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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando New York tentou invadir a Trump Tower


Jeremy Liebman fotografou os milhares de manifestantes que se reuniram em Nova Iorque para protestarem contra o novo presidente eleito norte-americano.


Todas as fotos por Jeremy Liebman
Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

Michael Moore destacou-se por entre a multidão que na noite de 9 de Novembro se reuniu em Union Square, Nova Iorque, EUA, em protesto contra a eleição de Donald Trump. Por um lado, por estar de calções à chuva, em pleno Novembro e os seus "presuntos" cintilarem na escuridão, por outro por estar bastante acima da média de idades da maioria dos manifestantes que se juntaram para marcharem em direcção à Trump Tower. Mais. Moore foi uma das poucas figuras públicas que previu que isto iria acontecer.
"O Reino Unido teve o seu Brexit e isto é o nosso Brexit", disse o cineasta a um grupo de participantes que se juntou à sua volta, maioritariamente para lhe tentar tirar fotos com os telefones. "No entanto, o Reino Unido decidiu abandonar a União Europeia; a América decidiu abandonar a América". depois destas declarações, Moore ergueu o seu próprio telefone para fazer um Facebook Live da onda de manifestantes que subia a Broadway.
As pessoas empunhavam cartazes em que se lia "Dump Trump", ou "Black Lives Matter", ou, simplesmente, caminhavam de braço dado e de mãos dadas. Gritava-se "Pussy grabs back!", ""Hey, ho, Donald Trump has got to go!" e "Not our President!".

"Só espero que as pessoas vejam isto", diz-me Monica, uma manifestante que caminha ao meu lado. E acrescenta: "Espero que os canais de televisão por cabo estejam a transmitir isto, para que se saiba que não é igual a 2004, nem é igual a 2000. Não vamos simplesmente esquecer. Vamos pegar nesta revolta e o movimento vai continuar". O seu namorado, Ben, salienta que está aqui para que as pessoas sintam que não estão loucas por se sentirem totalmente desamparadas".
A Norte de Madison Square, a polícia - com os cinturões carregados de tiras plásticas para algemar - tenta divergir a corrente de pessoas, por isso a multidão desloca-se pela 30th Street, em direcção à Broadway. Em passo lento e com gritos contidos, Elizabeth, 26 anos, empunha um cartaz pintado a verde fluorescente e diz-me: "Não vamos apoiar um racista, homofóbico, sexista, xenófobo e fanático na nossa Casa Branca e só porque ganhou a presidência não quer dizer que nós não saíamos à rua e lutemos contra tudo aquilo que ele representa".
Como muitas outras pessoas, ela salienta que este protesto é apenas o começo. "Vamos estar activos a partir de hoje e até que ele saia da Casa Branca", assegura.


Em herald Square, vejo um jovem a ser dominado e algemado no chão pela polícia. "Não há aqui nada para ver!" gritam os agentes ao grupo de manifestantes que, entretanto, se formou à sua volta e que grava tudo nos seus iPhones. Ao mesmo tempo, uma senhora de cabelo grisalho e gabardina com padrão leopardo tenta perguntar a um dos polícias onde é que está a paragem de autocarro mais próxima e um casal de idosos resmunga entre dentes contra "esta juventude", enquanto tenta atravessar a rua.
Mais acima, onde as montras das lojas já estão prontas para o Natal, Faith, 20 anos, tenta transmitir o seu medo por palavras. "Tenho uma namorada e tenho medo que, nos próximos dois anos, possamos perder o direito ao casamento, por exemplo. A ideia que isso possa acontecer é absolutamente assustadora. Tenho amigos imigrantes, tenho medo que as suas famílias possam ser levadas", salienta Faith. E continua: "Tudo o que [Trump] representa é aquilo que a geração 'millennial' não representa. Nós somos os futuros líderes, não merecemos este tipo de futuro".

Na 5th Avenue e na 54th Street a multidão abranda a marcha. A Trump Tower acabava de ser cercada pela polícia, portanto a opção foi parar e gritar palavras de ordem ali mesmo. Uma mulher em topless, com o peito coberto de tinta vermelha incitava a multidão a gritar "Hey ho, sexual violence has got to go". Outras pessoas penduram-se em andaimes. Um grupo de mulheres, uma delas com um cartaz que dizia "Queer as in fuck you", lançam um ritmo e cantam por cima a promessa de que não iriam parar de lutar até à "verdadeira revolução".
"Ele não merece ser o líder do nosso país, ele não representa o nosso país. É um monte de merda", diz Alicia, que lidera os cânticos com um megafone e que, acrescenta, quer também passar uma mensagem de amor. "A união da América vai ultrapassar estes tempos merdosos e crescer. não seremos grandes outra vez, mas sim melhores amanhã".
Abaixo podes ver mais imagens da manifestação de Nova Iorque.

www.vice.com

Jejuar até a morte, veja em que lugar do mundo esse ritual é muito comum

Você já ouviu falar do jainismo? Trata-se de uma das religiões mais antigas do mundo, e a maioria dos fieis está concentrada na Índia. Um dos actos mais controversos de quem pertence ao jainismo é fazer jejum até a morte.
Esse tipo de prática radical se dá porque os fieis acreditam que a fome pode os conduzir até o estado conhecido como Moksha, que nada mais é do que a oportunidade de fugir de conceitos relacionados à morte e à reencarnação. Morrer de fome seria, portanto, uma espécie de “liberação da alma”.
Todos os anos, milhares de fiéis fazem o juramento de fome, sendo que alguns deles são monges, mas a maioria é formada por leigos. A prática é ainda mais comum entre as mulheres – cerca de 60% dos participantes – por isso, há quem acredite que elas são mais religiosas do que os homens.

Juramento

Entre os participantes do juramento estão muitas pessoas doentes, que estão prestes a morrer. Ainda assim, há fiéis saudáveis que escolhem morrer de fome. Para você ter mais noção com relação aos números, em 2009, 550 pessoas fizeram o juramento de fome na Índia.
A monja Sadhvi Charan Pragyaji foi quem conseguiu aguentar mais dias sem comer – ela morreu aos 60 anos de idade depois de ficar 87 dias em jejum absoluto. Durante esse período, a religiosa recebeu a visita de mais de 20 mil seguidores, afinal sua morte foi um processo público. Em certo momento, as pessoas eram avisadas de que poderiam vê-la morrer durante as últimas visitas.
Um desses casos acabou fazendo parte do programa Tabu, da National Geographic – você pode ver as imagens abaixo.Lembre-se de que as imagens podem ser consideradas fortes








A maioria dos fiéis presentes na morte da religiosa são mulheres, que a seguram nos braços e passam as mãos sobre ela a todo momento. No mesmo cômodo há alguns homens também, sendo que entre eles há uns sem roupa, que permanecem rezando ao redor da pessoa que está morrendo. A morte da fiel é silenciosa e seguida das lágrimas dos que a cercavam.

Religião ou suicídio?

A ação começou a ser questionada há alguns anos, e há quem acredite que ela deve ser banida e considerada suicídio. Por outro lado, os fiéis argumentam que a prática religiosa é garantida pela Constituição indiana. O documento diz que “cada seção de cidadãos tem uma cultura distinta e deve ter o direito de conservá-la”.
Os fieis acreditam também que a prática é normal e deveria ser tratada com respeito, alegando que é injusto comparar o sacrifício com o suicídio, afinal as pessoas têm a liberdade de desistir do sacrifício e continuarem vivendo, se assim desejarem.
Por outro lado, ainda que a Constituição aborde a liberdade de crença religiosa, a lei do país é clara com relação ao suicídio. Nesse sentido, o argumento é o de que deixar o fiel em jejum constante acaba o colocando em uma situação de ostracismo e negligência, o que torna a atitude uma questão além do livre arbítrio. Por isso, em alguns casos, autoridades intervieram e chegaram a obrigar alguns fiéis a comer.
A prática foi comparada com o Satí, ritual no qual as viúvas se jogam no fogo durante a cerimônia de funeral de seus maridos.
O Satí já é banido na Índia, e esse exemplo tem sido usado para tentar acabar com os juramentos de fome também. 
Fonte:Megacurioso

18 de Janeiro de 1919: Começa a Conferência de Paz de Versalhes, sobre a Grande Guerra de 1914-18.


No dia 18 de Janeiro de 1919, algumas das mais poderosas personalidades políticas do mundo reuniram-se perto de Paris para dar início às longas negociações que marcariam oficialmente o fim da Primeira Guerra Mundial. 


Líderes das potências aliadas – França, Reino Unido, Estados Unidos e Itália –, vitoriosas, decidiram grande parte das questões ao longo de seis meses de debates. O presidente dos EUA, Woodrow Wilson, defendeu a sua tese de uma “paz sem vitória”, para que essa ideia prevalecesse nas resoluções finais. Ele queria assegurar que a Alemanha, líder das Potências Centrais e grande derrotada na guerra, não fosse tratada com excessivo rigor. Em sentido contrário operaram os primeiros-ministros George Clemenceau da França e David Lloyd George do Reino Unido, argumentando que punir adequadamente a Alemanha e limitar bastante seu poderio bélico seria o único meio de justificar o imenso custo em vidas e bens.


O Tratado de Versalhes resultante acabou por desagradar aos vencidos, vencedores e observadores neutros. Para os especialistas independentes, o documento, punitivo demais, estava distante da proposta de 14 pontos de Wilson, que fundamentou o armistício. Para os franceses, porém, todo o castigo ainda foi pequeno. O Tratado de Versalhes não atendeu por completo à sede de vingança da França, que sofreu a invasão alemã no seu território, vitimando mais de 400.000 civis. Clemenceau queria que a província da Renânia, de indústria historicamente pujante, fosse retirada da Alemanha para evitar um novo fortalecimento do país. Wilson e Lloyd George vetaram a proposta, determinando, em contrapartida, uma ocupação militar aliada na região durante 15 anos. 



No final, Wilson teve de ceder a fim de garantir a aprovação do seu projecto preferido – a criação de uma entidade internacional para a manutenção da paz, que se chamaria Sociedade das Nações. 

Mesmo com o veto às exigências de Clemenceau, os negociadores temeram que o tratado fosse pesado em excesso – as suas exigências poderiam, em vez de apaziguar a Alemanha, incitá-la ainda mais contra os aliados. E é esse o único ponto que parece ter-se tornado unânime em Versalhes. 

Representantes da Alemanha foram excluídos das negociações até Maio. Chegando a Paris, receberam um rascunho do tratado. Com fé nas promessas de Wilson, os alemães ficaram profundamente frustrados e decepcionados com o texto, que exigia a perda de parte do seu território e o pagamento de reparações. Pior ainda, o artigo 231 obrigou a Alemanha a aceitar ser a única culpada pela guerra. Esta foi uma pílula amarga que muitos alemães não iriam engolir. A Primeira Guerra expôs um novo paradigma de destruição bélica ao mundo. 


O Tratado de Versalhes foi assinado em 28 de Junho de 1919, exactamente cinco anos após o tiro de um nacionalista sérvio ter matado o arquiduque Francisco Fernando da Áustria e detonado a Primeira Guerra Mundial. Nas décadas que se seguiram, ódio e ressentimento em relação ao tratado e seus autores envenenaram o ambiente na Alemanha. Partidos de extrema-direita como o Partido Nacional-Socialista (nazi) de Adolf Hitler capitalizaram essas emoções para ganhar força, um processo que levou quase directamente ao ponto exacto que Wilson e outros negociadores de Paris em 1919 queriam evitar – uma segunda e ainda mais devastadora guerra mundial.    

Ironicamente, foi o supremo comandante aliado, marechal Ferdinand Foch, quem melhor exteriorizou o que viria a acontecer. Com seu pragmatismo característico, ele profetizou, após a notícia da assinatura do Tratado de Versalhes: "Isto não é a paz. É apenas um armistício válido pelos próximos 20 anos."




Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)

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O Tratado de Versalhes

Assinatura do Tratado na Sala dos Espelhos  do Palácio de Versalhes - William Orpen

TSU: "Há condições para revogar e garantir que não entra em vigor"

 

“Queremos que esta matéria, tão breve quanto possível, seja discutida no Parlamento e vamos propor a revogação desta medida porque entendemos que ela é injusta, fragiliza a Segurança Social e não pode ser entendida com uma moeda de troca ao aumento do salário mínimo”, afirmou Rita Rato, em declarações aos jornalistas a partir do Parlamento.

As declarações da deputada sucederam-se ao anúncio de Jerónimo de Sousa, que durante o debate confirmou que o PCP tinha entregado um pedido de apreciação parlamentar ao decreto-lei que estabelece a redução da TSU.
O partido, acrescentou Rita Rato, alinha com o “objetivo da valorização do salário mínimo” mas “sem isso representar a existência de contrapartidas para as entidades patronais”.
“Amanhã realizar-se-á a reunião da conferência de líderes e será agendada a apreciação parlamentar”, acrescentou Rita Rato.
A deputada afiançou ainda aos jornalistas, à saída do debate quinzenal, que “até ao fim do mês há condições para revogar esta medida e garantir que ela não entra em vigor em fevereiro”.


www.noticiasaominuto.com

O VÍRUS TSU - cenas 1 e 2

O VÍRUS TSU – CENA I


geringonca5



















Barítono Coelho recostou-se no cadeirão e olhou o lustre de pingentes cintilantes que no teto luzia sobre a sua cabeça. Um sorriso ténue iluminava-lhe a face. Tinha acabado de ler os jornais do dia. Em papel, lia sempre em papel, porque achava que as notícias do digital eram sempre menos verdadeiras. As notícias eram cada vez piores. Nem diabo, nem Reis Magos, nem tufões, nem terramotos, nada aparecia que fizesse descarrilar a porcaria da geringonça. A única leve e boa notícia, desde há muitos meses, que tinha acabado de ler era a que dizia que, pela primeira vez desde o dia da usurpação, Abrenúncio Costa perdia popularidade. Era essa a razão do seu sorriso breve. E nessa postura continuou, durante minutos largos, procurando encontrar uma ideia, um plano, uma estratégia vencedora, até que a porta se abriu e lhe interrompeu os devaneios. Era Marcus Antonius que se acercou dele em passo firme e foi dizendo:
– Barítono, deixa-te de tristezas e desânimos. Já tenho o homem que nos vai salvar.
– Como assim? – Retorquiu Barítono.
– É o Manel do Pistão, o melhor mecânico de Lisboa, sabe tudo de carros, mesmo dos elétricos, os mais recentes, respondeu Marcus. E continuou: – O nosso projeto não é fazer empancar a geringonça? Claro que é. Ora quem sabe tudo de carros e motores para os reparar, também deve saber a maneira mais eficaz de os avariar de vez. Ele já cá está. Posso mandá-lo entrar?
Barítono estava estupefacto mas não pôde deixar de concluir que a ideia tinha toda a lógica. Quem sabe para o bem também sabe para o mal. E por isso respondeu:
– Ok Marcus, que venha o homem. Vamos lá a ver do que é ele capaz.
Marcus rodou sobre os tacões de dez centímetros que não dispensava, abriu a porta e falou para o corredor: – Ó engenheiro Manuel, faça o favor de entrar.
Barítono estava cada vez mais confuso. Estava á espera que lhe aparecesse um tipo franzino, de fato de macaco com nódoas de óleo e mãos calejadas. Nada disso. Apareceu-lhe um tipo de porte atlético, idade indefinida, de fato e gravata, com uma mala em pele a tiracolo onde se adivinhava um provável computador portátil. O homem aproximou-se, de mão estendida e foi dizendo:
– Ó senhor primeiro-ministro, vai ver que o vou safar da embrulhada, Manel do Pistão às suas ordens, como passa V. Exa.?
Barítono apertou-lhe a mão, mediu-o suspeitosamente de alto a baixo e retorquiu: – Caro senhor, parece que começamos mal. Você entra aqui e começa logo com ironias?! Como sabe já não sou primeiro-ministro. Os meus detratores dizem que sou primeiro-ministro no exílio. Espero que você não pertença a essa corja porque, se o é, pode sair imediatamente. O homem empertigou-se todo e respondeu:
– Como pode ter pensado isso de mim, senhor primeiro-ministro?! Sim, porque eu esclareço-o. Para mim, desde o defunto Dr. Salazar que Deus tenha em paz, não teve este país nenhum primeiro-ministro tão bom como V. Exa, e apesar do desvio geringoncista, o primeiro-ministro legítimo de Portugal continua a ser V. Exa.
Marcus, que se tinha aproximado da secretária, depois de ter fechado a porta do gabinete com suavidade, foi dizendo: – Barítono, achas que eu te ia trazer alguém que, mesmo sendo competente, não fosse de confiança?
– As minhas desculpas aos dois. Já vi que o engenheiro Manuel é competentíssimo, pelo que, abreviando razões, vamos ao que interessa. Consta que é o melhor perito em mecânica de Lisboa. Repara tudo o que mexe e circula por aí. Nós não queremos reparar nada, antes pelo contrário. Mas quem sabe fazer também sabe desfazer. O motivo do nosso encontro é muito simples e resume-se numa frase, como empancar a geringonça? Responda-me com a sua competência técnica e não com elogios á minha pessoa, caro amigo, foi dizendo Barítono.
O homem sorriu. Já estava sentado na cadeira em frente à secretária que Marcus, entretanto, lhe tinha indicado. Parecia um aluno num exame defronte a um professor cético, pronto a recensear-lhe os conhecimentos de fio a pavio, mas respondeu:
– Senhor primeiro-ministro. Conheço todos os carros que por aí circulam. Os motores, as suspensões, travões, por dentro e por fora. Tenho os manuais e os documentos mais secretos todos aqui (e apontou para o portátil que entretanto pousara nos joelhos), mas tenho a dizer-lhe que, no caso da geringonça, a coisa não vai ser nada fácil porque é um protótipo que mantém secreta toda a tecnicidade do motor, das rodas e de tudo o mais. Aquilo, no início, parecia-me ser muito primitivo e resultado de uma tecnologia obsoleta. Mas, perante o desempenho que está a ter mudei de ideias. Parece-me ser mais o resultado de uma técnica nova e obscura ainda não publicada. Daí a dificuldade do empreendimento.
Barítono assumiu um ar desconsolado mas de seguida, meio irrascível, disparou:
– Quer dizer que não há solução? Que, afinal, a sua competência é pura balela?! Bem me pareceu. Se nem o diabo conseguiu dar cabo daquilo, como é que você iria conseguir? E virando-se para Marcus Antonius: – Tu és um crédulo, tanta mezinha que já me receitaste e todas deram em nada, o Abrenúncio soma e segue, e ainda nos goza.
Manel do Pistão, engoliu em seco, levantou o queixo e replicou lesto:
– Bem, nem tudo está perdido, nada de desânimos. Há uma pequena hipótese. Como disse aquilo é tecnologia nova e secreta. Ora, assim sendo, tem software em quantidade. E para esse software ser atacado só se for com um vírus também dos mais recentes e secretos. Tenho aqui um. Não devem ter ouvido falar dele, tão moderno que é. É o vírus TSU, uma novidade de grande efeito letal.
– Barítono e Marcus entreolharam-se com cara de ponto de interrogação. Barítono pareceu interessado e, num afã instou de imediato:
– Ó homem, explique lá isso. Como funciona essa maravilha?
– É simples. A geringonça tem tentado circular pelo meio da estrada, mas tem, de vez em quando, grande tendência para o ziguezague para a esquerda. Ao volante vai o Dr. Abrenúncio Costa que controla as rodas direitas e equilibra a máquina. O que este vírus faz é permitir, a quem o possuir e ativar, entrar no software da máquina e dar força às rodas esquerdas do Dr. Irónico de Sousa e da Dra. Traquina Martins. E aí o Abrenúncio perde o leme, a máquina despista-se e é o fim.
Barítono estava de boca aberta. Era um plano maquiavélico. Sim, o homem tinha razão, para destruir a geringonça, só entrando lá dentro e fazendo-se passar por geringoncista! Afinal o homem era mesmo brilhante. Virou-se para Marcus Antonius que também estava meio abanado: – Marcus, o que achas? Eu cá por mim avança-se já. Marcus replicou logo:
– Claro que se avança, desde que o nosso amigo nos garanta que o Abrenúncio não tem antivírus à altura, que a geringonça se estampa mesmo, e nos esclareça como podemos inocular o bicharoco. E tu não me digas que só te trago mezinhas fracas. Que tem a dizer, Manel do Pistão?
– Sobre o antivírus posso garantir. O vírus TSU é inovador e o último grito da guerra cibernética. Que a geringonça se estampa é mais que certo. O Dr. Abrenúncio vai sair do meio da estrada e despistar-se na primeira curva à esquerda. Como o inoculamos é simples. Injetamos os vossos deputados com o vírus e eles passam por geringoncistas de esquerda quando ocorrerem as votações na Assembleia da República. O Irónico de Sousa e a Traquina Martins nem vão dar por nada. Vão achar que a máquina que conta os votos se enganou. Mas também não vão dizer nada. Em política a sério, os fins justificam os meios, ou como dizia um antigo provérbio árabe, o inimigo do meu inimigo meu amigo é.
Barítono estava radiante. Voltou-se para Marcus Antonius e sentenciou:
Marcus, manda comprar um caixote de seringas para inocular os nossos deputados todos e diz ao deputado Sonsonegro que não permito que nenhum, mas nenhum mesmo, escape à picadela. Se fizerem perguntas ele que diga que se trata da vacina contra a gripe.

(Nos próximos dias saem as próximas cenas do folhetim).


O Vírus TSU – Cena II






Era por volta do meio-dia. Marcus Antonius acercou-se do computador principal da sede do partido. Tirou os óculos, olhou para o centro do écran e a máquina lá se abriu. Tinham instalado a tecnologia mais recente; nada de palavras-chave, o acesso fazia-se pelo reconhecimento da pupila. E a máquina só abria com a dele e com a de Barítono, para evitar fugas de informação e conspirações. Começou por ver os emails. Eram aos magotes e quase todos eles exigiam explicações sobre o vírus TSU. Eram os patrões, era a Igreja e as Misericórdias, eram os jornais amigos, eram as sedes distritais, eram os sindicalistas da UAT (União Amarela dos Trabalhadores), eram deputados que alegavam ser alérgicos a picadelas e que perguntavam se não podiam engolir o vírus em comprimidos.
Marcus era eficiente. Ligou a impressora e imprimiu todo o correio que foi colocando meticulosamente num dossier que depois colocou numa mala de diplomata. Olhou para o relógio e viu que eram horas de almoço. Apressou-se e preparou-se para sair. Daí a pouco iria reunir com Barítono para fazer o ponto da situação. E a situação não estava nada boa. O seu faro de velho perdigueiro da política não costumava deixá-lo ficar mal.
Saiu. Comeu uma francesinha no bar da esquina – era o que comia sempre quando havia borrasca no horizonte -, e às 15 horas em ponto entrou no gabinete do presidente do partido. Barítono estava sentado à secretária a rir para o écran do computador. Marcus não estranhou. Nos últimos dias Barítono andava a flutuar sobre uma de nuvem da felicidade. Sentou-se na cadeira em frente à secretária e perguntou:
- A que se deve tanta alegria, caro companheiro? Alguma boa notícia de última hora?
Barítono desviou os olhos do computador e foi respondendo calmamente:
- Vou-te fazer uma confidência. Ando mesmo feliz. Ando a reviver velhos tempos, que estava a ver que nunca mais voltavam. Com a nossa estratégia do vírus passei a ser outra vez importante. Parece que estou outra vez no tempo em que era primeiro-ministro e recebia pressões de todo o lado a pedir dinheiro, favores e benesses. Vinham todos ao beija-mão. Agora estão a vir outra vez, porque mesmo os nossos são uns troca-tintas. Vendem-se por um prato de lentilhas às migalhas da geringonça, e dizem que eu é que sou catavento. Sim, eu tenho visto o desfile de traidores que por aí andam a querer enxovalhar-me. Ele é o Toino Saraiva, é o Silva Penhasco, ele é o Morais Tormento, ele é a Azeda Leite, ele é até o Banjo Correia de quem nunca esperei tanta ingratidão. Para já não falar do Mini Mendes essa víbora venenosa de trazer por casa.
- E tu ainda não sabes de tudo. Há os que te criticam pela frente mas há aqueles que nos fazem exigências sérias e mesmo ameaças pela calada. Trago aqui um pacote de emails que temos que analisar com urgência. A situação é grave. Ou me engano muito ou pode estar mesmo a preparar-se uma rebelião, uma greve, ou qualquer coisa assim.
Barítono deu um salto na cadeira. Rebeliões e greves eram coisas das esquerdas, como costumava dizer a Santinha Cristas, que o faziam sempre engolir em seco ao ponto de lhe causarem falta de ar. Pelo que atirou logo: - Como assim, como assim, queres-te explicar?
Marcus retirou o dossier da pasta e disse:
- Vamos por partes. Temos dezenas de mensagens. As sedes distritais perguntam se como vão argumentar quando nos acusam de sermos geringoncistas de esquerda, colonizados pelo Irónico de Sousa e pela Traquina Martins. Responde lá que eu depois transmito.
- Ó, essa é fácil. Avança com a teoria da muleta. Não somos muleta do Abrenúncio. Se ele partiu uma das pernas ele que vá a Cuba fazer fisioterapia – respondeu Barítono com um ar ufano da sua própria sagacidade.
- Bem, mas isso levanta um outro problema. Eles perguntam se agora somos contra a concertação ou a favor da concertação – retorquiu Marcus.
- Ó, essa também é fácil. Se formos nós a concertar somos a favor. Se for o Abrenúncio somos contra – respondeu Barítono esfregando as mãos de contente.
- Pois, mas isso levanta então um outro problema. Vou-te ler este email que é importantíssimo, vindo de quem vem, e sobretudo pelo que diz. É enviado pelo Henrique Zombeteiro do Espesso. Reza assim:
“Caro Barítono
O Dr. Bolsanamão encarregou-me de o contactar. Quer saber se essa coisa do vírus é a sério ou é só para chatear o Abrenúncio. Como militante Nº 1 ele exige saber qual é a tática e diz que subscreve a segunda hipótese e veta a primeira. Ele admite todas as formas de oposição à geringonça, desde que não lhe vão á bolsa. Mais o informo que ele emprega mais de 200 trabalhadores com o salário mínimo, mais os que hão de vir, pelo que essa história do vírus vai dar um rombo de 10 milhões nas contas do grupo.  Acrescenta ele que o dinheiro da TSU dado pela geringonça é tão bom como o seu. Seguir-se-ão as devidas represálias nos próximos Espessos e nos noticiários da PIG e da PIG Notícias caso persista nesse aventureirismo irresponsável.
Cordiais saudações do HZ.”
Barítono, desta vez, enfiou-se pela cadeira abaixo. Demorou dez segundos a reagir e por fim, numa voz pausada, murmurou apenas: - E há mais desse jaez?
- Tenho aqui outro, também do piorio. Vem do patriarcado, do próprio Manel Inclemente:
“Caro Barítono
A nossa missão evangélica não pode ser ameaçada pelos desígnios do combate político. As Misericórdias necessitam de acudir aos pobres e desvalidos nestes tempos de agrura e neste Inverno rigoroso. Colocar em causa os rendimentos da Igreja é sacrilégio, pecado mortal que, como sabe, merece punição não só da mão de Deus mas também da voz e da mão dos homens. O dinheiro da geringonça, desde que flua para a mão dos agentes do Senhor, é tão bom como o seu. Pelo que, a persistir nesse devaneio, só nos restará denunciá-lo em todos os púlpitos, em todos os nossos sermões dos próximos meses, quiçá dos próximos anos.
Confiamos, contudo, que Deus tenha piedade de si e lhe dê a graça do arrependimento, de forma a evitar a prossecução das suas funestas intenções.
Em nome do Senhor, MI”.
Barítono ficou ainda mais enfiado na cadeira. Desta vez fez uma grande pausa, um minuto ou mais, a compor as ideias. Marcus aguardava expectante. Como não vinha resposta, avançou timidamente: - Pronto, volta tudo atrás, não é?
Barítono saltou de novo na cadeira e disparou lesto e firme:
 - Nem pensar! Quer dizer, para já nem pensar. Vejamos. Pelos vistos não está aí nenhum email da Tia Ângela, do Mário Bazuca, ou do Gangue Schauble a pressionar. Esses sim, seriam mesmo perigosos. Os outros também se podem revelar vir a ser, mas se for o caso, então sim, poderemos sempre voltar atrás.
- Ó homem, mas voltar atrás depois de tanto finca-pé vai ser, em definitivo, o fim da tua carreira política. Já te chamam aldrabão com todas as letras depois dos quatro anos de governo em que te fartaste de mentir e de dar o dito por não dito, mais o que tens dito estes meses todos na oposição que não bate certo com o que fizeste no governo.
- Não te preocupes Marcus. Eu sou o rei da pós-verdade. Não é para me gabar mas até acho que sou melhor que o futuro Presidente Trunfo. Viste como ele ganhou as eleições? Os eleitores estão-se nas tintas para a verdade. A verdade agora é servida nos reality shows das televisões. Os políticos só têm que ser bons ficcionistas, os que escrevem o melhor guião, e eu sou mesmo bom nisso. Até já sei como nos vamos safar se precisarmos de activar o plano B.
- Sou todo ouvidos, explica lá o plano – retorquiu Marcus.
- É simples. Lembras-te de quando eu afirmei e reafirmei que ia apresentar o livro de escândalos do arquitecto Saraivada? Lembras, certamente. Depois acabei por não ir. E a razão que avancei para não ir é que tinha dito que ia, sem ter lido o livro, tendo mudado de opinião depois de o ler. Pois é, agora também não conheço o decreto que o Abrenúncio vai apresentar. Depois de conhecer, e se tivermos que recuar, podemos sempre argumentar da mesma forma. E se a coisa se complicar mesmo, podemos sempre invocar que é em nome do interesse nacional.
- Acho que essa estratégia pode ser o teu suicídio político – disse Marcus desalentado.
- Talvez seja, mas não há nada que pague estes dias em que me sinto de novo importante – disse Barítono com um sorriso de orelha a orelha. E prosseguiu: - E é assim que se fará porque eu é que sou o líder, como muito bem sabes.
Marcus não respondeu. Pensou apenas que os líderes, e já lhe tinham passado vários pela frente, são sempre transitórios. E são sempre os últimos a antecipar o seu próprio fim.



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