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terça-feira, 18 de julho de 2017

a vida vai torta, jamais se endireita


Lá dizia o Tim que “a vida vai torta, jamais se endireita, o azar persegue, esconde-se à espreita”, no célebre tema «Circo de Feras» dos «Xutos & Pontapés». 30 anos depois, em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, chegamos à conclusão que inúmeras coisas do nosso dia-a-dia permanecem tortas e muito dificilmente se vão endireitar.
Ninguém tem dúvidas de que Portugal está na moda e todas as semanas chovem prémios internacionais para as nossas cidades, praias, monumentos e afins. As maiores vedetas mundiais das artes, nomeadamente da música e do cinema, enchem os seus perfis do Instagram com fotografias das férias pelo Portugal tradicional e até compram apartamentos de luxo para aqui residirem quando não andam por esse mundo fora a trabalhar.
Vencemos o Campeonato da Europa de Futebol de 2016, mas também continuamos a trazer medalhas para Portugal noutras modalidades menos mediáticas, de tal modo que esses atletas praticamente passam despercebidos junto da população em geral. Anónimo não é, claro, o Cristiano Ronaldo, que foi considerado o melhor jogador de futebol do mundo no ano transato e se prepara para repetir, com todo o mérito, a proeza em 2017, para descontentamento do arquirrival Leonel Messi.
Temos o António Guterres a liderar as Nações Unidas e um presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, super popular e adorado pelos portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo. Até temos um Governo que, apesar de nascido no seio de uma «geringonça», tem alcançado excelentes resultados em termos de crescimento do PIB e do saldo das contas públicas.
Apesar disso, a vida segue torta para muitos portugueses e sem perspetivas de se endireitar. Dizem que o desemprego está a cair a pique, mas esquecem-se de dizer que o que está a descer, de facto, é o número de pessoas inscritas nos Centros de Emprego e não o número de pessoas que não têm um trabalho que lhes garanta o sustento. As taxas de juro seguem em níveis baixíssimos, mas continuam a existir imensas famílias com grandes dificuldades para pagarem as suas casas aos bancos, que estão sempre a lembrar-se de novas taxas e comissões para tapar os buracos gerados pelos seus administradores pagos a peso de ouro.
Continuam a existir crianças cuja principal refeição é aquela que recebem nas escolas, porque, em casa, a comida não chega para todos. Continuam a existir velhotes que têm que gerir as parcas reformas ao cêntimo, não tomando os medicamentos com a regularidade e quantidade prescrita pelos médicos porque o dinheiro não dá para tudo. Continuam a existir pais que não dão todas as vacinas aos seus filhos recém-nascidos, porque elas custam uma fortuna e cada vez são menos as que têm comparticipação estatal.
O Governo preocupa-se com as medidas mais vistosas, com os temas mais quentes, em cumprir as indicações que chegam da União Europeia, relegando para o poder local, para as câmaras municipais e juntas de freguesias, a resolução dos problemas do dia-a-dia, das questões de proximidade. Relega competências mas não transfere o dinheiro correspondente, o que obriga os autarcas a fazerem «30 por uma linha» para conseguirem ajudar as populações locais, porque é à porta do presidente da câmara e da junta de freguesia que as pessoas vão bater quando estão desesperadas.
Autarcas que, na sua grande maioria, estão realmente interessados em resolver os problemas dos seus eleitores, dos seus vizinhos, dos seus antigos colegas de escola ou de trabalho, daqueles com quem jogaram à bola quando eram miúdos e que agora se sentam ao seu lado na missa. Outros, porém, encaram as câmaras municipais como um trampolim para voos mais altos e, por isso, querem desesperadamente ser eleitos, seja porque meio for, não tendo problemas em recorrer a estratagemas baixos, à política podre de outros tempos, tempos que pensava que faziam parte do passado. Amuam quando as estruturas nacionais não os deixam passar à frente dos candidatos naturais, despem a camisola do seu partido, uns avançam como independentes, outros mudam de equipa para não irem sozinhos. É um «vale-tudo» que comprova que, 30 anos depois das célebres palavras de Tim, “a vida vai torta, jamais se endireita”.
Daniel Pina

ocarneirorabugento.com

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