AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


terça-feira, 16 de maio de 2017

CULTURA.SUL Adão Contreiras


A OPINIÃO de PEDRO JUBILOT pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt
A OPINIÃO de PEDRO JUBILOT
pedromalves2014@hotmail.com
canalsonora.blogs.sapo.pt
Ao entrarmos em Gorjões, sitio típico que fica escondido, ou bem guardado, entre o triângulo Loulé – Sª B. Nexe – S. Brás, onde o Algarve é um bom lugar para despir a pele e deixar queimar o coração, deparamo-nos com um homem simples e afável, acompanhado da sua fiel cadela Bailarina. Adão Contreiras é um artista, que sempre foi também poeta, mas que apenas publicou o seu primeiro livro há poucos anos. Coordena por ali, um importante centro cultural – Gorjões Total Arte, onde afluem diversos artistas quer seja para disfrutar da sua companhia, quer para ensaiar e mostrar as suas artes. Esta disponibilidade já vem do tempo da Galeria Margem, espaço cultural de referência no início dos anos 90, na zona histórica de Faro. Foi para Lisboa com 12 anos e aí viria a frequentar a António Arroio, escola que considera ter sido uma nuvem de desassossego na sua formação, despertando-o definitivamente para as artes. Foi professor durante muitos anos aqui no Algarve.
E como se processa fisicamente a escrita poética de alguém ligado às artes plásticas…
Escrevo com os objectos que tenho ao meu dispor no momento, esferográfica, teclado, grafite, caneta de tinta, aparo se for caso disso. A linguagem pouco ou nada tem a ver com este processo, contudo, o prazer de escrever passa também pelo aspecto formal com que se age, neste caso, se escreve. Escrever no teclado do computador, é como escrever sobre o algodão; escrever sobre o papel é como riscar na nossa pele. A linguagem é activada pela sonoridade das palavras ou pelas imagens, elementos que constituem o significante da fala interior. Uma vez memorizadas as palavras e as imagens, estes entes podem ser activados pelas emoções.
Da rotina quotidiana vs. o eu poético…
O viver quotidiano exige, sobre a rotina acinzentada dos afazeres, uma libertação dos sentidos, para fora ou para dentro, expandindo-nos emocionalmente. Eu diria que quando isso acontece, estamos a viver momentos de poesia. Contudo, ser poeta no sentido de produzir algo, – a palavra poesia inicialmente significa produzir – exige uma outra dimensão mais, – transmutar esses momentos em linguagem, e escrevê-la. A poesia parece inscrever-se no sentido da libertação do sujeito, de resistência ao sufoco. Todavia, se esta ideia nos leva ao pronunciamento da catarse como fim, penso que a arte, a poesia, é mais do que isso.  
De momentos e lugares nos dias em que acontece poesia…
É a procura de desvelar alguma realidade que me emociona, não é viver o mundo pelo lado do esteticismo. Este é o panorama de fundo onde a poesia me acontece e está presente desde que acordo até ao deitar. Tudo o que existe, e o que existe é tudo, é plausível de meditação, de sentimento, e essa é a grande mensagem.
Adão Contreiras é um artista que sempre foi também poeta
Adão Contreiras é um artista que sempre foi também poeta
Limpar/distrair a mente dos fluxos de preocupações que nos obstam a que fiquemos disponíveis mentalmente para pensar e sentir; a poesia exige disponibilidade, embora estados de tensão, não esquecer, também levem à produção. Liberdade e tensão emocional não são contraditórios, digamos mesmo que, juntas, formam um quadro propício à produção; a que chamam inspiração.
Os livros anteriores
O primeiro livro ‘Página Móvel com Texto Fixo’ (4Águas, 2013) foi produzido, em grande parte, durante a noite, já deitado; sobre a mesa-de-cabeceira estava sempre o caderno, e aí ia escrevendo os textos que me iam surgindo. ‘Ouro e Vinho’ (4Águas, 2014), escrevi-o à mesa, enquanto comia, e o ‘Mostruário de Títulos para Poemas’ (4Águas, 2016), cresceu frente ao computador. As mesas dos cafés também dão azo a momentos de produção. E até já fiz poemas quando estava a cozinhar, a passar a roupa a ferro; as situações divergem, mas o que é comum é, – o pensar sobre… observar a realidade ou o que julgamos que seja, e confrontá-lo com os nossos pressentimentos.
‘Púrpura Voz’ (Lua de Marfim, 2017)
Estava a acabar de ler, ‘O Livro do Desassossego’, na versão-edição recente de Teresa Rita Lopes quando saiu este último livro que formalmente está na sequência do ‘Ouro e Vinho’, quase nada tem a ver com os outros dois, mas é mais depurado do que aquele. Ao rever os poemas eliminei tudo o que me pareceu estar a mais, ao ponto de alguém me dizer: – são tão pequenos os poemas…, mas já não há palavras? Está arrumado em quatro contextos temáticos e abarca um tempo de produção à volta de vinte anos, entre o mais antigo e o mais recente dos poemas.
Um inédito:
Começar a escrever pelo lado do avesso – o lado mais puro do abandono — um solilóquio de palavras soltas, inéditas – e na sua voracidade de nada dizerem – o outro lado onde a natureza mãe nos golpeia com os ácidos do obscuro
Palavras hibernadas e em contra luz
Manhã          a manhã quente que devora os homens na superfície dos
                     nomes
Voz               a voz que escreve nas ardósias o pulsar dos corações
Elástico        o elástico matinal onde o luar se esconde
Claustros      as abóbadas de ferro onde o som se torna denso
Realidade     a descrita realidade como uma pulga saltando do berço
Objecto        o objecto que não existe no lume de alguns diamantes
Sombra       a sombra das palavras negras inconstantes sem farmácias
                   por perto
Sonora        a sonora manhã encostada às espigas dos homens com
                   forquilhas penteando os azedumes da palha
– Gostava de começar a escrever pelo lado do avesso onde a intriga do silêncio é desinquietação da claridade
(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

www.postal.pt

Sem comentários:

Enviar um comentário