não foi elucidado.
Comício da FN na FrançaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionInvestigações sobre financiamento ilegal da Frente Nacional não impediram que Marine Le Pen se mantenha estável nas pesquisas do primeiro turno

Investigações judiciais

A Frente Nacional está sendo investigada por várias acusações ligadas a financiamento ilegal do partido, que vão de uso de empregos fantasmas no Parlamento europeu a superfaturamento de contas de campanhas.
Colaboradores do partido já foram indiciados, mas as suspeitas não abalaram as intenções de voto na candidata da FN, que se mantém estável nas pesquisas.
Quase a metade dos franceses ainda está indecisa. Mas 75% dos eleitores que dizem que votarão em Marine asseguram que sua escolha é definitiva, de acordo com pesquisas.
A certeza em relação ao voto é bem menor no caso do centrista Emmanuel Macron, do En Marche (Em Movimento), de 48%, e do direitista François Fillon, de 58%.
As pesquisas indicam que o segundo turno poderá ser entre Le Pen e Macron.
No entanto, especialistas afirmam que o "espírito republicano" deverá prevalecer no segundo turno e impedir que a extrema-direita chegue ao poder na França.
Seja como for, tudo indica que a família Le Pen deve continuar ainda por décadas fazendo parte da vida política francesa.

www.bbc.com

FUZETA: CAMALEÃO PREDADOR ATACA OUTROS CAMALEÕES!



António Pina, o camaleão político, autêntico predador, ataca o  camaleão animal protegido  por lei na Fuzeta!
Há muito que o camaleão humano anda em campanha eleitoral, fazendo um conjunto de promessas de obras a serem executadas depois das eleições, sabendo que a sua execução antes disso poderiam e deveriam determinar a sua derrota eleitoral.
Em entrevista concedida ao jornal Barlavento e que pode ser lida em http://barlavento.pt/destaque/15-milhoes-para-mudar-a-zona-ribeirinha-de-olhao, o camaleão Pina, alimenta a ganância dos patos bravos, anunciando desde logo, que o Parque de Campismo da Fuzeta é para ser destruído e no seu lugar ser construído um eco-resort de cinco estrelas, isto é, mais uns quantos apartamentos com conjunto de serviços, mas que serve para contornar alguma legislação.
O Parque de Campismo  da Fuzeta é a única mancha verde da, para nós ainda, Freguesia da Fuzeta e um habitat do camaleão animal,  protegido pela directiva comunitária Aves e Habitats, integrando por via disso a Zona de Protecção Especial, Rede Natura 2000 e ainda ao abrigo de outras condicionantes.
O camaleão Pina depressa esqueceu que ele próprio, na qualidade de presidente da Câmara Municipal de Olhão, promoveu um providência cautelar em "defesa" do dito animal, mas  também da casa de segunda habitação do papá na Ilha do Farol. Quem diria que este defensor da natureza viraria um traste tão grande, cuja ganância o leva a atacar o animal que jurou  defender?
Se o camaleão, uma espécie ameaçada, outras há não menos ameaçadas por este predador, falando agora das pessoas da Fuzeta.
Sendo verdade que o resort do Pina criará alguns postos de trabalho, também não é menos  verdade que eles já existem no Parque de Campismo cuja transferência não está assegurada, embora venha agora dizer que ficará para Norte, depois de no Relatório de Avaliação da Execução do PDM propor a sua transferência para o aterro do sapal, se tal lhe fosse permitido.
Mas mais, a presença de um eco-resort de cinco  estrelas no espaço do Parque de Campismo vai determinar o fim das casas dos apetrechos de pesca junto à vedação do Parque, como de todos os estabelecimentos incluindo o Dezoito, o Cubanito ou o Farol entre outros.
Será que as pessoas da Fuzeta vão permitir a destruição do seu Parque de Campismo e da sua envolvência? E que diz a isto o actual presidente da Junta, aliado do Pina e que até j´qa foi convidado apara integrar a sua lista?
Pina está para o concelho de Olhão como o Trump está para os americanos, sendo por isso necessário derrota-lo nas próximas autárquicas, tal é o grau de destruição programado para todo o concelho.

olhaolivre.blogspot.pt

Rapaziada isenta

Ontem a RTP noticiou três conflitos armados.

1)Yeman - Referiu-se aos deslocados e à fome que os atingirá. sem qualquer menção aos bombardeamentos , nem ao mui democrático regime da Arábia Saudita amigo de Trump e de Obama 2) Síria -informou que a Rússia e a China tinham vetado no Conselho de Segurança a sanções ao governo Sírio pela "utilização de armas químicas. " Em dias anteriores passou um vídeo com atrocidades da Guerra , com os maus da fita , governo Sírio e Rússia
3)Mossul - Informou que o exército Iraquiano com o apoio dos E.U já controlavam dois bairros da cidade. Entrevistaram um militar que disse tudo estarem a fazer para evitar atingir civis . Mostraram desta vez uma mulher que tinha perdido o marido e um filho ,  mas com um relato  calmo , sem dramatismos , como apenas uma lamentação justificada por um objectivo nobre. Nenhum vídeo privado filmou imagens ou gravou gritos de desespero. A RTP também não noticiou  qualquer comunicado de um qualquer Observatório dos direitos do homem ou de qualquer secção da Amnistia Internacional 
Tudo dito  !

foicebook.blogspot.pt

O MOINHO E O CRIVO


MUITOS POLÍTICOS NÃO PERDEM A OPORTUNIDADE DE ARRANJAR "ACONTECIMENTOS" ESCÂNDALOS,ARMAS DE ARREMESSO, MAIOR PARTE DELES ORIUNDOS DA SUA PRÓPRIA CLASSE E DAS SUAS FILIAÇÕES PARTIDÁRIAS QUE DEPOIS DE ALGUMA PEIXARADA E PATEADA NOS DEBATES QUINZENAIS MORREM (COMO ELES BEM GOSTAM DE DIZER) COM A CULPA SOLTEIRA

DEPOIS O DEBATE VEM PARA A OUTRAS ASSEMBLEIAS, A MESA DO CAFÉ, AS REDES SOCIAIS, OS JORNAIS. 
AÍ E DURANTE ALGUNS DIAS DISCUTE-SE, DIGLADIA-SE, E ARRANJAM-SE AS MAIS VARIADAS PELEJAS E INIMIGOS DERIVADO ÀS VÁRIAS INTERPRETAÇÕES QUE O POVO TEM DO ACONTECIDO.

EM POUCO TEMPO TUDO SE ESFUMA !
TUDO JÁ VEM COM UM PRAZO DE VALIDADE E CASO ALGUM ACONTECIMENTO PERDURE E SUSCITE UM DEBATE MAIS ALONGADO E APROFUNDADO QUE MEXA COM OS INTERESSES DOS GOVERNANTES E OUTROS PODERES, LOGO SE CRIAM OUTRAS "DIVERSÕES", OUTRAS TERTÚLIAS QUE MORREM SEMPRE NA PRAIA.
O ETERNO NÁUFRAGO É SEMPRE O POVO.
António Garrochinho

Avicena, o "Príncipe dos Sábios"



Contexto

Ibn Sina, conhecido sob o nome latinizado de Avicena, foi um dos maiores génios da época medieval. A sua herança cultural manifestou-se em diversas áreas do conhecimento, em especial na Medicina e na Filosofia. Julga-se que terá escrito cerca de trezentos livros, discorrendo sobre diversas temáticas. Muitos afirmam inclusive que Avicena terá sido o mais talentoso médico do período situado entre a época do Império Romano e o surgimento da Ciência Moderna no século XVI. Os seus discípulos o designariam mesmo como o "Príncipe dos Sábios" ("Cheikh el-Raïs"). Mas quem seria então Avicena? Como teria sido o seu contributo para uma ciência que, no seu tempo, se encontrava ofuscada pela ignorância e pelas superstições que pareciam prevalecer entre as comunidades? O prestígio que hoje lhe é atribuído se ajusta fielmente aos seus feitos em vida? Estas e outras interrogações procuraremos responder neste artigo. 





Imagem nº 1 - Retrato de Avicena.




Nascimento e Educação

Avicena nasceu por volta do ano de 980 em Afshana, nas proximidades de Bucara (actual Uzbequistão), sendo esta última a capital dos Samânidas, uma dinastia persa que vigorava naquela altura na Ásia Central e na região do Coração (Khorasan).  A sua mãe, Setareh, era natural de Bucara, enquanto o seu pai, Abdullah, seria um sábio ismaelita proveniente de Balkh, tendo trabalhado para o governo samânida na localidade de Kharmasain.  
Ao ser proveniente de uma família muçulmana, é natural que Avicena tivesse começado a aprender o Corão, algo que o fará com excelência, visto que memorizará este livro sagrado quando contava apenas com dez anos de idade. Apesar de ser indiscutível a sua crença no Islamismo, a verdade é que será difícil enquadrar Avicena numa tipologia de fé. Os seus biógrafos não se entendem quanto às suas tendências religiosas, visto que uns o associam ao sunismo, enquanto outros o conotam com o xiismo ou até com o ismaelismo. Também poderá ter revelado algumas tendências afectas ao misticismo nalguns dos seus tratados que viriam a ser mais tarde compostos. 
No entanto, os seus estudos iniciais não se restringiram apenas ao Corão. Avicena aprendeu aritmética indiana através de um merceeiro/hortaliceiro indiano Mahmoud Massahi. Procurou igualmente inteirar-se dos princípios da jurisprudência islâmica ("Fiqh") contando para isso com a orientação do erudito sunita Ismail al-Zahid. Também terá usufruído de uma experiência de cariz medicinal juntamente com um sábio errante anónimo que ganhava a vida, curando os doentes e ensinando os mais novos. 
Além da Medicina e das Ciências Naturais, Ibn Sina demonstrou, desde cedo, uma paixão pela Filosofia. Neste âmbito, recorreu a um filósofo impopular Abu Abdullah Nateli, conseguindo ter acesso a diversas obras clássicas, nomeadamente a "Isagoge" ("Introdução") do filósofo romano Porfírio, "Os Elementos de Euclides" da autoria do célebre matemático e pensador grego do mesmo nome, e o "Almagesto" do matemático, geógrafo e astrónomo grego Cláudio Ptolemeu. Também se interessou em particular pela obra "Metafísica" da autoria de Aristóteles, tendo recorrido aos comentários de al-Farabi (filósofo turco que viveu entre os anos de 872 e 950), inseridos no dito trabalho, para decifrar o teor do pensamento seguido por aquele filósofo helénico dos tempos da Antiguidade.
Aos 16 anos, voltará a dedicar-se aos assuntos da medicina. Avicena não só assimilará novos princípios teóricos, como prestará atendimento gratuito aos doentes, tendo descoberto, através desta sua experiência, novos métodos de tratamento. O jovem médico começava a impressionar na região de Bucara devido à sua qualidade, visto que os seus tratamentos atingiam resultados superiores em comparação com aqueles que eram ministrados pela "classe médica" em geral. A sua ascensão prodigiosa não tardaria em suscitar a atenção das altas estruturas estatais. 





Imagem nº 2 - Ibn Sina demonstrou inúmeros talentos durante a sua juventude.




Ao serviço das cortes

No ano de 997, e contando com apenas 17 anos de idade, Ibn Sina foi recrutado pelo emir de Bucara, de modo a que este recuperasse de uma grave enfermidade. Avicena foi bem-sucedido nos seus serviços, ganhando em contrapartida acesso à biblioteca real dos Samânidas, onde aprofundaria os seus conhecimentos sobre matemática, astronomia e música. Em breve, este erudito já dominaria quase todas as ciências conhecidas. Devido ao seu prestígio, permaneceria como médico da corte e conselheiro de temas científicos até à queda do reino samânida em 999.
Já sem o seu pai que havia entretanto falecido, Avicena rumou a Urgench (no actual Turcomenistão), onde o vizir local, então promotor dos estudos de âmbito cultural, lhe assegurou o pagamento de um pequeno salário mensal. Todavia, a soma recebida não era suficiente para garantir a sua estabilidade, e por isso, não será de estranhar que Ibn Sina vagueasse de lugar para lugar, percorrendo os distritos de Nishapur e Merv e até as fronteiras da alargada região do Coração (Khorasan), de forma a encontrar uma melhor perspectiva de vida. Finalmente, o intelectual arribaria a Gorgan, terra situada nas proximidades do Mar Cáspio, onde encontraria Al-Juzjani que viria a ser seu secretário, escriba e biógrafo, sendo que este seu novo e favorito discípulo, além de possuir a sua própria casa, dispunha ainda de um pequeno edifício anexo onde Avicena usufruiria da oportunidade de estudar lógica e astronomia. 
No entanto, Ibn Sina voltaria a deambular por outras regiões da Pérsia. Sabemos que terá tido uma passagem por Rey (ou Rayy - localidade que se situava nas proximidades da moderna cidade de Teerão), onde terá composto 30 trabalhos de pequena dimensão. Também teria estado por pouco tempo em Qazvin, até chegar a Hamadan - cidade que testemunharia a criação de uma das suas duas principais obras - o "Kitab al-Shifa" ("O Livro da Cura"), uma enciclopédia de ciência natural, lógica e filosofia. Também o célebre "Al-Qanun Fil-Tibb" ("Canône de Medicina"), estudo que compilava uma longa listagem de centenas de drogas (seriam 760 ao todo!), tratamentos e receitas medicinais, terá começado a ser elaborado por Avicena ainda durante a sua estadia em Hamadan, embora tal projecto tivesse sido concretizado posteriormente em Ispaão (Ispahan). Durante a sua permanência em Hamadan, Ibn Sina começou por prestar serviços a uma dama de nascimento privilegiado, tendo sido posteriormente contratado por Shams al-Dawla, emir daquela região que, desde logo, se interessou pelos seus conhecimentos médicos. Avicena obteria um maior reconhecimento, tendo ascendido ao posto de vizir (ministro). Durante o dia, se empenharia para servir a causa pública, enquanto de noite, engolfava-se nos estudos científicos. 
Contudo, as quezílias e as intrigas que se disseminavam pela corte teriam entretanto levado o emir a querer expulsá-lo da cidade. No entanto, muito em breve, o emir Shams al-Dawla viria a padecer de uma grave doença, tendo sido forçado a recorrer novamente aos serviços de Ibn Sina que foi readmitido nas suas funções. Apesar do período turbulento, Avicena nunca deixou de estudar e até de ensinar todos aqueles que estavam predispostos a ouvi-lo. Não hesitava em partilhar com os seus discípulos as novidades das suas principais obras. Mesmo com o falecimento do emir Shams al-Dawla e com o seu consequente abandono do posto de vizir (cargo que então ocupava), o nosso biografado nunca abdicou de concentrar o seu foco nos seus trabalhos intelectuais. 
Pouco tempo depois, Avicena escreveria uma carta a Abu Ya'far, prefeito da cidade de Ispaão, oferecendo os seus préstimos. No entanto, o novo emir de Hamadan não gostou de ter conhecimento desta correspondência privada, encarcerando o reputado médico numa fortaleza. A rivalidade entre os governantes de Ispaão e Hamadan era intensa, e o conflito daí resultante culminaria com a vitória da primeira cidade em 1024. 
A um determinado momento, Ibn Sina conseguiu evadir-se da cidade de Hamadan, utilizando um traje ascético sufi como disfarce. Nessa fuga, seguiriam com ele o seu irmão, um discípulo favorito e dois escravos. Após uma perigosa jornada, chegariam a Ispaão, onde foram bem recebidos pelo príncipe local. O nosso biografado teria já mais de 40 anos de idade.





Imagem nº 3 - Avicena dedicou muito do seu tempo à investigação e à escrita.




Os últimos tempos

Os últimos anos da sua vida foram vividos no seio da corte do governante kakúyida Muhammad ibn Rustam Dushmanziyar (também conhecido pelo nome de Alā al-Dawla), senhor de Ispaão e de uma porção territorial da Pérsia Ocidental ("Jibal"). Avicena voltaria a exercer a profissão de médico e de conselheiro em matérias literárias e científicas. Chegava inclusive a acompanhar o seu senhor em campanhas militares, o que revela bem a confiança que em si era depositada. Nesses tempos derradeiros, Ibn Sina estudou obras literárias e filologia, mesclando nessa abordagem o seu criticismo. Foi um período profícuo para a sua produção de eruditismo. 
Entretanto, Ibn Sina viria a ser afectado por uma violenta cólica (possivelmente derivada de uma crise intestinal) quando as tropas kakúyidas marchavam novamente sobre Hamadan. A sua saúde começou a deteriorar-se rapidamente, embora tivesse acabado por chegar àquela cidade. O seu destino parecia estar irreversivelmente traçado. No seu leito de morte, doaria os seus bens aos pobres, devolveria ganhos injustos, libertaria os seus poucos escravos e leria de novo o Corão nos três derradeiros dias que precederam o seu desaparecimento terreno. Avicena faleceria no mês de Junho de 1037 (com 57 anos de idade) e seria enterrado em Hamadan, após uma vida marcada pela agitação inerente a imensas vicissitudes e pela exaustão resultante do seu empenho científico. 
Efectivamente, Ibn Sina deixou-nos centenas de trabalhos. Alguns autores salientam que ele teria redigido 300 livros, enquanto outros alegam que este génio terá sido responsável por mais de 450 trabalhos, embora só 240 teriam "sobrevivido" até aos dias de hoje. 
Avicena escreveu sobre medicina, filosofia, astronomia, alquimia, geografia, geologia, psicologia, teologia islâmica, lógica, matemática, física e terá composto alguma poesia. 
Este inigualável polímata foi um dos principais pensadores da Idade de Ouro Islâmica (séculos VIII-XIII), merecedor do prestígio que hoje lhe é confiado mundialmente pelos círculos intelectuais/científicos modernos. 





Imagem nº 4 - Outro retrato sobre Ibn Sina (980-1037).




Legado na Medicina

Como já havíamos mencionado ao longo deste texto, Avicena curou inúmeros pacientes e deixou-nos obras relevantes na área da Medicina, nomeadamente o "Al-Qanun Fil-Tibb" ("Cânone da Medicina"). Apesar de ser claramente influenciado por grandes vultos do passado da medicina ocidental greco-romana - Hipócrates, Dioscórides e Galeno, Avicena soube também introduzir as suas próprias descobertas bem como técnicas orientais já utilizadas por árabes, persas e indianos.
O "Cânone da Medicina" encontra-se dividido em cinco livros, assumindo uma organização por categorias. O primeiro livro contém quatro tratados: o primeiro tratado examina os quatro elementos vitais (terra, ar, fogo e água) e inclui igualmente um estudo de anatomia; o segundo aborda a etiologia (causa) e os sintomas; o terceiro analisa a higiene, a saúde, a doença e a inevitabilidade da morte; por fim, o quarto tratado do primeiro livro tem em conta a nosologia terapêutica bem como revela uma visão sobre os regimes e tratamentos dietéticos. O segundo livro incide sobre a "Materia Medica", enquanto que o terceiro livro foca em particular as doenças existentes desde a cabeça até aos dedos dos pés. O quarto livro visa as doenças que não são específicas de determinados órgãos (encontramos aqui os exemplos das febres e das patologias de humor). O último livro, o quinto, apresenta um alargado compêndio de drogas e receitas medicinais.
Do seu vasto pensamento intrínseco a esta área, realçamos então o facto de ter estudado de forma elaborada centenas de medicamentos, drogas, fármacos e receitas medicinais. Além disso, reconheceu o carácter contagioso da tuberculose, doença que na época ceifava inúmeras vidas, e ainda alertou para a disseminação de doenças a partir da água (esta não era devidamente controlada ou tratada na Idade Média!) e dos próprios ratos. Foi o primeiro a descrever, em traços gerais, a meningite e ainda aflorou com excelência a anatomia do olho humano. Também foi pioneiro na distinção entre a pleurisia, a mediastinite e o abscesso subfrênico. Descreveu as duas formas de paralisia facial (central e periférica). Também abordou a sintomatologia dos diabéticos bem como as diversas variantes da icterícia. Preconizou igualmente a introdução de tratamentos através de enemas retais. Foi ainda dos primeiros intelectuais a defender que o sangue era bombeado pelo coração para os pulmões, regressando depois posteriormente àquele órgão. Expôs, de forma precisa, o sistema dos ventrículos e da válvula do coração. Alguns o consideram ainda como o inventor da traqueostomia, embora este recurso tenha sido colocado em prática pelo cirurgião árabe Abulcasis de Córdoba (936-1013) que assim tratou de aperfeiçoar o referido procedimento que visava a criação de um orifício na frente do pescoço que daria acesso à traqueia, desobstruindo a passagem de ar, de forma a possibilitar a respiração nos casos em que esta é dificultada ou praticamente vedada.
Por outro lado, Ibn Sina propôs a utilização de vinho como curativo, algo que já era bastante frequente na era medieval. 
Não obstante, e além de querer conhecer detalhadamente o corpo humano bem como as doenças que o afectavam, Avicena também se preocupou em deixar conselhos que favorecessem a manutenção de um bom estado de saúde. Assim sendo, recomendou a prática desportiva e a hidroterapia, sendo esta última uma espécie de "medicina preventiva". Na área da psicologia, defendeu ainda a importância das relações humanas de forma a favorecer uma boa saúde mental. 
Avicena frisou que cada medicamento deveria ser utilizado num paciente que tivesse apenas contraído uma doença e que o mesmo teria de revelar eficácia de cura em (quase) todos os casos. O intelectual admitiu que os testes feitos em animais não seriam suficientes para provar a sua real eficácia nas pessoas. 
O seu "Cânone da Medicina" causou um elevado impacto, acabando por chegar ao Ocidente, provavelmente por intermédio das cruzadas ocorridas entre os séculos XII-XIV. Esta sua obra marcante, traduzida sucessivamente no continente europeu, influenciou o ensino e as práticas da medicina ocidental. Foi inclusive leccionada em várias universidades medievais tais como Montpellier e Leuven (Lovaina).




Imagem nº 5 - O "Cânone da Medicina" foi a obra-prima mais conhecida de Avicena.
Retirada de:




Pensamento/Filosofia

O "Kitab al-Shifa" ("Livro da Cura") constituiu o principal contributo de Avicena no campo da filosofia científica. Trata-se de uma enciclopédia monumental que nos permite caracterizar o seu pensamento.  
Dentro deste contexto, a filosofia de Avicena segue a tradição aristoteliana, embora mesclando influências neoplatónicas e princípios da teologia muçulmana. Avicena fala-nos de lógica, ética, metafísica, botânica, zoologia, música e psicologia.
No entender de Avicena, o Universo seria constituído por três ordens: o mundo terrestre (com o seu ponto mais alto a ser a alma humana), o mundo celeste (primeiro a ser criado) e Deus (cimo supremo)! Conforme nos indica o filósofo brasileiro Felipe Pimenta, Avicena explicava o mundo à maneira de Aristóteles, contudo propunha uma tese original sobre a inteligência humana - a existência de uma união entre o mundo material e o mundo celeste em 5 graus. Avicena acreditava que a nossa alma estaria separada do intelecto agente (embora existindo correlação ao nível da inteligência activa), sendo espiritual e imortal. A alma seria inteligente em potência, tornando-se só depois inteligente em acto. 
Este conceituado filósofo teve o cuidado de distinguir a existência da essência. A primeira refere-se a tudo o que existe, excepto Deus. Por seu turno, a essência é extrínseca e considera somente a natureza das coisas. Esta encontra-se num plano superior à realização física e mental, embora contribuindo, em momentos particulares, para uma inteligência supra-humana. Dado que a existência e a essência são conceitos distintos, Avicena conclui que a essência nem sempre pode ser inferida a partir de algo que existe. Por outras palavras, a existência de algo pode não implicar automaticamente a respectiva essência.
No campo da teologia, Avicena procurou ser fiel às suas convicções muçulmanas, embora tivesse tentando reconciliar o racionalismo da filosofia com a teologia islâmica. Por outras palavras, procurou provar a existência de Deus e a Sua criação do mundo através duma abordagem lógica e racional. Como já havíamos mencionado anteriormente, Ibn Sina tinha memorizado o Corão aos dez anos de idade, mas nunca deixara de efectuar diversas interpretações filosóficas e científicas sobre aquele livro sagrado para o Islão. Apesar de manter sempre um espírito aberto e crítico, Ibn Sina considerou os profetas do Islão portadores de um nível superior aos filósofos. No seu entender, os profetas possuiriam almas puras racionais, podendo extrair máximo proveito dos factores inteligíveis (que até são do seu próprio conhecimento) e dos próprios silogismos. No entanto, Avicena não deixou de vincar que a filosofia seria a ferramenta ideal que permitiria traçar a distinção entre a profecia real e a ilusão.
Por outro lado, Ibn Sina procurou através de algumas reflexões atestar a existência da consciência individual bem como da substância imaterial da alma. Este erudito acreditava que os seres humanos nunca deveriam duvidar da sua auto-consciência, mesmo em situações extremas onde não se verificasse qualquer expressão sensorial. Chega inclusive a sugerir, como exemplo, a posição de um indivíduo que, se achando de forma suspensa/solitária no ar e sem esboçar sentidos, acabaria sempre por revelar alguma noção da sua própria "existência". No seu entender, a inteligência humana activa seria uma hipóstase ou uma via pela qual Deus transmitiria a verdade à mente humana, conferindo ordem e inteligibilidade à natureza. A alma existiria, assumindo a sua própria auto-consciência e importando conceitos racionais através de um agente universal do intelecto. Ela seria composta por uma substância original e única (embora imaterial), e seria independente do mundo físico. Por outras palavras, o corpo seria sempre um elemento secundário nesta equação, enquanto a alma assumiria uma concepção perfeita, imortal e indestrutível.
Ibn Sina também se pronunciou sobre o destino das almas, afirmando que os actos e as escolhas tomadas por estas ao longo da vida terrena seriam decisivas para um desfecho póstumo de recompensa ou punição. O filósofo muçulmano acreditava que vivíamos num dos melhores mundos possíveis porque o mesmo era resultante da criação de um Deus bom. No entanto, não nega a existência do mal, mas defende que este deriva apenas da ausência do bem. Por outras palavras, os males particulares deste mundo seriam, na maior parte, consequências acidentais e extraviadas do próprio bem predominante.
No âmbito da filosofia da ciência, Avicena pugnou pelo estabelecimento do método científico de inquérito, de modo a apurarem-se os princípios basilares da Ciência. Além deste instrumento, o filósofo persa sugeriu ainda mais dois: o método aristoteliano de indução e o método de examinação e/ou experimentação. No entanto, Ibn Sina demonstrava cepticismo no que diz respeito às induções, alegando que estas poderiam não levar a premissas absolutas ou universais. Por isso mesmo, prefere o recurso ao método de experimentação como um meio bastante útil para a investigação científica.




Imagem nº 6 - Abu ‘Ali al-Husayn Ibn Sina foi um dos maiores pensadores da Idade Média.
Retirada de: http://quotesgram.com/ibn-sina-quotes/, (Snejta/ Sneghka).




Contributos verificados noutras áreas

Na Geologia, descreveu por exemplo a formação das montanhas. Na Lógica, desenvolveu um sistema que perdurou por bastante tempo - neste capítulo, reforçou a lei (ou princípio) da não-contradição proposta por Aristóteles, onde concluíra que o mesmo facto não poderia ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo e no mesmo sentido da terminologia adoptada. Avicena argumenta mesmo que aqueles que negassem a lei da não-contradição deveriam ser espancados ou queimados até admitirem que ser espancado não é a mesma coisa que não ser espancado, e de que ser queimado não é a mesma coisa que não ser queimado.  
Ibn Sina acreditava que a luz teria uma velocidade, sendo esta presumivelmente finita (ainda que bastante elevada). Tentou ainda descrever o processo de surgimento do arco-íris, no entanto, não conseguiu ser bem-sucedido neste ponto em concreto.
Lançou ainda um duro ataque à astrologia num dos seus trabalhos. Ibn Sina duvidava do seu poder para prever o futuro, desconfiando ainda das reais capacidades daqueles que se intitulavam como astrólogos. Não obstante, acreditava que cada planeta teria imprimido alguma influência sobre a Terra, embora fosse impossível, no seu entender, determinar os efeitos exactos. 
Soube distinguir a astronomia da astrologia. Contrariou ainda a teoria de Aristóteles que alegava que as estrelas recebiam a sua luz a partir do Sol. Avicena contrapõe com a ideia de que as estrelas são auto-luminosas, embora também acreditasse, por outro lado, e aqui já de forma errónea, que os planetas seriam igualmente auto-luminosos. 
Avicena refutou ainda a crença da alquimia, tese que insinuava ser possível obter ouro a partir de metais básicos como o chumbo. O intelectual alegava que não seria possível transmutar as substâncias, embora fosse possível produzir nestas uma falsa aparência em caso de intervenção humana.
Por fim, Ibn Sina revelou ainda uma curiosa tendência poética, tendo elaborado alguns versos sobre temáticas medicinais. 
Em jeito de curiosidade, e como reconhecimento da sua vasta obra, o poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321) o colocaria no Limbo da sua "Divina Comédia" juntamente com muitos outros virtuosos pensadores não-cristãos: Virgílio, Averróis, Homero, Horácio, Platão, Sócrates...





Imagem nº 7 - Avicena foi considerado por muitos como o "Pai da Medicina Moderna".




Notas-extra
:
  1. Avicena atribuiu quatro faculdades fundamentais ao ser humano, nomeadamente a percepção ou senso comum, a retenção (da informação), a imaginação e a estimativa. Estas diferentes faculdades não comprometeriam a integridade singular da alma racional, aliás todas elas seriam parte integrante do processo intelectual individual.
  2. A obra multifacetada de Avicena inspirou grandes nomes do Mundo Ocidental. Por exemplo, a sua Teoria do Conhecimento e a sua contribuição na área da Psicologia inspirou eruditos tais como William de Auvergne (bispo de Paris entre 1228 e 1249) e Alberto Magno (frade dominicano germânico que viveria entre os anos de 1200 e 1280, e que seria considerado postumamente como "Doutor da Igreja" em 1931). O seu legado no sector da metafísica captaria ainda a atenção de Tomás de Aquino (frade dominicano, filósofo e teólogo italiano que viveria entre os anos de 1225 e 1274; também receberia posteriormente o estatuto de "Doutor da Igreja" em 1568). 
  3. Não obstante, o seu legado não foi consensual em todos os círculos, tendo merecido, por exemplo, críticas duras do teólogo e filósofo persa Al-Ghazali (1058-1111) que, algumas décadas mais tarde, rotularia o pensamento de Avicena como uma doutrina parcialmente herética. Muitos dos detractores de Avicena traçaram-lhe um perfil pouco abonatório, acusando-o de envolvimento sexual com as suas escravas e de apreciar demasiado o vinho. Contudo, os seus críticos, ao debaterem o seu pensamento, fizeram com que o mesmo chegasse (quase) intacto até aos dias de hoje, evitando que o tempo se encarregasse de o fazer diluir, na sua "amnésia universal", um dos maiores pensadores e médicos do Islão. 



Referências Consultadas:


oscarreirosdahistoria.blogspot.pt