AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


terça-feira, 20 de junho de 2017

No pinhal onde a tragédia começou (testemunhas contam o que viram)

Miguel Serrano: “Foi aqui que tudo começou”

Habitantes de Escalos Fundeiros, aldeia onde parece ter iniciado o incêndio que já matou mais de 60 pessoas, contestam a tese da Polícia Judiciária de que o fogo de Pedrógão Grande foi causado por uma trovoada seca



Aos 75 anos, Miguel Serrano parece ter o dobro da energia do filho, com a metade da idade e acabado de acordar. Os dois homens sobem a talho pelo mato queimado, contornam um pequeno açude que servia de regadio, até há pouco tempo, em Escalos Fundeiros, aldeia de cerca de 100 habitantes em Pedrógão Grande, no centro do país.
Este ex-industrial já reformado, dono de terrenos naquela região, aponta para várias árvores queimadas, algumas derrubadas pela força do fogo do último sábado.
“Foi aqui que tudo começou”, diz, com tristeza nos olhos, este homem de estatura baixa, cabelo branco e que usa suspensórios e um relógio dourado. Há cerca de 24 horas, inspetores da Polícia Judiciária tinham estado naquele mesmo local, ainda distante da pequena aldeia. Concluíram que tinha sido uma trovoada seca a causar o incêndio que teve início na tarde de sábado e deflagrou por vários concelhos vizinhos, matando mais de 60 pessoas.
A tese, porém, não convence os moradores. Miguel Serrano garante que ninguém ali ouviu qualquer trovoada próxima da aldeia. “Andam para aí a inventar que caiu um raio numa destas árvores, mas os únicos trovões que ouvi nessa tarde estavam longe, para os lados da Sertã”.
Também Alcinda Barata, uma reformada de 71 anos, que por causa de uma operação recente a um joelho é obrigada a andar apoiada em muletas, não tem dúvidas de que o fogo começou ali naquele pinhal, de facto, mas muitas horas antes de escutar os primeiros estrondos vindos do céu. “Depois do almoço, acordei o meu marido porque vi um fumo muito espesso a aproximar-se da nossa horta”, conta. Como não se podia deslocar para a pequena herdade onde há videiras, cerejeiras e oliveiras, por causa das dores no joelho, foi o marido que acabou por ver de perto o mato a arder. “Quando os bombeiros chegaram já era tarde. O fogo tinha-se espalhado em várias direções.”
O relato sobre as horas que se seguiram emocionam esta ex-emigrante na Suíça. Mais abalada fica quando surge a conversa sobre a dita trovoada seca. “Enerva-me estarem por ai a dizer que foi um raio que fez começar o fogo. Só ao fim do dia é que escutei uma ou duas trovoadas, mas nada de especial. Eram assim como estas, estão a ouvir?”
Na manhã desta segunda-feira, aquela aldeia voltou a ouvir os mesmos estrondos do céu. Desta vez acompanhados de chuva grossa que perdura durante alguns minutos. Não só em Escalos Fundeiros como em toda a região dos fogos.

expresso.sapo.pt

Sem comentários:

Enviar um comentário