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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Quando Tolstói se quis matar



No filosófico Uma confissão, o escritor russo conta como os camponeses o ajudaram a recuperar a fé e encontrar o sentido da vidaFILÓSOFO O escritor russo Liev Nikoláievitch Tolstói passeia por sua propriedade rural, para onde acorriam milhares de peregrinos em busca de sabedoria (Foto: Hulton Archive/Getty Images)



Após ingressar na meia-idade, o conde russo Liev Nikoláievitch Tolstói (1828-1910) passou a ser atormentado por pensamentos suicidas. À noite, sozinho em seu quarto, temia cair em tentação e recorrer a uma corda para se enforcar na viga entre os armários. Retirou a corda do quarto por precaução. Parou de caçar. Temia que, ao perambular por Iásnaia-Poliana, sua  propriedade rural, à procura de animais para abater, apontasse a espingarda para si mesmo e acabasse com a própria vida. Tolstói tinha pouco mais de 50 anos e já alcançara a glória literária. Nas décadas anteriores, publicara contos notáveis e romances monumentais, como Guerra e paz e Anna Kariênina. No entanto, não encontrava mais prazer na literatura. A felicidade conjugal também pertencia ao passado. Uma ideia martelava em sua cabeça: “Existe, em minha vida, algum sentido que não seria aniquilado pela morte que me aguarda de modo inevitável?”.

Como tantos de seus personagens, Tolstói estava obcecado pela morte e buscava, a todo custo, dar algum sentido à vida. Esse episódio depressivo – e a jornada do escritor de volta à fé – é descrito  no livro Uma confissão (Mundo Cristão, 128 páginas, ), que volta às livrarias numa tradução assinada pelo escritor Rubens Figueiredo, que já verteu para o português os grandes romances e todos os contos escritos pelo russo. Mistura de depoimento e reflexões filosófico-teológicas, Uma confissão sublinha vários dos temas que guiam as obras ficcionais de Tolstói: a morte, o contraste entre os salamaleques da nobreza russa e a virtude dos mujiques (os camponeses) e uma filosofia calcada no concreto do cotidiano.

Escrito entre 1879 e 1882, Uma confissão conta como, aos 16 anos, Tolstói parou de rezar e frequentar as celebrações religiosas da Igreja Ortodoxa. Aos poucos, a fé metafísica que ele recebeu na infância foi substituída por uma crença iluminista na razão, no progresso e no poder redentor da arte. Ele não buscava mais a salvação da alma, mas o autoaperfeiçoamento. O jovem conde, porém, com frequência fracassava em cumprir o código de conduta que ele próprio formulara: vivia dissolutamente, sempre metido em farras, mentiras e duelos. Em 1857, em viagem à França, sua crença no progresso foi abalada após assistir à execução de um homem na guilhotina. De volta à Rússia, a morte passou a visitá-lo insistentemente. Seu irmão Nikolai morreu de repente, aos 37 anos, e cinco de seus 13 filhos morreram ainda na infância. Tolstói tentou encontrar respostas na ciência e na filosofia. Interessou-se pelo budismo, leu os diálogos platônicos e os Evangelhos e chafurdou no pessimismo do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) e do Eclesiastes. A única conclusão era morrer.

Havia algo, porém, que impedia Tolstói de ceder à tentação do suicídio. “Tinha medo da vida, desejava livrar-me dela e, no entanto, ainda esperava dela alguma coisa”, confessou. Voltou-se para a Igreja Ortodoxa em busca do sentido da vida, mas viu que os mais religiosos eram também os mais hipócritas. Observou como a nobreza devota temia as privações materiais, o sofrimento e a morte. Apenas os mujiques não tinham medo da morte e, ao contrário da elite, sua religião não era etérea. Para os camponeses, uma vida piedosa consistia em “trabalhar, resignar-se, suportar e ser misericordioso”. Ao observar como as pessoas mais simples não se desesperavam diante da morte, Tolstói encontrou um significado para a fé que ultrapassava as definições oferecidas pela religião: “A fé é o sentido da vida humana, graças ao qual o homem não se destrói e vive. [...] a essência de qualquer fé consiste que ela dá à vida um sentido que a morte não destrói”.

No mesmo ano em que colocou o ponto final em Uma confissão, Tolstói iniciou a escrita de uma de suas obras mais sublimes, a novela A morte de Ivan Ilitch, na qual ele dá um tratamento ficcional às questões que quase o levaram ao suicídio. Ivan Ilitch é um juiz de meia-idade cuja saúde degringola depois de uma queda. Desenganado pelos médicos, torna-se um estorvo para a família e os amigos, que se afastam dele quando a morte se aproxima. Entrevado na cama, sofrendo dores atrozes, o juiz se dá conta de que levou uma vida sem sentido, mas consegue encarar a morte com serenidade ao observar a fé de Guerássim, um mujique que trabalha em sua casa e cuida, sem repulsa, do patrão moribundo. “É a vontade de Deus. Para lá iremos todos”, diz o mujique. Assim como o narrador de Uma confissão, Ivan Ilitch descobre, na fé dos russos mais rústicos, um antídoto para a hipocrisia e a banalidade.

“As obras autobiográficas de Tolstói, como seus diários, sempre alimentaram sua ficção”, diz Elena Nikolaevna Vássina, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (DLO-USP) que traduziu Uma confissão para uma coletânea de textos da velhice do escritor russo intitulada Os últimos dias de Tolstói e publicada pela Companhia das Letras, em 2011.  “Os temas de Uma confissão são desenvolvidos em Anna Kariênina, em que o personagem Liévin é um alter ego de Tolstói; em Ressurreição, seu último romance; e em contos como Três mortes.” Publicado em 1859, Três mortes narra o fim de uma dama da aristocracia, de um cocheiro e de uma árvore. A dama se desespera diante da morte; o cocheiro, não. Mesmo moribunda, a dama não abandona velhos hábitos. O cocheiro entrega suas botas a outro mujique, pois sabe que não precisará mais delas. Na obra de Tolstói, a morte aparece para alertar os personagens dos perigos de se levar uma vida falsa e sem sentido. Quando Anna Kariênina vê Vrónski, seu futuro amante, pela primeira vez, um trem esmaga um vigia. “É um mau presságio”, diz ela. É o modo de Tolstói avisá-la que um romance frívolo e puramente carnal não pode acabar bem.
MUJIQUES Camponeses russos retratados, no início do século XX, por Serguêi Prokúdin-Górski, pioneiro da fotografia em cor. Abaixo, a capa de 'Uma confissão' (Foto: Universal History Archive/Getty Images)
Tolstói planejava publicar Uma confissão ainda em 1882, mas a censura o impediu. O livro foi editado na Suíça em 1884, quando já circulava por todo o Império Russo em cópias manuscritas. Foi publicado oficialmente na Rússia apenas em 1906, após uma tímida abertura do regime czarista, assustado pelo ensaio revolucionário do ano anterior. Uma confissão foi o primeiro texto de Tolstói a ser traduzido para o inglês e contribuiu para que o escritor se transformasse numa espécie de profeta ou místico. Na velhice, Tolstói, de fato, desenvolveu uma filosofia moral baseada nos ensinamentos de Jesus, especialmente no Sermão do Monte. O “tolstoísmo” pregava o pacifismo e o vegetarianismo, recusava a propriedade privada e desconfiava do Estado. A não violência de Mahatma Gandhi foi inspirada na prédica do conde, que recebia milhares de peregrinos em Iásnaia-Poliana. Aos olhos do Ocidente, Tolstói pregava um cristianismo livre de dogmas e promessas de vida eterna, semelhante às vertentes liberais e progressistas do protestantismo que se desenvolviam na Europa da época. A Igreja Ortodoxa Russa excomungou Tolstói em 1901. Cem anos depois, as autoridades ortodoxas ignoraram o pedido de seu bisneto, Vladimir Tolstói, e se recusaram a readmiti-lo. “Não foi a Igreja Ortodoxa que o afastou, e, sim, ele mesmo, ao escrever obras claramente antiortodoxas e anticristãs”, afirmou o patriarca ortodoxo.

Tolstói, porém, não era um místico, mas um pensador bastante racional, como uma leitura atenta de Uma confissão pode mostrar. Ele planejava que  o texto servisse de introdução para Investigação da teologia dogmática, um livro no qual ele critica diretamente as doutrinas da Igreja Ortodoxa. “É preciso sublinhar o caráter racional do pensamento de Tolstói. Ele nada tem de místico, muito menos doutrinário ou evangelizador, como corre solto pela bibliografia crítica anglo-americana”, afirma Rubens Figueiredo, o tradutor. “Tolstói se voltou contra a tendência dominante entre os filósofos europeus de derivar, ou fugir, rapidamente para a abstração. Seu conceito de razão não era abstrato, mas sempre referido à história e à experiência concreta cotidiana.” Elena Nikolaevna afirma que o escritor russo tinha pendor de filósofo, não de místico. “Tolstói era homem radiante, mas não um desses místicos que têm revelações e levam uma vida de jejum e oração. Uma confissão se aproxima mais de um tratado filosófico”, diz. A fé de Tolstói prescindia daquele Deus onipotente, de Seu Filho sacrificado e Sua providência sempre vigilante. Ele aspirava pôr em prática os valores do cristianismo, mas queria distância de seus rituais. Para o velho e barbudo conde de Iásnaia-Poliana, a razão era uma aliada da fé na dura tarefa de separar as verdades espirituais dos enganos da religião.

epoca.globo.com

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