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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

QUEM QUER FAVA RICA !!!!!



QUEM QUER FAVA RICA !!!!!
Vendida nas ruas da Lisboa antiga por mulheres que, de panela à cabeça, a anunciavam gritando um dos últimos pregões lisboetas, a fava-rica era uma sopa de fava seca muito nutritiva e apreciada. As leguminosas, de que a fava é um exemplo, têm um alto teor de proteínas devido à simbiose com as bactérias Rhizobium do solo. Estas bactérias, alojadas nas raízes das plantas, convertem o azoto do ar em compostos que as leguminosas usam para produzir proteínas. Em vários locais do mundo, as leguminosas têm sido uma importante alternativa a fontes de proteína animal. A prová-lo está o facto de muitas proeminentes famílias romanas da antiguidade terem tido o nome das leguminosas mais comuns: Fabius (fabae - fava), Lentulus (lenticula - lentilhas), Piso (pisae - ervilha) e Cicero (cicer - grão de bico). Apesar da fava-rica ter desaparecido das ruas de Lisboa, ainda há recantos onde pode provar a receita original, como é o caso do restaurante Forno do Alfarrabista na Mouraria.

www.pavconhecimento.pt

ALFREDO MARCENEIRO - A MANEIRA MELHOR DE SER FADISTA - NUNCA SE DOBROU AO QUE O FASCISMO QUIS FAZER DO FADO



«a minha oficina chama-se Marcenaria & Fado. Eu faço fados em pau santo, em nogueira, em castanho, em mogno e em pinho. Os de pinho são os mais populares, os de maior agrado!»
 Alfredo Marceneiro





«O cenário é uma taberna, ao fundo uma barregã» — dizia ele, naquela sua voz rouca, para começar a criar clima. Depois, dava uns passos, mãos nos bolsos, quase a dançar, e ia tomando cena, até que parava, deitava a cabeça para trás, fazendo sobressair a melena sempre muito negra, e começava a cantar.

VÍDEO






LEMBRO-ME DE TI


Acontecia isto noite alta, em alguma casa de fados já fechada ao público, quando o Alfredo Marceneiro resolvia revelar, a uma meia dúzia de eleitos, como é que se cantava o fado, o fado que, em grande parte, foi ele quem o inventou. Algumas vezes tive o privilégio de estar entre esses eleitos, ora no «Mesquita», ora no «Machado», ora no «Faia» ou na «Viela», nem sei já quando foi a primeira vez. Mas o que sei, isso sim, é que era uma experiência tremenda, arrebatadora, que valia como uma  verdadeira iniciação.
É que, através daquela voz velada, um tanto ondulante, sem efeitos, que apenas marcava cada palavra para construir um ambiente musical, transmitia-se muito mais do que cantigas, ou fados, transmitia-se toda uma moral e um conceito de vida, transmitia-se oralmente toda uma cultura. 
Se as situações cantadas, em palavras por vezes difíceis, iam do melodrama ao jocoso, tanto fazia, pois tinham sempre, naquela voz, uma força a que ninguém podia ficar indiferente.




O leilão da casa da Mariquinhas - Linhares Barbosa / Popular - Fado Mouraria


Alfredo Marceneiro, toda a vida

É que os poetas que ele cantava, os seus poetas, também tinham vindo quase todos do proletariado urbano, por isso sentiam e sofriam aquelas palavras, como ele as sentia e sofria.
Poetas do fado tão esquecidos, mas que não podem deixar de ser lembrados, a começar por Henrique Rego, tipógrafo, seu grande amigo e poeta preferido, que para o Marceneiro escreveu a história da «impúdica bacante» que descobre, assombrada, que o jovem pintor que tenta seduzir é, afinal, o seu filho. E quando o Marceneiro nos contava que «a turba comovida / pasma ante aquele quadro original, estranho», sentia-se «a piedade e o medo», tal qual o mesmo arrepio da tragédia, na revelação de que Edipo é filho de Jocasta. Enfim, a grande tradição da cultura. 





Aos desmandos da cidade liberal e corruptora, opunha tipicamente o mesmo Henrique Rego o valor puro da vida campestre, simbolizados naquela «Menina, lá do mirante / toda vestida de cassa», ou então concentrava amor e raiva transbordantes num objecto: «O lenço que me ofertaste / tinha um coração no meio / quando ao nosso amor faltaste / eu fui-me ao lenço e rasguei-o»; ou era capaz de atingir o quase puro folclore, em «Toma lá colchetes de oiro». E tudo isto o Marceneiro fazia chegar até nós, intacto, no poder da sua voz tão vibrante, tão estranhamente entrecurtada.
E depois havia também o poeta Linhares Barbosa, grande malabarista das palavras, ora contando a história da perdição citadina da filha de um moleiro, em «Eu lembro-me de ti, chamavas-te Saudade», ora dando-nos um calafrio no Natal do criminoso. «Batem - me à porta, quem é? / ninguém responde... que medo...»
Muitos foram os poetas que escreveram para o Marceneiro e ele mantinha vivos, mas é de lembrar ainda Gabriel de Oliveira, o Gabriel Marujo, que Fernando Pessoa e António Botto «ousaram» incluir numa antologia poética, todo cheio de misticismo, velado e misterioso, na Senhora do Monte, ou mais colorido no célebre Há festa na Mouraria


Fado amador no restaurante Ferro de Engomar, na estrada de Benfica. Por volta de 1930. Foto Arquivo Fotográfico da CML.


E isto sem esquecer, claro, o verso fácil, sorridente e um tanto revisteiro de Silva Tavares, contrariando as regras da moral estabelecida, ao cantar as alegrias da Casa da Mariquinhas, que teve tal sucesso que até mereceu continuação, no Leilão da Mariquinhas, de Linhares Barbosa, e cuja fama tanto perdurou que Alberto Janes, cheio de graça e invenção, muitos anos depois, a transformou em casa de penhores e em símbolo de uma época e de uma moral fadista que findava, em Vou dar de beber à dor, que, na voz de Amália, foi aquele êxito louco que se sabe.
Mas não se pense que Alfredo Marceneiro era apenas um grande intérprete, um contador admirável de histórias, pois ele era também e sobretudo um músico excelente, inventando para cada fado a melodia certa, tão certa que, por vezes, nem se dava por ela, e algumas são de uma beleza incrível. E reparar.
E é bem significativo que Amália Rodrigues, num dos seus discos melhores e mais elaborados (para mim o melhor), onde pela primeira vez aparecem as músicas de Alain Oulman, tenha escolhido, para cantar os seus próprios versos, célebre Estranha forma de vida, uma  velha melodia do Marceneiro.
— «Aquilo nem é um fado, é uma valsazinha que eu fiz há uma  data de anos e se lembraram agora de ir buscar» — ouvi eu dizer ao Alfredo Marceneiro, nessa altura, sempre irónico mas não sem uma ponta de orgulho.


Alfredo Marceneiro cantando na Adega Machado no Bairro Alto em 1961, acompanhado à viola por Armando Machado? e noticia de uma sessão de fados com Alfredo Marceneiro e Vicente da Câmara, acompanhados pela guitarra de Carlos Paredes, para os bailarinos Margot Fonteyn e Nureyev, no Grémio Literário em 1968. Foto da net.


Para cantar o fado até à morte

E já agora, sempre digo que ouvir o Alfredo Marceneiro conversar, teorizar sobre o fado, era quase tão bom como ouvi-lo cantar. E as coisas que se aprendiam; era toda a história do fado, que com a sua história afinal se confunde.
Nessas recordações, nunca saudosistas, sempre incisivas e críticas, muito críticas mesmo, passava-se pelo tempo em que o fado era cantado em cafés e acompanhado ao piano, «como devia de ser, que a guitarra só se usava para cantar o fado na rua, depois é que tudo isso se mudou»; passava-se pelo tempo em que cantar o fado não era profissão, e cada cantador — os cultivadores, como então se lhes chamava — juntava orgulhosamente ao seu nome a indicação do seu ofício honrado, tal como ele tinha sido, durante muitos anos, fadista sem deixar de ser marceneiro, e dos bons, operário que até entrara na greve do Alfeite. Lá se diz, na sua célebre marcha, que vale como um programa de vida: «Sou Marceneiro sim, porque trabalho / Marceneiro do fado e no ofício.»
E falava-se também na decisiva Festa do Fado, organizada por António Botto, no São Luiz, em 1924, primeiro passo para a dignificação dos fadistas, que depois se puderam profissionalizar, como «artistas de variedades», classificação que nunca lhes agradou lá muito. 


Anúncios da presença de Alfredo Marceneiro em Casas Típicas em 1946 e 1956.

E era inevitável virem á baila aqueles sítios míticos, onde o fado se foi forjando: o «Perna de Pau», o «Ferro de Engomar». Ainda fora de portas, lá para as hortas arrabaldinas; o «Solar da Alegria», o «Luso da Avenida», o «Salão Artístico», da grande guitarra Armandinho, já no Parque Mayer; o «Café Mondego», o «Retiro da Severa», onde um dia se estreou a Amália, sem esquecer o «Solar do Marceneiro», ali à Calçada de Carriche, de vida breve, pois cantar a horas certas e sempre no mesmo sítio, nunca foi do seu agrado, nem mesmo em casa própria.
Foi tudo isto há muitos anos. Mas quanto a essas verdadeiras lições de cultura popular que o Alfredo Marceneiro dava, quando estava para aí voltado, não acredito que quem as tenha ouvido, possa esquecê-las.
Depois dessas noites mágicas, quando a madrugada já ameaçava, e todos se iam deitar, ele ajeitava o lenço de seda ao pescoço, e lá entrava ainda por aquela réstea de noite, sempre fugidio, indo geralmente até ao Ritz  Club,  para fazer  barba. Talvez para começar bem o dia. Talvez para acabar bem a noite. É que isto de tempo certo e horas marcadas não era com o Marceneiro. O seu tempo construía-o ele, como muito bem entendia. Tal como a vida. Tal como o fado.

Vítor Pavão dos Santos
O Jornal 8-7-1982



Anuncio do Solar do Marceneiro, no final da década de 1940, Solar este que pertencia a Alfredo Marceneiro e outro anuncio em 1950 de um restaurante naquela zona, com direção artística de Alfredo Marceneiro, talvez fosse o mesmo?.



Alfredo Marceneiro canta o Bêbado Pintor, Letra de Henrique Rego e Música de Alfredo Marceneiro - Alexandrino da Laranjeira: Para a Manuela de Freitas.



Morreu de cansaço e tristeza
por
Fernando Dacosta

O mundo exterior foi-se-lhe fechando devagar. Quando o percebeu sentiu-se cansado e triste. Sentou-se em casa, casa de páteo aldeão, deixou de cantar, de sorrir e de comer.

Aos 91 anos recusou, ele que sempre a amara, a vida. Não sofria de nada: corpo, coração, pulmões, rins, estavam bons. Apenas a vista se afundava. Morreu no amanhecer do último sábado, de cansaço, de tristeza — de velhice. Desinteressou-se, revelam os amigos, de continuar. A sua velha cidade transformara-se. As pessoas, as casas, as noites, os sentimentos tornaram-se outros — e tornaram-no alheio. A ele, fadista de génio e de orgulho, símbolo de um povo húmido e triste e ensombrado.


Alfredo Marceneiro e Herminia Silva em 1970. Foto copiada de jornal.

«Começou a entristecer, a entristecer (palavras de Mascarenhas Barreto) até que... De há oito anos para cá a vida nocturna de Lisboa, que era a sua, alterou-se radicalmente. Os velhos motoristas de praça, os velhos porteiros e empregados de mesa foram substituídos por gente nova que não o conhecia. Isso magoava-o muito. Por vezes não o deixavam entrar nas casas de fados, não o acarinhavam, e ele sempre foi tratado nas palminhas das mãos. Os taxistas paravam quando o viam e levavam-no muitas vezes de borla, toda a gente o chamava pelo nome, lhe oferecia a mesa, o ajudava, quando aparecia tudo mudava à sua volta, ofereciam-lhe dinheiro. Às vezes cantava, mas só cantava quando lhe apetecia. Recusou contratos, recusou filmes, recusou ofertas valiosas. Eu ia buscá-lo muitas vezes com outros amigos. Deixou de trabalhar muito cedo devido a um acidente numa mão. Vivia de uma reforma, com modéstia, mas com dignidade, passava os dias a descansar e só saía à noite pois tinha medo dos automóveis. O trânsito aterrorizava-o!» 


A Viela, Letra de Guilherme Pereira da Rosa e Música Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)


Fado feito de pinho...

Alfredo Marceneiro é uma memória de Lisboa, como as fragatas do rio, os bicos de gás, o cacau da Ribeira, onde várias vezes o vimos no raiar da manhã, memória terna e secreta feita, há muito, imaginário colectivo.
Nele, o fado é  um edifício sem tempo, um  Jerónimos  de afectividade, um vinho de penares, um altar de exorcismos. «A culpa foi do Júlio Dantas ao escrever «A Severa». O êxito foi tanto que o fado começou a entrar (evoca-nos Luís Oliveira Guimarães) nos salões e a levar os fidalgos às casas típicas. Ele é que arranjou essa trapalhada... Mais tarde o turismo tomou conta de tudo. Ora o Marceneiro ficou como era, só cantando quando queria. Ele dizia-me: a minha oficina chama-se Marcenaria & Fado. Eu faço fados em pau santo, em nogueira, em castanho, em mogno e em pinho. Os de pinho são os mais populares, os de maior agrado!»


Nesta foto estão três do nossos maiores fadistas de sempre: Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, (mãe de Carlos do Carmo) e Maria Teresa de Noronha, na casa de fados O Faia. Foto da net, sem data mas com a indicação: nos anos 60.


«Foram sectários com ele»

Envolto no seu universo, o velho fadista vagabundeou, livre e sábio, pelos anos, pela música, pela amizade, pelo orgulho de se saber resistente.
«Sim, resistente. Era um cantor da resistência (sublinha-nos Luís Cília) como um Gardel. Nunca se dobrou àquilo que o fascismo fez do fado. O Marceneiro era, em termos culturais, um cantor revolucionário porque verdadeiro, de raiz. Podia ter sido um tipo riquíssimo mas recusou, não cedeu. E era-lhe muito fácil entrar no sistema! Só tenho pena que não tenham sido os progressistas a pôr-lhe a medalha de Lisboa em vez do Abecassis. Mas os progressistas foram um bocado sectários com ele. Ele que tinha uma coisa cada vez mais rara: a autenticidade. Comovo-me muito ao ouvi-lo... o Ferré, quando cá esteve, gostou imenso de o ouvir, ficou muito impressionado. Que pena não ter sido aproveitado de outra maneira, mas os mentores da nossa cultura, que se calhar até têm muito pouca cultura, não se aperceberam do seu valor cultural!»


Alfredo Marceneiro, Amália e o marido em foto sem data copiada de jornal.


O fado também é protesto

Em entrevista antiga, Ti Alfredo desabafava: «Cá para mim o fado hoje não passa de uma fonte de receita turística... fado hoje é para inglês ouvir. Fado, canção do povo e para o povo? Não me façam rir! Onde está o povo que hoje em dia pode dar 500 escudos para ir às casas típicas?» O fado «também é uma canção de protesto, ou de denúncia!»
Singularíssimo o seu funeral foi caminhado ao som de guitarras, de vozes de fadistas, de palmas e de sinos. Pelas ruas fora, numa tarde sufocada de domingo e de emoção, até ao cemitério, amável, dos Prazeres.
Amália entoaria com outros «A Casa da Mariquinhas». «O fado — disse — morreu hoje». «Com lídima expressão e voz sentida/ Hei-de cumprir no mundo a minha sorte/ Alfredo Marceneiro toda a vida/ Para cantar o fado até à morte.»
Até à morte.

Fernando Dacosta
O Jornal 8-7-1982



Letra de Armando Neves e Música de Alfredo Marceneiro (Fado CUF).
"O MARCENEIRO"



Com lídima expressão e voz sentida
Hei-de cumprir no Mundo a minha sorte
Alfredo Marceneiro toda a vida
Para cantar o fado até à morte.



Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro.



Este apelido em mim, que pouco valho,
Da minha honestidade é forte indício.
Sou Marceneiro, sim, porque trabalho,
Marceneiro no fado e no ofício.



Ao fado consagrei a vida inteira
E há muito, por direito de conquista.
Sou fadista, mas à minha maneira,
À maneira melhor de ser fadista.



E se alguém duvidar crave uma espada
Sem dó numa guitarra para crer,
A alma da guitarra mutilada
Dentro da minha alma há-de gemer


citizengrave.blogspot.pt

“O ódio já está na Internet”


Juntámos à mesa jovens com percursos e experiências diferentes do discurso de ódio. Pusemo-los a dialogar sobre formas de lidar com as “piadolas” racistas ou homofóbicas que circulam nas redes sociais. Isto tudo a propósito de um manual do Conselho da Europa, que acaba de sair em português
Uma piada misógina na Internet torna-se viral e deixa uma jovem em pranto; o pranto vai em crescendo até ela ser de novo insultada por “se estar a fazer de vítima”. O insulto sobre a cor de pele negra de um rapaz propaga-se e torna-se um hábito que leva a outro insulto e a outro até se tornar insuportável estar na escola. Um comentário racista é deixado no mural do Facebook de alguém, mas outro alguém que também é alvo decide ficar calado. 
Quantos episódios como estes se passam na vida real e nas redes sociais e no nosso mural do Facebook, do Twitter? Até que ponto a fronteira entre liberdade de expressão de uma pessoa e direitos humanos da outra colidem no espaço público? Quanto destas ofensas são afinal discurso de ódio?
Em meados de Dezembro, o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), que coordena uma campanha do Conselho da Europa contra o discurso de ódio online, lançou um manual, com o nome Referências, para educar através dos direitos humanos. Fez acções de formação durante três dias com 24 participantes, entre professores e dirigentes de associações juvenis, entidades que irão ser multiplicadores da campanha. É um manual com exercícios para se reflectir em situações em que no centro está um caso de “discurso de ódio” – e para experienciar na própria pele o que é estar do lado das vítimas.
Para perceber como funciona este manual, o que é o discurso de ódio hoje nas redes sociais portuguesas e como é entendido pela juventude, juntámos à mesa um grupo de sete pessoas: quatro jovens com sensibilidades e experiências diferentes, uma membro de uma associação juvenil, a coordenadora da campanha do IPDJ, Margarida Saco, e uma mãe da Associação de Pais de uma escola em Lisboa. Lançámos perguntas, conduzimos a conversa, pusemos o foco na opinião de Tomás Barão, Edgar Cabral, Jéssica Pedro e Filipe Moreno.

1. O que é para vocês o discurso de ódio? Já vos atingiu?

Tomás Barão, 21 anos, estudante de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes. É de Palmela.

Já sofri bullying mas foi há alguns anos. Acabei por ultrapassar a questão. O discurso de ódio atinge todas as pessoas. Quando discrimino a pessoa negra, estou a discriminar a mulher, a pessoa transexual, a pessoa cigana… São minorias oprimidas que muitas vezes, elas próprias, são opressoras de outras minorias.
Por exemplo, noutro dia, fui dançar hip-hop. No espectáculo, o rapper falava sobre a sua vida, um bocado difícil. E no meio da música põe-se a dizer coisas misóginas e a incitar à violência contra as mulheres. Pensei: ‘Okay, estás a usar o rap como ferramenta para exprimires a opressão que sofres e ao mesmo tempo estás a oprimir.’ Estas coisas têm de ser desconstruídas, isso passa pelo que nos falta ter na escola. É muito fácil perceber que os manuais de História, por exemplo, não fazem a desconstrução do que foi a colonização portuguesa dos países africanos e têm uma narrativa extremamente imperialista, fala-se da epopeia dos portugueses mas não das atrocidades. Esta imagem pode ser um discurso de ódio. Ao ser complacente com essas discriminações, está a discriminar. Um professor de História tem de ter noção destas coisas e, se não consegue falar aos seus alunos sobre escravatura, fez essa escolha. Não sei se é discurso de ódio mas a invisibilidade mata, tem de ser abordada.
PÚBLICO -
Foto
Tomás Barão (à esquerda) e Edgar Cabral , ambos com 21 anos 
Depois fazem-se manuais [como o Referências]. Acho que têm um efeito muito limitado, não vão à raiz do problema. A raiz do problema atinge-se na escola, é onde as coisas têm de começar.

Edgar Cabral, 21 anos, animador sócio-cultural no Atelier de Tempos Livres de uma escola em Telheiras, vem do bairro Zambujal, na Amadora.

O Tomás tem razão. Há vários factores que trazem racismo, preconceito, discriminação, ‘n’ coisas que se não forem trabalhadas pela raiz dificilmente conseguimos mudar alguma coisa. Estes manuais podem-nos ajudar a minimizar mas não resolvem o problema – como diz a campanha, o ódio não é opinião, é um sentimento que temos de dentro de nós e, se não conseguirmos tirar o ódio de dentro de nós, dificilmente conseguimos mudar alguma coisa. O Tomás diz que sofreu bullying. Porque é que a educação que vem de casa não trabalhou isso? A escola tem de pegar no pai e na mãe, falar do caso de bullying, chegar ao foco do problema. Um pedido de desculpa serve mas ao mesmo tempo não serve porque deixa sempre marca nas pessoas. Eu, com a minha experiência nos bairros sociais, digo que há ódio racial. As pessoas passam ao lado e nem olham umas para as outras. Às vezes vejo crianças a dizerem: ‘És isto.’
Tomás Porque aprendem na família.
Edgar E dói. Há ‘n’ coisas que têm de ser trabalhadas. As campanhas e a publicidade são meios para chegar às pessoas, mas sem trabalho de campo é muito difícil. Nas redes sociais vê-se de tudo. O ódio já está na Internet. Às vezes abrimos a página de Facebook e já estamos a levar com alguma coisa.

2. Também sente isto em relação ao Facebook, Jéssica?

Jéssica Pedro, 17 anos, estudante do 12.º ano de Ciências Sócio-Económicas, vive no Bairro de Campolide, em Lisboa.

Sim. Basta entrar no feed do Facebook. O discurso de ódio incentiva ao discurso de ódio. Por exemplo, agora o assunto dos refugiados tem sido muito debatido. Há uns que lhes chamam terroristas, alguém escreve sobre isso, outra pessoa partilha porque concorda, segue-se um ciclo de pessoas a basearam-se em notícias falsas, que não têm sentido – e o ódio vai-se propagando. Depois há pessoas que dizem: ‘É a minha opinião, tens de aceitar.’ Liberdade de expressão é o argumento mais usado. Mas estão a ofender pessoas.
PÚBLICO -
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Jéssica Pedro e Filipe Moreno, ambos com 17 anos 

3. O que é classificaria como discurso de ódio?

Jessica É um discurso que incentiva o ódio em relação a uma raça, a uma pessoa, grupo social, de género, etc.

4. Há gradações?

Jéssica Sim, as minorias recebem muito mais discurso de ódio do que o grupo dos brancos, por exemplo.

5. E há coisas mais graves do que outras?

Jéssica Sim, mas efectivamente tudo é grave. Por exemplo, humor negro. Há piadas que não deviam ser consideradas humor sequer. E as pessoas dizem: ‘Ah, mas foi só uma piada.’ Assim passa. Há imensas piadas, até com violação, e em relação às raças, em que as pessoas dizem que não podemos levar a mal – essa é a desculpa mais frequente. Mesmo que não me afecte a mim, que afecte outra minoria, as pessoas dizem que não posso levar a mal.

Filipe Moreno, 17 anos, estudante no 12.º ano, na área de Economia, mora no Bairro de Alvalade, em Lisboa.

Em relação ao humor negro tenho uma mentalidade mais aberta. Mas concordo, acho que quem faz essas piadas nem pensa, é apenas um motivo para entreter. Em relação à sensibilização, na minha escola, todos os anos havia palestras, da polícia, de instituições: o bullying e ódio não é muito presente. Mas cada vez que abro o meu Facebook o ódio é constante, literalmente: ‘Este é cigano, este é gay, vamos desprezá-lo, não pode ter os mesmos direitos do que nós.’ Liberdade de expressão não é poder dizer mal de tudo. Há coisas mais pequenas, mais básicas que vão fomentar o ódio: a pessoa que partilha a seguir acrescenta um ponto e esse ciclo começou com algo que não é muito de ódio, mas acaba no extremo.

6. O que se faz nesse caso, quando se vê?

Filipe Deve-se tentar dar o nosso ponto de vista. Não se deve cair na crítica fácil de dizer ‘és racista’, mas mostrar o que está mal com contra-argumentos.

7. Faz sempre isso?

Filipe Nem sempre, porque muitas vezes nem conheço a pessoa. Mas tento fazer quando é um amigo. Não vou dizer directamente: ‘És racista.’
Jéssica Se formos responder com ódio, estamos a ser iguais a eles. Devemos expressar o nosso ponto de vista porque normalmente passamos ao lado das coisas, ‘isso não é comigo, não quero saber’ – acho que isso tem de ser mudado.
Edgar Nas redes sociais, quando vejo alguma coisa desse tipo, não ligo muito. Para quem vive num bairro social, isto é o prato do dia. Tento chegar perto da pessoa e mudar o ponto de vista e muitas vezes tenho sucesso porque estou perto da pessoa.
Tomás A Internet incita-nos a agir de maneira impulsiva. Custa, mas temos de perceber que é muito mais fácil acusar logo e dizer ‘és um racista, xenófobo’ do que [usar contra-argumentos].
A propósito das piadolas, tenho um amigo que escreve num blogue sobre transexualidade; estava a comentar uma série de piadas transfóbicas em que os humoristas se defendem dizendo que aquela é a profissão deles, ‘vocês não têm sentido de humor nenhum’. O que diz o meu amigo é que é possível fazer humor do lado das pessoas oprimidas. Como o Jon Stewart, que fez um segmento a gozar com o facto de as pessoas trans não terem direitos. Ou seja, a escolha é do humorista: possível é.

8. Como é a vossa experiência no envolvimento de discussões deste tipo?

Tomás Normalmente o que publicamos no Facebook é uma câmara de eco. Quando é algo pelos direitos LGBT, toda a gente diz ‘sim’, ‘like’. Mas uma vez publiquei uma notícia sobre a etnia cigana e foi incrível. As pessoas vinham dizer: ‘Tu tens razão, mas… a minha mãe é professora e na escola um cigano disse que queria ser ladrão’ – e outras coisas do género, historietas que não interessam para nada. Foi muito difícil desconstruir aquilo, é das coisas mais enraizadas na mentalidade portuguesa – e acho que não consegui.
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"Uma das preocupações do manual é dar instrumentos às pessoas para puderem analisar, terem capacidade crítica e intervirem", explica Margarida Saco, coordenadora da campanha do IPDJ 

9. O manual tem alguma coisa que ajude a lidar com estas situações?

Margarida Saco Acho que tem de ser cada um a encontrar os seus próprios argumentos. É uma questão de ir respondendo e desconstruindo com histórias e dados positivos. Assim como alguém diz que conhece um cigano que quer ser ladrão, há outros exemplos contrários. E não é por um querer ser ladrão que podemos generalizar. Estou aqui com isto aberto na parte do discurso online [abre o manual]: uma das coisas que faz é dar uma definição, e várias dicas e pistas, com exemplos. O discurso de ódio é sempre mau mas há o mau e o pior. Que medidas vamos usar para responder? Uma parte tem que ver com o tom, que dá para medir a intenção.
O manual dá estes exemplos de frases: ‘Os imigrantes, ao longo da história, têm sido uma má influência’, ‘as pessoas com deficiência vivem à custa do Estado’, ‘um preto não é um ser humano, é um animal’, ‘és uma prostituta, vou violar-te amanhã’. Aqui o tom do texto escrito vai aumentando, e embora o primeiro já seja mau o final é um discurso direccionado com ameaça. Também há outros exemplos aqui, é diferente a intenção da frase ‘acabem com os gays’ escrita num email a um amigo como piada ou no mural de alguém que é gay. Uma das preocupações do manual é dar instrumentos às pessoas para puderem analisar, terem capacidade crítica e intervirem.
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Gabriela Ramos, 40 anos, mãe, trabalha com a presidência da Associação de Pais da Vergílio Ferreira. Regina Lima, 26 anos, membro da Associação Bué Fixe

Regina Lima, 26 anos, membro da Associação Bué Fixe

Faz todo o sentido a ideia de contrapor o discurso com argumentos válidos, saber responder com argumentos positivos. O manual ajuda bastante. O discurso de ódio muitas vezes expressa já uma intenção, que é a sua pior forma – este exemplo de ‘vou violar-te’ se calhar não é tão comum, mas ‘merecia ser violada’ já se ouve.

10. Como é que se lida com o discurso de ódio que quer ser subtil?

Tomás Por isso faz falta treinar o espírito crítico e nisso a escola falha. Muitas vezes esses discursos passam indetectados. O outro é dar-nos argumentos contra. Alguém que lide com pessoas com deficiência consegue desconstruir esses argumentos, alguém que não conhece ninguém tem mais dificuldade. Por exemplo, tinha alguma dificuldade em dar alguns argumentos a pessoas que são contra as pessoas ciganas; só quando comecei a conhecer pessoas ciganas é que comecei a ter argumentos. Antes pensava: isto é discurso de ódio, há qualquer coisa de errado, mas não tenho informação, como lido com isto? Por isso faz falta estar em contacto com as comunidades, com as minorias e cada um partilhar aquilo que somos.

11. As redes sociais espelham discriminação em relação a mulheres, Jéssica?

Jéssica Sim, estamos atrás do computador, do ecrã e há o anonimato, é fácil as pessoas espelharem opiniões ridículas. Depois há um público maior: a partir do momento em que alguém publica uma opinião, estão imensas pessoas a ver. Voltando ao humor negro: para quem está a dizer uma piada, aquilo é só uma piada. Se alguém vê e concorda, pensa: ‘Há mais uma pessoa a concordar comigo e ainda tenho mais razão do que pensava que tenho.’ Assim vai-se espalhando.

12. E a escola que ferramentas dá para lidar com este tipo de questões?

Gabriela Ramos, 40 anos, mãe, trabalha com a presidência da Associação de Pais dos alunos da Escola Secundária de Vergílio Ferreira

O problema tem que ver com valores, com responsabilidade e o emitir opiniões. É preciso trabalhar a responsabilidade para com o outro, compreender. O meu filho, de oito anos, este ano foi alvo de bullying por causa da cor e ninguém deu por isso: ‘és preto’, ‘cheiras mal’, ‘o que estás a fazer na nossa turma?’, diziam-lhe. Davam-lhe encontrões no recreio, colocavam os seus pertences na casa de banho. Mas passavam despercebidos, foi outra criança que alertou os pais para o que se estava a passar. Erradicar o discurso do ódio passa também por perceber as estratégias que estão a ser usadas. Porque começou como uma piada: ‘vamos chamar-lhe preto’, ‘não brinquem com o Bernardo’. O líder teve seguidores e enraizou-se, tornou-se uma piada. Uma miúda da turma do Bernardo passava por ele e dava um estalo na cara, achava piada. Eu ponho o dedo na ferida, abordei alguns pais sobre isto que aconteceu para perceberem que nem tudo corre bem: não temos filhos perfeitos.
PÚBLICO -






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Campanha "Ódio não". O manual do Conselho da Europa, agora traduzido, visa educar pelos direitos humanos 



13. Como é que se controla a piadola que começa a ter seguidores?

Filipe Passa pelos pais. E quando os preconceitos começam em casa, há grupos que são discriminados logo aí.
Tomás Na comunidade LGBT é um bocadinho mais difícil. As crianças ciganas têm pais ciganos, as negras têm pais negros e sofrem o mesmo. As pessoas LGBT quase sempre têm pais que não são LGBT e muitas vezes estão em risco de serem postas fora de casa apenas por o pai ou mãe descobrirem que são gay, lésbica, transexual…
Nesse caso, é um discurso de ódio que os jovens muitas vezes ouvem em casa sempre que aparece uma coisa na televisão, o pai ou mãe mandam o comentário e a pessoa em casa encolhe-se, fica a perceber que há algo errado ali. É o efeito da piadola, que pode ser extremamente pequenina e parecer insignificante mas a pessoa ao lado vai sentir-se mal. Se calhar há pessoas com sensibilidade para não fazer piadas racistas quando está um negro por perto mas as pessoas muitas vezes não pensam que está por perto uma pessoa lésbica, homossexual ou trans porque não é visível, só se a pessoa se assumir. As discriminações operam de maneiras diferentes.

14. Se pensarem nas vossas redes sociais, o que é mais comum verem de discurso de ódio?

Tomás Acabo por fechar as minhas redes sociais a isso, quem não interessa não sigo – sou amigo de pessoas que têm mais cuidado com aquilo que dizem.

15. O argumento do politicamente correcto é muito usado?

Tomás E qual é o mal?
Filipe Que é isso de politicamente correcto? Temos a nossa opinião independentemente de ser politicamente correcta. Se algum dia tiver uma opinião e disserem que é politicamente incorrecta, não a vou apagar por causa disso.
Jéssica As pessoas normalmente justificam o discurso de ódio como sendo opinião. Não é. Temos direito a ter a nossa opinião desde que não estejamos a ofender ninguém. Dizerem que ‘és preto e não gosto de ti’ e justificarem que é uma opinião… Não. Temos de estabelecer a diferença entre opinião e discurso de ódio.

16. O discurso de ódio devia ser punido?

Tomás Não sei se cabe a mim decidir.
Edgar Pergunta muito difícil.

[Em Portugal, há legislação, quer através da lei de discriminação racial ou do Código Penal, que pune racismo, xenofobia, discriminação com base na orientação sexual.]
Filipe Acho também há a procura dos revoltados das redes sociais, acontece tantas vezes as marias madalenas a chorar... Muitas vezes procura-se chamar racista e xenófobo a pessoas com discursos em que nem sequer há essa intenção.
Regina O discurso de ódio também tem que ver com a forma como se define. O que o Filipe está a dizer é que o que para mim é discurso de ódio não será para ele. Se calhar depende se fazemos ou não parte de uma minoria, habitualmente discriminada ao longo do tempo – uma pessoa que não sofreu na pele se calhar não vê. Somos livres, sim, faz parte dos direitos humanos, mas temos de colocar as coisas no ponto em que a minha liberdade começa onde acaba a do outro. Não posso achar que a minha liberdade é um dado absoluto e achar que neste contexto devo dizer tudo o que quero.