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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sabia que o rosto mais “beijado” do mundo pertence a uma morta?

Talvez você não saiba, mas é bastante provável que, em algum momento, você tenha beijado o rosto que estampa a imagem acima — mesmo que apenas indiretamente. Trata-se das feições de uma jovem mulher conhecida apenas como “L'Inconnue de la Seine”. Em tradução do francês, seria “A mulher desconhecida do Sena”.
Esse curioso apelido se deve ao fato de que, até hoje, sabe-se apenas que a moça de identidade desconhecida foi encontrada morta nas águas do rio Sena, na França, no final do século 19 (provavelmente em algum ponto entre as décadas de 1870 e 1880). Deslumbrado com o rosto enigmático da “Inconnue”, o legista responsável teria forjado uma máscara mortuária, eternizando os traços da moça e, de quebra, dando origem a um verdadeiro fenômeno cultural.

A “Inconnue” ganha popularidade

Ocorre, entretanto, que o suposto médico — cuja identidade é tão incerta quanto a de sua musa — não foi o único conquistado pela expressão ambígua (estranhamente feliz) da Inconnue. Após a Inconnue ganhar popularidade no início do século 20, diversas cópias começaram a surgir por todo lado, normalmente postadas como objeto decorativo.
Conta-se que parte dos luminares da época ostentava cópias da Inconnue em seus domicílios, usualmente atribuindo o fascínio à semelhança entre seu sorriso ambíguo e o da retratada anônima da obra-prima de Leonardo da Vinci, a Mona Lisa. Não obstante, fala-se também no quão surpreendente são os detalhes encontrados na Inconnue — os quais que normalmente se encontram apagados em corpos retirados das águas.
Ademais, com o interesse crescente, a figura ganhou o interesse da história das mídias artísticas. Aparentemente, as cópias que ocupavam a França à época tinham todas a mesma origem: o negativo de um registro fotográfico.

Estado da Arte boêmio

Mas o mito da moça anônima não foi cultivado apenas por diletantes tentando acompanhar as últimas excentricidades da moda. Na verdade, a grande incerteza envolvendo as causas da morte da misteriosa modelo acabou por fertilizar as mentes já naturalmente excitáveis de diversos artistas da época.
O escritor Albert Camus comparava o sorriso ambíguo da L'Inconnue de la Seine ao da retratada na obra Mona Lisa, de Leonardo da Vinci
Em seu texto “Influence and Autenticity of l’Inconnue de la Seine”, Anja Zeidler menciona nomes como Albert Camus, Rainer Maria Rilke e Anaïs Nin. Aparentemente, muitos gostavam de exercitar a criatividade ao conceber hipóteses para a causa da morte, traçando ainda possíveis existências prévias para a malfadada moça.

O ideal erótico de um período

De objeto decorativo por excelência, o ícone da Inconnue rumou ainda para as cabeças das moças europeias. Mesmo morta e de origem desconhecida, a moça passou a figurar como modelo estético para muitas donzelas francesas afeitas às últimas tendências. “Contaram-me que toda uma geração de moças alemãs se modelavam [tendo a Inconnue] como inspiração”, conta em seus estudos o crítico A. Alvarez.
Conforme levantado por Alvarez, o fenômeno foi apontado pelo professor da Universidade de Sussex Hans Hesse. “A Inconnue se tornou uma espécie de ideal erótico de todo um período, assim como ocorreu com [Brigite] Bardot durante a década de 1950”, escreveu Alvarez, mencionando, como exemplo, o estilo adotado pela atriz alemã Elisabeth Bergner. Segundo Alvarez, o paradigma estético Inconnue perderia força apenas na época em que a atriz Greta Garbo surgia, juntamente com seu estilo próprio.

“O rosto mais beijado de todos os tempos”

Se você já passou por algum treinamento de reanimação cardiorrespiratória (referenciado como CPR), é bastante provável que, em algum momento, você tenha lascado um beijo cheio de boas intenções na misteriosa suicida do rio Sena. Conforme foi posteriormente revelado pela fabricante, a boneca didática Rescue Annie foi forjada nos moldes da Inconnue.
Rescue Anne: boneca para treinamento de reanimação cardiorrespiratória foi moldada segundo os traços da L'Inconnue de la Seine
E, bem, considerando-se a popularidade do modelo, é fácil compreender porque se diz que o rosto da donzela do século 19 é o “mais beijado de todos os tempos” — embora as Rescue Annies tenham surgido apenas 80 anos após a morte da Inconnue.

Em busca de uma identidade

Enfim, a despeito do impacto cultural e até didático, fato é que até hoje praticamente nada se sabe sobre a moça que deu vida ao mito da L'Inconnue de la Seine. Na verdade, não há nem mesmo um acordo sobre se a Inconnue realmente existiu — o mesmo valendo para o seu obcecado primeiro admirador, o legista do qual fala a história, e também para a própria máscara original.
Entretanto, o que não faltam são hipóteses e, sobretudo, outras histórias envolvendo uma possível origem para a moça. Embora admita que “é possível que ela jamais tenha existido”, Alvarez afirma ter ouvido a história de um pesquisador que rastreou as origens da moça até a Alemanha, terminando por encontrá-la viva — a filha do então próspero artesão responsável pelo molde.

Uma musicista, uma modelo...

Já o site The Framer’s Collection identifica a Inconnue como uma musicista de ascendência húngara chamada Ewa Lázló (imagem abaixo), assassinada por um tal Louis Argon. Já René Vautrain, outro interessado no assunto, afirmou que se tratava de uma russa residente de São Petersburgo chamada Valérie.
Seria "A Mulher desconhecida do Sena" a musicista húngara Ewa Lázló?
Vale mencionar também as descobertas de Hélène Pinet, que mencionou certo moldador francês que vendia máscaras em Paris. Pinet afirma que um descendente do artesão contou à época que o pai sempre lhe falava da “bela modelo” que servira de molde para a máscara — atestando ainda que seria tecnicamente impossível que a L'Inconnue de la Seine houvesse sido moldada a partir de um cadáver. Pois é. Escolha a história que mais lhe agrada.


www.megacurioso.com.br

LISBOA - SUBINDO AS AVENIDAS NOVAS


O segundo percurso pelas Avenidas Novas leva-nos por memórias de conventos, visionários da arte e bairros com a cor do céu.
No primeiro roteiro pelas Avenidas Novas, que começa na Maternidade Alfredo da Costa e termina no mural da FCSH/NOVA, o eixo central é a Avenida da República, rasgada por Prémios Valmor projetados por arquitetos da Arte Nova, por excelência, como Norte Júnior, Álvaro Machado, Pardal Monteiro ou Ventura Terra.
O segundo roteiro é feito de memórias que cruzam olhares das artes, das ciências sociais e humanas, com base em contributos de vários investigadores da FCSH/NOVA.  Clique nos links presentes em cada segmento de texto para ir mais longe no espaço e no tempo.
Mural da FCSH/NOVA
Pintura do muro
Este é o ponto de chegada do roteiro “Descendo as Avenidas Novas” – o mural da FCSH/NOVA, na Avenida de Berna, 26. Se já o fez, caminhe em direção ao segundo marco. Se não, detenha-se neste símbolo da liberdade, objeto de intervenção artística em 2014, por ocasião do 40.º aniversário do 25 de abril. O mural, com 15 metros de comprimento, foi feito por artistas da plataforma Underdogs, co-fundada por Vhils.

Convento da Nossa Senhora das Dores



Continue pela Avenida de Berna em direção à Praça de Espanha. O muro que agora delimita o Hospital Curry Cabral já contornou, durante os séculos XVIII e XIX, o Convento da Nossa Senhora das Dores, também conhecido como Convento do Rego ou das Convertidas da Nossa Senhora do Rosário. Fundado depois de 1768, na Rua da Beneficência, 8, acabaria por ser demolido nos finais do século XIX, depois de decretada a extinção das ordens religiosas em 1834.

Fundação, Jardins e Museu Calouste Gulbenkian

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Ainda em direção à Praça de Espanha, encontra do seu lado esquerdo a Fundação e o Museu Calouste Gulbenkian. Atravesse e passeie pelos jardins e visite o museu, inaugurado em 1969 para acolher a coleção de arte reunida por Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), engenheiro e empresário arménio otomano naturalizado britânico. Lisboa teria sido apenas uma escala numa viagem a Nova Iorque, em 1942, caso Calouste Gulbenkian não tivesse adoecido. Agradado com o clima de paz da capital – em plena II Guerra Mundial –, acabou por se instalar definitivamente em Lisboa até 1955. O testamento, datado de 1953, criou a fundação com o seu nome, que ficou herdeira do remanescente da sua fortuna.

Arco de São Bento, na Praça de Espanha
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Se, entretanto, visitou os jardins da Gulbenkian, retorne à Avenida de Berna e siga até à rotunda da Praça de Espanha (antiga “Praça Palhavã”). No centro, encontra um arco monumental, “inesperado” e “descontextualizado”, recorda Raquel Henriques da Silva, professora e investigadora da FCSH/NOVA, neste artigo (2006). Foi construído em 1758 sobre a Rua de São Bento (daí o seu nome), integrado na Galeria da Esperança do Aqueduto das Águas Livres, mas acabou por ser desmontado em 1938, em consequência das obras de remodelação em frente do Palácio de São Bento. O arco esteve primeiro nos jardins do Palácio da Ajuda; em 1998, foi transferido para a Praça de Espanha, onde permanece.

Embaixada de Espanha (antigo “Palácio dos Meninos de Palhavã”)
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Atravesse a rotunda em direção ao edifício cor-de-rosa, uma das marcas mais antigas das Avenidas Novas, que fecha a Avenida de Berna e abre a de António Augusto de Aguiar. Este palácio seiscentista foi mandado edificar pelo 2.º Conde de Sarzedas, mas ficou conhecido como “Palácio dos Meninos de Palhavã” por lá terem residido, no século XVIII, três filhos bastardos do rei D. João V (1706-1750). É residência do embaixador de Espanha desde 1918.

Teatro Aberto e Comuna Teatro de Pesquisa



Da Praça de Espanha, junto à Embaixada de Espanha, suba pela ciclovia, uma rua paralela à Avenida Calouste Gulbenkian e depois pela Rua Armando Cortês. Vai passar pelo Teatro Aberto, fundado em 1982 por João Lourenço, Irene Cruz, Francisco Pestana e Melim Teixeira, um dos primeiros grupos de teatro independente em Portugal. Cerca de 400 metros depois, do outro lado da Avenida Calouste Gulbenkian, avistará a Comuna – Teatro de Pesquisa, que nasceu em 1972, pela criatividade de João Mota.

Mesquita Central de Lisboa
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Em frente ao Teatro Aberto, na Avenida Ramalho Ortigão, encontra as traseiras da Mesquita Central de Lisboa, fundada em 1985 e considerada a principal mesquita da comunidade islâmica portuguesa. Foi projetada pelos arquitetos António Braga e João Paulo Conceição e diferencia-se pelo traçado modernista. O espaço é favorável à troca de experiências entre as várias identidades muçulmanas (guineenses, marroquinos, bangladeshis, paquistaneses ou árabes). Esta mesquita destaca-se, aliás, pela forma como tem acomodado a diversidade étnica e as diferentes correntes religiosas e movimentos muçulmanos, explica Filomena Batoréu na sua tese em Antropologia da FCSH/NOVA.
Contorne a mesquita para admirar a sua fachada frontal.

Avenida Ressano Garcia
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Se está de frente para a fachada da Mesquita Central de Lisboa, siga para a direita em direção à Avenida Ressano Garcia, arborizada e eixo central do Bairro Azul. Deve o seu nome, desde 1929, ao engenheiro responsável pela expansão da cidade pelas Avenidas Novas. Antes desta, outra avenida notável tinha tido o seu nome: a Avenida da República.

Bairro Azul
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Caminhando pela Avenida Ressano Garcia, entre edifícios de habitação, na maioria art déco e modernista, está no centro do Bairro Azul, que se espalha por esta e outras quatro artérias: Rua Fialho de Almeida, Rua Ramalho Ortigão, Rua Marquês da Fronteira e Avenida António Augusto Aguiar. Edificado na década de 1930, foi o primeiro bairro a ser classificado como conjunto urbano de interesse municipal. Durante os primeiros 20 anos, o bairro era marcado ainda pela sua vida rural, recordada em testemunhos dos seus moradores, reunidos no projeto “Memórias para todos”.

Palácio Mendonça
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Quando chegar ao final da Avenida Ressano Garcia, de frente para os armazéns El Corte Inglés, vire à direita e suba cerca de 500 metros pela Rua Marquês de Fronteira até ver do seu lado direito o Palácio Mendonça, nos números 18-28. Foi projetado entre 1900 e 1902 pelo arquiteto Ventura Terra para Henrique José Monteiro de Mendonça, roceiro em São Tomé. Em 1909, foi reconhecido com o Prémio Valmor.

Jardim Amália Rodrigues

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Atravesse a Rua Marquês de Fronteira em direção ao jardim Amália Rodrigues, em homenagem a uma das fadistas e artistas que escreveram sobre Lisboa ou a cantaram. Este jardim faz parte do Corredor Verde, que une o Parque Eduardo VII a Monsanto e está num dos pontos altos da cidade. Aproveite para descansar um pouco, para usufruir da vista, a sul, e para apreciar duas esculturas localizadas neste jardim: “Maternidade”, de Fernando Botero, e “O Segredo” de António Lagoa Henriques.

Palácio de Vilalva
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Regresse à Rua Marquês da Fronteira e desça-a em direção à Avenida António Augusto de Aguiar. Atravesse-a e caminhe na direção oposta à Praça de Espanha, até chegar à Rua Carlos Testa. Desça-a em direção ao Palácio Vilalva, atual quartel-general do Governo Militar de Lisboa, no Largo de São Sebastião da Pedreira.  Este palácio foi mandado construir entre 1859 e 1866 por José Maria Eugénio de Almeida. É também reconhecido pelos seus parquets, fornecidos pelo célebre belga Pierre-Joseph Godefroy.

O final do roteiro ou o início de outro
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A partir deste ponto, pode encerrar o roteiro ou iniciar outro: seguindo pelas traseiras do Palácio, entrando novamente nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian e na Avenida de Berna, chega ao ponto de partida deste roteiro. Caso não tenha feito o primeiro roteiro das Avenidas Novas – “Descendo as Avenidas Novas” –, pode seguir em direção à Maternidade Alfredo da Costa, subindo pela Rua Latino Coelho. O berço da natalidade marca também o início desse percurso que o irá levar a um desfile de Prémios Valmor e memórias do início do século XX.

maislisboa.fcsh.unl.pt

LISBOA - DESCENDO AS AVENIDAS NOVAS


Partimos da diversidade de olhares de investigadores da FCSH/NOVA para criar o primeiro de dois percursos pelas Avenidas Novas. Passeie connosco pela expansão da cidade do século XX.
Ex-libris de Lisboa na passagem para o século XX, as Avenidas Novas nasceram dos planos de extensão da cidade de Frederico Ressano Garcia ao estilo dos boulevards de Paris. Grandes avenidas em xadrez, com passeios arborizados e infra-estruturas urbanas, iam desde a Praça Marechal Saldanha até à Praça de Entrecampos. Hoje, as Avenidas Novas são associadas também à mancha urbana que começa no Marquês de Pombal e se estende para Picoas, de um lado, e Bairro Azul, do outro, limites integrados na nova Junta de Freguesia das Avenidas Novas.
Este roteiro é, ao mesmo tempo, um passeio por alguns dos marcos das Avenidas Novas e pelo conhecimento gerado na FCSH/NOVA sobre eles. Não é exaustivo mas vai aguçar a sua curiosidade para saber mais sobre outros edifícios com passado. Clique nos links presentes em cada segmento de texto para alargar o roteiro a outras paragens simbólicas.

Maternidade Doutor Alfredo da Costa

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O roteiro pelas Avenidas Novas começa no berço da natalidade de Lisboa, há um século. Como se vê no topo da sua fachada, a maternidade Alfredo da Costa foi edificada em 1917, na Rua Pinheiro Chagas, 5, mas a falta de verbas e de materiais, fruto da I Guerra Mundial, atrasou a sua conclusão. A maternidade só viria a ser inaugurada a 28 de maio de 1932. O ponto de partida é o Jardim Augusto Monjardino, junto à estátua em homenagem ao seu médico fundador.  Desse local pode apreciar a ampla fachada do edifício projetado pelo arquiteto Ventura Terra, responsável por importantes equipamentos urbanos de Lisboa.

Casa-Museu Anastácio Dr. Anastácio Gonçalves
Casa-Museu Anastácio Gonçalves (2016). Avenida 5 de Outubro, 6. Prémio Valmor de 1905.
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Do lado direito do Jardim Augusto Monjardino, no n.º 5 da Avenida 5 de Outubro, encontra a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, também conhecida como a Casa Malhoa, por ter sido residência e atelier do pintor naturalista José Malhoa.  Foi projetada pelo arquiteto Norte Júnior, considerado por excelência o arquiteto das Avenidas Novas,. Concluída em 1904, foi prémio Valmor em 1905. Foi ainda a primeira casa-de-artista da capital, autorizada pela Câmara Municipal de Lisboa. No interior, acolhe cerca de três mil peças reunidas por Anastácio Gonçalves, representativas de pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro.


Cinema Monumental



Contorne o edifício da Casa-Museu e suba pela Avenida Fontes Pereira de Melo em direção à Praça Duque Saldanha. Do lado esquerdo, impõe-se o novo edifício Monumental, que acolhe as salas de cinema da Medeia Filmes. Para contemplar melhor a fachada, coloque-se no centro da Praça, junto à estátua de Saldanha. As amplas fachadas de vidro vieram substituir o edifício anterior, o Cine Teatro Monumental, exemplo emblemático de uma época, os anos 50-60, dominada pelas catedrais do cinema. Projetado por Rodrigues Lima e inaugurado em 1951, dispunha de uma sala de cinema com capacidade para 2170 espetadores e de um teatro com 1182 lugares.

Praça do Saldanha, 12
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Do lado oposto ao edifício Monumental, avista numa esquina, mesmo à saída do metro, um dos muitos edifícios representativos da Arte Nova. Foi projetado pelo arquiteto Norte Júnior e Menção Honrosa do Prémio Valmor em 1912.

Praça do Saldanha, 14 – Painel de Azulejos da Farmácia Cruz Nunes
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Logo no número a seguir, encontra a Farmácia Cruz Nunes. Não é ela a protagonista do roteiro, mas, sim, o painel de azulejos que se encontra ao lado da porta. Datado de 1909, é um dos primeiros exemplares publicitários de Lisboa e um símbolo da azulejaria Arte Nova, da autoria de Jorge Colaço. Era o tempo em que os números de telefone tinham cinco algarismos e a assinatura era discretamente colocada.

Defensores de Chaves, 26
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Antes de percorrer locais emblemáticos da Avenida da República, faça um pequeno desvio. Siga pela Avenida Praia da Vitória e vire na primeira à esquerda. Está na esquina com a Avenida Defensores de Chaves. Faça aí uma pequena pausa e descubra como foi manchete do Diário de Notícias em 1970 por algo que não era suposto acontecer nas Avenidas Novas: uma criança ser abandonada nas escadas de um dos seus edifícios.
Cobertura sensacionalista à parte, procure o n.º 26, onde está sedeado o Clube Militar Naval. Trata-se de mais um exemplo emblemático da Arte Nova, num palacete também projetado por Norte Júnior.

Avenida da República

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Vire à esquerda no primeiro cruzamento, está na Avenida Duque d’ Ávila, onde encontra mais fachadas deste período de ouro, entre os números 20 e 28. Retornando à Avenida da República, vai descobrindo o conjunto de fachadas que vamos percorrer em detalhe. Eixo central do nascimento e crescimento das Avenidas Novas, houve uma preocupação em diferenciar a Avenida da República pela arquitetura imponente, inspirada na Arte Nova. Esse feito é confirmado pelo desfile de Prémios Valmor.

Antigo Colégio Madame Anne Roussel, na Av. da República, 13
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Atravesse pela passadeira para descer a Avenida pelos números ímpares. Um edifício de esquina, o n.º 13, ao lado da saída de metro Saldanha, é outro exemplo de Arte Nova, projetado por Álvaro Machado em 1904. É hoje o Colégio Académico.

Pastelaria Versailles, na Av. da República, 15

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A este momento do percurso, um doce pode fazer maravilhas. Aproveite e entre num dos símbolos das Avenidas Novas do século XX: a pastelaria Versailles, fundada em 1922 por Salvador Antunes, que associou a doçaria francesa à ostentação da Arte Nova, num edifício cujo projeto é atribuído ao arquiteto Norte Júnior. Até o Diário de Lisboa ficou rendido a esta patisserie.

Casa Xangai, na Avenida da República, 19
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Um passo à frente, encontra, no n.º 19, outro edifício artenoviano, projetado pelo arquiteto Pardal Monteiro.  A Casa Xangai, também ela histórica, faz-nos recordar a influência dos pequenos lojistas de Lisboa.

Edifício da Avenida da República, 23
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Dois números à frente, surge um edifício de gaveto amarelo, na esquina com a Avenida João Crisóstomo. Projetado por Nogueira Júnior e Prémio Valmor em 1913, diferencia-se pela sua construção eclética, fruto dos modelos franceses e alemães em voga. No entanto, a cobertura em mansarda e a decoração ornamental, em especial o ferro forjado ondulante das janelas, revela a predominância de linhas da Arte Nova.

Edifício da Avenida da República, 49
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Entre dois prédios da segunda metade do século XX encontra outro Prémio Valmor. Foi atribuído em 1923 a este edifício de linguagem oitocentista e ornamentação ostensiva, da responsabilidade do arquiteto Pardal Monteiro. Foi mandado construir por Luís Rau, um comerciante de ferro e carvão. Acolhe hoje lojas e um externato.

Palacete Valmor, Avenida da República, 38
Palacete Valmor, hoje Clube dos Empresários
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Basta olhar para o outro lado da Avenida da República para vislumbrar o Palacete Valmor, ex-libris da Avenida da República. Projetado por Ventura Terra para Josefina Clarisse de Oliveira, Viscondessa de Valmor, foi Prémio Valmor em 1906 e declarado Imóvel de Interesse Público em 1977. Em tempos recentes, este chalet acolheu o restaurante do Clube dos Empresários. Aproveite a passadeira e atravesse a Avenida na esquina com a Avenida Elias Garcia.

Praça de Touros do Campo Pequeno
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Continuando a descer, agora pelo lado direito da Avenida, encontra o Jardim do Campo Pequeno, dominado por um edifício em tijolo maciço vermelho. A Praça de Touros Monumental do Campo Pequeno, em estilo neo-árabe, foi inaugurada em 1892 e restaurada em princípios do século XXI. É considerada a primeira praça de touros portuguesa. É hoje um espaço multifuncional e cultural, destinado também ao público que não aprecia touradas.

Biblioteca Municipal Palácio das Galveias
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Na esquina da Praça do Campo Pequeno com a Avenida de Berna, caminhe na direção oposta à Avenida da República. Na esquina com a Rua do Arco do Cego, encontra um edifício que contrasta em estilo com a atual sede da Caixa Geral de Depósitos, inaugurada em 1994. Marco inegável da dimensão palaciana de Lisboa, o Palácio das Galveias foi construído em meados do século XVII. Foi a casa de campo dos Marqueses de Távora, até ser confiscado pelo Estado no âmbito do Processo dos Távora. Hoje é uma das principais bibliotecas da cidade de Lisboa.
De momento está em obras de ampliação, que se prevê ficarem concluídas em 2017.

Palacete da Avenida da República com a Avenida de Berna

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Retorne à Avenida da República e atravesse-a na passadeira, em direção a poente e à FCSH/NOVA. Encontra na esquina com a Avenida de Berna a atual sede da Junta de Freguesia das Avenidas Novas. O edifício, último exemplo de Arte Nova deste percurso, foi projetado em 1908 pelo arquiteto Norte Júnior (é capaz de se lembrar de quantos já encontrou deste arquitecto?).
Se continuasse a descer a Avenida, em direção a Entrecampos, encontraria ainda alguns edifícios resistentes destes primeiros anos do século XX. Mas vamos dar um salto no tempo.

Rua Laura Alves
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Na Avenida de Berna, na esquina seguinte à Avenida 5 de Outubro,  nas traseiras do edifício em forma de guitarra, projetado por Tomás Taveira na década de 1980, encontra a Rua Laura Alves. É uma das poucas toponímias com nomes de mulher nas Avenidas Novas. Laura Alves nasceu em 1922 e foi uma das mais populares atrizes de teatro. Entre outras peças, ficou célebre a sua atuação na peça “Gata em Telhado de Zinco Quente”, de Tennesee Williams, exibida no Teatro Monumental  em 1959. A cena onde a atriz despia uma combinação de frente para o público foi censurada, na altura, pelo Estado Novo.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima
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Antes de chegar ao fim do primeiro de dois percursos pelas Avenidas Novas, visite ou simplesmente contorne a igreja do lado esquerdo da Avenida de Berna. Obra marcante do modernismo nacional, foi projetada por Pardal Monteiro e conta com inúmeros vitrais de Almada Negreiros. Ganhou o Prémio Valmor em 1938, atribuído pela primeira vez a um edifício não habitacional. Foi o primeiro templo católico a ser construído em Lisboa após a implantação da República. A sua fachada oeste dá para a Avenida mais curta de Lisboa, a Avenida Poeta Mistral.

Mural da FCSH/NOVA

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O primeiro percurso termina num símbolo da liberdade. As paredes da FCSH/NOVA foram objeto de intervenção artística em 2014, por ocasião do 40.º aniversário do 25 de Abril. O convite partiu do Instituto de História Contemporânea (IHC) à plataforma Underdogs, co-fundada por Vhils. Miguel Januário, Frederico Draw, Diogo Machado e Gonçalo Ribeiro, em conjunto, deixaram a sua própria interpretação do 25 de abril.

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