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domingo, 30 de julho de 2017

64: o número da vergonha do jornalismo português

O 64 é também o número da vergonha do jornalismo português, aqui, a culpa é só dos senhores jornalistas.

Todos vimos o que se passou nesta semana. Um circo macabro, um ultrajante carrossel de tentativa de aproveitamento político da perda de vidas humanas. A política é das mais nobres actividades, mas é um nojo quando se faz com o sofrimento de famílias que já perderam tanto. Ninguém gostou do espectáculo, pedia-se sensatez e racionalidade, ao contrário, apareceram uns herdeiros de Nero com ânsias de ver Roma a arder.
Há muito por explicar e devem exigir-se todos os esclarecimentos, mas sem salivar sangue. A oposição será muito mais digna e dura se colocar as perguntas que todos os portugueses querem ver respondidas, porém, quando se vestem de agentes funerários perdem qualquer credibilidade que possam ter. E as figuras que se viram, foram execráveis.
Há uns tempos, tenho a certeza que se lembram de uma criatura de nome Baptista da Silva. Andou por jornais e principais programas de televisão como “especialista da ONU”, botou discurso, recebeu encómios e elogios de quem o projectou, afinal, era um burlão. Nicolau Santos, depois da ópera-bufa da qual foi um dos principais promotores, teve a honradez de pedir desculpa e disse mesmo que tinha sido «embarretado» (palavras dele).
Pois bem, a tragédia de Pedrógão Grande possibilitou mais duas situações anedóticas que puseram a credibilidade do jornalismo ao mesmo nível do da classe política, perto do zero. Primeiro, a notícia de que um avião espanhol de combate aos fogos tinha caído, o que era totalmente falso. Disseram que tinham fontes. Mas, meus caros amigos, quando um jornalista é enganado deliberadamente por uma fonte e esbate o seu compromisso de verdade com as suas audiências, não viola o seu código deontológico se denunciar quem com maldade o defraudou. E até hoje não vi denunciadas essas “fontes” mentirosas.
Depois, e profundamente lamentável, permitiram que uma senhora andasse por redacções, jornais e televisões com uma dita “lista da morte” e, sem verificarem nada como no caso de Baptista da Silva, não viram que é uma conhecida caloteira sem credibilidade a quem durante dias permitiram insinuações graves sobre o número de vítimas colaborando assim num combate político que morreu na praia, depois do comunicado da PGR que esclareceu taxativamente o número de 64 mortes que tinha sido anunciado, mais duas mortes por via indirecta e que estão a ser investigadas.
Quem acompanha os meus textos aqui no ECO, sabe como eu respeito a classe jornalística e como considero fulcral para as sociedades democráticas o seu papel. Mas depois disto tudo, quando vão pedir desculpas aos leitores e espectadores que enganaram? Como vai ser o comportamento dos media em crises futuras? É que não podemos perder a confiança na comunicação social, esse elo quando for cortado vai levar-nos a uma situação de faroeste mediático em que quem disparar mais rápido e falar mais grosso será o novo xerife. E desejo que nunca caiamos num trágico cenário desses.
Infelizmente foram 64 as vítimas directas do incêndio de Pedrógão Grande. Apanhados na fogueira da opinião pública – muito mais importante que a opinião publicada, relembro – estão também a imprensa, a televisão e a reputação de uma classe que tem uma das profissões mais bonitas e sérias que existe. O 64 é também o número da vergonha do jornalismo português, aqui, a culpa é só dos senhores jornalistas.
Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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