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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Democracia nas escolas



«Este ano comemoramos quarenta anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa e trinta anos da Lei de Bases do Sistema Educativo, documentos estruturantes da nossa Democracia.
Com o 25 de Abril, em todo o território nacional, as escolas foram, com dinâmicas e especificidades várias, um dos espaços onde de forma mais expressiva e alargada se aprendeu e viveu a experiência da participação democrática. Esse caminho de aprendizagem envolveu todos os seus atores – docentes, alunos, pais e encarregados de educação, funcionários, cidadãs e cidadãos empenhados – e teve os seus momentos altos, oscilações e também desencantos.
Depois de uma inovadora e inédita experiência de autogestão, o modelo de gestão democrática das escolas foi adquirindo maturidade, designadamente através da eleição dos Conselhos Diretivos e do envolvimento dos diferentes atores educativos.
Apesar dos princípios consagrados na Lei de Bases dos Sistema Educativo, assistimos a uma crescente desvalorização da cultura democrática nas escolas e à anulação da participação coletiva dos professores, dos alunos e da comunidade educativa. Verifica-se, pelo contrário, uma tendência para a sobrevalorização da figura do(a) diretor(a) de escola ou de agrupamento de escolas, sendo, ao mesmo tempo, subalternizado o papel de todos os outros órgãos pedagógicos, e desencorajada a participação de outros elementos da comunidade escolar. Esta situação é igualmente reveladora da erosão da identidade de cada escola quando esmagada pelo peso da estrutura de direção unipessoal de governo dos agrupamentos.
Quatro décadas passadas, vale a pena continuar a lutar pela Escola Pública, enquanto lugar de aprendizagem para todas e todos e paradigma de construção de uma cidadania democrática. A Democracia é o pulmão do nosso Estado de Direito, não deve ser apenas ensinada pelos manuais, mas exercida e vivida em cada espaço coletivo, a começar pelo trabalho quotidiano das turmas de cada escola.
Quanto mais democrática, participativa e inclusiva for a Escola, melhor será o futuro da Democracia. Neste sentido, lançamos um apelo para um amplo debate por um modelo de direção e gestão alternativo, condição de uma Escola Pública com qualidade democrática, científica e pedagógica, capaz de compatibilizar os desafios da aprendizagem para todos e todas com práticas inovadoras de cidadania crítica e emancipatória

Os subscritores do Manifesto pela Democracia nas Escolas debatem amanhã, 14 de Janeiro, entre as 15h30 e as 18h00, modelos de gestão escolar. A sessão realiza-se no Auditório da Escola Secundária Rainha Dona Leonor, em Lisboa.

ladroesdebicicletas.blogspot.pt

CURIOSIDADES- RECRUTAMENTO SEGUNDO O MÉTODO DO TIJOLO


HUMOR




Orientações para contratação de pessoal segundo o método do tijolo

  

O método consiste em:
 
1 - Colocar todos os candidatos num armazém
  
2 - Disponibilizar 200 tijolos para cada um.
  
3 - Não dar qualquer orientação alguma sobre o que devem fazer.
  
Após seis horas, verificar o que fizeram, e em função da análise dos resultados devem ser encaminhados para:
  
  
Os que contaram os tijolos - Contabilidade.
  
Os que contaram e em seguida recontaram os tijolos - Auditoria.
  
Aqueles que espalharam os tijolos serão excelentes engenheiros.
 
Os que abriram mais uns buracos nos tijolos pertencem à Arquitetura.
  
Quem tiver arrumado os tijolos de maneira muito  estranha, difícil de entender,coloque-os no Planeamento,  Projectos, Implantação e Controlo de Produção.
 

Os que estiverem a arremessar tijolos uns contra  outroscoloque-os em funções Operativas.
  
Os que estiverem a dormir, encaminhe-os para a Segurança.
  
Aqueles que picaram os tijolos em pedacinhos e estiverem a tentar monta-los novamente, devem ir diretos para a Tecnologia de Informação.
 
Os que estiverem sentados sem fazer nada ou em conversa fiadaingressam nos Recursos Humanos.
 
Todos os que disserem que fizeram de tudo para diminuir o  stock mas a concorrência está desleal e será preciso  pensar em maiores facilidadesdarão vendedores natos.
 

Quem já tiver saído, convide-os para administradores.
  
Os que estiverem a olhar pela janela com o olhar  perdido no infinitoserão responsáveis pelo Planeamento  Estratégico.
  
Aos que estiveram a conversar entre si com as mãos nos  bolsos demonstrando que nem sequer tocaram nos tijolos e  jamais fariam isso,
ofereça-lhes os lugares de direcção.
 
Os que levantaram um muro e se esconderam atrás delepertencem ao Marketing e Imagem.
  
Os que afirmarem não estar a ver tijolo algum no armazémserão otimos como juristas.
 
Os que reclamarem que os tijolos "estão uma porcaria, sem identificação, sem padronização e com  medidas erradas",coloque-os no Controlo de Qualidade.
  
Todos os que começarem a chamar os demais de "companheiros ou camaradas" elimine-os imediatamente antes que criem um sindicato.
 
  
 O Psicólogo Chefe 
EG

encontrogeracoesbnm.blogspot.pt

JORNALISTA HÚNGARA QUE RASTEIROU REFUGIADOS VAI RECORRER DA SENTENÇA


A repórter de imagem que em setembro de 2015 foi filmada a rasteirar refugiados que fugiam da polícia perto da fronteira sul da Hungria com a Sérvia insiste que teve “um ataque de pânico” e que vai recorrer da sentença à qual foi condenada.
Esta quinta-feira, a húngara Petra László acompanhou por videoconferência o julgamento do qual saiu o veredito de três anos de pena suspensa com liberdade condicional.
O juiz rejeitou o argumento do advogado da ré que referia que a condenada atuou em autodefesa ao ver centenas de pessoas correr em direção a ela.
“O júri não teve dúvidas em determinar que a ré foi culpada por violar a paz, conforme descrito e punível ao abrigo do artigo 339 do Código Penal, parágrafo 1”, anunciou o juiz Illes Nanasi.
Vitima da rasteira de László, o sírio Osama Abdul Mohsen, que corria com uma criança nos braços, acabou por cair ao chão. A sorte sorriu-lhe quando o caso correu mundo. Acabou por ser convidado para rumar a Getafe, arredores de Madrid, e formar treinadores de futebol.
Mas nem tudo são rosas. Osama encontra-se agora sem trabalho.A empresa que o recrutou não renovou o contrato de trabalho devido a problemas de desempenho relacionados com a língua espanhola. Recebe quatro meses de subsídio de desemprego e se melhorar voltará ao ativo.
Petra László, que trabalhava para a estação de televisão húngara N1 TV, associada ao partido neonazi húngaro, Jobbik, foi despedida. László assinalou que desde o incidente recebeu várias ameaças de morte e que teme pela segurança.

VÍDEO

video



pt.euronews.com

Três fotos que mudaram a guerra do Vietname


A noite da ma­dru­gada de 30 de Ja­neiro de 1968 mar­cava o início de uma data sa­grada para os vi­et­na­mitas: os fes­tejos do Novo Ano Lunar. Muitos dos efec­tivos do exér­cito do Vi­et­name do Sul ti­nham sido au­to­ri­zados a co­me­morá-la fora dos quar­téis.

Foi pre­ci­sa­mente nessa noite que duas grandes forças de com­bate – os Vi­et­congs e o Exér­cito do Vi­et­name do Norte – lan­çaram em si­mul­tâneo um ataque sur­presa em todo o país. Esta ope­ração de grande es­cala ficou co­nhe­cida como Ofen­siva Tet. Foram ata­cadas mais de 100 vilas e ci­dades, in­cluindo 36 ca­pi­tais de pro­víncia e a pró­pria ca­pital, Saigão.
Em­bora os ame­ri­canos te­nham sido apa­nhados de sur­presa pelo am­pli­tude do ataque, os ser­viços se­cretos já ti­nham de­tec­tado grandes mo­vi­men­ta­ções de tropas ini­migas. Es­pe­ravam uma ofen­siva apenas contra Khe Sanh, no sul do país, onde se en­con­trava uma base de Ma­rines, mas não uma ofen­siva si­mul­tânea em todo o ter­ri­tório.

Quando as tropas norte-vi­et­na­mitas ata­caram Saigão, 27 ba­ta­lhões dos Es­tados Unidos es­tavam es­ta­ci­o­nados na ca­pital. A ope­ração não foi, assim, o su­cesso mi­litar que se es­pe­rava: entre 30 de Ja­neiro de 1968 e 8 de Junho do mesmo ano, pe­ríodo ofi­cial de du­ração da Ofen­siva Tet, 58 mil sol­dados norte-vi­et­na­mitas per­deram a vida sem que Saigão ti­vesse sido cap­tu­rada ou os ame­ri­canos ex­pulsos.
Mesmo assim, al­gumas re­giões e ci­dades do In­te­rior caíram ir­re­me­di­a­vel­mente nas mãos do Exér­cito do Vi­et­name do Norte.

Os efeitos psi­co­ló­gicos deste ataque entre a opi­nião-pú­blica norte-ame­ri­cana – outro dos ob­jec­tivos dos es­tra­tegas norte-vi­et­na­mitas – foram im­por­tantes.
As ima­gens ini­ciais da Ofen­siva Tet di­fun­didas pelos media mar­caram a forma como o povo en­ca­rava a pre­sença dos seus fi­lhos e sol­dados na­quele ter­ri­tório hostil, des­co­nhe­cido e dis­tante. De pouco adi­antou à ad­mi­nis­tração do então pre­si­dente Lyndon Johnsson in­sistir que a Ofen­siva Tet aca­bara por ser uma grande der­rota dos co­mu­nistas.

1 Exe­cução de um pri­si­o­neiro Vi­et­kong

Execução de um prisioneiro Vietkong, 1968
Eddie Adams, 1968
O efeito das ima­gens ini­ciais de des­norte ame­ri­cano po­deria ter sido ate­nuado com o passar do tempo e a acção da pro­pa­ganda mi­litar – mas a 1 de Fe­ve­reiro de 1968, no ter­ceiro dia da Ofen­siva Tet, quando a con­fusão ainda rei­nava em Saigão, um fo­tó­grafo captou uma imagem que ha­veria de ter um efeito ainda mais de­vas­tador entre o povo ame­ri­cano.
Na­quele dia, duas armas foram dis­pa­radas ao mesmo tempo: uma pis­tola e uma má­quina fo­to­grá­fica.
A bala dis­pa­rada à queima-roupa per­furou o cé­rebro de um pri­si­o­neiro vi­et­cong e a foto cap­turou o mo­mento exacto da exe­cução.
Há duas per­so­na­gens desta tra­gédia: Nguyen Ngoc Loam, co­ronel, no­meado chefe da Po­lícia Na­ci­onal da Re­pú­blica do Vi­et­name, e um ofi­cial vi­et­cong cap­tu­rado, o ca­pitão Nguyen Van Lém, o mesmo nome pró­prio que o seu as­sas­sino.

«Penso que Buda me per­doará por isto»

Nesta foto já não existe vida, nem no car­rasco nem na sua ví­tima: a câ­mara de Eddie Adams trans­forma-os em mo­nu­mentos que re­cordam à Hu­ma­ni­dade a bru­ta­li­dade sel­vagem de uma guerra sem honra.
De um lado, o braço es­ti­cado do car­rasco, os mús­culos tensos, a mão agar­rando a pis­tola com tanta força como se re­ce­asse fa­lhar o alvo e co­brir de ri­dí­culo o seu poder de deus da vin­gança; do outro, um jovem, mãos atadas nas costas, magro, pe­queno, in­de­feso. De um lado, um rosto inex­pres­sivo, frio, o rosto da morte; do outro, um homem a quem não é per­mi­tido, se­quer, um gesto ins­tin­tivo de de­fesa.
O ope­rador de câ­mara da NBC, Vo Suu, filma a sequência: o tiro, o fumo, a queda, o sangue jor­rando da ca­beça do ofi­cial vi­et­cong. Eddie Adams, o fo­tó­grafo, re­cor­dará mais tarde que a sua única von­tade é sair dali, afastar-se, mas, ao mesmo tempo, numa fa­mi­liar com­bi­nação de horror pes­soal e triunfo pro­fis­si­onal, tem cons­ci­ência da ex­tra­or­di­nária foto que acabou de tirar. A foto acabou por ga­nhar um Prémio Pu­litzer.
Nguyen Ngoc Loam, o as­sas­sino, mantém-se calmo quando fala aos re­pór­teres: «Ele matou muitos de nós e dos vossos também» – jus­ti­fica-se ao ope­rador de câ­mara, que ainda não vi­rara as costas. – «Penso que Buda me per­doará por isto».
É um cri­mi­noso de guerra, mas tanto o Vi­et­name do Sul como as au­to­ri­dades ame­ri­canas não fazem caso da si­tu­ação: al­guns ofi­ciais ame­ri­canos pro­testam contra a exe­cução su­mária, mas Nguyen con­tinua ao ser­viço do exér­cito sul-vi­et­na­mita, onde for­ta­lece a re­pu­tação de homem de grande co­ragem e sa­ga­ci­dade em ba­talha. A sua car­reira de guer­reiro ter­mina três meses mais tarde, quando uma gra­nada ini­miga lhe des­trói a perna di­reita.
É en­viado para um hos­pital na Aus­trália para re­ceber tra­ta­mento, mas os pro­testos contra a sua pre­sença são tão ve­e­mentes que acaba por ser trans­fe­rido para os Es­tados Unidos, para um centro mé­dico mi­litar em Washington, o Walter Reed. Al­guns se­na­dores no con­gresso ame­ri­cano pro­testam, mas nada acon­tece.
De volta a Saigão, Nguyen é afas­tado do exér­cito – ti­veram de am­putar-lhe a perna di­reita – e re­gressa à vida civil. Em 1975, quando os vi­et­kongs estão às portas da ca­pital e se inicia a eva­cu­ação, os ame­ri­canos re­cusam-se a ajudá-lo. Acaba por fugir com a fa­mília num avião sul-vi­et­na­mita e re­gressa aos Es­tados Unidos.
Quando a sua pre­sença é co­nhe­cida, al­guns mo­vi­mentos civis tentam de­portá-lo, afir­mando tratar-se de um cri­mi­noso de guerra, mas, mais uma vez, nada acon­tece. Fica a viver no norte da Vir­gínia e abre uma piz­zaria. O ne­gócio corre bem e sem so­bres­saltos até 1991, mas entra em de­clínio quando é re­co­nhe­cido como o car­rasco da foto ti­rada por Eddie Adams. Há quem es­creva nas pa­redes da piz­zaria: «Sa­bemos quem tu és».
O cancro mina-o e ele afasta-se. Acaba por morrer em Julho de 1998.
Nunca foi con­de­nado pelo crime que co­meteu, em­bora tenha dado en­tre­vistas onde pro­curou jus­ti­ficar o seu acto. Ele afirma que o ofi­cial vi­et­cong era um ter­ro­rista que tinha es­tado en­vol­vido no as­sas­sínio de ofi­ciais sul-vi­et­na­mitas e res­pec­tivas fa­mí­lias – daí a exe­cução.
Ao prin­cípio, or­de­nara a um ofi­cial su­bal­terno que ma­tasse o pri­si­o­neiro. Pe­rante a he­si­tação do outro, en­car­regou-se ele pró­prio de exe­cutar a sen­tença. «Se eu he­si­tasse não es­taria a cum­prir o meu dever – e os ho­mens não me se­gui­riam».
Até hoje não se sabe se Nguyen Van Lém es­teve en­vol­vido nos mas­sa­cres que acon­te­ceram. 34 corpos ha­viam sido des­co­bertos em Saigão no dia an­te­rior, tanto de ofi­ciais da po­lícia como das res­pec­tivas mu­lheres e fi­lhos, mas nunca se provou o en­vol­vi­mento do ofi­cial vi­et­cong – fosse ou não res­pon­sável, a ver­dade é que nunca lhe foi dada a opor­tu­ni­dade de se de­fender num tri­bunal mi­litar. Ou­tras fontes – norte-vi­et­na­mitas – afirmam que Lém não era um ope­ra­ci­onal, a sua acção era so­bre­tudo po­lí­tica.
O vídeo mos­trando a sequência com­pleta dos acon­te­ci­mentos passou inú­meras vezes nas te­le­vi­sões e chocou a Amé­rica. E quando a foto de Eddie Adams foi pu­bli­cada na pri­meira pá­gina dos jor­nais ame­ri­canos, mudou a forma como o povo ame­ri­cano en­ca­rava a guerra. A foto não era apenas a imagem de um crime, mas o es­pelho da guerra do Vi­et­name: sel­vagem e gra­tuita, como o acto do chefe da po­lícia Nguyen Ngoc Loam.
Ao prin­cípio a mai­oria dos ame­ri­canos apoiara a guerra, pois tra­tava-se de ajudar ino­centes sul-vi­et­na­mitas a li­bertar-se do jugo co­mu­nista do Norte; de­pois da­quele foto, tor­nara-se muito mais di­fícil des­co­brir onde es­tavam afinal esses ino­centes.

2 A Amé­rica dis­para sobre os pró­prios fi­lhos

Jeffrey Miller

4 de Maio de 1970 é o dia em que muitos ame­ri­canos des­co­brem que a Amé­rica é capaz de as­sas­sinar os seus pró­prios fi­lhos.
John Filo, es­tu­dante de fo­to­grafia, capta a imagem de Jef­frey Miller, 20 anos, es­tu­dante como ele, morto pela Guarda Na­ci­onal du­rante um pro­testo não-au­to­ri­zado contra a de­cisão de Nixon de en­viar tropas para o Cam­bodja. Há mais três mortos e nove fe­ridos nesse dia, todos es­tu­dantes.
O ân­gulo em que a foto é ti­rada poupa-nos à visão do rosto des­feito de Miller, atin­gido com uma bala em cheio na boca. Como re­cor­dará o fo­tó­grafo 30 anos de­pois à CNN, «era como se al­guém ti­vesse des­pe­jado um balde de sangue na rua.» Po­demos ver, e só isso é su­fi­ci­ente, a ex­pressão de uma ra­pa­riga, Mary Ann Vec­chio, que corre para ajudar Jef­frey e grita por so­corro, hor­ro­ri­zada com o que vê. O seu ân­gulo de visão com­pleta a fo­to­grafia.
E para fe­char este re­trato de uma Amé­rica à de­riva, saber-se-á poucos dias de­pois que a ra­pa­riga não é es­tu­dante na Uni­ver­si­dade, tem apenas 14 anos e fugiu de casa dos pais em Miami ves­tida com uma T-shirt que diz Slave.

«Não te pre­o­cupes, mãe. Nin­guém me vai partir a ca­beça»

A 4 de Maio de 2000, a mãe de Jef­frey Miller es­creve uma cró­nica para o Se­attle Times em que nos ex­plica como o mundo se tornou mais pobre desde que o filho foi morto. Liga três pontos cru­ciais da vida de Jef­frey para ex­plicar porque razão «nunca po­deria ter re­sis­tido ao apelo da­quela ma­ni­fes­tação».
Pri­meiro ponto: Jef­frey tem oito anos. Sem o co­nhe­ci­mento da mãe, envia um ar­tigo à re­vista Ebony pre­o­cu­pado com a si­tu­ação so­cial dos ne­gros na Amé­rica. Ela sabe-o três se­manas de­pois quando, em res­posta ao ar­tigo de Jef­frey, re­cebe um te­le­fo­nema de al­guém da re­vista que partiu do prin­cípio de que o filho é negro. Dizem-lhe então que o rapaz está des­ti­nado a ser um grande líder da co­mu­ni­dade afro-ame­ri­cana.
Se­gundo: aos 16, es­creve um poema cha­mado Where Does It End?, onde ex­pressa o seu horror pe­rante «uma guerra sem pro­pó­sito», o con­flito no Vi­et­name.
Ter­ceiro: aos 20, te­le­fona a in­formá-la de que vai par­ti­cipar na ma­ni­fes­tação de 4 de Maio contra a in­vasão do Cam­bodja. Tran­qui­liza-a: «Não te pre­o­cupes, mãe. Posso vir a ser preso, mas de cer­teza que não me vão partir a ca­beça».
Mary Ann Vec­chio está em fuga da casa dos pais. Não é claro porque razão saiu da Flo­rida e se meteu à bo­leia pela Amé­rica: esses tempos re­corda-os apenas com uma frase: «Tinha 14 anos e era uma fu­gi­tiva».
Quis o des­tino que se en­con­trasse perto de Kent a 4 de Maio e que ti­vesse de­ci­dido juntar-se aos ma­ni­fes­tantes. Tê-lo-á feito por in­fluência de Sandra Lee Scheuer e Alan Can­fora, dois es­tu­dantes da Uni­ver­si­dade de quem se tor­nara amiga. Sandra também morre nesse dia.
A foto de John Filo tornou o seu rosto co­nhe­cido em toda a Amé­rica. Na sequência da pu­bli­cação dessa foto, o Go­ver­nador da Flo­rida, Claude Kirk, chegou a afirmar que Mary Ann era uma «dis­si­dente co­mu­nista».
Nas três se­manas que se se­guiram en­trou «na clan­des­ti­ni­dade». Con­cordou vender a sua his­tória a um jor­na­lista a troco de um bi­lhete de au­to­carro para a Ca­li­fórnia, mas foi presa pela po­lícia quando se pre­pa­rava para em­barcar e en­viada de volta à casa dos pais. Agora diz que «en­trou de bo­leia na His­tória».
John Filo co­nheceu-a apenas em 1995, 25 anos de­pois de a ter fo­to­gra­fado. En­con­traram-se no Emerson Col­lege em Boston numa con­fe­rência or­ga­ni­zada pelo co­légio sobre os acon­te­ci­mentos na Uni­ver­si­dade. Ela é agora uma mu­lher ca­sada que diz só ter re­co­me­çado a viver quando saiu com Joe Gillum da casa dos pais para se tornar a se­nhora Gil­lium e aban­donar em de­fi­ni­tivo o ape­lido Vec­chio.
«Sempre me pre­o­cupei com esta pessoa» – afirmou então John Filo. «Co­lo­quei uma cri­ança sob um mi­cros­cópio du­rante muito, muito tempo e agora sinto-me feliz por ela estar também feliz.»
John Filo, o es­tu­dante de fo­to­grafia, tem ou­tras mo­ti­va­ções no campus: é as­som­brado pela per­cepção de que 4 de Maio pode vir ser o dia em que con­se­guirá captar o que Henri Car­tier-Bresson de­signa como «mo­mento de­ci­sivo».
Filo de­am­bula junto aos co­legas desde o dia 1 de Maio sem con­se­guir tirar uma fo­to­grafia que capte o mo­mento his­tó­rico que se vive. Está prestes a de­sistir quando o ti­ro­teio co­meça. Ao prin­cípio julga serem tiros de pól­vora seca e deixa-se ficar em pé, a fo­to­grafar. De­pois per­cebe que são tiros de mu­nição real quando o silvo de uma bala quase lhe queima a orelha. De­siste de fo­to­grafar, atra­palha-se, olha para todos os lados, sem saber para onde ir. É o único que não está abri­gado.
Olha para a sua es­querda e vê Jef­frey, es­ten­dido no chão, o corpo em pe­quenas con­vul­sões até se imo­bi­lizar por com­pleto. O sangue es­corre-lhe pela ca­beça como se es­ti­vesse a ser des­pe­jado por um balde. Entra em pâ­nico e co­meça a fugir.
«Que estás tu a fazer?» – diz-lhe então a voz do fo­tó­grafo dentro da sua ca­beça. «É para isto que tu estás aqui». Volta e aponta a má­quina. Aper­cebe-se então de Mary Ann, cor­rendo em pâ­nico para junto do corpo do rapaz e gri­tando «Meu Deus!».
Clique. A Amé­rica está a matar os seus pró­prios fi­lhos – e está a ser fo­to­gra­fada en­quanto o faz.
O es­tu­dante de fo­to­grafia ganha o seu mo­mento de­ci­sivo e o prémio mais im­por­tante de todos, o Pu­litzer.

Cro­no­logia dos acon­te­ci­mentos


Al­lison B. Krause, Wil­liam K. Sch­ro­eder, Sandra L. Sheuer e Jef­frey G. Miller, os quatro es­tu­dantes mortos.
Sexta, 1 de Maio Dias antes o pre­si­dente Nixon anun­ciara o envio de tropas para o Cam­bodja, au­men­tando a es­cala das ope­ra­ções no Vi­et­name e a in­dig­nação entre os ame­ri­canos – na sua mai­oria jo­vens – que estão contra a guerra.
Es­tu­dantes da Uni­ver­si­dade de Kent or­ga­nizam uma ma­ni­fes­tação contra «a in­vasão de um país so­be­rano sem uma de­cla­ração de guerra formal ou a au­to­ri­zação do Con­gresso ame­ri­cano». Os es­tu­dantes pro­testam contra «a vi­o­lação dos nossos di­reitos cons­ti­tu­ci­o­nais» e «os abusos de poder» do pre­si­dente Nixon, apos­tado em «per­pe­tuar a bar­bárie na­ci­onal». Uma cópia da Cons­ti­tuição Ame­ri­cana é en­ter­rada nos ter­renos da Uni­ver­si­dade para sim­bo­lizar «o seu as­sas­sínio».
À noite, na ci­dade de Kent, adensam-se os pro­testos: uma mul­tidão in­vade as ruas e di­rige-se para o centro, par­tindo al­guns vi­dros das lojas pelo ca­minho. À ma­ni­fes­tação junta-se gente que nada tem a ver com a Uni­ver­si­dade. Muitos já be­beram de­mais. O Mayor de Kent entra em pâ­nico e vê nos pro­testos si­nais de uma su­ble­vação ra­dical e so­li­cita o au­xílio do Go­ver­nador do Es­tado de Co­lumbia. A Guarda Na­ci­onal é en­viada para dis­persar os ma­ni­fes­tantes com gás la­cri­mo­géneo. Às duas e meia da manhã, a si­tu­ação está con­tro­lada.
Sá­bado, 2 de Maio Às oito da noite, 100 ma­ni­fes­tantes cercam um edi­fício da Uni­ver­si­dade que serve de ca­ma­rata aos ofi­ciais de re­serva do Exér­cito que se en­con­tram em treinos mi­li­tares. A as­so­ci­ação à guerra que se trava no Vi­et­name é ins­tan­tânea. Al­guns deitam fogo ao edi­fício. As chamas es­pa­lham-se tão ra­pi­da­mente que os bom­beiros não con­se­guem con­trolá-las. A Guarda Na­ci­onal volta a in­tervir, dis­per­sando os es­tu­dantes e fi­cando a guardar um edi­fício re­du­zido a cinzas.
Guarda Nacional ocupa o campus da Universidade

Guarda Na­ci­onal ocupa o campus da Uni­ver­si­dade
Do­mingo, 3 de Maio No campus da Uni­ver­si­dade, ocu­pado pelos sol­dados da Guarda Na­ci­onal, tudo está calmo. Mas às nove da noite uma mul­tidão de es­tu­dantes volta a reunir-se na ci­dade. Os sol­dados lançam mais gás la­cri­mo­géneo. Os es­tu­dantes re­fu­giam-se na in­ter­secção das ruas East Main e Lin­coln, blo­que­ando o trân­sito e au­men­tando o caos. Às 11 da noite, a mul­tidão torna-se mais hostil, lança pe­dras aos sol­dados e é no­va­mente afas­tada. Há fe­ridos nos dois lados.
Se­gunda, 4 de Maio É dia de aulas na Uni­ver­si­dade. A con­fron­tação da noite an­te­rior pro­vocou res­sen­ti­mento em ambos os lados da bar­ri­cada: os es­tu­dantes estão de­ter­mi­nados em manter uma ma­ni­fes­tação con­vo­cada para aquele dia, en­tre­tanto proi­bida, os sol­dados estão de­ter­mi­nados em im­pedi-la.
Gás lacrimogéneo sobre os estudantes

Gás la­cri­mo­géneo sobre os es­tu­dantes
Ao en­tar­decer, 200 es­tu­dantes en­con­tram-se já reu­nidos em de­safio di­recto às au­to­ri­dades. À ordem de dis­persão, res­pondem com cân­ticos, in­sultos e pe­dras. Mais gás la­cri­mo­géneo é lan­çado mas, desta vez, pouco efeito pro­voca: está muito vento na­quela tarde. A Guarda avança com as bai­o­netas das es­pin­gardas em riste, obri­gando os es­tu­dantes a re­cuar. Nin­guém dis­persa.
O lan­ça­mento de mais gás já não re­solve a si­tu­ação. Pe­dras con­ti­nuam a voar sobre os sol­dados. Estes re­cuam. 28 formam uma linha e dis­param entre 61 e 67 vezes du­rante 13 se­gundos contra a mul­tidão em fúria. Não são tiros de pól­vora seca, mas tiros de mu­nição real. Quatro es­tu­dantes morrem. Nove ficam fe­ridos. Um dos fe­ridos fi­cará pa­ra­lí­tico o resto da vida.
Al­guns tentam di­a­logar com os sol­dados: «Porque é que vocês dis­pa­raram?» É o co­man­dante da Guarda quem res­ponde: «E vamos con­ti­nuar a dis­parar se vocês não dis­per­sarem.»
Este é o mesmo ofi­cial que, mi­nutos de­pois, se apro­xi­mará de Jef­frey Miller para exa­minar o corpo. O es­tu­dante morreu de bar­riga para baixo e o co­man­dante da Guarda Na­ci­onal vira-o com a bota para exa­minar me­lhor os es­tragos. O des­res­peito e a in­di­fe­rença são tão evi­dentes que só a pre­sença de de­zenas de sol­dados im­pe­dirá que os ou­tros es­tu­dantes o es­folem vivo.
Perto dali, muitos ainda re­sistem. Um grupo de 300 não ar­reda pé do campus e só a in­ter­venção de al­guns pro­fes­sores co­ra­josos im­pede que os con­frontos con­ti­nuem e mais mortes ocorram. Os pro­fes­sores con­vencem os alunos a dis­persar. A Uni­ver­si­dade fecha por um pe­ríodo de tempo in­de­ter­mi­nado e só abrirá de­pois das fé­rias de Verão.

Duas ver­sões da mesma foto

A versão original, à direita, e a versão retocada.

A versão ori­ginal, à di­reita, e a versão re­to­cada.
Bastou que al­guém re­pa­rasse na au­sência do poste sobre a ca­beça de Mary Ann Vec­chio na re­pu­bli­cação efec­tuada em 1995 pela Life Ma­ga­zine para que a re­vista fosse acu­sada de ma­ni­pular ima­gens jor­na­lís­ticas. O pró­prio Editor fo­to­grá­fico da Life foi for­çado a es­crever uma ex­pli­cação.
Se­gundo David Friend, esta imagem ma­ni­pu­lada tem sido pu­bli­cada por vá­rias re­vistas – exem­plos: Time (6 de No­vembro de 1972) Pe­ople (2 de Maio de 1977), Time (17 de Ja­neiro de 1980) e Pe­ople (30 de Abril de 1990) – sem que nin­guém ti­vesse re­pa­rado na di­fe­rença cru­cial em re­lação ao ori­ginal.
O que se passou foi que, pro­va­vel­mente ainda em 1970, al­guém tra­ba­lhando no ar­quivo Time-Life Pic­ture Col­lec­tion (e que até hoje per­ma­nece anó­nimo), de­cidiu ‘apagar’ a imagem do poste, na óbvia in­tenção de a me­lhorar e de lhe di­mi­nuir o ruído.

3 Danos co­la­te­rais: Kim Phuc e o Na­palm

Kim Phuc e o terror do Napalm

8 de Junho de 1972. Um avião da Força Aérea Vi­et­na­mita bom­bar­deia Trang Bang, uma po­pu­lação sul-vi­et­na­mita si­tuada a 38 qui­ló­me­tros de Saigão. Cen­tenas de ho­mens, mu­lheres e cri­anças morrem em con­sequência desse bom­bar­de­a­mento com na­palm.
O ataque não ocorreu por en­gano: tratou-se de uma ope­ração mi­litar des­ti­nada a travar o avanço dos vi­et­congs sobre a ca­pital e pro­teger a re­ta­guarda dos sol­dados vi­et­na­mitas.
Os ame­ri­canos não es­ti­veram di­rec­ta­mente en­vol­vidos na ope­ração: o pro­cesso de re­ti­rada de tropas do ter­reno fi­cará con­cluído a 12 de Agosto desse ano, em­bora a acção dos bom­bar­deiros B-52 se tenha in­ten­si­fi­cado nesse pe­ríodo. Mais tarde, co­men­tando as cir­cuns­tân­cias em que o ataque acon­teceu, ve­te­ranos do Vi­et­name afir­maram que os vi­et­congs ti­nham usado a po­pu­lação como es­cudo – daí os danos co­la­te­rais.
Das con­sequên­cias deste ataque ficou-nos uma imagem que se tor­naria uma das grandes fo­to­gra­fias da guerra, de todas as guerras: cri­anças ino­centes – os tais «danos co­la­te­rais» – fu­gindo ao horror do na­palm.
Talvez por pa­recer ainda mais frágil do que as ou­tras, o olhar do fo­tó­grafo vi­et­na­mita Nic Ut centra-se na me­nina de 9 anos de quem mais tarde se tor­nará amigo e pro­tector, Kim Phuc. Vê-a correr na sua di­recção, gri­tando «muito quente, muito quente», com as costas, os om­bros e os braços quei­mados pelo na­palm. O rapaz que se vê a correr à frente dela, do lado es­querdo na foto, é o seu irmão mais velho, Phan Thanh Tam. Nic Ut ti­rará mais fotos deste epi­sódio, in­cluindo uma em que a avó da me­nina foge com o neto ao colo, um bebé que não re­sistiu às quei­ma­duras e acabou por morrer nos seus braços.
Ca­mi­nhando na mesma es­trada, os sol­dados pa­recem in­di­fe­rentes ao so­fri­mento das cri­anças, o que torna a foto ainda mais re­ve­la­dora de como a guerra também é capaz de des­pe­daçar um ser hu­mano por dentro.

«O homem que salvou a minha vida»

Kim Phuc actualmente. À direita, Kim Phuc e Nik Tut.

Kim Phuc ac­tu­al­mente. À di­reita, Kim Phuc e Nik Tut.
Nem todos se mos­trarão in­di­fe­rentes: como re­cor­dará a pró­pria Kim Phouc à BBC, numa en­tre­vista dada a 29 de Abril de 2005, um dos sol­dados deixa-se tocar pelo so­fri­mento da me­nina, dá-lhe de beber do seu cantil, deita-lhe água sobre as costas quei­madas jul­gando assim que lhe ali­viará a dor.
A fa­mília so­bre­vi­vente reúne-se à volta de Kim Phouc e do grupo de jor­na­listas. Nic é vi­et­na­mita e o único capaz de co­mu­nicar com as pes­soas que, de­ses­pe­radas, pedem aos re­pór­teres para as levar para o hos­pital. Nic sabe que as fotos que tirou são im­por­tantes e devem ser en­vi­adas o mais rá­pido pos­sível, mas acaba por con­cordar em levar a me­nina ao hos­pital de carro. Com ele se­guem os dois ir­mãos, um tio e uma tia.
Di­rigem-se ao hos­pital de Cu Chi, a meio ca­minho de Saigão. A ra­pa­riga grita de dores, pede água, diz sentir-se a morrer. Cada mo­vi­mento do carro pro­voca-lhe dores imensas quando a pele quei­mada entra em con­tacto com o banco. O fo­tó­grafo re­cor­dará mais tarde que a me­nina gritou até des­maiar.
Uma hora de­pois chegam ao hos­pital. A regra ali é a se­guinte: tratar pri­meiro os do­entes que os mé­dicos con­si­deram ter hi­pó­tese de so­bre­viver, deixar os casos mais graves para de­pois. A me­nina faz parte deste úl­timo grupo – por esta al­tura, já o fo­tó­grafo está de­ma­siado en­vol­vido com o drama e re­cusa aban­doná-la a uma morte certa.
Puxa dos ga­lões de jor­na­lista: conta aos mé­dicos o drama que pre­sen­ciou, diz-lhes que o rosto da me­nina que eles não querem tratar es­tará nos prin­ci­pais jor­nais.
Acaba por con­vencê-los. Só quando se cer­ti­fica de que a cri­ança en­trou na sala de ope­ra­ções é que aban­dona o hos­pital para en­viar as fotos. Kim Phouc ficou in­ter­nada no hos­pital 14 meses e fez 17 ope­ra­ções ao todo. O fo­tó­grafo foi sempre vi­sitá-la.
Meses de­pois de as fotos terem sido pu­bli­cadas e o nome Nik Tut se tornar fa­moso em todo o mundo, o fo­tó­grafo foi en­tre­vis­tado para re­cordar as cir­cuns­tân­cias em que as ima­gens foram ti­radas.
Nic contou tudo o que se passou, ex­cepto a parte em que se meteu no carro e pro­curou salvar a vida de uma me­nina.
Só 28 anos de­pois do dia em que a fo­to­grafia foi ti­rada o mundo soube do papel do fo­tó­grafo. E foi a pró­pria Kim Phouc quem o re­velou quando fi­nal­mente o con­se­guiu re­en­con­trar, em Lon­dres, du­rante uma au­di­ência com a Rainha. Abra­çando-o, apre­sentou-o como «o homem que salvou a minha vida».
En­tre­vis­tada pela CBS a 19 de Se­tembro de 2000, Kim Phouc dirá que, ao olhar para a foto, sente-se ainda como «se tudo aquilo ti­vesse su­ce­dido ontem».
A con­versão ao Cris­ti­a­nismo, afirma, ajudou-a a re­solver os fan­tasmas do pas­sado:
Eu fui uma ví­tima da guerra, fui uma ví­tima de muitas coisas. Mas penso que con­segui uma vi­tória, pois en­tre­tanto aprendi a per­doar.
Kim Phouc julgou que nunca mais seria atra­ente aos olhos de um homem por causa da ex­tensão das quei­ma­duras nos om­bros, nos braços e nas costas, mas hoje em dia é ca­sada e mãe de dois fi­lhos.
Fez as pazes com o mundo. Sempre re­cusou que a sua his­tória e a foto fossem usadas para fins de pro­pa­ganda po­lí­tica, tanto por vi­et­na­mitas como por ame­ri­canos.
Fugiu do Vi­et­name e re­fu­giou-se no Ca­nadá, onde ainda vive. É nu­me­rosas vezes cha­mada para contar a sua his­tória às novas ge­ra­ções.
Fundou a Kim Foun­da­tion, uma or­ga­ni­zação sem fins lu­cra­tivos que se de­dica a ajudar cri­anças ví­timas da guerra. É Em­bai­xa­dora da UNESCO e a sua missão é levar uma men­sagem de paz ao mundo.

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FUTEBOL - O primeiro clube feminino da história surgiu já lutando pelos direitos das mulheres

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Assim como acontece com todo o universo do futebol, a participação das mulheres na modalidade teve os seus ancestrais antes da criação das regras. Elas disputavam o jogo de bola durante a Dinastia Han da China Imperial, bem como na França medieval e na Escócia do século 18. No entanto, a partir da formalização do futebol em 1863, as mulheres demoraram a ganhar espaço nos estádios.
O primeiro amistoso internacional feminino ocorreu em 1881, entre Inglaterra e Escócia, em Edimburgo. Dias depois houve um reencontro em Glasgow, mas o duelo acabou cancelado depois que centenas de homens invadiram o campo, empurrando as jogadoras e as obrigando a fugir em carruagens. Já em 1892 veio a primeira partida referendada pela federação escocesa. Não sem a discriminação masculina, classificando o jogo no Scottish Sport como “o espetáculo mais degradante que testemunhamos em conexão com o futebol”.
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Entretanto, as grandes pioneiras do futebol feminino realmente surgiram em 1894. Eram anos de transformações. A expansão das universidades femininas, a partir de 1870, começou a dar forma aos movimentos pelos direitos das mulheres, enquanto o incentivo à educação física nos anos 1890 impulsionou o interesse pelos esportes. Várias modalidades foram adaptadas a garotas, como o ciclismo, o tênis, o hóquei e o críquete. Mas o futebol seguia proibido. Era um jogo considerado violento, que crescia na classe operária (em tempos nos quais a educação se limitava à classe média e alta) e que tornava a prática impossível com as vestimentas femininas da época. Objeções que também serviam de partida a quem queria mudanças nos direitos das mulheres. Cada vez mais popular, o futebol entrou naturalmente neste contexto.

Em 1894, as mulheres criaram o primeiro seu primeiro clube de futebol, em Londres. À frente delas estava Nettie Honeyball, a ativista feminista responsável pela formação do British Ladies Football Club. “Eu fundei a associação com o intuito de provar ao mundo que as mulheres não são criaturas ‘ornamentais e inúteis’ que os homens têm pintado. Devo confessar que, sobre todos os assuntos em que os sexos estão tão divididos, minhas convicções são pela emancipação. Espero pelo momento em que as mulheres se sentarão no Parlamento e terão voz nas negociações, especialmente nas principais”, disse, em entrevista ao Daily Sketch.
Porém, os historiadores afirmam que Honeyball nunca existiu de fato. Em tempos nos quais as mulheres tinham direitos mínimos, para não dizer nulos, ela optou por um pseudônimo. O mais aceito é que a “mãe do futebol” tenha sido Mary Hutson, capitã e secretária do time que adotou o nome falso. Independente de como se chamava, sua luta feminista naqueles anos representou muito. Era descrita como uma jovem de olhar duro e personalidade forte, vinda da classe média. Ao seu lado, a principal figura era Lady Florence Dixie, uma aristocrata escocesa que aceitou presidir e financiar o British Ladies. A marquesa era também uma notória feminista, além de ser reconhecida como jornalista e escritora.
A participação de Dixie, inclusive, foi decisiva para que o clube repercutisse na imprensa britânica. Ela era irmã do Marquês de Queensberry, personagem de um escândalo nacional em 1895. Oscar Wilde processou-o por difamação, após o nobre dizer que seu filho teve um caso homossexual com o escritor. Wilde perdeu na justiça. “Tudo que Lady Florence fizesse atrairia atenções, então a conexão dela com o futebol feminino deu um valor à imprensa que não teria normalmente”, afirmou o historiador Jean Williams, em entrevista à BBC em 2013.
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Depois que um anúncio no jornal Daily Graphic atraiu cerca de 30 jogadoras, os treinos do British Ladies começaram ainda em 1894, comandados por Bill Julian, veterano do Tottenham. Já o primeiro jogo aconteceu há 120 anos. Em 23 de março de 1895, duas equipes representando o norte e o sul de Londres se enfrentaram, diante de 10 mil espectadores. O publicou vaiou as atletas e boa parte das pessoas foi embora antes do apito final. Em geral, a imprensa também lançou críticas pesadas. “Os primeiros minutos foram suficientes para mostrar que o futebol feminino está totalmente fora de questão. Nenhuma das qualidades requeridas a um futebolista foi vista no sábado”, escreveu o The Sketch. Ainda assim, comercialmente o evento teve sucesso.

Apesar da resistência, o British Ladies saiu em turnê pelo Reino Unido, disputando mais de 100 amistosos pela ilha. Nos primeiros meses, chegaram a mobilizar as pessoas nas ruas de Belfast e a arrecadar fundos para a caridade.  Todavia, a campanha contrária nos meios de comunicação pesou e o público de curiosos diminuiu após o primeiro ano, diante de tanto preconceito. Honeyball deixou a equipe na primavera de 1895, desiludida pela maneira como ela tinha se tornado apenas uma maneira de fazer dinheiro a promotores.
Ainda assim, o clube empunhou a bandeira dos direitos da mulher através do país, além de promover o esporte feminino. A equipe ajudou a abrir a imprensa para vários debates em voga no final do século 19 sobre os ideais femininos e a sexualidade. Através de sua representatividade, o British Ladies subvertia os padrões da sociedade vitoriana, abolindo anáguas e espartilhos para vestir calças e blusas. “Futebol é o esporte para mulheres, que superará todos os outros, garantindo bem-estar e destruindo o monstro com cabeça de hidra: as atuais roupas femininas”, declarou Lady Dixie, em entrevista à Pall Mall Gazette.
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Infelizmente, a trajetória do British Ladies não passou de dois anos. Em setembro de 1896, o desgaste e a falta de dinheiro dissolveram a equipe. Após chegar em Exeter, o clube não tinha fundos para pagar o hotel ou seguir viagem. Sem ajuda do prefeito, as jogadoras precisaram ser resgatadas por amigos. Em 1902, a federação reiterou o veto a partidas amistosas com a participação de mulheres. A reabertura ao futebol feminino só aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, com a modalidade usada para entreter o povo e disciplinar as trabalhadoras. Contudo, o fim do conflito voltou a recrudescer o espaço às mulheres em campo. Entre várias iniciativas esparsas, o futebol feminino só ganhou forças na segunda metade do século, se tornando um evento global depois dos anos 1990, com a criação da Copa do Mundo.

Por mais que a experiência do British Ladies tenha durado pouco, ela possui a sua importância histórica. Acima da iniciativa primordial do futebol feminino, também representa uma época de mudanças nos direitos das mulheres. Para Lady Dixie e Nettie Honeyball, o esporte se tornou o caminho para rejeitar as diferenças impostas entre homens e mulheres. Uma prática social que confrontava as barreiras de gênero. E, mesmo que o futebol tenha sido atrapalhado pelos conservadorismos, a luta progrediu. A reforma no vestuário teve sucesso em um movimento amplo naqueles anos, enquanto o sufrágio feminino se iniciou ao redor do mundo na década de 1890, chegando ao Reino Unido em 1918.
Já nos dias atuais, Nettie Honeyball e Lady Dixie servem como exemplos. Idealistas em um debate que evoluiu, mas ainda tem muito a caminhar. As mulheres estão cada vez mais presentes em campo e nas arquibancadas, mas ainda sofrendo com a disparidade e o sexismo – algo que se repete em outras tantas áreas. Que o futebol, como há mais de um século, sirva de uma maneira mais ampla na sociedade em busca da igualdade de gênero. E que o Dia Internacional da Mulher não se ofusque em flores ou presentes. A data serve não para comemorar, mas para conscientizar sobre as opressões que ocorrem cotidianamente e para tentar mudar um quadro ainda longe do ideal às mulheres.




trivela.uol.com.br

«Mulheres e Revolução»



«Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.»

Maria de Fátima de Bivar Velho da Costa,