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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Caro Dr. Carlos César, Serve a presente para solicitar a minha desvinculação do Partido Socialista, que considerarei efetiva na data de recepção desta carta.

Braga, 4 de Agosto de 2017
Ex.mo Senhor
Presidente do Partido Socialista
Dr. Carlos César
Largo do Rato, 2
1269-143 Lisboa
Registada C/ AR
Caro Dr. Carlos César,
Serve a presente para solicitar a minha desvinculação do Partido Socialista, que considerarei efectiva na data de recepção desta carta.
Inscrevi-me no partido há 12 anos, por acreditar que a militância é um dever de coerência para quem defende a democracia, na qual os partidos políticos são imprescindíveis. Considerava na altura que a participação activa na política deveria ser a mais nobre das missões, aquela que se destina a servir o país.
Pouco depois, compreendi que essa nobre missão era frequentemente relegada para segundo ou último plano, dando lugar a outras prioridades pessoais, com recurso aos mais variados meios. É neste contexto de uma espécie de “intriga palaciana” com traições, acordos e desacordos à boca pequena, jogadas, negócios e golpes de rins, que se abre caminho a que os mais aptos desistam e os menos aptos possam singrar.
Nada que não seja comum aos outros partidos!
Contudo, foi justamente a consciência de que de nada vale contrariar um modelo instalado e cristalizado de contínua promoção dos piores, ou dos menos maus, ainda que com honrosas exceções, que me alertou para a inutilidade da minha militância.
Este modelo de reprodução do declínio é hoje visível na composição da Assembleia da República, órgão que já foi integrado pela “nata” intelectual da nossa sociedade. Hoje, a renovação possível é de nomes e caras, mas, na verdade, partido nenhum consegue já mobilizar os melhores que Portugal tem.
A crescente reprovação social dos militantes partidários fundamenta-se na perceção de que se movem por interesses e não pela nobre missão de ajudar a construir uma sociedade melhor, de acordo com os valores ideológicos que acreditam mais capazes. Difundiu-se até a ideia de que o cartão de militante é um passaporte para acesso direto a lugares bem remunerados.
Nada mais falso!
Na verdade, a reprovação social associada à condição de militante força a que sejam preteridos aqueles que o têm, mesmo que aptos, para que a decisão não seja considerada suspeita. O Partido Socialista tem, aliás, vindo a substituir antigos dirigentes na administração pública por independentes, sem abertura de concurso público, situação que a imprensa tem “lido” deste modo: não é militante, logo, deve ser competente.
Por isto, fazer da política um modo de vida, mesmo que esporadicamente, é acessível a muito poucos, não necessariamente aos melhores, mas certamente aos mais obstinados e resistentes, por boas ou más razões.
A condição de independente é, atualmente, o melhor estatuto possível, pois a sociedade, fruto da péssima imagem que construiu sobre os militantes, atribui aos independentes o rótulo de competentes, desinteressados e até socialmente generosos. Mesmo os partidos, incluindo o PS, têm vindo a integrar em funções de relevo numerosos independentes, sinal de que também aqui a imagem de um independente é equivalente a uma pessoa mais séria do que um militante.
Na minha carreira profissional, a minha condição de militante ativa do PS, onde desempenhei algumas funções a nível de Braga (Membro da Assembleia Municipal / Membro da Comissão Permanente de Economia, Empresas Municipais e Turismo / Representante da Assembleia Municipal para Acompanhamento da Revisão do PDM / Membro da Comissão Política Concelhia de Braga), foi tudo menos inócua, tendo contribuído unicamente para me prejudicar profissionalmente, além de, provavelmente, também ter ficado associada à imagem que acima descrevi.
Convém nesta altura esclarecer que nada disto tem a mínima conexão com o modelo de governo do PS com o apoio da esquerda, a que chamaram “geringonça”, que considero um exemplo de serviço ao país e aos cidadãos.
Por tudo isto, é chegada a altura de regressar à condição de independente, exatamente como aqui entrei.
Os meus cumprimentos,
Lígia Portovedo
Militante Nº 87786
Secção de Braga

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