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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Direito de resposta: Filha de Dinis Machado responde a António Lobo Antunes



Rita Machado sobre a crónica publicada na VISÃO nº 1263, de 18 de maio de 2017, com o título “Subsídios para a biografia de Dinis Machado”



Quando li esta crónica pela primeira vez, fiquei perplexa. Passa a ideia que o meu pai era um homem absurdo, inadequado e incongruente. Efetivamente tinha um lado que não se encaixava no mundo nem nos padrões das organizações sociais, era uma pessoa muito singular. Lembrei-me então do passado e da amizade profunda, que ele e o António tiveram. Na minha adolescência, o que eu via do António em relação ao meu pai, era admiração, orgulho. Frequentava a nossa casa e tinha fortes laços com os meus pais. Dedicou-lhes a “Memória de Elefante”. É verdade que apoiou o meu pai após morte da minha mãe e por isso lhe estou grata. Depois houve uma rutura e o meu pai sofreu com isso. Mas o estranho aqui é o conteúdo quase esquizofrénico desta crónica. Histórias inacreditáveis, ridicularização de pessoas mortas. O meu pai, que não passava por um indigente na rua sem lhe dar esmola, não recusaria um cigarro a ninguém. A minha bisavó tinha uma casa de prostitutas? Fiquei estupefacta. Pensei: Confunde realidade com ficção. É surreal. Mas, ficção ou realidade, são afirmações sobre a vida privada das pessoas que não se expõem nos media. São desprestigiantes e infames. Logo a palavra subsídios cheira a esmola, migalhas. Que levava toda a gente para casa? Não, o meu pai não era toda a gente, naquele tempo. Era um amigo muito chegado. Há um misto de afeto condescendente com menosprezo. O António não tem o direito, principalmente com a responsabilidade que o seu estatuto público lhe confere, de dizer o que lhe apetece, ignorando as repercussões, precisamente porque tem um impacto e credibilidade nas massas, acima do normal. Ridicularizar e caluniar a memória do meu pai, com a agravante de ser numa altura em que estava fragilizado.
Ridicularizar o meu tio. Ridicularizar a memória do fadista Alfredo Marceneiro. Caricaturar publicamente pessoas reais e já mortas, sem possibilidade de defesa, como personagens de ficção, porque não é admissível cruzar elementos biográficos, factuais, com a deriva ficcional que nos faz não saber onde estamos. Senti uma arrogância narcisista de olhar os outros de cima. De querer contar a história de um pobre coitado que ajudou em tempos, para gritar ao mundo a sua enorme grandiosidade humana e colocar-se muitos degraus de valor acima dos outros. Eu, como filha de um homem generoso, com um coração do tamanho do mundo, um talento genial, uma integridade absoluta e ao mesmo tempo uma simplicidade desarmante, que recusou cargos para subir na vida, recusou entrar nas máquinas dos lobbies das artes e da política, que viveu sempre de escrever e que despertava a maior admiração em quem o conhecia pela singularidade de uma personalidade rara e notável, não posso calar-me perante isto. Mas estes atributos não constam destes “subsídios para a biografia”. O meu pai tinha uma qualidade que eu considero a mais notável no mundo em que vivemos: Nunca se vendeu. E isso, sim, eleva-o acima de muita gente.


visao.sapo.pt

10 comentários:

  1. Dinis Machado foi indignamente manchado por um psiquiatra (não sei se alguma vez exerceu) que devia ser visto e diagnosticado por um colega. Tem um ego exacerbado e se crê acima de todos os seus congéneres escritores. Tem o direito, como opinião pessoal, a considerar-se superior aos demais (parece que os apreciadores da sua obra para prémios maiores, Nobel p.e., não pensam assim), mas não tem o direito de denegrir a obra de quem já não pode defender-se. É feio expressar tais opiniões e a Rita Machado defendeu com muita dignidade o nome de seu pai.

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  2. o Lobo é um invejoso, caracteristica muito apreciada pelos portugueses, a pouco tempo numa entrevista disse que Saramago tinha inveja dele, na entrevistas que li de Lobo (foram algumas)era notorio exatamente o contrario, a inveja que Lobo sempre teve por Saramago.

    dizem que 30% da populaçao com mais de 75 anos (media) sofrerá uma demencia. Temos de respeitar os estados de senilidade, um dia podera ser o nosso.....

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  3. Lembro-me tão bem do teu pai quando ele frequentava o café "Toninho", na Rua Pinheiro Chagas. fazíamos ali uma espécie de tertúlia...

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    1. Então Alice Vieira, ficamo-nos apenas pela Tertúlia? E o comentário à questão de fundo veiculada pelo Lobo Antunes, a propósito do Dinis Machado. Acho que ele faz uma afronta ao autor do imortal "o que diz Molero". Aliás ao Saramago fez a mesma coisa. Disse que aquilo sempre lhe pareceu uma m....... Ai Alice Alice já não tenho dúvidas que entrou também no jogo do politicamente correcto e não se quer comprometer. Que saudades do Mario Castrim !!!!

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  4. A arrogância vai a par da insegurança.
    O exibicionismo uma manifestação de ambas.

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  5. Então Alice Vieira, ficamo-nos apenas pela Tertúlia? E o comentário à questão de fundo veiculada pelo Lobo Antunes, a propósito do Dinis Machado. Acho que ele faz uma afronta ao autor do imortal "o que diz Molero". Aliás ao Saramago fez a mesma coisa. Disse que aquilo sempre lhe pareceu uma m....... Ai Alice Alice já não tenho dúvidas que entrou também no jogo do politicamente correcto e não se quer comprometer. Que saudades do Mario Castrim !!!!

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  6. "O que Diz Molero", foi a obra mais encantadora da literatura portuguesa contemporânea que até hoje li.As chalaças de Lobo Antunes com ou sem senilidade,...em livro, mural de retrete ou crónica da treta...Não lhe chegam aos calcanhares e ele sabe...

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  7. "O que Diz Molero", foi a obra mais encantadora da literatura portuguesa contemporânea que até hoje li.As chalaças de Lobo Antunes com ou sem senilidade,...em livro, mural de retrete ou crónica da treta...Não lhe chegam aos calcanhares e ele sabe...

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  8. PARABÈNS RITA! Gostei Mesmo!

    Também nunca consegui ler Lobo Antunes, excepto Memória de Elefante. (note-se que sou uma Literata licenciada em literaturas Românicas e afins....)
    De Dinis Machado; uma leitura genuína e marcante, aquele texto (em Livro) ´O que diz Molero`ficou para sempre em memória.
    abraço, Rita

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