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terça-feira, 25 de julho de 2017

Verão de emigrante




Os alemães, os ingleses ou os franceses que vêm viver, trabalhar ou abrir negócios em Portugal não são imigrantes. São expats, abreviatura de expatriados, que é bastante mais chic. Há locais de encontro para expats, festas e circuitos tão fechados que portugueses não entram. Os portugueses para muitos expats são os locais ou os nativos. Já os portugueses que vão para Alemanha, Reino Unido ou França trabalhar são imigrantes e acabou--se. Isso diz muito sobre o diálogo norte-sul.

A emigração é um fenómeno que conheço bem. Em 1913 o meu bisavô materno emigrou da zona mais pobre da Alemanha para sul. Primeiro foi para a Catalunha e dez anos mais tarde veio para Portugal. Exatamente cem anos depois, no auge da crise, em 2013, emigrei eu de Portugal para a Alemanha, em busca de um clima mais favorável para criar as minhas filhas. Por razões semelhantes, já o meu pai nos tinha levado a todos para fora de Portugal na conturbada época depois do 25 de Abril. Mas após o liceu na Alemanha, já inscrito na universidade, optei por voltar para Lisboa. Em quatro décadas emigrei quatro vezes, duas vezes de Portugal para a Alemanha, duas no sentido inverso. A diferença entre as minhas experiências e as dos expats e emigrantes tradicionais: na Alemanha sou alemão e em Portugal sou português. Mas ter dois passaportes, ser bilingue e trabalhar nos dois países são só sinais exteriores de pertença. Na Alemanha sofro de fortes sentimentos portugueses, em Portugal tenho frequentes achaques de espírito germânico.

Na época em que eu ainda andava de comboio, viajava com os emigrantes de regresso a França. Passado meia hora estavam nos compartimentos fechados a desfraldar o farnel, pernas e asas de frango assado, regadas com tinto de garrafões; na bagagem, pedaços de pátria em forma de postas de bacalhau para mais tarde demolhar. Mesmo que muitos emigrantes portugueses hoje tenham cursos superiores e regressem a casa de avião, a maioria continua a trabalhar em restaurantes e hotéis, a conduzir empilhadoras e autocarros. Continuam a ser emigrantes. Há coisas que não mudam. Em agosto os franceses abandonam Paris e as porteiras portuguesas ou os seus descendentes também. Povoam esplanadas e areais no Algarve. "Viens ici, Jean-Paul; viens ici, João Paulo, vem aqui, se não apanhas porrada." Muitos emigrantes na Alemanha chegam de Mercedes, com a estrela da marca a fazer de mira ótica no capô e a conduzir de acordo. Ao contrário dos emigrantes em França, não tentam parecer alemães. Basta-lhes conduzir os carros com estrelas, argolas olímpicas ou o emblema da fábrica de motores da Baviera. Já os expats em Portugal só voltam aos países de origem para tratar de burocracia, irem ao médico ou serem operados, porque não confiam na medicina indígena. Se os emigrantes procuram uma vida menos pobre, os expats estão em busca de uma vida mais plena.

O vagão-restaurante entre Lisboa e Paris tinha toalhas, talheres que pesavam na mão, guardanapos de pano e um empregado de colete e bigode aparado. Aqui, jantava com os viajantes de todo o mundo, porque os emigrantes não eram nem são viajantes. Os emigrantes vivem num limbo entre o país amado que os expulsou e o país que lhes paga pelo trabalho, enquanto lhes vai arrancando a alma. No vagão-restaurante, atrizes e atores, escritores e poetisas, músicos, professores e fotógrafos, modelos, artistas e aventureiros de todas as espécies juntavam-se nas mesas ao fundo da carruagem, a beber vinho de garrafas esguias. É destas velhas tribos que vêm os atuais expats para Lisboa.

É fácil tirar um português de Portugal, difícil é tirar Portugal dum português. Quando passeava em Frankfurt ou Berlim, às vezes, descobria lojas portuguesas com estantes de metal cheias de latas de azeite, garrafas de vinho e de cervejas mini, sacos de açúcar amarelo e arcas congeladoras com sardinhas que me olhavam com os olhos baços e encovados de quem já morreu há muito e perdura, sem sentido, longe do mar. Não queria acabar assim. Por isso voltei para este país maravilhoso e daqui, desta vez, ninguém me tira (mas lá que isto é uma grande bagunça, é).



Correspondente do Der Freitag e colunista do Portugal Post

www.dn.pt

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