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terça-feira, 18 de julho de 2017

É possível reunir o melhor do capitalismo e do socialismo?




QUANDO o mundo era bipolar, alguém disse uma coisa que parece óbvia: «vamos reunir o melhor do capitalismo e socialismo em um só sistema». Se cada um deles têm seus pontos fortes e fracos porque não descartar o inútil. A ideia é atraente, seria algo como a sociedade idílica. Porém, o que impede que se possa levar a termo, por que se continua falando sobre capitalismo e socialismo? Por trás daquela evidência óbvia existia outra: não se pode tirar o melhor do capitalismo, como se fosse uma fruta que se danificou após cair da árvore. As virtudes deste sistema sustentam-se em suas falhas.
Aparentemente, a ideia não era o que prometia e continuam existindo as mesmas opções: manter o estilo de vida que está afetando todos os cantos deste planeta ou procurar uma outra alternativa para resolver os problemas da raiz.
Na política, tal como na vida, estar no centro é difícil. No entanto, existem alguns iludidos.
Cubadebate falou acerca do centrismo político com o intelectual cubano Enrique Ubieta, que respondeu as perguntas simples com palestras sobre história, validade e possível aplicação em Cuba da chamada Terceira Via.
É possível que o centrismo represente o melhor do capitalismo e do socialismo?
«O capitalismo não é uma soma de aspectos positivos e negativos, de elementos que possam ser recuperados ou descartados: é um sistema que, em um dado momento, foi revolucionário e hoje não é. Ele engloba e reúne tudo: a alta tecnologia, a riqueza mais sofisticada e a extrema pobreza. Aqueles elementos que contribuem para maior eficácia na produção são os mesmos que alienam o trabalho humano. Aqueles que criam riqueza para alguns, produzem pobreza para a maioria, em nível nacional e internacionalmente. Eu acho que é uma falácia estabelecer tal objetivo: não existe o ‘melhor do capitalismo’, como se o capitalismo pudesse ser refinado, como se um bom capitalismo fosse viável. Há versões muito ruins, como o neoliberalismo ou o fascismo, mas não sei de nenhuma que seja boa. O capitalismo é sempre selvagem».
«Por outro lado, o socialismo, diferentemente do capitalismo, não é um todo orgânico, uma realidade já construída, mas sim um caminho que não deixa para trás totalmente o sistema que está tentando superar. Testamos aqui e ali, adotamos novas formas, avançamos e recuamos, eliminamos o que não der, corrigimos os erros uma e outra vez; um caminho para outro mundo, no meio da floresta, porque o capitalismo é o sistema hegemônico. O que caracteriza o socialismo é a sua intenção firme, declarada, de superar o capitalismo».
«Existe um centro? Sobre que bases é estabelecido? No sistema eleitoral capitalista, supostamente, há uma esquerda e uma direita, mas essa esquerda, cuja matriz ideológica é a social-democracia, que originalmente era marxista e tencionava reformar o capitalismo, até que desaparecesse gradualmente, hoje é funcional para o sistema e repudia o marxismo, e difere dos partidos conservadores em suas políticas sociais e sua compreensão sem preconceitos da diversidade. A fórmula centrista funciona dentro do sistema capitalista como um recurso de propaganda eleitoral. O eleitor — que é tratado como um cliente, porque as eleições funcionam como se fosse um mercado — está cansado de que os partidos da direita e da esquerda se revezem e apliquem políticas semelhantes e o sistema, então, constrói uma terceira maneira falsa».
Enrique Ubieta conta a história das políticas de ‘centro’ e seus objetivos em Cuba. Foto: Annaly Sánchez/cubasi/cubadebate
«Mas os pólos reais não estão dentro de um sistema, são opostos: eles são o capitalismo e o socialismo. Não existe um centro, um espaço neutro entre os dois sistemas. A social-democracia encontra-se dentro do capitalismo, mas finge ser um centro, tentando fazer aquilo que declaramos impossível: tirar o melhor de ambos os sistemas. Na verdade, provoca uma alternatividade de métodos, não de essências. Sem falarmos de casos muito isolados, como poderia ter sido Olof Palme, na Suécia, que viveu em um país muito rico, que ainda sem ter colônias, como parte do sistema capitalista, também se beneficiou do sistema colonial e neocolonial».
«A social-democracia, que parecia ser a vencedora, deixou de fazer sentido quando a União Soviética entrou em colapso e desapareceu o bloco socialista. Nem mesmo foi capaz de ficar na Suécia (Olof Palme foi assassinado). Depois disso, o sistema não mais precisou dela e teve que se recompor. A Terceira Via de Tony Blair é um centro que foi derivando mais para a direita: aceita e implementa políticas neoliberais e é aliada das forças do imperialismo em suas guerras de conquista. A história da social-democracia é essencialmente europeia».
Que papel pode ter centro político em Cuba?
«Em suma, o que é esse centro? É uma orientação política que se apropria de elementos do discurso revolucionário, adotou uma postura reformista e, afinal, interrompe, atrasa ou impede o desenvolvimento de uma verdadeira revolução».
«E em outros casos, como o nosso, tenta usar a cultura política da esquerda que existe na sociedade cubana, porque não pode vir aqui com um discurso da extrema direita tentando ganhar simpatizantes. Tem que lançar mão daquilo que as pessoas interpretam que é algo justo e com esse discurso de esquerda começam a introduzir o capitalismo pela porta da cozinha. Esse seria o papel que poderia ser o centro no seio de uma sociedade como Cuba».
Com terminologias diferentes e contextos, políticas semelhantes com o centrismo têm estado presentes na história de Cuba depois que o autonomismo tentasse impedir a revolução pela independência de 1895… Por que você acha que é uma espécie de ressurgimento do centrismo em Cuba, no contexto atual?
«Na história de Cuba está muito clara essa divisão de tendências entre o espírito reformista e o espírito revolucionário. É um velho argumento na história do marxismo, mas eu só vou me referir à tradição cubana».
«O reformismo é representado pelas correntes autonomista e anexionista. Alguns autores insistem em que o anexionismo aspirava a uma solução radical porque queria a separação da Espanha. Aqui, o termo ‘radical’ é mal utilizado, porque não vai à raiz do problema. A solução de anexar o país aos Estados Unidos era apenas uma aparência radical porque pretendia preservar os privilégios de uma classe social e também evitar o desgaste econômico de uma guerra pela independência, preservar o status quo através do domínio de outro poder que garantisse a ordem. As duas tendências; o anexionismo e o reformismo tinham como base a desconfiança absoluta no povo. O medo da ‘multidão mulata’, como diziam os autonomistas».
«O reformismo traidor veio subsistindo ao longo da história de Cuba até hoje, não se extinguiu. A Revolução de 1959 varreu-o como uma opção política real, mas a luta de classes não desapareceu. Se a burguesia ou a que aspira a ser, tenta retomar o poder em Cuba, tanto aquela que se veio formando fora do país, como a que se pode estar gerando aqui dentro, vão precisar de uma força externa para apoiá-la».
«Em Cuba não seria um capitalismo autônomo, isso não existe mais em qualquer lugar do mundo, ainda menos em um país pequeno e subdesenvolvido. O capitalismo cubano, tal como no século passado, só pode ser neocolonial ou semicolonial. A única maneira da burguesia para recuperar e manter o poder em Cuba é através de uma fonte externa; é a única opção de reproduzir seu capital, e já sabemos que a Pátria da burguesia é o capital, a riqueza».
«Hoje há uma situação que favorece esse tipo de táticas de centro, plantadas em Cuba a partir do Norte. A geração histórica que fez a Revolução está acabando seu ciclo histórico-biológico. Cerca de 80% da sociedade cubana não viveu no capitalismo. Imaginem, Cuba é um país tentando construir uma sociedade diferente de outra que as pessoas não viveram. Há uma situação de mudança e são introduzidos novos elementos, anteriormente rejeitados na concepção do modelo econômico e social. E neste contexto é que as forças pró-capitalistas constroem seu discurso pseudo-rrevolucionário, só aparentemente, ligado às mudanças que estão operando no país».
A atualização do modelo econômico e social cubano tem algumas semelhanças com o centrismo?
«Tem não. Vou me remeter aos conceitos do filósofo argentino Arturo Andrés Roig. É essencial distinguir dois níveis: discurso e rumo ao qual vai encaminhado o discurso, significado e sentido. Lembro-me que quando estudava a década de 1920, observei que Juan Marinello e Jorge Mañach diziam quase o mesmo, manuseavam conceitos muito semelhantes, porque eram intelectuais que estavam na vanguarda do pensamento e da arte cubana. Mas se você acompanha o caminho de ambos, vai acabar entendendo que essas palavras com significados semelhantes tinham significados diferentes. Marinello aderiu ao Partido Comunista e Mañach fundou um partido de tendência fascista. Marinello lutava pela justiça social e o socialismo, enquanto que o outro queria, tardiamente, se tornar o ideólogo de uma burguesia nacional que já não existia. Eu não acho que esta ruptura seja apenas o resultado de uma evolução mais tarde: ela já estava implícita nos diferentes rumos históricos dos seus discursos».
«É muito importante essa diferenciação de significados, hoje mais do que nunca, porque vivemos em um contexto linguístico muito poluído, promíscuo, em uma sociedade global que assimilou o discurso e, até mesmo, os gestos tradicionais da esquerda, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. A luta de classes é mascarada e é preciso desvendar a quem servem nossos parceiros».
«O que é que propõem as Diretrizes? Encontrar uma maneira própria, alternativa, para avançar rumo ao socialismo, uma vez que não existe um modelo universal e cada país e cada momento histórico são peculiares. Um socialismo cubano equivale a dizer um caminho de Cuba rumo a uma sociedade diferente da capitalista, em um mundo hostil, em meio da pobreza, do bloqueio implacável e da ausência de recursos naturais, exceto o conhecimento dos seus cidadãos».
«Essa é a situação real em Cuba. Temos a intenção de manter e reforçar a justiça social alcançada e, para isso, devemos dinamizar as forças produtivas. Por isso, definimos limites para a acumulação de riqueza e da propriedade e nos preocupamos com os mecanismos de controle desses limites. Por outro lado, os centristas, com uma linguagem seme-lhante da nossa, sugerem que nós abrimos mão do ideal de justiça social, mas exigem um aprofundamento destas mudanças, que levaria ao desmantelamento da minimamente alcançado em termos de justiça. O ‘aprofundamento’ exigido pelos centristas, economicamente e politicamente, é um retorno ao capitalismo. Podem e devem ser ouvidas as opiniões críticas e divergentes em nossa sociedade, mas elas todas devem apontar para o mesmo horizonte de sentido».
«Quando alguém diz que o socialismo não conseguiu erradicar a corrupção ou a prostituição, sinto-me triste porque eu sei que é verdade. Mas, ao mesmo tempo, devemos perguntar: «o que faria o capitalismo com isso?» Iria multiplicá-la.
Quando a acusação não implica a indicação de um caminho para o fortalecimento do sistema que temos no país — o único que pode corrigir suas falhas, deficiências e erros — mas sim sua destruição, a crítica é contrarrevolucionária».
«Porque nem tudo que faremos vai ficar bem; vamos dar errado, isso é certo. Quem caminha se engana. O importante é ter a capacidade de corrigir e ser claro sobre o significado do que estamos fazendo e para que o fazemos. Caso se perder o caminho, em algum momento, devemos consultar a bússola que indica o sentido. Que tudo aquilo que possamos fazer agora e o que vamos discutir esteja marcado pelo esclarecimento daquilo que queremos e para onde estamos indo».
Pode-se ser centrista e revolucionário ao mesmo tempo?
«Não, no absoluto. Um reformista não é um revolucionário. Isso não significa que um revolucionário não pode fazer reformas. Os revolucionários fizeram a Reforma Agrária, a Urbana… Ser reformista é outra coisa».
«O reformista se baseia em estatísticas e em descrições detalhadas de seus arredores que acabam tornando-o incompreensível. Uma descrição minimalista das paredes desta sala não nos permite compreender onde estamos, porque este quarto está em um edifício, em uma cidade, em um país; ou seja, a descrição, para ser útil, pressupõe uma maior compreensão. É preciso voar tão alto como um condor para ser revolucionário, que é o que Martí exigia».
«O reformista é descritivo — ele acha que a realidade se esgota pelo que ele vê e toca. Por isso fica confuso e falha. Na política, a reforma só pode adicionar os quatro elementos visíveis do ambiente social. O revolucionário acrescenta um quinto elemento subjetivo não detectável a olho nu. Um elemento que o reformista não leva em conta, porque não confia no povo. Podemos resumir este quinto elemento no histórico reencontro em Cinco Palmas dos oito sobreviventes do desembarque do iate Granma, expresso com as palavras de Raúl Castro: ‘Fidel deu-me um abraço e a primeira coisa que fez foi me perguntar quantas armas tinha. Então, daí surgiu a famosa frase: ‘São cinco, mais duas que eu tenho são sete. Agora podemos ganhar a guerra!’». É o salto sobre o abismo que José Martí pediu».
«Isso é o que distingue um revolucionário de um reformista. E um centrista é pior do que um reformista porque, de alguma forma, é um simulador».
«Na tradição europeia toda a trama conceitual, teórica, política que foi se inventando desde o século XIX dá certa espessura às discussões. Em Cuba, estes debates expressaram seu fundo de uma forma muito mais evidente. E toda aquela conversa de unir capitalismo e socialismo, de ficar em um nível discursivo revolucionário, mas na prática contrarrevolucionário, de alguma forma, na minha opinião, também evidencia certo nível de covardia, certa incapacidade para liderar um projeto em que você acredita. Essas pessoas acreditam em um projeto que é oposto ao nosso, mas não têm a força política nem a coragem de proclamá-lo abertamente».

(Autor: José Raúl Concepción, Granma)
Ler artigo em: Cubadebate (Português) http://bit.ly/2vvQp88

abrildenovomagazine.wordpress.com

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