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domingo, 12 de fevereiro de 2017

ARRANJAI-O SENÃO...MERDA !


CANÇÃO DA FUNDAÇÃO DO NATIONAL DEPOSIT BANK
Pois não é?: Fundar um banco
É bom para preto e branco.
Se o dinheiro se não herda
Arranjai-o; senão-merda!
Boas são pra isso acções;
Melhores que facas, canhões.
Só uma coisa é fatal –
Capital inicial.
Mas, quando o dinheiro falta,
Donde vem, se não se assalta?
Ai! não nos vamos zangar!:
Donde outros o vão tirar.
De algum lado ele viria
E a alguém se tiraria.


Bertolt Brecht
(tradução de Paulo Quintela)

O preconceito contra o deficiente ao longo da história




Resumo
          O preconceito contra pessoas com deficiência é um comportamento ainda bastante aparente na sociedade contemporânea. Mesmo com o número crescente de campanhas e movimentos sociais, ainda é possível se observar gestos e atitudes que como resultado final fazem com que o portador de deficiência seja um indivíduo excluído da sociedade. Por outro lado, o senso comum indica que esse contexto é algo que sempre esteve presente na história humana, legitimando este comportamento de várias formas. Porém, alguns estudos mostram de forma cada vez mais contundente que esta prática exclusivista foi construída historicamente com o passar dos anos.
          Unitermos: Deficiente. Preconceito. Discriminação social. Eugenia.



Introdução
   

A condição das pessoas com deficiência é um terreno fértil para o preconceito em razão de um distanciamento em relação aos padrões físicos e/ou intelectuais que se definem em função do que se considera ausência, falta ou impossibilidade, sendo baseada apenas em um aspecto ou atributo da pessoa, tornando a diferença uma exceção (SILVA, 2006). O indivíduo que apresenta alguma deficiência é em muitos casos exposto a situações de agressão e violência, geradas basicamente pelo preconceito. Neste contexto, persiste a idéia de que estas pessoas seriam “anormais” ou “limitadas”, fato que inclusive faz com que o deficiente tenha dificuldades para se inserir no mercado de trabalho (CRISTINA & RESENDE, 2006). Além disso, existem relatos mostrando na escola a existência de práticas discriminatórias, como o bullying (BOZI et al, 2008).
    A relação da sociedade com a pessoa com de deficiência varia de cultura para cultura e refletem crenças, valores e ideologias que, materializadas em práticas sociais, estabelecem modos diferenciados de relacionamentos entre esta e outras pessoas, com ou sem deficiências (FRANCO & DIAS, 2005). Muitas vezes o termo utilizado para descrever um indivíduo com deficiência é negligenciado e em muitos casos o termo mais usado é portadores de deficiência. Ao realizar uma pesquisa na base de dados Scielo, foram encontrados 6 artigos publicados entre 2001 e 2011, que utilizaram o termo “portador” de deficiência. A partir de 1981, foi introduzida a expressão pessoa deficiente, porém este termo foi abandonado, já que sugeria que a pessoa inteira é deficiente. Em seguida surgiu o termo pessoa portadora de deficiência, freqüentemente reduzida para portadores de deficiência, palavra que logo sofreu críticas, pois de acordo com o movimento pelos direitos das pessoas com deficiência, as pessoas não portam uma deficiência como portam um sapato ou uma bolsa (RODRIGUES & SELEM, 2006). Por volta da metade da década de 90, entrou em uso a expressão pessoas com deficiência, que valoriza o cidadão e mostra com dignidade a realidade da deficiência, termo este que permanece até os dias atuais (SASSAKI, 2003). 
    Cabe destacar que estes comportamentos são também influenciados por diversos fatores, incluindo questões culturais e sociais ao longo da história. Registros históricos mostram que no período que compreende os anos de 1200 até 1940, pessoas com deficiência eram submetidas a diversos procedimentos que em muitos casos levavam à morte como pode ser observado na Tabela 1 (adaptada de ADAMS, 2007).

Tabela 1. Descrição dos métodos adotados para tratar portadores de deficiência nos períodos entre 1200 e 1940
   


O antropólogo Francis Galton (1822-1911), publicou em 1901 um manuscrito onde aplicava a Teoria da Evolução de Charles Darwin, na sociedade humana. Neste texto ele afirmava que existem pessoas com mais “valor cívico” do que outras e que tal patamar poderia ser alcançado, por meio do acasalamento seletivo tal como é feito com bois e cachorros (GALTON, 1901). Nesta época, se considerava que ao impedir a procriação dos indivíduos de menor valor, através da esterilização, se impedia que sua “fraqueza” fosse perpetuada para a próxima geração melhorando o estoque do material humano. No entanto esse conceito foi remodelado, incluindo também o extermínio baseado no argumento de não era necessário para a sociedade se importar com pessoas “mentalmente ou intelectualmente mortas” quando o Estado sacrificou gerações de vidas saudáveis e jovens no campo de batalha. Sendo assim, no final da Primeira Guerra Mundial, teve início na Alemanha nazista um programa de eutanásia para crianças deficientes (Figura 1), chamado programa T4, que também tinha como objetivo se expandir para adultos (HUDSON, 2011). Baseado na lógica nazista esse projeto foi amplamente divulgado por meio de cartazes e tinha o seguinte lema: “... porque Deus não quer que o doente se reproduza”.
Figura 1. Criança com deficiência intelectual na Alemanha nazista que provavelmente foi morta durante o Projeto T4. Fonte: http://goo.gl/Z0P2w
   


A visão Eugenista da sociedade é anterior a esse período, onde podem ser observados registros de tais práticas em diferentes regiões do mundo. No Império Bizantino, a Igreja Católica em conjunto com o Estado, levava pessoas com deficiência para mosteiros (SCHEWINSKY, 2004), enquanto que na Idade Média, a deficiência era vista como atuação de maus espíritos e do demônio, sob o comando das bruxas, e também resultado da ira celeste e castigo de Deus (ADAMS, 2007).


Práticas discriminatórias anteriores à Idade Média
   

Em Esparta essa ideologia pode ser observada de forma bem clara. Por volta de 480 a.C., crianças recém-nascidas frágeis ou com alguma deficiência eram jogadas do alto do monte Taigeto a mais de 2.400 metros de altura por não estarem dentro do padrão físico adequado (SULLIVAN, 2001). A civilização romana, por sua vez, preconizava a perfeição e estética corporal, a deficiência era tida como monstruosidade fato que legitimava atos seletivos tal como descreve SILVA (1987) o famoso discurso de Sêneca (4-65 d.C) que justifica o infanticídio:
    ..."Não se sente ira contra um membro gangrenado que se manda amputar; não o cortamos por ressentimento, pois, trata-se de um rigor salutar. Matam-se cães quando estão com raiva; exterminam-se touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos; se nascerem defeituosos e monstruosos afogamo-los; não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis”. (p.46).
    Nesta época, indivíduos portadores de deficiência eram apresentados como monstros para o público, inclusive de forma artificial através de manipulações cirúrgicas (DASEN, 1988). Estudos indicam que a cultura grega, pode ter sido de fato um ponto de transição na forma como o deficiente era tratado pela sociedade. Portadores de deficiência na Grécia eram descritos por palavras como “fraco”, “incompleto” ou “imperfeito”. As evidências disponíveis indicam que a sociedade é que determinava se uma pessoa era ou não deficiente. Se um indivíduo com uma determinada limitação era capaz de se sustentar ou tivesse alguém que lhe desse auxílio, ele se mantinha integrado na sociedade e não era considerado clinicamente deficiente (BAKER, 2006). Portadores de nanismo recebiam uma avaliação social positiva, devido a uma semelhança com os sátiros1 e com o mundo dionisíaco (DASEN, 1988). Por outro lado, paradoxalmente a deformidade era tratada com certo horror e, além disso, a perfeição física era tida como pré-requisito determinante da qualidade da alma (SULLIVAN, 2001). Na mitologia grega temos o exemplo de Hefesto, o deus do metal e do fogo, que era manco e por isso considerado disforme aos olhos dos antigos gregos, sendo posteriormente expulso do Olimpo por sua própria mãe a deusa Hera (EBENSTEIN, 2006).


A visão egípcia sobre o deficiente
   

O Egito era anteriormente conhecido como a “Terra dos Cegos”, tal era a quantidade de pessoas acometidas por doenças oftalmológicas como conjuntivite, catarata e glaucoma. Tais informações puderam ser confirmadas após a descoberta do famoso “Papiro de Ebers”, nome dado em homenagem ao seu descobridor, o egiptólogo Georg Ebers (Figura 1). Neste documento que data de 1.500 a.C, encontram-se fórmulas mágicas e tratamentos para diversos males, incluindo doenças oftalmológicas, além de uma descrição relativamente precisa do sistema circulatório (FINGER, 1994).
Figura 2. Parte do famoso “Papiro de Ebers”, mostrando uma receita para a cura da asma que consistia 
em misturar ervas juntamente com tijolo aquecido e inalar seus vapores. Fonte: http://goo.gl/cdoSP
   

Outro fato bastante interessante pode ser observado no monumento da XIX Dinastia, produzido há mais de 1.300 anos antes de Cristo. Nessa peça está apresentado um homem identificado como “Roma”, juntamente com sua esposa e filho durante um ritual religioso. Ele exercia um cargo de grande responsabilidade na época que era o de porteiro do templo de um dos deuses egípcios. Roma era portador de uma deficiência física bastante evidente em sua perna esquerda, cujas características (pé equino e musculatura atrofiada) sugerem ser poliomielite. Além disso, ele devia apresentar dificuldades de locomoção uma vez que ele carrega em sua mão esquerda um longo bastão de apoio (Figura 2).
Figura 3. Monumento representando um deficiente físico que ocupava um cargo
de grande responsabilidade no Egito Antigo. Fonte: http://goo.gl/cdoSP
   


Existem outras indicações de que no Egito Antigo os portadores de deficiência não eram necessariamente isolados da sociedade, sugerindo que a pessoa com deficiência se integrava em diferentes classes sociais, inclusive constituindo família. Relatos adicionais mostram também que eles exerciam funções de relativa importância social como pode ser observado em diferentes achados arqueológicos (KOZMA, 2006).
    Outra deficiência física relativamente comum no antigo Egito era a acondroplasia, que é a forma mais comum de nanismo rizomélico2. Esta doença altera o crescimento afetando a ossificação endocondral, sendo caracterizada como um distúrbio autossômico dominante, porém cerca de 80 a 90% dos casos são representados por novas mutações. Dessa forma, na maioria dos casos os pais de filhos acondroplásicos não apresentam a mutação gênica (LOPES et al, 2008). Estes achados foram confirmados por meio da análise de esqueletos e também são abundantemente encontrados em pinturas e registros deixados pelos egípcios. Interessantemente, existem relatos de que em alguns casos foram encontrados registros mostrando que havia anões bem posicionados socialmente que também constituíram famílias, inclusive com pessoas que não apresentavam esta doença. Na figura abaixo é possível perceber a estreita semelhança entre a representação de um anão no Egito antigo e um indivíduo portador de acondroplasia nos dias de hoje (Figura 4).
Figura 4. Paciente portador de acondroplasia (A); Tumba de um anão contendo sua representação física (B). 
Os hieróglifos indicam que ele prestava serviços a pessoas da alta hierarquia egípcia. Fonte: http://goo.gl/4GjTj
   

Também foram encontrados diversos registros de anões que exerciam funções especializadas como: pescadores, domadores de animais, dançarinos, enfermeiros, entre outros (HAMADA & RIDA, 1972). De maneira geral os anões tinham uma representação muito positiva no Egito Antigo, pois se acreditava que seu aspecto representava alguma significância mágica, existindo inclusive preces específicas para proteção em situações de perigo. Outro aspecto bastante interessante reside no fato de que alguns deuses eram anões e tinham culto próprio (Figura 5). Uma dessas divindades era o deus anão Bes, que era cultuado como o Deus do Amor, da Fertilidade e da Sexualidade (KOZMA, 2006).
    O povo Egípcio buscava o desenvolvimento espiritual através da tradição de ensinamentos. Neste sentido, existia um documento chamado “Instruções de Amenemope”, que era tido como um código de conduta moral egípcio e que determinava que anões e deficientes em geral fossem respeitados, sendo este um dever moral (KOZMA, 2006; KOZMA et al, 2011). Esse manuscrito se encontra preservado quase em sua totalidade no Museu Britânico e um de seus trechos diz:
    Não faça gozações de um homem cego nem caçoe de um anão, nem interfira com a condição de um aleijado. Não insulte um homem que está na mão de Deus, nem desaprove se ele erra.” (KOZMA et al, 2011).
Figura 5. Escultura representando o deus Bes, que tinha como uma de suas principais funções 
repelir o Mal (358-341 a.C), 30ª Dinastia reinado de Nectanebo II. Fonte: http://goo.gl/BoiY6
   


Filler et al (2007) encontrou indícios históricos do que se considera ser o procedimento de neurocirurgia mais antigo registrado no mundo (3.000 a.C). O processo se refere a uma manobra de tração que foi utilizada de forma eficaz em um caso de lesão da medula cervical. Interessantemente, existem relatos no “Papiro de Ani” (Livro dos Mortos), mostrando que Osíris após ser esquartejado por Seth, recobrou a força e o controle de suas pernas, após tratar de sua coluna vertebral. A conexão entre uma coluna vertebral íntegra e a habilidade de locomoção, era reconhecida nessa época e aparece como metáfora para representar a vida e a morte em inúmeros sarcófagos egípcios, sendo normalmente representada pela “Coluna de Djed” (Figura 6).
Figura 6. Imagem que mostra a “Coluna de Djed”, mecanismo que ao ser colocado nas costelas e na coluna 
vertebral do Deus Osíris promoveu sua cura e lhe devolveu sua capacidade de caminhar. Fonte: http://goo.gl/CCZjD
   

Com o avanço tecnológico na pesquisa, novos estudos puderam ser realizados com a utilização de técnicas mais modernas. O trabalho de Hawass et al (2010), mostrou a partir de abordagens Paleogenômicas, que o rei Tutancâmon, o jovem faraó do Egito, era frágil, deficiente físico e sofria de “desordens múltiplas” quando morreu aos 19 anos de idade, em cerca 1234 a.C. Os pesquisadores diagnosticaram na múmia de Tutancâmon e de alguns de seus familiares, diversas desordens ortopédicas Ao que tudo indica, Tutâncamon sofria de uma rara desordem óssea conhecida como Doença de Köhler II, que afeta principalmente o osso navicular do pé afetando o suprimento vascular, gerando dor, edema e finalmente necrose. Além disso, existem indícios de que ele também apresentava pé equinovaro, também conhecido como pé torto congênito (Figura 7). Estas informações são corroboradas pela grande quantidade de bengalas e medicamentos encontrados em sua tumba. Porém estas condições por si só não teriam condição de provocar a morte do faraó. Os pesquisadores também encontraram DNA de Plasmodium falciparum, parasita responsável por causar malária. A descoberta levou a equipe de cientistas a concluir que a combinação desse quadro pode ter sido a responsável por sua morte precoce.
Figura 7. (A) Tomografia computadorizada mostrando uma vista sagital dos pés de Tutancâmon, onde se é possível perceber um diferença no ângulo 
de Rocher (valores normais são iguais a 126º); (B) Alteração estrutural no pé esquerdo característica de pé equinovaro. Fonte: http://goo.gl/V1IdG


Achados arqueológicos primitivos
   

A pesquisa realizada por Buquet-Marcon et al (2009), relatou o que se acredita ser o registro mais antigo de uma amputação bem sucedida realizada de forma intencional e com relativa precisam. O procedimento foi realizado há aproximadamente 7.000 anos atrás na região que hoje compreende a França. Diferentemente do que se possa imaginar, após uma inspeção do material os pesquisadores não encontraram sinais de contaminação, sugerindo que o processo foi realizado em condições relativamente assépticas. As informações disponíveis também indicam que o paciente conseguiu viver após a amputação sem maiores problemas. Além disso, o dado mais interessante é que as roupas e a forma como o corpo foi sepultado, sugerem que esse era um indivíduo que ocupava um importante lugar na sociedade da época (Figura 8). Os autores concluem que nesse local existia um conhecimento médico relativamente avançado com complexas regras sociais, que parecem ter influenciado a maneira como pessoas nesta condição eram tratadas.
Figura 8. Esqueleto encontrado na escavação, com a ferramenta utilizada na amputação ao lado esquerdo do crânio (A); Ampliação do 
úmero amputado (B); Reconstrução computadorizada da peça óssea e sinais de cicatrização (setas brancas) (BUQUET-MARCON et al (2009)
   


Registros ainda mais antigos, referentes ao período Paleolítico Superior (40.000 anos atrás), mostram indícios bastante detalhados sobre o tratamento dado aos indivíduos portadores de deficiências. Formicola & Buzhilova (2004) descrevem um enterro de duas crianças, um menino (12-13 anos) e uma menina (9-10 anos), no sito arqueológico de Sunghir, localizado na Rússia. Os resultados encontrados sugerem que as duas crianças possuíam uma anomalia chamada de curvatura congenital dos ossos longos. O extremo cuidado na realização do funeral (decoração e posicionamento dos corpos) sugere a existência de um complexo sistema de crenças e simbolismo envolvendo o portador de deficiência. Análises macroscópicas do esqueleto da menina também sugerem que sua deformidade não a impediu de ser fisicamente ativa.
    Outro achado bastante interessante foi o enterro duplo de uma mulher e de um adolescente, encontrados em Romito, Itália. Análises realizadas no esqueleto mostram que o rapaz sofria de nanismo acromesomélico3 (HUNTER & FORMICOLA, 2008). Geralmente uma pessoa com esta condição possui inteligência normal, sem apresentar complicações médicas graves. Porém, ocorre uma severa deficiência de crescimento, com mobilidade articular limitada nos braços. Estas limitações físicas provavelmente interferiram com sua subsistência, principalmente se considerarmos uma sociedade nômade de caçadores-coletores. No entanto, o posicionamento dos esqueletos, que parecem se abraçar (HOLT & FORMICOLA, 2007), assim como a forma como o enterro foi realizado, sugerem tolerância e cuidados para um indivíduo com severas deformidades nesta época do Paleolítico Superior, como podemos observar na Figura 9 (FRAYER, 1987).
Figura 9. O enterro de uma mulher e de um adolescente anão
na caverna de Romito, Itália (FORMICOLA, 2007)
   


O arqueólogo Ralph Solecki, encontrou na caverna de Shanidar, Iraque um esqueleto masculino de um Neandertal, com cerca de 50 anos que apresentava severos ferimentos na cabeça e nos braços, que foram adquiridos em idade muito anterior. Os indícios apontam que este homem foi cuidado por outros membros do grupo, fato inclusive que indica algum grau de capacidade cognitiva (SOLECKI, 1971).

Discussão
   

Embora possamos ter a priori, um contexto onde pessoas com deficiência eram eliminadas da sociedade por serem incapazes, algumas pesquisas vem mostrando que essa concepção não ocorreu em todos os períodos históricos. De acordo com as evidências disponíveis, os egípcios parecem ter sido um dos povos antigos que mais manifestaram formas de inclusão social e de estratégias terapêuticas em casos de deficiência. Cabe ressaltar que estes comportamentos também puderam ser observados mesmo em épocas mais antigas, (FRAYER, 1987; BUQUET-MARCON et al, 2009). Da mesma forma, este comportamento parece ter sido resgatado somente a partir do Humanismo, no século XV, onde a concepção de Homem se modificou, iniciando-se a diferenciação no tratamento de portadores de deficiência e da população pobre em geral (SCHEWINSKY, 2004).
    No que se refere às intervenções ortopédicas, existem diversos registros de procedimentos para inúmeras situações, que eram realizados no Egito, na Grécia e em Roma (BRORSON, 2009). Com relação ao nanismo, interessantemente não foram encontrados registros sobre o nanismo nos papiros egípcios, indicando que esta condição não era considerada uma deficiência e nem uma condição médica (KOZMA, 2006).
    O culto ao corpo útil e aparentemente saudável pela sociedade contemporânea entra em rota de colisão com aqueles que portam uma deficiência, pois estes lembram a fragilidade que se busca negar. Sendo assim, a condição das pessoas com deficiência é um terreno fértil para o preconceito em razão de um distanciamento em relação aos padrões físicos e/ou intelectuais que se definem em função do que se considera ausência, falta ou impossibilidade. Fixa-se apenas num aspecto ou atributo da pessoa, tornando a diferença uma exceção (SILVA, 2006). Por outro lado, o corpo marcado pela deficiência, por ser disforme ou fora dos padrões, lembra a imperfeição humana (FRANCO & DIAS, 2005).
    Em conclusão, podemos observar que os registros que datam de aproximadamente 40.000 anos atrás sugerem que o cuidado direcionado ao deficiente já existia em períodos primitivos da Humanidade. De maneira geral o deficiente participava ativamente da vida social, desde que sua condição não fosse limitante para tal. Já no Egito Antigo, a ausência de documentação médica mostra que capacidade de autonomia do indivíduo era determinante para se definir alguém como deficiente. A inclusão social do deficiente era incluída entre o código de conduta moral da época, sendo este um dos primeiros registros sobre o tema. A exclusão social do deficiente foi construída historicamente em um processo de transição que parece ter ocorrido na Grécia Antiga por volta de 480 a.C. que se concretizou após a queda do Império Egípcio pelos romanos (SULLIVAN, 2001). A expansão do Império Romano na Europa pode explicar, ao menos em parte, a modificação na forma como o deficiente passou a ser encarado pela sociedade, persistindo até os dias de hoje. Entender este processo pode ajudar a compreender algumas das bases onde se sustentam certos pré-julgamentos e comportamentos discriminatórios contra o deficiente. O fato mais interessante recai na forte possibilidade de que diferente do que o senso comum nos indica a exclusão social do deficiente ao longo da história não é uma norma. Infelizmente os estudos que mostram essas nuances foram realizados fora do Brasil dificultando o acesso a tais informações, que precisam ser divulgadas para que novas discussões sobre o tema possam ser estimuladas.

Notas
  1. Entidade mitológica que vivia nos campos e bosques, com o corpo metade humano e metade bode.
  2. Relativo à articulação coxo-femoral ou à do ombro; que se relaciona com a raiz de um membro.
  3. Crescimento desproporcional do esqueleto que afeta principalmente os antebraços, mãos e pés. 
Referências
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 www.efdeportes.com

Por de trás das fotografias de Sebastião Salgado

O doutor em economia Sebastião Salgado somente assumiu a fotografia quando tinha uns 30 anos, mas a atividade tornou-se uma obsessão. Seus projetos de anos de duração capturam lindamente o lado humano de uma história global que muitas vezes envolve morte, destruição e ruína. Aqui, ele conta uma história profundamente pessoal da arte que quase o matou, e apresenta imagens espetaculares de seu trabalho mais recente, "Gênesis", que documenta um mundo de pessoas e lugares esquecidos.

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    Sebastião Ribeiro Salgado Júnior é um famoso fotógrafo brasileiro. Foi internacionalmente reconhecido e recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como reconhecimento por seu trabalho. Fundou em 1994 a sua própria agência de notícias, "As Imagens da Amazônia", que representa o fotógrafo e seu trabalho. Salgado e sua esposa Lélia Wanick Salgado, autora do projeto gráfico da maioria de seus livros, vivem atualmente em Paris. O casal tem dois filhos.
    Mais de 1,7 milhão de árvores foram plantadas para reflorestar parte da Mata Atlântica entre Espírito Santo e Minas Gerais. Por essa iniciativa, o fotografo Sebastião Salgado e sua esposa, Lélia Wanick, receberam o Prêmio-E na categoria Educação na Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) Rio+20, no Rio de Janeiro.
    Abaixo segue o vídeo e a fala do famoso fotógrafo Sebastião Salgado se apresentando no TED. TED é uma organização sem fins lucrativos dedicada à difusão de idéias, geralmente sob a forma de palestras.
    Aqui, ele conta uma história profundamente pessoal da arte que quase o matou, e apresenta imagens espetaculares de seu trabalho fotográfico mais recente, Gênesis, que documenta um mundo de pessoas e lugares esquecidos.
    "Não tenho certeza se todas as pessoas aqui conhecem minhas fotografias. Quero começar a mostrar-lhes algumas fotos, depois falarei", disse o fotógrafo Sebastião Salgado no TED.
    Confira o vídeo:


    SE ESTIVER EM INGLÊS E QUISER ACCIONAR AS LEGENDAS EM PORTUGUÊS
    CLIQUE NA RODINHA DENTADA NO CANTO INFERIOR DO VÍDEO E CLIQUE DEPOIS ONDE DIZ LEGENDAS DESACTIVADAS DEPOIS ENCONTRARÁ OS IDIOMAS E CLIQUE NO PORTUGUÊS.
    ABAIXO TAMBÉM ESTÁ A TRANSCRIÇÃO PARA A NOSSA LÍNGUA


    Transcrição do vídeo para português:
    Devo contar-lhes um pouquinho de minha história, porque estaremos falando disso durante minha palestra aqui. Nasci em 1944, no Brasil, numa época em que o Brasil não era ainda uma economia de mercado. Nasci em uma fazenda, uma fazenda que era mais de 50 por cento floresta tropical [ainda]. Um local maravilhoso. Vivi com pássaros incríveis, animais incríveis, nadei em pequenos rios com jacarés. Aproximadamente 35 famílias viviam nessa fazenda, e tudo que era produzido nessa fazenda, nós consumíamos. Muito poucas coisas iam para o mercado. Uma vez por ano, a única coisa que ia para o mercado era o gado produzido, e fazíamos viagens de mais ou menos 45 dias para chegar ao abatedouro, trazendo milhares de cabeças de gado, e cerca de 20 dias de viagem para voltar à nossa fazenda novamente.
    Quando eu tinha 15 anos, foi necessário que eu deixasse esse lugar e fosse para uma cidade um pouco maior — muito maior — onde fiz a segunda parte da escola secundária. Lá aprendi coisas diferentes. O Brasil estava começando a se organizar, a se industrializar, e eu conheci a política. Tornei-me um pouco radical, era membro de partidos de esquerda, e transformei-me em um ativista. Fui à universidade para ser um economista. Fiz um mestrado em economia.
    E a coisa mais importante em minha vida também aconteceu nessa época. Encontrei uma garota incrível que se tornou minha melhor amiga pela vida, minha sócia em tudo que fiz até agora, minha esposa, Lélia Wanick Salgado.
    O Brasil radicalizou-se muito fortemente. Lutamos duramente contra a ditadura, num certo momento foi necessário para todos nós: ir para um local clandestino com as armas em nossas mãos ou deixar o Brasil. Éramos muito jovens, e nossa organização achou que era melhor para nós sair, e fomos para a França, onde fiz um doutorado em economia, Lélia tornou-se arquiteta. Trabalhei depois para um banco de investimento. Fizemos muitas viagens, desenvolvimento financiado, projetos econômicos na África com o Banco Mundial.
    E um dia a fotografia fez uma invasão total na minha vida. Tornei-me um fotógrafo, abandonei tudo e tornei-me um fotógrafo, e comecei a fazer a fotografia que era importante para mim. Muitas pessoas me dizem: você é um fotojornalista, você é um fotógrafo antropologista, você é um fotógrafo ativista. Mas fiz muito mais que isso. Coloquei a fotografia como minha vida. Vivi completamente dentro da fotografia, realizando projetos de longo prazo, e quero mostrar-lhe algumas fotos de — novamente, vocês verão dentro dos projetos sociais, que prossegui, publiquei muitos livros sobre essas fotografias, mas mostrarei apenas algumas agora.
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    Nos anos 90, de 1994 a 2000, fotografei uma história chamada Migrações. Tornou-se um livro. Tornou-se um show.
    E tomei a decisão de parar. Estava realmente transtornado com a fotografia, com tudo no mundo, e tomei a decisão de voltar para onde nasci. Foi uma grande coincidência. Era o momento em que meus pais se tornaram muito velhos. Tenho sete irmãs. Sou o único homem na minha família, e eles, juntos, decidiram transferir aquela terra para Lélia e para mim. Quando recebemos essa terra, a terra estava tão morta quanto eu. Quando eu era criança, havia mais de 50 por cento de floresta tropical. Quando recebemos a terra, havia menos que meio por cento de floresta tropical, como em toda minha região. Para construir o desenvolvimento, o desenvolvimento brasileiro, destruímos muito de nossa floresta. Como vocês fizeram aqui, nos Estados Unidos, ou fizeram na Índia, em todos os lugares neste planeta. Para construir nosso desenvolvimento, chegamos a uma enorme contradição em que destruímos tudo a nosso redor. Essa fazenda que tinha milhares de cabeças de gado tinha apenas algumas centenas, e não sabíamos como lidar com isso. E Lélia surgiu com uma ideia incrível, uma ideia louca.
    Ela disse: por que você não repõe a floresta tropical que havia aqui antes? Você diz que nasceu no paraíso. Vamos construir o paraíso novamente.
    E fui ver um bom amigo, que era engenheiro florestal, para preparar um projeto para nós, e começamos. Começamos a plantar, e no primeiro ano perdemos muitas árvores, no segundo, menos, e lentamente, vagarosamente essa terra morta começou a nascer novamente. Começamos a plantar centenas de milhares de árvores, somente espécies do local, somente espécies nativas, com que construímos um ecossistema idêntico àquele que fora destruído, e a vida começou a voltar de uma forma incrível. Foi necessário transformar nossa terra em um parque nacional. Transformamos. Devolvemos essa terra à natureza. Ela tornou-se um parque nacional. Criamos uma instituição chamada Instituto Terra, e construímos um enorme projeto ambiental para levantar dinheiro em todos os lugares. Aqui em Los Angeles, na Bay Area em São Francisco, tornou-se dedutível dos impostos nos Estados Unidos. Levantamos dinheiro na Espanha, na Itália, muito no Brasil. Trabalhamos com muitas empresas no Brasil que colocaram dinheiro neste projeto, o governo. E a vida começou a vir, e tive um grande desejo de voltar para a fotografia, de fotografar novamente. Nessa época, meu desejo era não mais fotografar apenas um animal que eu tinha fotografado toda minha vida: nós. Queria fotografar os outros animais, fotografar as paisagens, fotografar a nós, mas nós no começo, no tempo em que vivíamos em equilíbrio com a natureza. E prossegui. Comecei no início de 2004 e terminei no final de 2011. Criamos uma quantia incrível de fotos, e o resultado — Lélia fez o ‘design’ de todos meus livros, o ‘design’ de todos meus shows. Ela é a criadora de meus shows. E o que queremos com essas fotos é criar uma discussão sobre o que temos que é primordial no planeta e que devemos manter neste planeta, se queremos viver, para ter equilíbio em nossa vida. E eu queria ver a nós quando usávamos, sim, nossos instrumentos de pedra. Nós existimos ainda. Semana passada, estive na Fundação Nacional do Índio, e apenas no Amazonas temos mais ou menos 110 grupos de índios que não foram contatados ainda. Temos que proteger a floresta nesse sentido. E com essas fotos, espero que possamos criar informação, um sistema de informação. Tentamos fazer uma nova apresentação do planeta, e quero mostrar-lhes agora algumas fotos desse projeto, por favor.
    Bem, isto — (Aplausos) — Obrigado. Muito obrigado.
    Isto é aquilo por que devemos lutar fortemente para manter como está agora. Mas há uma outra parte que devemos reconstruir juntos, construir nossas sociedades, nossa família moderna de sociedades, estamos em um ponto em que não podemos voltar. Mas criamos uma contradição incrível. Para construir tudo isso, nós destruímos muito. Nossa floresta, no Brasil, aquela floresta antiga que era do tamanho da Califórnia, está 93 por cento destruída hoje. Aqui, na Costa Oeste, vocês destruíram sua floresta. Aqui em redor, não? As florestas vermelhas se foram. Foram muito rápido, despareceram. Outro dia, vindo de Atlanta, aqui, dois dias atrás, eu voava sobre desertos que nós fizemos, nós causamos com nossas próprias mãos. A Índia não tem mais árvores. A Espanha não tem mais árvores.
    E devemos reconstruir essas florestas. Isso é o sentido de nossa vida, essas florestas. Precisamos respirar. A única fábrica capaz de transformar CO2 em oxigênio são as florestas. A única máquina capaz de capturar o carbono que estamos produzindo, sempre, mesmo se reduzirmos, para tudo que fazemos, produzimos CO2, são as árvores. Coloco a questão — três ou quatro semanas atrás, vimos nos jornais milhões de peixes que morreram na Noruega. Falta de oxigênio na água. Coloquei para mim mesmo a questão, se por um momento, não teremos falta de oxigênio para todas as espécies animais, inclusive a nossa — isso seria muito complicado para nós.
    Para o sistema de águas, as árvores são essenciais. Vou dar-lhes um pequeno exemplo que entenderão facilmente. Vocês, pessoas felizes que têm muito cabelo na cabeça, se tomam um banho, leva duas ou três horas para o cabelo secar, se não usam um secador. Para mim, um minuto, está seco. O mesmo acontece com as árvores. As árvores são os cabelos de nosso planeta. Quando chove em um lugar que não tem árvores, em poucos minutos, a água chega à correnteza, traz solo, destrói nossa fonte de água, destrói os rios, e não há umidade para reter. Quando temos árvores, o sistema de raízes segura a água. Todos os galhos das árvores, as folhas que caem criam uma área úmida, e leva meses e meses para que a água vá para os rios, e mantém nossa fonte, mantém nossos rios. Esta é a coisa mais importante, quando pensamos que necessitamos de água para toda atividade na vida.
    Quero mostrar-lhes agora, para encerrar, algumas fotos que para mim são muito importantes nesse sentido. Lembram-se de que contei a vocês, quando recebi a fazenda de meus pais que era meu paraíso, que era a fazenda. Terra completamente destruída, erosão, a terra tinha secado. Mas podem ver nesta foto, estávamos começando a construir um centro educacional que se tornou um centro ambiental muito grande no Brasil. Vocês veem muitos pontos úmidos nesta foto. Em cada um desses pontos, plantamos uma árvore. Há milhares de árvores. Agora vou mostrar-lhes as fotos feitas exatamente no mesmo local, dois meses atrás.
    (Aplausos)
    Disse-lhes no começo que era necessário plantar aproximadamente 2.5 milhões de árvores de cerca de 200 espécies diferentes para reconstruir o ecossistema. E vou mostrar a última foto. Estamos com dois mihões de árvores no chão agora. Estamos fazendo a retirada de mais ou menos 100.000 toneladas de carbono com essas árvores.
    Meu amigos, é muito fácil de fazer, Fizemos isso, não? Por um acidente que aconteceu comigo, voltamos, construímos um ecossistema. Nós aqui nesta sala, acredito que tenhamos a mesma preocupação, e o modelo que criamos no Brasil, podemos transplantá-lo aqui. Podemos usá-lo em todos os lugares no mundo, não? E acredito que podemos fazer isso juntos.
    Muito obrigado. (Aplausos)
    Algumas fotos de Sebastião Salgado:
    Obs.: O motivo das fotografias de Sebastião serem em preto e branco remete a uma técnica importante. Observa-se que todo o trabalho de Salgado é realizado em preto e branco. A ausência de cor significa ausência de informação, isto é, o foco está na clareza da situação retratada. O autor da foto deseja que aquele que a observa concentre-se na situação em si, e não em um ou mais elementos da mesma, o que interessa é o contexto, o impacto do momento retratado.
    “Nada no mundo é em branco e preto. Mas o fato de eu transformar toda essa gama de cores em gamas de cinza me permitiam fazer uma abstração total da cor e me concentrar no ponto de interesse que eu tenho na fotografia. A partir desse momento, eu comecei a ver as coisas realmente em branco e preto”, afirma o fotógrafo Sebastião Salgado.
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    ESCÂNDALOS na BABILÓNIA de CELULÓIDE


    Sexo, drogas e morte. Em Hollywood, essas histórias não estão apenas em filmes. O lado negro da indústria do entretenimento se estende em vidas destruídas e carreiras comprometidas. Nbest-seller “Hollywood Babylon: It's Back” (literamente, “Hollywood Babilônia: Ela Está de Volta”, 2008), de Danforth Prince e Darwin Porter, que segue os passos de “Hollywood Babylon”, de Kenneth Anger - publicado em 1959 -, e de sua continuação “Hollywood Babylon II”, de 1984, os autores dissecam estrelas de cinema, revelando fatos sórdidos, loucuras sexuais, bizarrices e imagens de nus frontais. Entre dezenas de revelações, cita Lucille Ball (que se prostituia antes de se tornar atriz), Elvis Presley (seu romance com o ator Nick “Yuma” Adams), James Dean (o envolvimento amoroso com um adolescente de 12 anos), Bette Davis (o assassinato suspeito de um dos seus maridos) e Judy Garland (o destino incerto do seu corpo pós-morte).

    Tenho os dois volumes da obra de Anger, numa simpática edição espanhola. Ex-ator infantil, ícone underground, nascido em Hollywood, filho de atores e criado no meio artístico, ele rasga o véu que cobre certas histórias de celebridades, ilustradas quase sempre por fotos raras. Sobra até para a nossa Carmen Miranda, que segundo o autor guardava cocaína na plataforma dos sapatos. Um cult na biblioteca de cinéfilos, o livro abalou a puritana e dissimulada indústria cinematográfica norte-americana, foi perseguido e reeditado ao longo dos anos. Odiada por artistas e seus descendentes, mas adorada pelo público, a publicação em dois volumes decepciona na informação sem dados concretos e escrita fragmentada.

    Reuni alguns fatos extravagantes da comunidade cinematográfica hollywoodiana, pescados nos livros de Prince-Porter e Anger, e também em diversas biografias, revistas especializadas, documentários e entrevistas. Confira.


    GARRAFA MORTAL

    O hilário gorducho ROSCOE “FATTY” ARBUCKLE (1887 - 1933) alcançou o sucesso através do produtor-diretor Mack Sennet, numa carreira marcada por êxitos espetaculares. Conhecido no Brasil como Chico Bóia, na vida privada se entregou a quantidades absurdas de álcool e amantes. No auge da popularidade, em 1921, numa orgia em uma suíte de um hotel luxuoso em San Francisco, o comediante provocou a morte de Virginia Rappe, introduzindo brutalmente uma garrafa de champanhe na vagina da aspirante a atriz, revoltado por não conseguir uma ereção. O julgamento foi um impressionante evento midiático. Mesmo se livrando das grades, nunca mais voltou a atuar. Abandonado por todos e falido, terminou na sarjeta, embriagado, morrendo aos 46 anos.


    OVERDOSE

    o velório da estrela
    Uma das mais fascinantes estrelas do cinema mudo, BARBARA LAMARR (1896 - 1926) dormia apenas duas horas por dia, reinando incansavelmente em festas e nas telas. Viciada em cocaína e heroína, ela guardava seu pó em uma pequena caixa de ouro em cima do piano de cauda e o ópio que usava era considerado da melhor qualidade. Recomendada pela amiga Mary Pickford, brilhou como a Milady de Winter de “Os Três Mosqueteiros / The Three Musketeers” (1921), ao lado do astro Douglas Fairbanks. 

    Casou-se aos 17 anos, e nos 12 anos seguintes se casaria outras quatro vezes, sem deixar de ter outros incontáveis parceiros sexuais, tanto homens como mulheres incapazes de resistir aos seus encantos. Morreu aos 26 anos de uma overdose e a história se tornou pública, provocando a ira dos conservadores e reforçando a fama de Hollywood como “a cidade do pecado”, afinal três anos antes, o encantador galã WALLACE REID (1891 - 1923), rei da Paramount, também havia morrido de overdose, aos 30 anos.


    SUSPEITA de ASSASSINATO

    Considerada por muitos a melhor comediante do cinema mudo, MABEL NORMAND (1892 - 1930) arruinou-se ao ser envolvida em 1922 no assassinato de William Desmond Taylor, o chefão da Famous Players-Lasky. Avisada do crime antes da polícia, a atriz correu até a casa do falecido para resgatar cartas que registravam seu vício em cocaína, além de expor a secreta relação sentimental deles. Flagrada pela polícia revistando o lugar, passou a ser considerada suspeita. O crime permaneceu insolúvel, mas sua carreira se acabou. Em 1927 abandonou o cinema e três anos depois, enfraquecida com o uso excessivo de drogas, morreu de tuberculose.


    SEDUZINDO MARINHEIROS

    Popular e elegante astro romântico da Metro-Goldwyn-Mayer, WILLIAM HAINES (1900 - 1973) contracenou com Joan Crawford, Mae Murray, Marion Davies, Norma Shearer e Mary Pickford. Muitos na comunidade cinematográfica sabiam de sua homossexualidade, mas o chefão Louis B. Mayer vivia à beira de um ataque de nervos com a possibilidade dos deslizes do ator parar nas páginas dos jornais. Quando a conservadora Brigada do Vício flagrou-o num sórdido hotel com um marinheiro, sua carreira chegou ao fim. Para piorar a situação, em 1936, membros da Ku Klux Klan o espancaram. Graças a amigos como Joan Crawford, Carole Lombard, Gloria Swanson e George Cukor, o ator deu a volta por cima, sendo celebrado como um dos mais disputados decoradores de Hollywood.


    HOMENS aos MONTES

    Conhecida como a It-Girl (a garota que tinha “aquilo”), a ruiva CLARA BOW (1905 - 1965) era uma sedutora estrela da Paramount conhecida em todo o planeta. De repente, tudo se acabou em 1930 quando sua secretária particular, Daisy DeVoe, vendeu sua intimidade para uma revista de fofocas nova-iorquina, a GraphiC”. Ela havia anotado todos os homens que haviam dormido com a patroa nos quatro anos em que trabalhou para ela. Entre eles, Gary Cooper, John Wayne e um time completo de futebol norte-americano. O caso parou nos tribunais e consideraram a secretária culpada, mas a carreira da atriz afundou de vez: o estúdio não renovou seu contrato e o público a rejeitou. Nos anos seguintes, internada várias vezes em sanatórios, morreu louca.


    ORGASMO nas TELAS

    O filme Êxtase / Ecstasy (1933) provocou um grande escândalo no seu lançamento. A atriz austríaca HEDY LAMARR (1914 - 2000) fica nua, corre entre árvores e mergulha num rio. Depois, há uma simulação de masturbação. Tudo de muito longe. Dura apenas poucos minutos, mas um comitê do governo norte-americano se escandalizou. A fita saiu de cartaz. Também por causa do buxixo mundial, Hedy foi espancada pelo marido, um milionário fabricante de armas, que gastou mais de 300 mil dólares para incinerar as cópias disponíveis do filme. Disfarçada com as roupas da empregada, ela fugiu para Paris e depois para os Estados Unidos, tornando-se uma das mais famosas estrelas da Metro-Goldwyn-Mayer.

    DIÁRIO ERÓTICO

    Ainda novinha se destacou em “O Belo Brummel / Beau Brummel” (1924), ao lado de John Barrymore, então seu amante. MARY ASTOR (1906 - 1987) nunca mais parou, seja como heroína ou como vilã. Em 1935, seu então marido descobriu casualmente o diário onde ela confessava com detalhes que o traía com o dramaturgo George S. Kaufman, exaltando a potência sexual do amante. Humilhado, ele pediu o divórcio e a custódia da filha única. O juiz responsável pelo caso recusou o diário como prova, mas a imprensa reproduziu trechos picantes do mesmo. O escândalo correu mundo, mas a atriz seguiu adiante, enfrentando piadinhas, ganhando o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A Grande Mentira / The Great Lie e atuando por mais três décadas.


    FILHA ILEGÍTIMA

    Escolhidos para a versão cinematográfica de William A. Wellman da saga de Jack London, "O Grito das Selvas / The Call of the Wild” (1935), a química entre CLARK GABLE (1901 - 1960) e LORETTA YOUNG (1912 - 2000) resultou ardente tanto nas telas como fora delas. Durante as filmagens, saíram notas na imprensa bisbilhotando o romance dos astros e garantindo que Gable pediria o divórcio de sua esposa para se casar com Loretta. Isso não ocorreu. Assim que o filme ficou pronto, a 20th Century-Fox anunciou que a atriz tiraria meses de descanso por questões de saúde. Naquela época, dar a luz fora do matrimônio era a ruína para qualquer estrela. Em 1937, Loretta revelou publicamente a adoção de uma menina de cerca de dois anos, Judy, que no futuro teria inegável semelhança física com a mãe. No entanto, a atriz nunca a assumiu como filha legítima, tampouco de Gable.


    DECLÍNIO, ALCOOLISMO e MORTE

    Astro de muita popularidade na era do cinema mudo, JOHN GILBERT (1897 – 1936)entrou em declínio ao desafiar o chefe da Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer, ofendendo-o e exigindo salário mais elevado. Demitido do estúdio e boicotado pelo produtor, ainda fez mais um filme na Columbia Pictures antes de morrer, aos 38 anos, de um ataque cardíaco causado pelo alcoolismo. O ator decadente Norman Maine (Fredric March) de “Nasce Uma Estrela / A Star is Born” (1937) foi inspirado nele.


    DEVORADA MORTA

    Depois de esplêndida reputação como uma das vamps mais populares do cinema mudo,MARIE PREVOST (1898 - 1937) fracassou no cinema falado devido a voz inadequada. Sobrevivendo como coadjuvante e dominada pela depressão, engordou rapidamente. Ao investir em um regime radical, em 1937, terminou morrendo. Sozinha, seu cadáver permaneceu esquecido por vários dias no sujo apartamento em que ela vivia, sendo devorado, em parte, aos pedaços, por um esfomeado cachorro salsicha de estimação.


     APENAS BONS AMIGOS?

    Boatos sugeriam que CARY GRANT (1904 – 1986) teria um romance com RANDOLPH SCOTT (1898 – 1987). Os dois moravam juntos e insistiam em não se casar. Pressionados por todos, acabaram se casando com duas amigas. Segundo algumas revistas de fofocas, eles chegaram a assumir o romance para os mais íntimos.


    DUAS GAROTAS da PESADA

    Acusado de estupro em 1942, ERROL FLYNN (1909 - 1959) na ocasião era uma das figuras mais estimadas de Hollywood. As supostas vítimas, duas menores, Peggy Satterlee e Betty Hansen, garantiram que foram levadas pelo ator ao seu iate, o Sirocco, após conhecê-lo numa festa, e se deixaram seduzir. Os jornais de todo o mundo estamparam na primeira página: “Robin Hood acusado de estupro”.  O disputado julgamento durou um certo tempo, mas o ator foi inocentado e o seu filme seguinte, “O Ídolo do Público / Gentleman Jim”, foi um tremendo sucesso.


    RITUAL SUICIDA

    Formosa mexicana que brilhou em Hollywood, a passional LUPE VELEZ (1908 - 1944)casou-se com o Tarzan Johnny Weissmuller em 1933. Em decadência e endividada, filmou no México “Naná” (1944), que foi bem recebido pela crítica. De volta a Hollywood, teve um caso com um cafajeste bonitão, Harald Ramond, ficando grávida. Ele pouco se importou, garantindo que não se casaria com ela. A atriz se negou a abortar e incapaz de encarar a vergonha de dar a luz a um filho ilegítimo, decidiu por fim a própria vida. Vestida sofisticadamente, recebeu suas duas melhores amigas para um suntuoso jantar mexicano. No final da noite, sozinha na alcova com dezenas de velas e flores exóticas, engoliu muitas pílulas para dormir, passando mal - o estômago estava cheio de comida picante - e terminando por morrer com a cabeça enfiada no vaso sanitário, afogada no próprio vômito.


    A CARREIRA ou o AMOR

    Contratado pela 20th Century-Fox, WILLIAM EYTHE (1918 - 1957) cresceu em filmes com Jennifer Jones, Joan Bennett, Linda Darnell e Jeanne Crain. A máquina publicitária do estúdio insistia que o jovem ator estava namorando uma das estrelas mais quentes da temporada, Anne Baxter, mas na vida real ele era gay e amava um colega muito popular na época, LON McCALLISTER (1923 - 2005). Quando um fã publicou fotos comprometedoras dos dois, o presidente da Fox, Darryl F. Zanuck, furioso, obrigou-o a trabalhar um tempo na Inglaterra enquanto os comentários esfriavam.

    McCallister não se conteve, indo ao encontro do amante e selando o fim da carreira de ambos, que tiveram seus contratos cancelados. Eythe procurou mudar a situação, casando-se rapidamente com a atriz Buff Cobb, mas o matrimônio arranjado durou pouco e acabou feio: a esposa exigiu dinheiro para fechar a boca. Ele nunca mais se reergueu, morrendo em 1957, de hepatite, aos 38 anos.

    BAD BOY

    saindo da prisão
    Talento, carisma e estilo cínico e indolente fizeram de ROBERT MITCHUM (1917 - 1997) um dos grandes nomes de Hollywood. Encarnava nas telas desprezo pela autoridade e desrespeito aos bons costumes. Sempre com classe. Na adolescência, foi expulso da escola e viajou clandestinamente de trem pelo país. Aos 14, foi preso por vadiagem. Com seus olhos de ressaca, meio-sorriso irônico e voz grave e profunda, encarnou o anti-herói de inúmeros filmes noir. Em 1949, ficou 50 dias preso por uso de maconha e o escândalo, em vez de liquidar sua carreira, deu-lhe um novo impulso, tornando-o um astro. Apesar da bebida e das brigas, atuou em mais de 130 filmes e impôs respeito por seu talento e carisma. Uma vez Howard Hawks lhe disse: “Você é uma farsa. É um dos sujeitos que conheço que mais trabalham”. Mitchum respondeu: “Não espalhe”.


    OS INFIÉIS

    A grande diva italiana ANNA MAGNANI (1908 - 1973)estrelara “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) e “O Amor / L'amore” (1948), ambos dirigidos pelo namorado ROBERTO ROSSELLINI (1906 - 1977), e esperava trabalhar com ele em seu filme seguinte,“Stromboli  / Idem” (1950). Contudo, uma mudança ocorreu após o cineasta receber uma inesperada carta da estrela INGRID BERGMAN (1915 - 1982)enaltecendo seu trabalho, e colocando-se a sua disposição como atriz. Os dois se encontram em Nova York, terminando no convite para ela protagonizar seu próximo filme. Casada com um dentista sueco, Ingrid cai de amores pelo cineasta durante as filmagens, então envolvido com a temperamental e ciumenta Anna. 

    A italiana foi substituída pela estrela de Hollywood no coração de Rossellini, provocando um escândalo internacional envolvendo a igreja e os bastidores de “Stromboli”. Os produtores originais do projeto mantém Anna Magnani e iniciam um outro filme,“Vulcano / Volcano” (1950), com história semelhante. Rejeitada por Hollywood e fãs, perseguida pela imprensa, Ingrid estrelaria seis filmes (incompreendidos na época) do cineasta italiano e, juntos, tiveram três filhos, entre eles a atriz Isabella Rossellini. Em 1956, ela recebeu o perdão oficial de Hollywood com o seu segundo Oscar de Melhor Atriz por “Anastácia, a Princesa Esquecida / Anastasia” (1956).


    CIÚMES e TIROS

    Lembrada por magníficos filmes noir dirigidos por Fritz Lang e Jean Renoir, no início dos anos 1950 JOAN BENNETT (1910 - 1990) teve a imagem arranhada quando seu marido, o lendário produtor Walter Wanger, deu dois tiros no agente Jennings Lang, acreditando que ele estava tendo um caso com ela. A vítima se recuperou, mas Wanger não se livrou da prisão de quatro meses. Vivendo um momento de sua trajetória em que se especializara em donas de casas sensatas e abnegadas, a atriz sofreu um certo boicote, pois muitos acreditavam que ela era realmente infiel. Acho que eu atirei em mim mesma, disse ela na ocasião, continuando casada com o enciumado produtor até 1965.

    BELEZA DESTRUÍDA

    Sua vida barra pesada foi contada em livros, filme e peça de teatro. BARBARA PAYTON(1927 - 1967) aprendeu cedo que tinha um efeito fulminante sobre o sexo oposto. Aos 16 anos fugiu de casa com um namorado. Começou sua carreira como modelo, estreando no cinema em 1949. Belíssima e boa atriz, seduziu o super star James Cagney, que lhe ofereceu um inesperado salário de US $ 5.000 por semana para ela protagonizar ao seu lado o violento O Amanhã que não Virá Kiss Tomorrow Goodbye (1950). Elogiada pela crítica, tudo garantia que seria uma estrela. 

    Estrelou o western Resistência Heroica Only the Valiant (1951) com Gregory Peck, surgindo um comentado romance com o ator (casado) durante as filmagens. O discreto Peck ficou louco por ela. Em 1951, o declínio da atriz era evidente, boicotada pelos poderosos de Hollywood que não aceitavam sua vida de festas, bebedeiras e relações com homens casados ou de reputação duvidosa. Ela casou-se quatro vezes e teve romances badalados com Howard Hughes, Bob Hope, Woody Strode, Guy Madison, George Raft, John Ireland e Steve Cochran. 

    Em 1950, noivou o veterano ator FRANCHOT TONE (1905 – 1968), tendo ao mesmo tempo um caso com outro colega, TOM NEAL (1914 – 1972). Em 14 de setembro de 1951, Neal, um ex-boxeador, atacou fisicamente Tone no apartamento de Barbara, deixando-o em coma por 18 horas, rosto esmagado e nariz quebrado. O incidente rendeu uma grande publicidade. Eles se casaram, mas o divórcio veio em menos de um ano. Destruída emocionalmente com o fim precoce da carreira, enveredou no alcoolismo e drogas, abrindo caminho para vários conflitos com a lei, incluindo prisões por cheques sem fundos e, eventualmente, uma prisão na Sunset Boulevard por prostituição. Dormiu em bancos de ônibus e sofreu espancamentos regulares como prostituta. Após uma breve internação para se desintoxicar, voltou a viver com os pais alcoólatras, morrendo em 1967, aos 39 anos, totalmente esquecida.


    REJEIÇÃO


    AVA GARDNER (1922 – 1990) despertava tórridas paixões. Uma de suas vítimas foi FRANK SINATRA (1915 – 1998). Eles chegaram a ficar casados durante alguns anos, de 1951 a 1957, entre bebedeiras e cenas de ciúmes. Mesmo depois da separação, Sinatra continuava apaixonado. Tanto que pediu que a amiga Lauren Bacall entregasse um bolo de coco a Ava, que estava filmando em Roma. Ava ignorou o presente. Ao saber disso, Sinatra cortou os pulsos com uma gilete, mas sobreviveu. No final da vida, adoentada e com dificuldades financeiras, Ava recebeu todo o apoio necessário do ex-marido.


    O MARIDO da MELHOR AMIGA

    A união de DEBBIE REYNOLDS (1932) e EDDIE FISHER (1928 - 2010) foi considerada o casamento do ano, mas, dois anos depois, a coisa desandou. Eddie, era amigo de Mike Todd, segundo marido de ELIZABETH TAYLOR (1932 - 2011). Os dois casais eram vistos juntos frequentemente e, quando Todd morreu em um acidente, um ano após o casamento, Eddie não perdeu tempo e, ao consolar a viúva, acabou se envolvendo com ela. Como todo traído, Debbie foi a última a saber do relacionamento dos dois, uma vez que os jornais já davam pistas e nas festas, o comentário era geral. O escândalo apareceu em todos os noticiários e Liz passou a ser odiada por muita gente.


    O GANGSTER

    A super estrela de “A Caldeira do Diabo / Peyton Place”, LANA TURNER (1921 - 1995), apaixonou-se por um gangster sexy e notório gigolô, bem mais novo que ela, Johnny Stompanato. Constantemente agredida por ele e ameaçada de ter seu rosto desfigurado caso ela deixasse de o sustentar, vivia em pânico, bebendo como um cossaco para relaxar. Em 1958, a adolescente Cheryl Christina, depois de presenciar sua mãe ser surrada mais uma vez pelo bandido, o assassinou com uma faca de cozinha. Numa atuação impecável no tribunal, vestida lindamente de negro e com óculos escuros, a loura Lana chorou e quase desmaiou, resultando na absolvição da filha.

    o cadáver de johnny stompanato


    FOTOS COMPROMETEDORAS


    ANNA KASHFI (1934) era conhecida como uma beldade de origem hindu. Atraído por mulheres exóticas, MARLON BRANDO (1924 – 2004) ficou louco por ela. Pouco depois do casamento, explodiu a bomba: um operário do País de Gales reconheceu nos jornais sua filha fugitiva. Brando pediu o divórcio, mesmo com ela grávida. No tribunal, exigindo uma alta soma de dinheiro, ela mostrou fotos comprometedoras do marido com o belo ator francês Christian Marquand. A carreira dela foi para o limbo, mas pelo resto da vida ganhou do ex-marido a quantia de meio milhão de dólares anuais.


    MORTE BRUTAL

    Foi um dos grandes latin lovers do cinema mudo. Em 1925, alcançou o seu maior sucesso como protagonista de “Ben-Hur / Idem”, causando grande sensação. MasRAMON NOVARRO (1899 – 1968) não escondia sua homossexualidade, enlouquecendo a Metro-Goldwyn-Mayer, que exigiu um casamento de fachada. Como ele recusou a farsa, seu contrato não foi renovado. Em decadência, trabalhou em filmes de B e tentou sem êxito a sorte na Broadway. Na década de 1960, foi assassinado em sua casa por dois irmãos prostitutos. Depois de torturá-lo, eles asfixiaram-no e o degolaram com uma pequena faca, alem de saquear sua casa.


    ASSASSINADA por ACIDENTE?

    Estrela desde a década de 1950, NATALIE WOOD (1938 - 1981) foi casada duas vezes com o ator ROBERT WAGNER (1930), de 1957 a 1962, e de 1972 a 1981, num romance explorado durante anos pelas publicações de fofocas. Em 1981, aos 43 anos, ela, o marido e o ator CHRISTOPHER WALKEN (1943) - colega dela no filme “Projeto Brainstorm / Brainstorm” (lançado em 1983) - foram fazer um passeio de barco. Ela desapareceu numa noite e foi encontrada na manhã seguinte, afogada, e o bote salva vidas do barco estava próximo ao corpo da atriz. Sua morte foi considerada um acidente. 

    Em 2011, o capitão do barco apareceu em um programa de TV falando que havia mentido no primeiro depoimento e que havia ouvido uma discussão violenta entre Natalie e um enciumado Robert. Isso reabriu a investigação sobre o caso. A necrópsia revelou que ela tinha hematomas e arranhões pelo corpo, incluindo pescoço e rosto, que ocorreram antes da queda. O atestado de óbito foi refeito, considerando que ela morreu por “afogamento e outros fatores indeterminados”. Nenhum dos dois atores comenta sobre o assunto e a causa da morte de Natalie continua sendo um mistério.


    ACONTECEU NUMA LOJA de LUXO

    Surgindo para o mundo em filmes de Tim Burton, WINONA RYDER (1971) mostrou-se como um dos nomes mais promissores da nova geração de atrizes.  Concorreu duas vezes ao Oscar de Melhor Atriz, firmando sua reputação com público e crítica. Protagonizou grandes filmes, sendo dirigida por Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen. Porém, em 2001, um escândalo abalou a sua carreira de forma quase irreversível. A atriz foi detida pela polícia, após ser flagrada roubando mais de seis mil dólares em itens de uma loja de luxo em Beverly Hills. Livrou-se das grades ao pagar uma fiança de trinta mil dólares, mas o dano causado pelo escândalo arruinou sua carreira. O seu nome, que outrora tinha força e representatividade, caiu em descrédito perante a indústria.

























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