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sábado, 8 de abril de 2017

O psicólogo, bombeiro e comunista que lidera Carnide e a luta dos parquímetros


Fábio Sousa, junto a um dos parquímetros que já foram repostos pela EMEL no centro histórico de Carnide
Por causa dos parquímetros que a EMEL colocou no centro histórico da freguesia e da luta que a população lhes moveu, e que ele apoiou como autarca, Fábio Sousa saltou do anonimato relativo para o centro de todas as atenções

Sem pressas, percorremos as ruas do centro histórico de Carnide, onde os 12 parquímetros da EMEL retirados na madrugada de quinta-feira por um grupo de moradores já estão de novo instalados e, aparentemente, a funcionar. Fábio Sousa, que de um dia para o outro deixou de ser apenas o jovem presidente da junta de freguesia de Carnide para se tornar num rosto conhecido e na imagem de um autarca ao lado da sua população, é parado a cada passo.
"Presidente, parabéns", saúda-o um casal de dentro de um carro. Ele sorri, agradece, faz um gesto de saudação. Mais à frente, a cena repete-se e há de repetir-se ao longo da tarde muitas mais vezes. Agora é uma mulher, que vem caminhando na direção contrária. "E agora, como vai ser, Fábio?"
Refere-se aos parquímetros, claro. E ao estacionamento que passa a ser pago também na zona. Fábio Sousa não a deixa sem resposta e, sobretudo, quer transmitir-lhe calma. "Vamos pela via legal, com uma providência cautelar, não podemos perder a razão com ações irrefletidas", diz.
Ela concorda. Como concordam outros que o interpelam no caminho e o saúdam com entusiasmo e carinho - é bem visível. Judite, por exemplo, que vem de Telheiras duas vezes por semana para dar alfabetização a adultos, na Academia Sénior da freguesia. A ideia de ter de pagar estacionamento, uma vez que não tem direito a dístico de moradora, preocupa-a. "Não há transporte direto para aqui e eu não tenho dinheiro para pagar estacionamento, sou voluntária", desabafa.
Na esquina da Azinhaga das Carmelitas, Fábio Sousa aponta o parquímetro. A rapidez com que a EMEL voltou a instalar aqueles equipamentos pode até nem ser uma surpresa, mas o contraste com o abandono em que a rua se encontra não podia ser mais evidente.
Há buracos em vários sítios, numa das extremidades não cabem dois carros lado a lado, e as pessoas disputam o espaço alcatroado com os automóveis, porque também não existe passeio. No entanto, a população de Carnide ganhou em 2014 um orçamento participativo da Câmara Municipal de Lisboa, no valor de 150 mil euros, para a requalificação daquela rua. Já lá vão três anos, e nada.
"É isso que os moradores contestam e a junta só pode estar ao seu lado", diz o autarca, que além de ser o mais jovem presidente de junta de freguesia em Lisboa (tem 30 anos) é também o único da CDU, e o primeiro que ganhou Carnide com maioria absoluta para aquela força política. Fábio Sousa encara o mandato como "uma missão", e a sua "marca" como autarca, diz, "é a da participação", envolvendo a população na dinâmica da freguesia.
"Somos os campeões dos orçamentos participativos em Lisboa, mesmo que parte das obras não tenham sido executadas ainda pela câmara", diz. Isso deixa "uma sensação de isolamento", admite. "São muitas pressões, muita responsabilidade, mas as pessoas que trabalham comigo no executivo são fantásticas", garante.
Psicólogo clínico, especializado em intervenções de emergência, bombeiro desde os 12 anos (integrou durante um período a equipa de Apoio Psicossocial da Proteção Civil), antigo presidente da associação de Carnide Mãos do Mundo, dedicada à ação social e à juventude, Fábio Sousa é técnico da Santa Casa da Misericórdia, onde começou a trabalhar aos 17 anos, no apoio a jovens em risco. Foi já a trabalhar que se formou em psicologia. "E então aconteceu que o anterior presidente da junta de Carnide, Paulo Quaresma me convidou para liderar a lista da CDU, para as autárquicas de 2013", recorda. Decidiu aceitar. "Tornei-me militante. Não me fazia sentido candidatar-me como independente".
Acabou por ganhar as eleições com a primeira maioria absoluta da CDU em Carnide, que há 30 anos governa aquela freguesia de Lisboa, até aí sempre em coligação.
Agora, a braços com a questão dos parquímetros, para além de todas as outras que fazem o quotidiano de uma freguesia de Lisboa - "queremos ir em peso à Assembleia Municipal quando o tema for discutido", garante -, Fábio Sousa olha também o futuro. "Vou candidatar-me a mais um mandato pelo menos", diz. "As comunidades não se mudam em quatro anos", justifica. Depois, um dia, há de regressar à psicologia, e ao seu lugar na Santa Casa da Misericórdia. A seu tempo. Para já, é a Carnide, e aos seus moradores, que está devotado.

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