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terça-feira, 11 de abril de 2017

O livro “assassino” das artimanhas de Donald Trump



O novo presidente dos EUA não gostou de “Trump Revelado”, a sua biografia escrita pelo Washington Post. Livro acaba de sair em Portugal


O livro “assassino” das artimanhas de Donald Trump


Trump Revelado (Planeta, 512 págs., €23,90) vem assinado por Michael Kranish e Marc Fisher (este vencedor de dois Pulitzers), mas é uma obra colectiva. "O The Washington Post designou mais de 20 jornalistas, dois verificadores de factos e três editores para examinar a vida de Trump", lê-se. Examinar o seu passado, dizem os autores, "é compreender como pode comportar-se no futuro."

A direcção enviou repórteres para todos os locais por onde Trump passou, incluindo no estrangeiro. E Trump, apesar de ter aceitado dar uma entrevista colectiva aos editores do jornal, percebeu logo que a obra não lhe era favorável. "O Washington Post elaborou um livro assassino sobre mim. Não comprem, aborrecido!", escreveu no Twitter.
















Nada que o afecte na verdade. Uma das coisas que se percebe no livro é que mesmo as polémicas negativas são boa publicidade. Um mantra que aprendeu cedo.

O livro é imperdível para quem quer perceber de que é feito o novo presidente dos EUA. Deixamos-lhe aqui um apanhado, muito resumido, de algumas das melhores histórias.


1. O filho da mãe da Escócia
A mãe de Donald é escocesa, emigrada para os EUA para fugir à pobreza na terra onde vivia, nas Ilhas Ocidentais. Trump só lá esteve uma vez em adulto, em 2008. Não foi uma viagem sentimental. Na altura, queria construir um campo de golfe de luxo em Aberdeen, um empreendimento que estava a ser muito contestado pelos ambientalistas e pelos proprietários das terras, pressionados a sair com meios pouco ortodoxos pelo staff de Trump. Visitar a casa onde a mãe viveu foi uma tentativa de usar as suas raízes escocesas para amaciar os locais. Entrou na humilde casa e saiu 97 segundos depois.

2. Os bons emigrantes brancos
A mãe de Trump chegou aos EUA e deu-se como doméstica. Corria o ano de 1930, o país estava em plena Depressão e o Ku Klux Klan tinha uma forte influência no sentimento geral anti-emigrantes, típico das crises económicas. Foram impostas quotas, incluindo a oriundos de países europeus, e expulsos milhares de mexicanos. Ao mesmo tempo, o Congresso duplicou a quota de imigrantes de ilhas britânicas, como se fosse uma espécie de "reserva preferida de brancos britânicos". Por isso mãe de Trump foi bem recebida.
 



















Curiosamente, o mesmo aconteceu ao avô paterno de Donald. Friedrich Trumpf chegou com 16 anos a Nova Iorque, em 1885, e deu-se como agricultor. Fugiu da tropa na Alemanha, mas não houve problemas. "Na altura, a lei americana garantia aos alemães um estatuto preferencial: eram vistos como tendo as correctas características étnicas dos europeus brancos".

3. Os Trump "suecos"
A I Grande Guerra disseminou pelos EUA um sentimento anti-alemão, e Friedrich, avô de Donald, tentou esconder as suas raízes, apesar de nunca ter havido uma real intensão de expulsar alemães. A mesma coisa aconteceria com o pai de Donald, Fred, durante a II Grande Guerra, passando a dizer que a sua família era sueca. O próprio Donald chegaria a disseminar a mesma proveniência escandinava.
 









4. Os vizinhos mais odiados
Ainda que o pai de Donald fosse conhecido por ser forreta, vivia com estilo. "Moravam numa casa de dois andares de estilo Tudor, em Wareham Place. Tinham motorista, cozinheiro e sistema de intercomunicador, televisor a cores e um enorme comboio eléctrico de brincar que provocava a inveja do bairro. Aparentemente, os filhos de Fred Trump herdaram a atitude fria do pai em relação aos vizinhos. Quando a bola de um vizinho saltava para dentro do espaçoso quintal dos Trump, o jovem Donald ladrava: ‘Vou dizer ao meu pai, vou chamar a polícia’."

5. As mãos desinfectadas
O pai de Donald era extremamente formal - até andava em casa de fato e gravata. A mãe era muito social, ia a muitas festas e reuniões sociais. Foi dela que herdou o receio dos germes. "Sabem, é muito mal-educado se alguém quer apertar a mão e você não aperta, por isso, aperto. Lavo as mãos o máximo que posso, e não é um insulto a ninguém, é um facto: ficamos com germes nas mãos e constipamo-nos", diz Donald.

6. A universidade "mal frequentada" por estrangeiros
Ainda que tivesse equacionado ir estudar cinema para a Carolina do Sul, Trump acabou por ir para a Universidade Fordham. Os colegas da altura contam que já aparecia com mulheres vistosas, lia o Wall Street Journal e o New York Times nos intervalos, rabiscava prédios e arranha-céus nas aulas e gostava de saber o que é os pais dos colegas faziam. Dizia também que um dia ia ser famoso. Donald nunca teve uma sensação de pertença ao campus. Um antigo vizinho revela que se queixava que tinha "demasiados alunos italianos e irlandeses".
 















7. Os calcanhares
Trump foi escapando ao serviço militar devido à sua condição de estudante e depois por razões médicas não especificadas. Mais tarde, disse que tinha a ver com "uma saliência óssea nos calcanhares". 



















8. Os negros não entram
Donald acabou os estudos e o pai empregou-o no grupo, dando-lhe uma parte importante para gerir no seu império imobiliário para as classes médias. O pai chegou a ser interrogado por suspeitas de uso irregular de apoios estatais à construção, mas a maior polémica foi com Donald. Em 1972, através de agentes infiltrados, a Comissão dos Direitos Humanos de Nova Iorque conseguiu provar como os Trump não arrendavam certos prédios a negros.
 









O Departamento de Justiça abriu um processo, mas não queria dinheiro nem prisões. Apenas um acordo para não discriminar. Os advogados aconselharam Donald a assinar, mas este não aceitou. Por mero acaso, cruzou-se nesse dia com Roy Cohn, um advogado com longa fama de corrupto, conhecido por ter lutado ao lado de Joseph McCarthy na purga comunista. Cohn, que não fazia acordos, desafiou Trump a ripostar. Devia contra-atacar sempre. Foi um mantra para Trump.

Donald Trump processou o Governo por calúnia e pediu 100 milhões de dólares de indemnização. O caso encerrou em 1975 através de um acordo em que Donald aceitou publicar anúncios onde dizia que não discriminava pessoas de outras raças. Mas o governo suspeitava que as práticas continuavam.

Muitos anos mais tarde, quando entrou no mundo dos concursos de beleza, foi acusado de dar indicações para que as candidatas negras a Miss não fossem aceites.

9. O amigo gay
Embora sempre o negasse e, pior ainda, condenasse a homossexualidade, o sinistro amigo Roy Cohn era gay. Em 1985, quando Cohn contraiu VIH, Donald afastou-se. "Não acredito que ele me está a fazer isto. O Donald mija água gelada", comentou Roy Cohn.
 










10. O Commodore
O seu primeiro grande projecto foi a transformação do Commodore, um hotel em Manhattan de 1900 quartos em estado decrépito, em Hotel Grand Hyatt. "Para o plano ter sucesso, a Penn Central tinha de lhe vender o hotel, a burocracia de Nova Iorque tinha de aprovar a sua abordagem e dar-lhe isenção fiscal, uma empresa de gestão tinha de se associar a ele para administrar o hotel e os bancos tinham de lhe avançar o dinheiro para pagar tudo", lê-se.

Trump lançou então uma espécie de ofensiva de charme. "Trump enganou a cidade, os vendedores e a cadeia de hotéis uns a seguir aos outros, utilizando um para alavancar o acordo com o outro."

Mais tarde, a Auditora Geral da cidade descobriu "aberrantes práticas de contabilidade que tinham retirado à cidade milhões de dólares em impostos." Questionado mais tarde, Trump disse que não se lembrava da investigação.

Nos anos seguintes, Trump iria entrar em conflito com a família que geria a Hyatt. Em 1996, lutando contra enormes dívidas, acabou por vender a sua parte.

11. A mulher decoradora e os filhos no escritório
É mais uma emigrante na vida de Donald. Ivana Zelníbková Winklmayr cresceu na Checoslováquia sob o regime comunista e emigrou para o Canadá antes de ir para os EUA. Donald dizia que era uma das maiores modelos do Canadá, mas Ivana tinha apenas desfilado em lojas e posado para peleiros. Também tinha sido casada com um esquiador austríaco, Alfred Winklmayr, mas esse casamento foi omitido da sua biografia oficial.









Desta relação nasceram três filhos. Donald Trump não tinha nenhuns cuidados nem interesses parentais. Só lidava com os filhos no escritório. Ivana foi empregada como decoradora de interiores dos empreendimentos do marido. O casamento acabaria depois de uma traição de Donald, que fez as delícias dos tablóides durante meses.

12. O caso das esculturas
Um dia, Donald andava por Manhattan e viu uma loja de luxo na Fifth Avenue. "Vamos descobrir quem é o dono e deitar o edifício abaixo". Seria o local da Trump Tower. O edifício tinha uma elegante fachada art déco, que incluía duas esculturas em baixo relevo de quatro metros e meio. O dono de uma galeria em frente e a curadora do Metropolitan Museum of Art tentaram convencer Trump a doar as obras. Trump aceitou, mas um dia apareceram os operários e destruíram tudo. "O capataz recusou parar: ‘O jovem Donald disse que há uma mulher estúpida na alta da cidade, num museu, que as quer e que nós temos de as destruir".

O caso foi capa do Times. O artigo continha declarações de um John Barron, um pseudónimo que Trump usava quando não se queria identificar. Dizia que as esculturas valiam apenas 9 mil dólares e que removê-las tinha custado 33 mil. Dois dias depois, disse que remoção tinha custado 500 mil e que a sua preocupação era a seguranças das pessoas – as estátuas podiam cair e matar alguém.

13. A brigada polaca
É mais um caso da relação Trump-emigrantes. As demolições necessárias para a construção da Trump Power foram feitas por centenas de polacos sem documentos, mal pagos, por vezes a dormir no chão e pagos com vodca. Trump foi processado por um sindicato em 1983, quando a torre abriu. Em 1990, testemunhou que não sabia que trabalhadores não tinham documentos, e culpou a empresa de demolição. O juiz não concordou e o caso chegou ao fim com um acordo em 1999.

Os autores deste livro lembram que "anos mais tarde, Trump chamaria à imigração ilegal ‘uma bola de demolição apontada aos contribuintes dos Estados Unidos’".

14. As relações com mafiosos
Para construir a Trump Tower, Donald teve de enfrentar sindicatos e mafias. "Em 1982, quando as greves sindicais congelaram as obras pela cidade, a construção da Trump Tower não parou um segundo. Quando abriu, no ano seguinte, foram vendidos a Cody e à sua namorada três enormes duplex mesmo por baixo da penthouse de Trump."

Quem era este Cody? Um chefe mafioso que mandava no sindicato Teamsters, que controlava os camiões de cimento. Cody, numa investigação federal posterior, disse que conhecia Trump muito bem e que gostava de negociar consigo através de Roy Cohn. Após a morte de Cody, em 2001, Trump chamou-lhe "um filho da mãe psicótico e escumalha".

15. Os rumores plantados na imprensa
Donald usou várias vezes os jornalistas para inventar VIPs interessados nas suas propriedades, trazendo-lhes notoriedade. Fazia-o sob anonimato, ou usando pseudónimos – por vezes disfarçando a voz, para não se perceber que era ele. O seu pseudónimo preferido era John Barron - o seu filho mais novo viria a chamar-se Barron.
 










Por exemplo, espalhou o rumor de que a família real britânica estava interessada em gastar 5 milhões de dólares para comprar um piso inteiro na Trump Tower. Donald não confessou ter criado o rumor, que o Times atribuiu a "alguém do sector imobiliário", mas disse ‘de certeza que não nos prejudicou".

Mais tarde, plantou também o rumor de que a Casa Branca estava a pensar mudar a suite do Presidente dos EUA em Nova Iorque para o Plaza Hotel, de que Donald era proprietário.

16. As ameaças, os processos e os subornos a jornalistas
Em 1978, Wayne Barrett foi o primeiro jornalista a investigar os negócios de Donald. O empresário começou a usar com ele a "técnica da cenoura e do pau". Primeiro, a cenoura. Barrett vivia em Brownsville, na altura uma das áreas mais pobres de Brooklyn. "Podia arranjar-lhe um apartamento", disse a Barrett. Depois, o pau: "Tu e eu temos sido amigos e tal, mas se a tua história danificar a minha reputação, quero que saibas que vou processar-te."

Tinha outras técnicas. Escrevia cartas aos jornalistas e críticos, plantavas rumores depreciativos sobre os jornalistas ou colunistas e, por vezes (muitas vezes), enviava uma cópia do artigo junto com uma folha timbrada da Trump Organization. "Quando a colunista Gail Collins, do Times, chamou Trump ‘um ricaço com problemas financeiros’, ele enviou-lhe a coluna e a cara dela com um círculo à volta. Ao lado, Trump tinha escrito: ‘A cara de um cão!’".

"Em todas as alturas da sua carreira, Trump tentou punir aqueles que questionavam a imagem que ele queria que o mundo visse. 'Eu processo' tornaram-se as palavras de ordem do seu negócio, tal como 'Estás despedido' se tornou o mantra da sua imagem televisiva [no programa O Aprendiz]. Durante três décadas, Trump e as suas empresas puseram mais de 1900 processos e foram arguidos noutros 1450, de acordo com uma análise do USA Today. Alguns dos processos legais foram o resultado de negócios complexos. Mas outros concentraram-se em perseguir quem questionava a sua fortuna ou até o seu gosto.", lê-se na página 337 de Trump Revelado.

Um exemplo caricato: "Uma vez apresentou uma queixa por difamação, no valor de 500 mil dólares, contra um crítico do Chicago Tribune que descreveu o átrio principal da Trump Tower como 'uma galeria comercial kitsch, com uma extravagância ofuscante'."

17. Os telefonemas para as redacções
"Enquanto outros magnatas dos negócios se escondiam atrás de relações públicas e porta-vozes que afastavam os repórteres, Trump costumava devolver as chamadas pessoalmente, dentro de horas, se não minutos. Para algumas publicações, a disponibilidade constante de Trump e o seu interesse em aparecer transformou-se numa chatice. Um ano, quando a Fortune estava a reunir a sua lista anual de empresários ricos, a revista destacou um estagiário para lidar com a enxurrada de telefonemas de Trump, que discordava da avaliação que faziam do seu património."
 










O episódio de Donald dizer que vale muito mais do que na realidade valia iria repetir-se várias vezes. Logo em 1976 referia que valia 200 milhões de dólares quando a sua declaração de impostos "revelava um lucro de apenas 25.594 dólares" E devia 10.832 dólares de impostos.

O tema das declarações de impostos e de quanto vale realmente a sua fortuna de Trump domina a agenda mediática de Trump há décadas (ainda hoje, uma vez que se recusa a mostrar a sua declaração de impostos).

A técnica usada pela Forbes para calcular a riqueza de Trump, para o ranking anual da revista, era "dividir por três" o que o empresário se gabava de valer. Era a única maneira porque Trump não era uma fonte credível e não havia informação detalhada, pública e auditada sobre as suas empresas e negócios.

18. O anel
No início dos anos 90, quando Donald estava atolado em dívidas, fruto dos seus megalómanos investimentos (quase todos deles já praticamente na mão dos credores), os banqueiros a quem devia milhões de dólares viram-no a aparecer com a namorada Marla Maples. "Ela levantou a mão esquerda para mostrar um anel de diamante com 7,5 quilates e corte esmeralda. Na quinta-feira seguinte, quando os banqueiros se encontraram com Trump, exigiram saber onde tinha ele arranjado o dinheiro para o anel de 250 mil dólares. Trump escapou à sua ira. O anel, disse ele, era um empréstimo do joalheiro Harry Winston em troca de publicidade grátis."

19. A "universidade"
Em 2005, Donald chamou os jornalistas para anunciar o seu novo projecto. A Trump University, uma espécie de "escola de gestão"/seminários em salões de festas, muito focada no imobiliário. Quando rebentou a bolha deste último, a Trump University começou a ensinar sobre como tirar partido da crise. Não tardaram os processos em tribunal de alunos que se sentiram defraudados pelo "canudo" que obtiveram em troca do que aprenderam e (sobretudo) pagaram. A Trump University nem podia sequer usar o nome University, pelo que teve de mudar de nome para Trump Entrepreneur Iniciative. Fechou em 2010.
 









20. O Aprendiz de luxo
Na final da edição de 2007 do reality show que o catapultou para a fama à escala nacional, Trump prometeu ao vencedor escolher entre dois prémios: supervisionar a construção de um resort de luxo na República Dominicana ou um condomínio de 47 andares em Atlanta. O que ninguém sabia ainda era que Trump não era proprietário de nenhum dos projectos, apenas dera o nome. Nenhum dos dois projectos acabaria por ir para a frente. Sempre que um projecto falhava, Donald refugiava-se na estratégia do licenciamento.

21. O filantropo à força
Donald definia-se como "um filantropo ardente". Ou não. "No lançamento da campanha à presidência, disse que tinha doados mais de 102 milhões de dólares para instituições de beneficiência, entre 2011 e 2015. Mas o The Washington Post descobriu que nenhum destes 102 milhões vieram do seu dinheiro. Muitas das contribuições assumiram a forma de jogos de golfe grátis nos seus campos, oferecidos em rifas nas feiras e nos leilões de caridade."

O livro conta outros casos parecidos. Como prometer doar um milhão para as causas dos veteranos. Só o fez quatro meses depois, quando um jornalista o pressionou a dar pormenores. Donald Trump respondeu à sua maneira, atacando a imprensa: "mauzinhos", "desonestos", "sacanas" e "injustos", chamou aos jornalistas. "Vou continuar a atacar a imprensa", terminou.


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