domingo, 23 de julho de 2017

De Miguel Unamuno - O Homem é um Animal Afectivo ou Sentimental, não Racional




O Homem é um Animal Afectivo ou Sentimental, não Racional
Na maior parte das histórias da filosofia que conheço, os sistemas são-nos apresentados, como tendo origem uns nos outros, e os seus autores, os filósofos, aparecem apenas como meros pretextos. A biografia íntima dos filósofos, e dos homens que filosofaram, ocupa um lugar secundário. E, sem dúvida, é ela, essa biografia íntima a que mais coisas nos explica.
Cumpre-nos dizer, antes de mais, que a filosofia se inclina mais para a poesia do que para a ciência. Quantos sistemas filosóficos se forjaram, como suprema harmonização dos resultados finais das ciências particulares, num período qualquer, tendo tido muito menos consistência e menos vida do que aqueles outros que representavam o anseio integral do espírito do seu autor.
(...) A filosofia corresponde à necessidade de formarmos uma concepção unitária e total do mundo e da vida e, como consequência desse conceito, um sentimento que gere uma atitude íntima, e até uma acção. Mas resulta que esse sentimento, em vez de ser consequência daquele conceito, é a sua causa. A nossa filosofia, isto é, a nossa maneira de compreender ou de não compreender o mundo e a vida, brota do nosso sentimento respeitante à própria vida. E esta, como tudo o que é afectivo, tem raízes subconscientes, inconscientes talvez.
Não podem ser as nossas ideias, que nos fazem optimistas ou pessimistas, é antes o optimismo ou o nosso pessimismo, tanto um como o outro de origem filosófica, ou quiçá patológica, que produz as nossas ideias.
O homem, dizem, é um animal racional. Não sei por que não se disse que é um animal afectivo ou sentimental. E que, talvez, o que o diferencia dos outros animais, seja mais o sentimento do que a razão. Vi mais vezes um gato raciocinar, do que rir ou chorar. Pode ser que chore ou ria por dentro mas, por dentro, talvez também o caranguejo resolva equações de segundo grau.
E, assim, o que mais nos deve importar num filósofo é o homem.

Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida'

lusibero.blogspot.pt

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