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domingo, 21 de maio de 2017

MAIO 68

reaction0003-755421Até hoje, não se sabe direito o que causou os protestos de maio de 68 em Paris, nem quem começou o que. Quando perguntaram aos estudantes o que eles queriam, estes responderam: “TUDO!”. Então, podemos dizer apenas o que não era: não era um tomada do poder, não era um movimento de luta de classes, não era uma revolução. Talvez uma revolução poética… isso fica claro pelos várias pichações nos muros da Sorbonne (veja algumas frases aqui). Dentre elas, uma famosa, “Sejam realistas, exijam o impossível”.
No ano de 68, as coisas corriam bem na França, não havia uma crise real, nem desemprego, a economia andava em seu curso também. Ainda assim, estudantes e operários uniram-se para manifestarem-se, e isto tomou proporções alarmantes. Sob o governo do general De Gaule, havia um certo descontentamento no ar, eles recusavam algo, mas não havia palavras ainda para descrever esse mal-estar. Havia uma crítica radical ao modo de vida capitalista/consumista, uma demanda por algo maior que universidade/emprego/produtos/consumo/caixão. Eles começavam a pensar se não havia uma possibilidade de ir além, ser mais. O movimento questionou a total fusão do indivíduo com a sociedade, a perda da subjetividade (transformada em comercial de refrigerante). O homem havia se tornado “unidimensional”, vivia para trabalhar e trabalhava para comprar.
No dia 22 de março, os alunos de Nanterre, prima pobre da Sorbonne localizada nos arredores de Paris, tomaram a universidade em um ato de protesto. O começo da revolta estudantil pode ser dada nesta hora e neste local. Os alunos tinham suas críticas (que sempre eram menores que o movimento como um todo, porque a pontualidade mata o espírito geral), o atraso dos ensinos na universidade, a educação, crítica ao modelo de ensino autoritário, formação alienada. Os alunos tinham dormitórios separados em femininos e masculinos, o que para eles, em pleno séc. XX, era um absurdo do conservadorismo.
De Nanterre, o protesto passou para a Sorbonne. Quando o reitor chama a polícia para proteger a universidade (algo que nunca acontecia), ocorre então o confronto no arredores da Sorbonne, Quartier Latin. No dia 5 de maio, 10 mil estudantes entram em conflito com a polícia. Mas em 10 de maio a revolta se intensificou, o Quartier Latin é tomado por barricadas, carros queimados, paus e pedras pelo chão. Vinte mil estudantes entram em um conflito sério com as autoridades, a violência é grande e muitos saem feridos. Balas de borracha, granadas e gás lacrimogêneo. Enquanto os policiais vinham com cassetetes, os estudantes respondiam arrancando as pedras das calçadas e jogando como resposta. Esta foi o maior conflito e ficou conhecido como “noite das barricadas”. A polícia ocupou a Sorbonne por uma semana, enquanto isso, as manifestações continuavam
Os operários, até então em um movimento separado, convocam uma greve de um dia por todo o país. O espírito trabalhista estava forte depois de uma manifestação ao 1º de maio, dia do trabalhador, e eles exigiam melhores condições trabalhistas, melhores salários e menor tempo de trabalho. No dia 13 de maio a Sorbonne é reaberta e ocupada pelos estudantes. A opinião pública não consegue entender como um movimento tão grande pode acontecer sem líderes responsáveis pelos acontecimentos. Da mesma forma, trabalhadores em todo o país começam a ocupar as fábricas. Acontece uma greve geral. Estudantes e trabalhadores começam a fazer contato, conversando e declarando apoio mútuo.
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No dia 20, a crise atinge seu auge. O país está paralisado. Não há metrô nem ônibus, as linhas de telefone não funcionam, assim como outros serviços elétricos; as indústrias estão paralisadas, ocupadas pelos trabalhadores. São ao todo 6 milhões de grevistas ocupando 300 fábricas. Outros também tomam o porto de Marselha.
Na Sorbonne ocupada pelos estudantes reina uma anarquia harmoniosa, como uma colmeia ou formigueiro sem líderes mas em pleno funcionamento organizado. Através da representação direta, milhares de estudantes se encontram em galerias e teatros para discutir os mais variados assuntos: a ocupação, sexualidade, educação, política, trabalho, meios de comunicação. A auto-gestão é colocada em prática, e comprova-se válida. Não há um espírito de liderança, mas todos querem fazer algo, muitos aprenderam em uma semana mais do que a vida toda. A espontaneidade, a criatividade e a ação se sobrepõe ao desencantado modelo representativo; parte desta nova organização se reflete nas próprias paredes da universidades onde são escritas frases artísticas e provocadoras: anárquicas, poéticas, críticas e criativas. Não se trata de um modelo de esquerda ou de direita, o que os estudantes buscavam era um novo formato. Um questionamento constante à autoridade, a intenção era dissolver a instituição vertical, construir de baixo para cima, colocar para fora o poder.
Aos poucos o movimento começa a ceder. A CGT (Confederação Geral do Trabalho) consegue fechar acordos com o governo e o patronato para melhores condições trabalhistas, isto diminui os ânimos no movimento operário. Neste ponto, os sindicatos de esquerda agiram claramente contra a revolta. No dia 30 de maio, o general De Gaule dissolve a assembleia nacional e convoca eleições ao mesmo tempo que movimentos pró-gaulistas (muitos provavelmente assustados com os acontecimentos) começam a manifestar-se. No dia 16 de julho a polícia retoma a Sorbonne e expulsa estudantes estrangeiros envolvidos no ato. O movimento perde força até que finalmente cede em 21 de junho. As eleições antecipadas deram larga vitória aos gaulistas.
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