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segunda-feira, 29 de maio de 2017

O massacre esquecido - O que levou 400 mil famílias londrinas, logo após a declaração de guerra do Reino Unido à Alemanha nazi, a mandar matar os seus animais de companhia?



O massacre de 400 mil cães e gatos, durante quatro dias, em Londres, perpretado pelos seus próprios donos, é um acontecimento esquecido da Segunda Guerra Mundial
O massacre de 400 mil cães e gatos, durante quatro dias, em Londres, perpretado pelos seus próprios donos, é um acontecimento esquecido da Segunda Guerra Mundial
D.R.
Dos períodos da História Contemporânea, é um dos mais conhecidos e estudados. Muitos dos eventos que decorreram durante da Segunda Guerra Mundial, das decisões políticas que influenciaram o curso dos eventos aos milhões de histórias pessoais e tragédias que deflagraram durante estes anos, já foram objeto de profundas análises e investigações, livros, filmes e reflexões pessoais. Os números do horror e das mortes já foram há muito contabilizados. Mas de entre os escombros, ainda continuam a surgir factos e elementos passíveis de darem mais forma e rigor aos acontecimentos terríveis que ocorreram durante este período negro da História. Um deles, agora contado no mais recente livro da historiadora inglesa Hilda Kean, decorreu durante quatro dias na cosmopolita Londres: assim que, a 3 de dezembro de 1939, o primeiro-ministro Neville Chamberlain anunciou, em direto na rádio BBC, que o Reino Unido havia declarado guerra à Alemanha nazi, milhares de britânicos fizeram filas de várias centenas de metros (a autora fala, por vezes, em meia milha, cerca de 800 metros), à porta das clínicas veterinárias, para darem uma injeção letal aos seus animais de estimação.
Em quatro dias, perto de 400 mil cães e gatos morreram, cerca de 25% da população de animais domésticos em Londres. Neste período, o 'stock' de clorofórmio esgotou e registou-se uma crise na gestão dos resíduos na capital inglesa.
Este procedimento coletivo, sem precedentes, foi voluntário, com o Governo britânico, os veterinários e as associações de proteção dos animais a pedirem calma às pessoas e a aconselharem contra estes atos de eutanásia. E aconteceu antes mesmo de os animais domésticos se tornarem figuras centrais no esforço de guerra, oferecendo assistência emocional e ajudando os seres humanos a sobreviver em cenários de combate e bombardeamento — contribuição que foi reconhecida, anos mais tarde, pelo próprio Governo britânico.
Hilda Kean, antiga responsável pelo departamento de História Pública do Ruskin College, Oxford, especializou-se em História Pública e Cultural e, mais particularmente, na história cultural dos animais. Com este livro, “The Great Cat and Dog Massacre”, resgata o acontecimento coletivo que marcou a primeira semana da guerra entre o Reino Unidos e a Alemanha e que acabou no esquecimento de todos.
Como se explica tal comportamento, perpetrado por tantos milhares pessoas? Kean explica que o medo de um ataque eminente dos nazis e a necessidade de se “fazer alguma coisa” para preparar a guerra, levou os britânicos a taparem as suas janelas com pesadas e escuras cortinas, a substituírem as flores dos seus canteiros domésticos por couves, a mandarem os seus filhos para o campo e, finalmente, a darem um fim abrupto à vida dos seus animais de companhia. Na teoria, defendiam, estavam a poupá-los ao sofrimento dos raides aéreos. Contudo, o primeiro ataque em solo britânico só aconteceu sete meses mais tardes desses fatídicos dias.

UMA DECISÃO PESSOAL SOMADA A MUITAS OUTRAS

Recorrendo a diversos materiais de pesquisa, como entrevistas, diários pessoais, cartas, notícias e anúncios publicitários, Hilda Kean argumenta que este ato coletivo não foi o resultado de uma crise de pânico generalizada: na verdade, refere, a primeira semana de guerra foi marcada por um “aborrecimento negro e generalizado”. E a eutanásia dos animais de companhia foi uma forma de as pessoas poderem fazer algo e estarem em controlo de alguma coisa. Mas foi sempre uma decisão pessoal, que nada teve de massiva, e que se deveu a condições pré-existentes em cada lar: afinal, 75% das famílias londrinas com animais de estimação fizeram, perante o mesmo dilema, tomaram a decisão contrária. Mas a decisão de 400 mil famílias, juntas, com medo de que lhes faltasse comida se a tivessem de partilhar com os seus animais, levaram a um massacre. No fundo, a autora coloca em causa a narrativa das “pessoas boas” a travarem uma “guerra boa” contra o “grande mal” — ainda que, meses depois de milhares de animais terem recebido a injeção letal, outros tantos tenham sido salvos por soldados aliados durante a evacuação, por via marítima, da célebre batalha de Dunkirk (1940): 300 mil soldados em fuga construíram centenas de jaulas para transportarem cães abandonados para a Inglaterra.
“The Great Cat and Dog Massacre — The Real Story of World War Two's Unknown Tragedy", Hilda Kean, Editora: University of Chicago Press; Páginas: 223 páginas; Preço: €27 (Amazon)
“The Great Cat and Dog Massacre — The Real Story of World War Two's Unknown Tragedy", Hilda Kean, Editora: University of Chicago Press; Páginas: 223 páginas; Preço: €27 (Amazon)
A partir do momento em que as bombas começaram a cair sobre Londres, as rações tornaram-se mais restritas e a comida do cão e do gato começou a ser desviada para os pratos do dono. O racionamento era para todos: donos e respetivos animais. Mas foi nesta época que os atos heróicos do cão que salvou a menina dos escombros ou do gato que antecipou mais um ataque aéreo começaram a ser determinantes. Como os humanos, padeceram dos males da guerra: perderam familiares (leia-se donos), enlouqueceram com os raides, muitos não sobreviveram aos ataques. Durante os anos da guerra, por exemplo, várias as organizações alertaram para importância de tanto cães como gatos usarem proteções nas orelhas, durante os ataques aéreos, ou máscaras antigases especiais e adaptadas. Porque para a guerra de uns é a guerra de todos.

expresso.sapo.pt

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