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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Brincando com gente grande. China já não é o maior credor dos EUA













O Financial Times publica os detalhes da batalha financeira entre China e Estados Unidos, anunciando que o país asiático está vendendo sua carteira de títulos norte-americanos, num esforço para sustentar a sua moeda.

A China perdeu para o Japão, desde a eleição de Trump, o papel de maior investidor na dívida pública norte-americana e, pela primeira vez desde 2010, tem aplicações inferiores a US$ 1 trilhão em títulos dos EUA.

Escreve o FT:

A China tem vendido as suas participações em moeda estrangeira, em parte, para apoiar o renminbi, que caiu 4 por cento em relação ao dólar desde o início do ano passado. A queda das participações no Tesouro faz parte de uma campanha mais ampla de Pequim para impedir a saída de capitais.

O movimento de venda de nada menos que US$ 66 bilhões está segurando o preço (juro) dos papéis dos Estados Unidos.

Hoje, a chefe do Federal Reserve, Janet Yellen, sinalizou uma alta contínua da taxa de juros até 2019.

Mas nós, aqui, estamos defendendo uma valorização de mais de 10% do dólar em relação ao mesmo período, numa situação de sobrevalorização do real que não se tem como sustentar sem queimar, como fazem os chineses, parte das reservas, no médio prazo.

Os chineses estão antecipando seus planos de foco no mercado interno, para compensar a pressão protecionista que certamente virá com Trump.

Nós, aqui, apostando tudo num fluxo de investimentos externos que é improvável no Governo Trump.

Estamos fazendo de conta que o mundo lá fora é um mar de rosas e a imprensa idiota saúda o sucesso de Janot e da Lava Jato em Davos.

Até parece que o capitalismo mundial se matriculou no Instituto Ethos.
Fernando Brito - Tijolaço

http://www.marchaverde.com.br/

Com a verdade me enganas, ou como Fernando Ulrich baralha as cartas, fazendo batota



Com a verdade me enganas, ou como Fernando Ulrich baralha as cartas, fazendo batota

Fernando Ulrich, presidente do Conselho de Administração do BPI, ao referir-se ao deve e haver entre o Estado (contribuintes) e o conjunto dos bancos portugueses, que se socorreram de fundos públicos para se recapitalizarem, parte do princípio (como se isso fosse um direito natural) de que é uma obrigação dos contribuintes, através do Estado, participarem no esforço financeiro de salvar os bancos falidos. É o que se deduz, quando ele afirmou, em conferência de imprensa (não sei se com consternação ou com satisfação), que os portugueses (Estado) até pagaram pouco, apenas uma importância entre 4.400 a 6.400 milhões de euros. Com toda a desfaçatez, que lhe é reconhecida, Fernando Ulrich afirmou que "o esforço dos contribuintes é muito baixo quando comparado com o dos accionistas e quando comparado internacionalmente", esquecendo-se de esclarecer se a comparação referida era percentual ou absoluta.

Mas, inicialmente, e, talvez, para tentar fazer "caixa" da notícia, até se atreveu a dizer a seguinte monumental atoarda, que a posterior divulgação dos números logo desmascarou: "Que os custos de suportar o sistema financeiro sejam suportados pelos contribuintes é mentira. É bom que as pessoas tenham noção disso". Mas, afinal, era verdade, segundo ele próprio demonstrou, ao contabilizar as perdas totais do Estado, com a recapitalização dos bancos (entre 4.400 a 6.400 milhões de euros.

Se eu ainda estivesse no activo, e tivesse sido destacado para fazer a cobertura da conferência de imprensa de Fernando Ulrich, ter-lhe-ia perguntado, quando ele se vangloriou dos 799 milhões de euros de dividendos, distribuídos aos accionistas do BPI, no final do período de recapitalização, qual tinha sido, afinal, o saldo do esforço financeiro dos accionistas, medido entre o valor das injecções de capital efectuadas no banco e o valor dos juros recebidos, questão fundamental, que ele não referiu, talvez por conveniência, já que eu presumo que os accionistas saíram a ganhar, como é costume, em todas as crises financeiras.

É por estas e por outras, e por todas elas, ao mesmo tempo, que eu defendo, como sempre defendi, a estatização do crédito e a nacionalização dos bancos. 

E lembrar-me eu que, no tempo das privatizações dos bancos (década de oitenta, do século passado), defendidas e promovidas pelo Dr. Soares (que a terra lhe seja leve), se esgrimia aquele bombástico e ardiloso argumento de que os privados geriam melhor os bancos do que o Estado. Viu-se e está a ver-se!...

Alexandre de Castro

alpendredalua.blogspot.pt

Jesuítas: de pregadores venerados a “bárbaros”


Chegados ao Japão, abriram novos mundos ao império comercial português e adotaram novas formas de evangelização. O início foi esperançoso; o fim, retratado no filme "Silêncio", abrupto e sangrento.
Francisco Xavier foi o primeiro padre católico a desembarcar no longínquo Japão. O barco de mercadores onde viajava este missionário do Padroado Português do Oriente aportou em Kagoshima a 15 de agosto de 1549. Três meses depois, Xavier escreveu: “[Os japoneses] é gente de muitas cortesias uns com os outros. (…) É gente que não sofre injúrias nenhumas, nem palavras ditas com desprezo. (…). Muita parte da gente sabe ler e escrever, que é um grande meio para com brevidade aprender as orações e as coisas de Deus.”
As suas impressões sobre os nativos foram vertidas para a “Carta do Japão”, impressa pela primeira vez em 1570. Na epístola, informava Roma: “Uma coisa vos faço saber, para que deis muitas graças a Deus nosso senhor, que esta ilha de Japão está muito disposta para em ela se acrescentar muito a nossa santa fé, e se nós soubéssemos falar a língua não ponho dúvida nenhuma em crer que se fariam muitos Cristãos.” As dificuldades com a língua foram rapidamente ultrapassadas e ainda em 1549 teve início o “Século Cristão no Japão”, período em que o proselitismo jesuíta viveu tempos de sucesso, mas também de perseguições, martírios e apostasias.
Em 1549, Francisco Xavier, nascido em Espanha, ganhara reputação como um dos fundadores da Companhia de Jesus, criada em Paris em 1534 por, entre outros, Inácio de Loyola, e reconhecida por Roma em 1540. D. João III manifestara interesse pela nova ordem religiosa e pelo seu trabalho de catequização, pelo que, em 1541, apenas um ano depois de o Papa Paulo III ter sancionado a Companhia, pediu a Xavier para que este partisse na Carreira da Índia e pregasse a fé nas possessões portuguesas no Oriente.
Basque Jesuit missionary Saint Francis Xavier (1506 - 1552) worships the Holy Cross, circa 1540. (Photo by Hulton Archive/Getty Images)
Imagem de São Francisco Xavier (1506 – 1552) @Photo by Hulton Archive/Getty Images
Não existem registos que permitam indicar com rigor a data da chegada dos portugueses ao Japão, mas a epistolografia jesuítica aponta que, em 1542 ou 1543, desembarcaram no arquipélago os primeiros mercadores originários de Portugal. A partir de então, o tráfico comercial português expandiu-se para o território nipónico, estabelecendo novas rotas, como a Nau do Trato (entre a China e o Japão), e elevando Macau ao estatuto de grande interposto comercial no Extremo Oriente. Atrás dos mercadores, seguiam os missionários.
“Os pregadores levam o Evangelho e os mercadores levam os pregadores”, escreveu o Padre António Vieira em “História do Futuro”. Francisco Xavier, que morreu em 1552 na ilha de Sanchoão, China, e que viria a ser canonizado em 1623, fundou a primeira missão inaciana em Yamagushi.
Segundo o historiador João Paulo Oliveira e Costa, as conversões em larga escala fizeram mover de tal forma o tráfico comercial, que coube aos padres jesuítas a escolha de um novo porto que servisse a Nau do Trato – foi assim que nasceu a cidade costeira de Nagasaki, fundada pelos portugueses em 1570.
Os padres da Companhia que lhe sucederam foram igualmente bem recebidos pela população e pelos senhores feudais (dáimios). E muito do sucesso que obtiveram na conversão dos japoneses ao cristianismo deveu-se a duas estratégias principais: atentos à influência dos dáimios nas comunidades, começavam por convertê-los, prevendo, acertadamente, que estes guiassem os seus súbditos para a nova religião; depois, conscientes dos resultados benéficos trazidos pela ligação entre o comércio e a missionação, assumiram-se como intermediários no tráfico mercantil entre Portugal e o Japão, exponenciando assim a propagação do Cristianismo. (Em alguns casos, os jesuítas assumiram mesmo o papel de comerciantes, aplicando os lucros nas missões japonesas: vendiam seda de Macau e negociavam ouro e sedas chinesas com a Índia portuguesa.) Segundo o historiador João Paulo Oliveira e Costa, as conversões em larga escala fizeram mover de tal forma o tráfico comercial, que coube aos padres jesuítas a escolha de um novo porto que servisse a Nau do Trato – foi assim que nasceu a cidade costeira de Nagasaki, fundada pelos portugueses em 1570.

Valignano, um pioneiro da missionação

No último quartel do século XVI, nas vésperas da crise dinástica portuguesa, a chegada ao Japão do missionário jesuíta italiano Alexandre Valignano acrescentou singularidades aos métodos de evangelização. Nesta sua primeira visita ao território (esteve no Japão mais duas vezes), propôs a assimilação cultural como meio de recrutamento para a Igreja católica. Defendeu a aprendizagem da língua, a utilização do vestuário nativo, a adoção dos costumes locais.
Esta metodologia de catequização era única no Oriente. A brandura dos missionários jesuítas que viviam no Japão contrastava com a persistência ameaçadora usada pelo padres da mesma Companhia na Índia Portuguesa. Especialista em história colonial portuguesa, o britânico Charles Boxer escreveu que Francisco Xavier transmitiu nas suas cartas a crença de que os “negros” (os nativos) só poderiam ser convertidos através da força ou das ameaças. “As duas espadas do poder civil e do eclesiástico andaram sempre tão unidas na conquista do Oriente que raramente encontramos uma a ser utilizada sem a outra; porque as armas só conquistaram através do direito que a pregação do Evangelho lhes dava, e a pregação só servia para alguma coisa quando era acompanhada e protegida pelas armas”, escreveu o franciscano Frei Paulo da Trindade na sua “Conquista Espiritual do Oriente” (1638). Durante a sua primeira estadia no Japão, de 1579 a 1582, Valignano assumiu a liderança da missão dos jesuítas, únicos padres cristãos no arquipélago, e promoveu não apenas uma reorganização, como também exerceu verdadeiros atos bem sucedidos de política externa.
Primeiramente, revogou a ordem, aplicada pelo anterior chefe da missão, Francisco Cabral, de proibir o clero cristão nativo, ou seja, os japoneses que entrassem para a Companhia só poderiam ascender a leigos e catequistas. O sacerdócio estava-lhes vedado. Defendia Cabral, citado por Charles Boxer, que os novos cristãos “não têm a disposição natural necessária para a vocação do sacerdócio.” E prosseguia: “E depois é também devido ao clima do país e à influência das estrelas, pois até parece que uma inquietação incessante e um constante desejo de mudança dominam o coração desta gente.”
Ilustração de Kumi Matsukawa sobre cena do filme "Silêncio"
Valignano discordava inteiramente desta ideia, pelo que, consciente da importância da formação de um clero japonês na propagação da fé cristã, abriu o sacerdócio aos novos cristãos. A decisão não recolheu consenso no interior da Companhia e, consequentemente, o processo foi bastante moroso. Os japoneses tiveram de esperar por 1601 para assistir à abertura do primeiro seminário. Mas o projeto de Valignano não teve o sucesso esperado: em 1627 o seminário fechou e o balanço final era de apenas 14 padres jesuítas nativos.
A chegada dos jesuítas ao Japão permitiu aos japoneses a descoberta de um mundo para além do arquipélago: os portugueses introduziram no país as espingardas, as cadeiras, os botões e os óculos; ensinaram que existiam outros países, outras etnias.
Valignano contribuiu ainda para a internacionalização do trabalho dos jesuítas no Extremo Oriente. Foi ainda durante a sua primeira passagem pelo território que teve a ideia de enviar uma embaixada de novos cristãos japoneses à Europa: foram escolhidos quatro jovens, todos eles oriundos das famílias cristãs mais abastadas da ilha de Kyushu. A partir de 1582, e durante quatro anos, Mâncio Ito, Miguel Chijawa, Juliano Nakaura e Martinho Hara viajaram pelas principais capitais europeias e protagonizaram um verdadeiro ato de propaganda. Valignano procurava não apenas granjear mais fundos e missionários para a missão japonesa, mas também declarar a primazia dos jesuítas na evangelização do país. Em 1585 conseguiu, aliás, o que pretendia, quando a Santa Sé confirmou o regime de exclusividade dos jesuítas do Padroado Português do Oriente na pregação da fé no território.
Em Lisboa, onde chegaram em 1584, os quatro “meninos japões” visitaram diversas igrejas e foram recebidos pelo vice-rei, o arquiduque Alberto de Áustria, no palácio de Sintra (Filipe II, I de Portugal, estava ausente). A longa viagem foi documentada na obra “Tratado dos embaixadores japões”, escrita pelo padre jesuíta Luís Fróis a partir dos diários de viagem de cada um dos jovens.

Os éditos de expulsão dos “bárbaros do Sul”

A chegada dos jesuítas ao Japão permitiu aos japoneses a descoberta de um mundo para além do arquipélago: os portugueses introduziram no país as espingardas, as cadeiras, os botões e os óculos; ensinaram que existiam outros países, outras etnias. Ao mesmo tempo, aumentava o número de conversos. Numa primeira fase, de 1549 a 1570, terão sido convertidos aos cristianismo 30 mil japoneses, segundo os historiadores Arcádio Schwade e João Paulo Oliveira e Costa; nos últimos 25 anos do século XVI ascenderam a 150 mil (Charles Boxer escreveu que não é possível avaliar os números com exatidão, mas sugeriu a existência de 300 mil fiéis). Centenas de igrejas foram erguidas em todo o arquipélago.
O clima de intolerância religiosa começou mesmo antes do fim de Quinhentos. O receio de uma eventual invasão por parte dos católicos portugueses e o temor em torno da influência dos jesuítas nos nativos, levou o xógum Toyotomi Hideyoshi a publicar, em julho de 1587, um édito anti-cristão, no qual se ordenava a expulsão dos padres e a proibição do culto. Segundo Oliveira e Costa, Hideyoshi promulgou o documento depois de um dos seus lugares-tenentes se ter recusado a abjurar a fé cristã, algo que fazia da religião católica uma religião “desobediente” (a vontade de Deus era muitas vezes contrária às dos senhores do xogunato). Contudo, a aparente hostilidade não teve consequências nefastas para a missionação cristã: o número de convertidos continuou a subir; aportaram mais jesuítas no território; e prosseguiu o comércio da Nau do Trato.
Ilustração do Padre Nuno Branco sobre cena do filme "Silêncio"
No entanto, dez anos após o édito, Hideyoshi manifestou a sua profunda desconfiança pela presença dos jesuítas no seu país através de uma decisão brutal: decretou a prisão e a crucificação, em Fevereiro, de 26 cristãos numa colina na cidade de Nagasaki (seis franciscanos e 20 cristãos japoneses). Foi o primeiro de muitos martírios e aquele que assinalou uma inflexão nas relações luso-nipónicas e na ação missionária dos jesuítas. A partir de então, os portugueses eram os “nambanjin”, os bárbaros do Sul.
Nos primeiros anos de Seiscentos, o território viveu uma autêntica guerra civil, com as famílias Hideyoshi e Tokugawa a lutarem pelo poder. Ganhou a segunda e, em 1604, Iemitsu Tokugawa inaugurou um novo e longo xogunato (até 1651) e reunificou politicamente o país. A evangelização prosseguia, embora com menos alento, sobretudo após o martírio de 1597.
Hideyoshi manifestou a sua profunda desconfiança pela presença dos jesuítas no seu país através de uma decisão brutal: decretou a prisão e a crucificação, em Fevereiro, de 26 cristãos numa colina na cidade de Nagasaki (seis franciscanos e 20 cristãos japoneses)
O trabalho dos jesuítas enfrentava dificuldades e a sua situação no arquipélago sofreu um forte abalo quando, em 1608, foram surpreendidos com a decisão papal de revogar o monopólio da Companhia no Japão. O maior revés vinha de Roma: Paulo V dera liberdade a todas as ordens religiosas para a pregação do cristianismo no país. A deliberação resultou, como seria expectável, em querelas entre os jesuítas e os religiosos das ordens mendicantes, quase todos eles originários de Espanha. Como notou Oliveira e Costa, em plena dinastia filipina, as rivalidades entre portugueses e espanhóis (uma autêntica guerra civil, escreveu Charles Boxer) aconteciam no outro lado do mundo.
Jesuítas, franciscanos, dominicanos e agostinhos – em constante divergência, sobretudo pelos métodos usados na missionação — todos pregavam o cristianismo no arquipélago, ao mesmo tempo que as relações com o poder político iam ficando debilitadas. Tal como os jesuítas, também os mercadores viram forasteiros entrar nas suas rotas de tráfico – a exclusividade ibérica das relações com o Japão foi eliminada com o expansionismo marítimo dos holandeses e ingleses.

Expulsão, torturas e martírios

Em 1614, Tokugawa publicou um novo édito de expulsão dos religiosos. Decretou a obrigatoriedade de os cristãos japoneses renegarem a fé cristã, o fecho das igrejas e a prática clandestina da religião. “Mas a horda dos cristãos veio ao Japão, não só enviando os seus navios mercantes para o intercâmbio de mercadorias, mas também para propagar uma lei perversa, pela qual a verdadeira doutrina é falsificada de tal forma que lhes possibilite mudar o governo do país. Eles [os padres] são realmente inimigos dos deuses e de Buda. Se a gente não se opõe a eles, a segurança do Estado correrá perigo”, lê-se no édito, transcrito por Arcádio Schwade. A “segurança do Estado” e a propagação de falsas doutrinas serviram de argumentos para Tokugawa dar início ao fim das ligações com os portugueses. Os mercadores passaram a ter apenas dois portos abertos ao tráfico: Hirado e Nagasaki.
Ilustração do Padre Nuno Branco sobre cena do filme "Silêncio"
Todavia, a persistência dos jesuítas não esmoreceu. Com auxílio dos nativos, entravam clandestinamente no Japão, habitualmente disfarçados de comerciantes, dando origem a ritos de criptocristianismo no interior do território. Entre 1614 e 1625 terão sido batizados entre 18 mil e 25 mil japoneses. Contudo, as perseguições aos missionários portugueses nunca cessaram e muitos foram capturados, ainda que sob disfarce. Foi o caso do padre Sebastião Vieira, que, em 1633, entrou no Japão e, um ano depois, foi condenado ao “tormento das covas”: durante três dias esteve pendurado pelos pés e com a cabeça numa cova; os seus carrascos lançaram depois fogo na cova e o mártir foi queimado vivo. Helena Costa Toipa, investigadora que estudou a vida do jesuíta, citou o relato da morte do padre, escrito em 1719 por António Franco:
“Por tanto, posto em hum jumento levando huma bandeirinha, em que estava escrita a cauza da sua morte, que era por ser pregador da fé de Christo, foi levado ao lugar do suplício. Tinha elle antes dito, que avia de morrer com fogo. Puzerãono dependurado no cruel tormento das covas, com outros cinco Japões, com quem fora prezo na embarcação, aos quais admitira na Companhia. Tres dias esteve vivo no tormento, eram já mortos seus ditosos companheiros. Entam os algozes trazendo fogo o lançaram na cova do Padre Sebastiam Vieyra, e deste modo cumprindose a profecia, acabou esta vida mortal aos seis de Junho de mil seiscentos e trinta, e quatro na cidade, e corte de Japam chamada Yendo. O corpo foi queimado, e as cinzas lançadas ao mar, pêra que as não pudessem recolher os Christãos. Sua glorioza morte se autenticou em ordem a sua canonização.”
Aos camponeses, juntaram-se os cristãos, entre os quais alguns samurais, que aproveitaram a revolta para reivindicar a liberdade religiosa; iniciada em 1637, a insurreição terminou no ano seguinte com a morte de quase 40 mil católicos.
Dois anos antes do martírio de Sebastião Vieira, o jesuíta Cristóvão Ferreira (interpretado por Liam Neeson no filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, que estreia esta quinta-feira) apostatou e a partir da década de 30 de Seiscentos teve início uma vaga de perseguições e mortes aos cristãos, entre os quais se destaca o massacre de Shimabara – a população da cidade, na ilha de Kyushu, insurgiu-se quando o senhor feudal decretou a criação de um imposto muito elevado sobre a produção agrícola; aos camponeses, juntaram-se os cristãos, entre os quais alguns samurais, que aproveitaram a revolta para reivindicar a liberdade religiosa; iniciada em 1637, a insurreição terminou no ano seguinte com a morte de quase 40 mil católicos.
Previsivelmente, foram sendo extintos os negócios entre Portugal e o Japão, tendo o xógum oficializado o fim das trocas comerciais em 1639 com a expulsão dos mercadores lusitanos das cidades portuárias de Hirado e Nagasaki.
A presença clandestina dos jesuítas, porém, ainda deixava rasto, tendo o criptocristianismo sobrevivido no arquipélago até meados do século XIX. Os últimos registos da entrada de padres da Companhia de Jesus datam de 1642 e 1643. Todos tinham já perdido a ilusão de que ali poderiam “acrescentar” a “santa fé”, como escrevera Francisco Xavier em 1549, após desembarcar na ilha. E, como Sebastião Vieira, sabiam que tinham de estar preparados para a morte: “Pondo os pés em terra, me pus de joelhos dando graças ao Senhor, que nos livrara de tantos perigos, e trabalhos, e me trouxera a ella como lhe pedira, e dezejava. (…) Com particular alegria, e consolação me offereci de novo ao Senhor pera a Cruz, pera o fogo, pera a catana, e pera todos os mais trabalhos, que me esperavam ao diante, reprezentandoseme todos, como se os vira com os olhos.”
* As ilustrações deste artigo são parte integrante de um projeto que desafiou o Padre Nuno Branco, jesuíta português Urban Sketcher, e a artista japonesa Kumi Matsukawa, também Urban Sketcher, a criarem a sua própria interpretação das imagens do trailer oficial do filme “Silêncio”. Enquanto Kumi Matsukawa desenhou as cenas do trailer que representam elementos Ocidentais, o Padre Nuno Branco é o autor dos desenhos que invocam as cenas Orientais


observador.pt

AUTARQUIAS VÃO MANDAR NA SAÚDE E EDUCAÇÃO


Municípios e comissões de coordenação com amplos poderes. Funcionários mantêm vínculo à Administração Central.

As câmaras vão mandar nas escolas até ao Secundário, nos centros de saúde, nas estradas, nas praias, nas marinas, nos transportes fluviais e até nos imóveis devolutos do Estado. As superautarquias terão ainda o poder de escolher quem vai liderar as comissões de coordenação e desenvolvimento regional (CCDR), cujas competências serão de tal forma reforçadas, que se converterão numa espécie de governos regionais. Esta é a descentralização desenhada pelo Governo em duas propostas de lei, que começaram a chegar, esta semana, aos autarcas.

www.jn.pt

O que é a ‘6ª extinção em massa’ e por que já passou da hora de nos preocuparmos (e muito!)


Enquanto demagogos e lunáticos insistem em questionar o aquecimento global e a efeito dos destrutivos hábitos humanos que vem colocando em risco o meio ambiente na terra, os efeitos de tais hábitos seguem se intensificando em direções cada vez mais alarmantes. O que antes sempre era anunciado como uma possibilidade em um futuro remoto, agora já se torna palpável e próximo, ao passo que possivelmente muitos de nós que aqui estamos poderemos enxerga-lo: cientistas anunciam que uma sexta extinção em massa poderá acontecer na Terra até o ano de 2050.
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É considerado extinção em massa quando 3 de cada 4 espécies desaparecem literalmente da face da terra – e é isso que a ação do homem vem provocando nos últimos séculos. Em um ritmo de diminuição de 2% da vida selvagem ao ano, em 2020 nós poderemos ter perdido já dois terços da vida animal do planeta (só na última década, um quinto dos elefantes desapareceu).
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Em 2050, ano em que possivelmente atingiremos essa terrível marca de uma nova extinção em massa, estima-se que haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.
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Essa seria a primeira extinção desde a era mesozoica, há 66 milhões de anos – a diferença é que essa será inteiramente causada pelo homem.
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Como qualquer criança sabe, a extinção de uma espécie somente pode provocar intenso desequilíbrio no meio ambiente, afetando direta e indiretamente um sem fim de outras espécies ao redor. Incêndios, desmatamentos, culturas predatórias, poluição, uso excessivo de combustível fóssil, o crescimento irrefreável da população humana, excesso de pesca e, principalmente o excesso de produção de carne bovina são apontados como os principais motivos para esse horizonte apocalíptico que se anuncia.
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Ainda que o aquecimento global esteja somente começando, e que a eleição de uma figura como Trump – que nega tais fenômenos como se não passassem de propaganda, contrariando toda a comunidade científica – sejam notícias ainda mais assustadoras, é possível adotar pequenas medidas que, em massa, poderão impactar positivamente para transformarmos esse destino trágico.
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Deixar de usar sacos plásticos, trocar suas lâmpadas por luzes LED, diminuir o consumo de carne vermelha e pressionar os políticos a adotarem e investirem em energia limpa são excelentes exemplos de atitudes concretas que podem ser tomadas hoje. Ou então, o que será preciso acontecer para que levemos a sério o que está se sucedendo dia após dia diante de nossos olhos? Até o momento que nem esse dia após o outro estiver garantido.
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© fotos: divulgação


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Os preços dos combustíveis em Portugal não têm qualquer controlo. Os consumidores e o país pagam os lucros excessivos das petrolíferas








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