sábado, 29 de julho de 2017

NA POCILGA POLITICA DOS USA ATÉ O MCCAIN JÁ É MELHOR QUE TRUMP

A noite em que McCain veio ferir de morte os desejos de Trump


John McCain quando se dirigia para a sala do Senado para votar não à revogação do Obamacare
Senador do Arizona votou contra a proposta republicana para revogar e substituir o Obamacare, a reforma de saúde de Barack Obama

O homem que em 2008 foi derrotado por Barack Obama na corrida à Casa Branca é provavelmente, por estes dias, o político mais amado pelos democratas nos Estados Unidos. O senador John McCain, a quem há poucos dias foi diagnosticado um tumor no cérebro, votou contra o projeto republicano para acabar com o Obamacare. O velho herói da guerra do Vietname resistiu às pressões do partido, do vice-presidente Mike Pence e de Donald Trump e, num golpe, deitou por terra as pretensões republicanas de revogar a reforma de saúde concretizada por Obama.
McCain juntou-se a Lisa Murkowski e a Susan Collins, as outras duas dissidentes republicanas que também votaram contra um desejo de sete anos do Partido Republicano: desmantelar o Affordable Care Act, mais conhecido como Obamacare. Somados os votos, a proposta foi chumbada por 51 (48 democratas e três republicanos) contra 49. "John McCain é um herói, tem coragem e fez o que estava certo", sublinhou o adversário político Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado.
De acordo com o Politico, Mike Pence terá passado 20 minutos a tentar convencer o senador do Arizona, mas sem sucesso. Depois de frustrar o vice-presidente, McCain falou por telefone com Donald Trump. Os argumentos do presidente também não encontraram eco na vontade do novo herói dos democratas. Pouco minutos antes da 01.30 da madrugada de sexta-feira em Washington, McCain entrou na sala do Senado para proferir o seu "nay" à proposta republicana para revogar o Obamacare.
No início da semana, na segunda-feira, a história tinha sido ao contrário. Em convalescença da operação para remover o tumor, McCain viajou mais de dois mil quilómetros entre o Arizona e Washington para votar ao lado do partido e permitir que a proposta recebesse o aval para ser discutida e votada. Nesse momento o Senado ficou divido ao meio, com 50 senadores para cada lado. Mike Pence foi obrigado a desempatar e fez o seu papel como vice-presidente. McCain foi o salvador do projeto para acabar com o Obamacare. Ontem transformou-se no carrasco.
"Vamos, senadores republicanos, vamos! Façam isto acontecer depois de sete anos de espera", escreveu Donald Trump no Twitter antes da votação. Quatro horas volvidas, o tom presidencial era mais amargo: "3 republicanos e 48 democratas desiludiram os americanos. Tal como eu disse desde o início, deixem o Obamacare implodir e depois lidem com o assunto". Donald Trump, depois desta derrota no Senado, prepara-se, aparentemente, para ficar de braços cruzados na crença de que a reforma de saúde de Obama irá fracassar por si.
Além de McCain, Murkowski e Collins, o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, terá estado muito perto de juntar-se aos democratas na votação. Graham, tal como outros republicanos, queriam ter a garantia de que a proposta de revogação do Obamacare não se tornaria lei ela própria. "Não vou votar em algo que representa uma política terrível só porque é preciso fazer alguma coisa", afirmou o senador em conferência de imprensa, classificando o projeto do seu partido como um "desastre" e uma "fraude" enquanto alternativa ao Obamacare. Não era o único republicano a pensar desta forma. Apesar de tudo, o senador da Carolina do Sul acabou por votar "sim", depois de receber a garantia de Paul Ryan, presidente da Câmara dos Representantes, de que as duas câmaras acabariam por negociar as diferenças de pensamento caso o Senado passasse a legislação. De acordo com o gabinete independente do Congresso para o orçamento, se a proposta tivesse sido aprovada, em 2018 seriam mais 15 milhões os norte-americanos sem seguro de saúde e os prémios cresceriam cerca de 20%.
"Por que razão votou "não"?", questionaram os jornalistas no momento em que John McCain se preparava para abandonar o Capitólio. "Faço o meu trabalho como senador. Achei que era o voto certo", respondeu o antigo adversário de Obama que salvou a sua reforma de saúde. Horas depois, o agora herói democrata emitiu um comunicado onde deu uma explicação mais detalhada para o seu voto. McCain referiu que sempre pensou que o Obamacare deveria ser revogado, mas apenas se estivesse em cima da mesa uma alternativa capaz de "aumentar a competição, diminuir os custos e melhorar os cuidados de saúde para os cidadãos norte-americanos". No seu entender, a proposta republicana de revogação do plano de Obama não atingia esses objetivos. McCain quer que republicanos e democratas trabalhem em conjunto para encontrar uma solução.
E a partir de agora? Irão os republicanos abandonar o seu mantra e o desejo de "revogar e substituir o Obamacare"? Não, certamente que não, explica o Politico. Essa é a grande batalha do partido há quase uma década e continuará a ser, começando de novo. Neste momento o que se afigura mais provável é ir tentando, passo a passo e ponto a ponto, desmantelar e corrigir o Affordable Care Act.

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