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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

FARTOS DE SERMOS TRATADOS COMO ESTÚPIDOS

Ricardo j.Rodrigues

Foi hoje escolhida a palavra do ano. Durante semanas, as redações receberam comunicados de uma votação online promovida por um grupo editorial e, esta manhã, os resultados foram anunciados numa conferência de imprensa. Vários meios deslocaram jornalistas, fotógrafos e repórteres de imagem para o evento. À hora de almoço, as televisões reuniram comentadores em estúdio para debater o assunto. Aquela podia ser uma notícia, sim, mas no máximo uma breve. Para a maioria dos cidadãos, a escolha de ‘geringonça’ para palavra do ano tem pouco interesse. Se calhar não tem mesmo interesse nenhum. Mas este é um exemplo que mostra tudo o que se passa de mal com o jornalismo de hoje.
‘Geringonça’, recorde-se, foi a expressão utilizada pelo cronista Vasco Pulido Valente para definir o acordo parlamentar da esquerda. É uma palavra com uma conotação negativa e, se um cronista podia utilizá-la, os jornalistas nunca poderiam fazê-lo. O trabalho dos jornalistas é fornecer aos cidadãos a informação rigorosa de que estes precisam – para poderem formar, esclarecidamente, a sua própria opinião. No entanto, os informadores passaram a utilizá-la despudoradamente, condicionando assim os leitores. E não podemos deixar de pensar nisto quando vemos que as pessoas que deixaram de confiar na imprensa, que não encontram hoje utilidade no que leem, que pensam que os jornalistas deixaram de ser os representantes dos cidadãos e passaram a ser representantes do sistema. Com esta ‘geringonça’, lhes damos razão.
Há sinais claros nas nossas sociedades de que as pessoas estão a deixar de confiar no sistema. Elegem ditadores e votam no impensável porque já não se sentem protegidas pelos atores do costume, nem esperam que eles os defendam. Isto inclui políticos, economistas, advogados. E inclui jornalistas. Tenho vários amigos – pessoas inteligentes, por quem tenho apreço – a queixar-se do mesmo. Que os jornais vivem na bolha distante onde também se movimentam políticos, economistas e advogados. E que esse diálogo é fechado, acontece entre uns e outros, e completamente à margem dos cidadãos. Não é que os assuntos da política, da economia e do direito não tenham importância para as pessoas. Têm, são até bastante relevantes. Mas raras vezes são tratadas pela perspetiva dos cidadãos.
Na próxima semana, os jornalistas portugueses vão reunir-se pela quarta vez em congresso na história da democracia. Há 19 anos que uma reunião destas não acontecia. E, no topo das preocupações, tem de estar esta: os jornais não podem perder os cidadãos. Não podem deixar de ser os representantes da sociedade, a voz que testemunha, denuncia e controla os poderes. É que, sem jornalismo, não há democracia. E os tempos que vivemos estão a mostrar-nos que há riscos reais para a liberdade de expressão. Que nos temos de ocupar do que realmente importa. A única forma de inverter o caminho é convocar os cidadãos para o lado da imprensa. Mas, para isso acontecer, a imprensa tem de se colocar do lado dos cidadãos.
É bastante importante que se deixe de tratar as pessoas como estúpidas. Esta ‘geringonça’ é, aliás, uma estupidez dupla. Em primeiro lugar, porque foi utilizada despudoradamente pela imprensa, apesar de estar impregnada de simbologia política. Mas volta a mostrar todo o seu esplendor de imbecilidade quando vemos a comunicação social mobilizar meios humanos, materiais e gastar tempo para fazer a cobertura disto: uma conferência de imprensa de um grupo editorial que quer anunciar os resultados de uma votação online para palavra do ano. Qual é a relevância disto, na verdade? Zero. Deste governo não tenho nada a dizer. Desta palavra, digo isto: está a matar, todos os dias, a mais bela profissão do mundo.


Leia mais: Fartos de sermos tratados como estúpidos http://www.noticiasmagazine.pt/2017/fartos-de-sermos-tratados-como-estupidos/#ixzz4UpS4w6fO
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poesia:António Garrochinho



há os que prestam culto ao diabo
como lobisomens com rabo
outros a jeová

sem nada conhecerem da vida de lá
que não existe, que não há
e a de cá
a que destroem, conspurcam
com feitiços estúpidos, rituais de bruxos
com a maldade e o ódio estampado nos rostos murchos
mensageiros falsos apalhaçados
saudosistas da inquisição
eles próprios incenerados
de qualquer amor no coração
morrem sem saber nada
mas na vida infernizam
os sãs
aqueles que querem viver livres
bastando que o sol
lhes sorria todas as manhãs


António Garrochinho


Pequenas biografias de escritores malditos


Pietro Arentino (Itália, 1492-1556): autor de "Diálogo das Prostitutas" e conhecido no seu tempo como "secretário do mundo", Arentino influenciou muitos outras poetas, inclusive Bocage, onde é citado no soneto Já Bocage não sou... (Outro Arentino fui, a santidade manchei). Filho de um sapateiro com uma prostituta, desenvolveu uma obra mordaz e pouco moral, o que rendia um certo temor da nobreza da época. Caso atípico na história literária, foi protegido por esses nobres, inclusive, muito admirado pelo Papa Leão X e por outros importantes religiosos, que o protegiam, obteve um prestígio que lhe rendeu vida tranquila e fortuna. Além dos poemas, escreveu peças teatrais, comédias e tragédias. Seus versos, talvez pelo caráter pornográfico, são poucos estudados no Brasil, onde seus livros são muito raros.

Lord Byron (Inglaterra, 1788, 1824): exerceu grande influência sobre os poetas românticos, tendo uma vida extremamente atribulada, em razão das numerosas amantes (segundo alguns, a primeira delas teria sido uma babá, quando Byron tinha nove anos!), geralmente casadas, das dívidas (apesar de seu título de nobreza) e denúnicas de incesto, quando se enamorou da irmã, com quem teria tido um filho. Começou a publicar seus poemas ainda muito jovem, obtendo grande fama e prestígio, pela força e qualidade de seus versos, que tiveram grande repercussão na Europa. Em 1823, Byron se une às tropas gregas na luta contra a Turquia, vindo a falecer no ano seguinte, após sucessivos ataques epiléticos. Adorado na Grécia, seu coração foi retirado e enterrado em solo grego, enquanto que seus restos mortais foram enviados à Inglaterra. Sua vida e obra representou o ideal de liberdade do homem romântico, influenciando poetas em todo mundo, como Álvares de Azevedo, no Brasil. Além dos poemas, escreveu a peça "Dom Juan". Não são muitas as traduções e biografias do autor em português, sobretudo pela dificuldade de tradução dos poemas.
Arthur Rimbaud (França, 1854-1891): como Bukowski, a poesia de Rimbaud é sinônima da própria vida do poeta, característica esta comum aos escritores malditos. De caráter simbolista, sua poesia foi escrita quando ele era ainda adolescente. Rebelde, fugia de casa com frequência. Aliou-se à Comuna de Paris, onde, provavelmente, tenha sido abusado sexualmente por soldados bêbados, época em que passou a beber em grandes quantidades e marcar seu estilo com roupas velhas e cabelos longos. Após conhecer o poeta simbolista Paul Verlaine, tornaram-se amantes e passaram a viver uma vida desregrada, regada a absinto e haxixe. Ciumento e passional, Verlaine chegou a atirar contra Rimbaud, durante uma bebedeira. Por essa relação tumultuada, e com a interferência da própria esposa, Verlaine ficou preso durante dois anos. Rimbaud desenvolveu uma série de atividades, dentre elas, tráfico de armas na África, adquirindo um carcinoma no joelho, o que lhe causou a amputação da perna. Morre com apenas 37 anos, após o agravamento de seu estado de saúde.
Marquês de Sade (França, 1740-1814): escritor libertino, deu origem ao termo sadismo, que designa perversão sexual e prazer com a dor do outro. Tece críticas à sociedade urbana e à religião, propondo uma nova ordem moral. Dentre seus livros estão 120 dias de SodomaJustineA Filosofia na Alcova e Diálogos entre um padre e um moribundo, a maior parte deles escritos enquanto esteve encarcerado. Pode ser considerado um dos pioneiros na discussão da Revolução Sexual e da prática homossexual, assunto que foi abordado pela pensadora Simone di Beauvoir no ensaio "É preciso queimar Sade?". Morreu no hospício, aos 74 anos.
Charles Bukowski (Estados Unidos, 1920-1994): nascido na Alemanha, mudou-se para Los Angeles ainda criança. Sua vida é sua obra. Sem afeto familiar e com o rosto deformado pela acne, viveu e escreveu sobre prostitutas, mendigos, bêbados e miseráveis. Tinha repulsa ao trabalho formal e se alcoolizava com frequência, porém, desenvolveu o gosto pela leitura. Escreveu em quartos de pensão, recebendo verbas miseráveis por mês, alimentando-se uma vez ao dia. Com o passar dos anos, foi reconhecido e traduzido mundialmente, inclusive, sendo sua obra adaptada para o cinema. Entre seus livros estão Crônicas de um amor loucoNotas de um velho safado e O Amor é um cão dos diabos.

pietrasopralinea.blogspot.pt

VÍDEO - MILHO REI



VÍDEO





lembro-me de ser assim...

"cumpria-se a terra
depois de agosto
nas eiras plenas de oiro
as desfolhadas

gentes de casa
em casa
o ritual da partilha
dos braços

em coro e ao desafio 
a festa
em cantares de antes do milho
mãos
ágeis e sábias desfolhavam maçarocas

vermelha a maçaroca sorria
milho rei
o beijo pedido
celebrava ele também
o reiniciar da vida"


Poema de ahcravo

VÍDEO - NUM ABRIL DE LIBERDADE,UM HINO À NOSSA GENTE



VÍDEO





VÍDEO - FILHOS DA TERRA



VÍDEO




habitam o silêncio
com a naturalidade das flores
por debaixo do sol

são

abrem caminhos que nunca
percorrerão
fazedores de tanto
com pouco se sabem por aí

deles dizem
"o país profundo"
sem eles pergunto-vos:
que país?
que mundo?

uma nota breve
no jornal da terra
tarja negra
uma sineta pelas ruas
um nome a quem pergunta
isso são

até lá
bebem o sol
habitam o silêncio


Poema de ahcravo


Verlaine, Rimbaud e os poetas malditos


Os Caminhos Perdidos da Poesia
O poeta simbolista francês Paul Verlaine (1844 -1896) amava em desespero a Arthur Rimbaud.
"Le coin de table" - Henri Fantin-Latour - 1872. Verlaine e Rimbaud são os dois primeiros à esquerda  
Verlaine e Rimbaud
São os dois primeiros à esquerda em uma mesa de bar em Fanton-Latour, em 1872 - na Wikipedia.
Verlaine conheceu o alcoolismo, a pobreza, a prisão e cunhou, em 1864, a famosa expressão 'POÈTE MAUDIT' para aqueles poetas que enfrentaram as inúmeras interdições existentes no mundo dos bem-aventurados e burocratas da vida, a saber os convencionalismos literários e sociais, além, claro, das censuras provenientes de tais enfrentamentos.
Rimbaud por Verlaine

Um Hino à Marginalidade Poética
A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
Os plátanos largando no ar as folhas pretas,
O ônibus, furacão de ferragens e lodo,
Que entre as rodas se empina e desengonça todo,
Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
Cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
Paredes e beirais transpirando imundícia,
A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.
A tradução é de Guilherme de Almeida publicada por Beatniks Cuiaba
poetas
Verlaine em um café, fotografia de Dornac, publicada por Taringa
Meu Sonho Familiar
Muitas vezes, o sonho estranho me surpreende
de uma ignota mulher que eu amo e que me adora,
e que a mesma não é, certamente, a toda hora,
não sendo outra, porém, e me ama e me compreende.
Todo o meu coração deixo que ela o desvende.
Ela somente o faz transparente e o avigora,
E se eu sofro, se a dor minha fronte descora,
ela é o consolo ideal que sobre mim se estende.
É ela trigueira, ou loira, ou ruiva? – Eu o ignoro.
Seu nome? Apenas sei que ele é doce e sonoro
como o de quem se amou e da vida fugiu.
Seu olhar, como o olhar de uma estátua, é sem alma,
e tem na sua voz, grave, longínqua e calma,
a inflexão de uma voz cara que se extingiu.
A tradução é de Onestaldo de Pennafort publicada por Escamandro

VÍDEO

jornalggn.com.br

VÍDEO - DESFOLHADA À ANTIGA NA MURTOSA



VÍDEO


Os campos são de oiro e
os dias são de esperança

É a força de um querer
que desabrocha e
o povo brinca e canta e ri, sem ais

É milho rei, é trigo loiro
São frutos ruivos, é alegria!
São cachos de uvas, é seiva, é sangue!
É a natureza a sorrir, pulsante
A mãe terra a parir o
pão e o vinho, que o homem fecundou

Os braços que a amanharam, hoje dançam
e os olhos que marejaram, hoje brilham...

É bonança!
É a recompensa a quem trabalha!


Poema de Francisco José Rito

Marlene Dietrich: mais doce do que vinho


Dedicava-me a cozinhar pratos do seu [Jean Gabin] país para os muitos amigos franceses que trazia consigo. Renoir era um deles. Gostava muito de couves recheadas, tinha um apetite voraz e quase sempre se ia embora depois de ter acabado de comer. Nesse tempo eu era conhecida em Hollywood como uma mulher pouco convencional nas maneiras: as pessoas podiam vir e partir da minha casa quando desejassem. Nada de cerimónias nem de sobremesas; algo que Renoir muito apreciava. Era um convidado assíduo, e cada vez que vinha, preparava-lhe couves recheadas.
Pensar que a atriz da minha predileção cozinhava couves recheadas para o meu cineasta favorito, deixa-me um sorriso nos lábios. Não fizeram um filme juntos, mas partilharam várias refeições, e isso tem um valor mais afetivo do que qualquer relação profissional. Começar por esta “curiosidade” um texto sobre Marlene Dietrich é apenas uma forma de garantir que é meu. Não me tome o leitor por arrogante, mas duvido que fora desta sala de estar com lareira onde escrevo, no dia em que passam 115 anos sobre o seu nascimento, existam muitas mais pessoas que organizassem um olhar biográfico sobre a individualidade de Dietrich a partir deste relato informal. Justamente, e aproveitando o ímpeto de o arrancar da trivialidade, saber por tal excerto retirado da autobiografia da atriz (Nehmt nur mein Leben, 1979) que cozinhar era um dos seus maiores prazeres, quebra, desde logo, a ideia errónea da mulher fria e distante, inapta para qualquer tarefa doméstica, que muitos filmes transmitiram. Vejam-na no papel de uma mãe diligente em Blonde Venus (A Vénus Loira, 1932) e depois conversamos…
Marlene Dietrich
Não me proponho aqui analisar cada um dos filmes em que entrou, ou especular sobre aspetos paralelos ao seu percurso. Isso será empresa para outra ocasião. Além do mais, tenho a certeza que lhe causaria irritabilidade, como manifesta repetidas vezes, numa voz alquebrada mas ainda rigorosa, em Marlene (1984): seja o que for que Maximilian Schell lhe pergunte nesse impressivo documentário, em que nunca somos permitidos a ver-lhe o rosto envelhecido, ela responde, rabugenta, “está escrito no meu livro.” Por isso mesmo, recorrerei várias vezes a ele para completar este pequeno trabalho, feito através da retina do coração, no conhecimento biográfico da mulher que aconteceu ter contribuído para uma certa consciência de que o cinema tem uma costela de Eva.
Com a espontaneidade simples de quem venera, confesso que Marlene Dietrich me causou fascínio desde a primeira vez que a vi, nas imagens em movimento de Shanghai Express (O Expresso de Xangai, 1932). Já sabia que era um ícone, mas os ícones nem sempre provocam emoções intensas ou sinceras. São lampejos do passado, que reconhecemos pela evidência. Mas ela não. Apanhou-me de surpresa na sala escura maior da Rua Barata Salgueiro. Primeiro, um vulto estranhíssimo, ornamentado de penas negras, com o rosto velado numa rede. Depois, um corpo tangível, de voz e gestos lânguidos, protagonista de um dos mais belos planos de alguém a fumar. Sim, aquele com a luz primorosamente afirmada no seu rosto – não descodificamos bem se é essa luz que lhe trabalha o desenho da face, se é a sua expressão que doutrina a claridade. Uma luz que se diz só Josef von Sternberg ter sabido aplicar-lhe. Aceito que sim. Dietrich é a primeira a declará-lo, assumindo-se como respetiva criação do mestre: «O olho por detrás da câmara, esse olho que ama a criatura cuja imagem impressiona a película é a origem do efeito prodigioso que a dita criatura produz, provocando a adulação e a paixão dos espectadores de todo o mundo.»
Shanghai Express (O Expresso de Xangai, 1932) de Josef von Sternberg
Shanghai Express (O Expresso de Xangai, 1932) de Josef von Sternberg
Poder-se-ia dizer que, neste ponto, o meu texto gera um impasse com o título do dossier – “E elas criaram o cinema.” Então afinal Marlene é um produto de Von Sternberg? Mil vezes não. A atriz nascida em Berlim, a 27 de Dezembro de 1901, devota de Goethe e Rilke, e impelida para a escola de teatro de Max Reinhardt no desejo de recitar estes autores (e fugir às aulas de violino), foi um ser de carisma singular. Von Sternberg descobriu-o confortavelmente sentado na plateia, durante a peça Duas Gravatas, de Georg Kaiser, em que Dietrich interpretava uma personagem norte-americana, apenas com uma deixa: “Vamos, venha jantar comigo!” O realizador, na altura prestes a lançar-se no projeto do primeiro filme sonoro alemão, Der blaue Engel (O Anjo Azul, 1930) – que, como sabemos, viria a ter uma versão inglesa – alguma coisa terá percebido nela, no modo como pronunciou por diversas vezes a mesma frase ao longo da peça. A atriz foi convocada para um teste, que se espelharia em muitos dos seus outros papéis, além desse Lola Lola. Refiro-me às performances musicais, claro. Era o piano que acompanhava a sua voz, e não o contrário.
Pediram-me que me empoleirasse no piano, que enrolasse uma meia no tornozelo e cantasse o tema que levava preparado. Mas eu não tinha preparado nenhuma canção. Se não ia conseguir o papel, para quê levar uma partitura? Na realidade, para que é que tinha ido ali? Só havia uma resposta; porque me tinham pedido que o fizesse.
Von Sternberg era um homem paciente: “Já que não trouxe uma canção, cante o que quiser.”, disse-me.
“Gosto de canções americanas.”, respondi, encolhida.
“Então cante uma canção americana.”
Ligeiramente aliviada, pus-me a explicar ao pianista a canção que queria cantar. Naturalmente, não a conhecia.
Von Sternberg interrompeu-me com um tom que não admitia réplica: “Esta é a cena que quero. Está perfeita. Vou filmá-la de seguida. Volte a fazer exatamente o que fez junto ao pianista: explique-lhe o que deve interpretar e a seguir canta-lhe uma canção.”
Screen Test para Der blaue Engel (O Anjo Azul, 1930) de Josef von Sternberg
Screen Test para Der blaue Engel (O Anjo Azul, 1930) de Josef von Sternberg
A partir deste momento, estava lançada na aventura do cinema, nas grandes produções, pela mão do seu estimado mestre. A ribalta propriamente dita chegaria logo a seguir, com Morocco (1930), em Hollywood. E é curioso como alguns biógrafos de Dietrich assumiram que mesmo antes de Der blaue Engel ela já era uma atriz “célebre”… Há, efetivamente, qualquer coisa egrégia que estava lá antes de tudo. Mas este é o facto, e o seu livro faz a correção a todo esse tipo de verdades fabricadas. Assim, sublinhe-se, quando Sternberg a escolheu para este filme, escolhia uma desconhecida. Mas uma desconhecida de caráter disciplinado, interessada por cada detalhe técnico da produção de um filme e amante da França. Era ainda uma criança quando a Alemanha declarou guerra a esse país, no primeiro conflito mundial, e já então assumia uma posição política antagónica com a consciência nacional. As aulas de Francês que cedo entraram na sua formação, ministradas por uma professora que era também objeto da sua idolatria, Marguerite Breguand, eram a maior alegria que tinha no colégio, visto como uma prisão. Não admira por isso que tenha sido ela, mais tarde, nas lides de Hollywood, a figura solicitada para auxiliar Jean Gabin (como fizera também com René Clair), fugido da França ocupada, na sua nova vida americana. Tornou-se tradutora pessoal, mas também sua professora de inglês. Repare-se que, para subsistir num país estrangeiro e continuar a fazer cinema, Gabin precisava de aprender a língua, e de alguém que lha ensinasse com o pleno entendimento da sua condição.
Na América do Norte estávamos todos fora do nosso país: vivíamos em terra estrangeira e tínhamos de nos adaptar a costumes e ideias desconhecidas. Gabin, que nisto era muito francês, repelia toda a intrusão estrangeira no seu lar. Eu tinha de cozinhar e falar em francês com ele, e só estávamos com atores e realizadores franceses. Gostava muito daquela vida. Sentia-me simplesmente como em minha própria casa. Existe uma espécie de desejo, nostalgia, frustração de um lar, que me atrai para os franceses e que devo à minha juventude.
Gabin era o homem, o super-homem, o homem de uma vida. O ideal que procuram todas as mulheres.
Martin Roumagnac (1946) de Georges Lacombe
Martin Roumagnac (1946) de Georges Lacombe
Dietrich amou-o tal como amou Ernest Hemingway e Noel Coward, amitiés amoureux que faziam as delícias da imprensa cor-de-rosa, mas que só através das suas palavras se podem aceder sem as armadilhas da superficialidade mediática. Uma mulher que ama os amigos não é bem vista, e ela fazia questão de se manter fiel à pouca convencionalidade das suas maneiras. Com Josef von Sternberg foi diferente. Havia um sentido de deferência. O homem que a chamou para Hollywood, afastando-a da Alemanha de Hitler, foi o seu maior protetor, conselheiro, porta-voz, crítico e pacificador. Dietrich não era um espírito sossegado, mas ele tinha a fleuma necessária para moldar os vestígios da sua juventude numa desarmante maturidade cinematográfica. Quem a viu em Morocco, a partilhar o grande ecrã com Gary Cooper, desconfia que aquela era a sua primeira produção americana? Ao proferir, de olhos semicerrados e cigarro na mão direita, “Husband? I never found a man good enough for that.”, inaugura a pose que lhe valeu o epíteto de femme fatale – justamente neste filme em que usa calças, sempre com a mão esquerda no bolso, e surge numa magnífica elegância andrógina, chegando a beijar uma mulher. Beijos mais doces do que vinho. No cinema há muitas femme fatale, é certo, mas não creio que haja alguma como Marlene, que pela inteligência do corpo, enquanto presença e atitude, consegue definir sozinha a carga erótica de uma cena. Não eram precisos malabarismos carnais, bastava uma canção, um olhar intimidante, o cigarro entre os dedos. A bem dizer, Dietrich abominava qualquer indício de pornografia, e o cinema era a primeira manifestação desse controlo performativo. Também por isso lhe fazia tanta confusão o burburinho sobre a natureza afetiva das suas amizades, acima mencionadas.
Com Von Sternberg, é sabido, manteve uma das mais profícuas colaborações da história do cinema, como o comprovam, para além dos títulos já referidos, Dishonored (Desonrada, 1931), o soberbo The Scarlet Empress (A Imperatriz vermelha, 1934), e The Devil Is a Woman (O Diabo é Uma Mulher, 1935) – este último o seu preferido, como escreveu nas memórias, e a derradeira vez que trabalhou com o cineasta.
Morocco (1930) de Josef von Sternberg
Morocco (1930) de Josef von Sternberg
Depois disso, ao longo da carreira foram vários os realizadores de renome que lhe deram o papel principal nos seus filmes. Ainda antes de The Scarlet Empress, Rouben Mamoulian foi o primeiro a atrever-se a “ocupar o lugar” de Von Sternberg, com The Song of Songs (Cântico dos Cânticos, 1933), e logo de seguida, Frank Borzage, com Desire (Desejo, 1936), Ernst Lubitsch, com Angel (O Anjo, 1937), René Clair, com The Flame of New Orleans (A Condessa de Nova Orleães, 1941), Raoul Walsh, com Manpower (Discórdia, 1941), William Dieterle, com Kismet (1944), Georges Lacombe, com Martin Roumagnac (Desespero, 1946) – aqui, Dietrich ao lado de Jean Gabin –, Billy Wilder, com A Foreign Affair (A Sua Melhor Missão, 1948) e Witness for the Prosecution (Testemunha de Acusação, 1957), Alfred Hitchcock, com Stage Fright (Pânico nos Bastidores, 1950), Fritz Lang, com Rancho Notorious (O Rancho das Paixões, 1952). Marlene detestou trabalhar com Lang. Apesar de compatriota, revelou-se-lhe um controlador dos gestos que, como ela afirma no seu livro, “Hitler não teria desaprovado”… Na verdade, mesmo que num ou noutro momento não fosse tratada com a dignidade devida, todos desejavam o carisma de Marlene Dietrich nas suas narrativas e nos cartazes dos filmes (ainda que, no início da década de 1940, figurasse entre os nomes apontados pela Associação dos Exibidores Independentes da América como “undiserable at the box office”, ao lado de Greta Garbo, Joan Crawford ou Katharine Hepburn). A odiosa colaboração com Lang resultou, apesar do obstáculo pessoal, numa belíssima despedida aos papéis de protagonista, com a característica cena em que canta uma canção.
A young man is full of adventure
and eager to do what he can
he maybe a joy
but don’t send a boy
to do the work of a man.
Get away, get away,
Get away, young man, get away…
Rancho Notorious (O Rancho das Paixões, 1952) de Fritz Lang
Rancho Notorious (O Rancho das Paixões, 1952) de Fritz Lang
Quem também já passara a juventude e ainda a chamaria para um filme seu, embora num papel secundário, seria o grande – até fisicamente – amigo Orson Welles. Em Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958), por uma última vez, dá uso à expressão enigmática dos seus olhos semicerrados, conjugados com o fumo do cigarro, sempre aceso, sempre a roubar a nossa atenção. Aqui, no entanto, ao contrário de em Morocco, já lhe vislumbramos compaixão no semblante… Por fim, Judgement at Nuremberga (O Julgamento de Nuremberga, 1961), de Stanley Kramer, que diz ter sido um belo encontro com Spencer Tracy, encerraria uma carreira levada com dedicação, mas também alguma distância: “Sou insensível à admiração dos desconhecidos. A celebridade, que pode modificar completamente a personalidade de um ser humano, nunca me fez mossa”.
Morreu em Paris, a 6 de Maio de 1992, num apartamento da Avenue Montaigne. O mesmo onde escreveu as memórias que aqui recuperei e muitas outras (da II Guerra Mundial, por exemplo). Agradeço ao seu livro este bocadinho.
Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958) de Orson Welles
Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958) de Orson Welles
Os excertos da autobiografia de Marlene Dietrich aqui citada provêm da edição portuguesa da mesma: Marlene D., tradução de Filipa Rosa de Morais, Publicações Dom Quixote, 1986.


www.apaladewalsh.com

CHARLES MANSON O ASSASSINO EM MASSA FOI HOSPITALIZADO




O assassino em massa Charles Manson, condenado a prisão perpétua pelo envolvimento nos crimes Tate-LaBianca, nos Estados Unidos foi levado para um hospital, esta terça-feira. A notícia está a ser avançada pelos meios de comunicação norte-americanos, sem detalhes concretos sobre a condição de saúde de Manson.
O site TMZ adianta que foi levado para um hospital em Bakersfield, na Califórnia, a cerca de uma hora da cadeia onde cumpre a pena.
Recorde-se que Charles Manson era o líder de um grupo responsável pelos chamados crimes Tate-LaBianca, que chocaram o mundo em 1969. A 9 de agosto desse ano, alguns dos elementos da “Família Manson” invadiram uma casa alugada pelo realizador Roman Polanski em Los Angeles, assassinando a atriz e esposa do realizador, Sharon Tate, que estava grávida, e outros quatro amigos do casal.
No dia seguinte, os mesmo indivíduos invadiram a casa de Rosemary e Leno LaBianca, mataram o casal. Tal como tinham feito na noite anterior, deixaram mensagens nas paredes com sangue das vítimas.
Com 37 anos, Manson foi inicialmente condenado à morte, em 1971, mas com as mudanças na legislação, a pena foi alterada, em 1972, para prisão perpétua.

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04 de Janeiro de 1643: Nasce Sir Isaac Newton, cientista inglês


Físico e matemático inglês, nasceu no dia 4 de Janeiro de 1643, em Lincolnshire, e morreu em 1727, em Middlesex. É conhecido pela formulação das três leis do movimento, consideradas os princípios da Física Moderna, de onde resultou a formulação da Lei da Gravitação. 

Newton estudou no Trinity College de Cambridge. O seu trabalho científico sofreu forte influência do seu professor e orientador Barrow (desde 1663), e de Schooten, Viète, John Wallis, Descartes, dos trabalhos de Fermat sobre retas tangentes a curvas; de Cavalieri, das concepções de Galileu Galilei e Johannes Kepler.Os trabalhos realizados sobre a teoria da gravitação foram expostos na obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, publicada em 1687, onde Newton mostra que a Lei da Gravitação é universal. Como matemático, inventou o cálculo infinitesimal e descobriu o teorema do binómio. Em 1668, completou o seu primeiro telescópio de refracção, com que observou os satélites de Júpiter. A partir de 1672 passou a fazer parte da Royal Society, onde apresentou a sua teoria intitulada Nova Teoria sobre a Luz e a Cor, na qual enuncia que a luz branca é composta por muitas cores, tendo chegado a este resultado através de um prisma ótico. Todas as suas investigações sobre a luz e a cor foram reunidas na obra Óptica.

A história mais popular relacionada com Newton é a da maçã. Se por um lado essa história é um mito, o facto é que dela surgiu uma grande oportunidade para se investigar mais sobre a Gravitação Universal. A referida história envolve muito humor e reflexão. Diz-se que a maçã bateu realmente na cabeça de Newton, quando este se encontrava num jardim, sentado por baixo de uma macieira, e que o seu impacto fez com que, de algum modo, ele ficasse ciente da força da gravidade. A pergunta não era se a gravidade existia, mas se ela se estenderia tão longe da Terra que poderia também ser a força que prende a Lua à sua órbita. Newton mostrou que, se a força diminuísse com o quadrado inverso da distância, poderia então calcular correctamente o período orbital da Lua. Ele supôs ainda que a mesma força seria responsável pelo movimento orbital de outros corpos, criando assim o conceito de "gravitação universal". O escritor contemporâneo William Stukeley e o filósofo Voltaire foram duas personalidades que citaram a  maçã de Newton em alguns dos seus textos..



Isaac Newton. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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Newton retratado por Godfrey Kneller 1689 (com 46 anos de idade)


Newton (1702), por Godfrey Kneller, na National Portrait GalleryLondres

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A obra Principia, de Newton