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quinta-feira, 6 de abril de 2017

DEPRESSÃO - UM MAL DE HÁ SÉCULOS




A depressão é uma doença que se caracteriza por um estado de humor persistentemente rebaixado, apresentando-se como tristeza, angústia ou sensação de vazio, e pela redução na capacidade de sentir satisfação ou vivenciar prazer. Apresenta causas múltiplas, como fatores genéticos, neuroquímicos, ambientais, sociais e pesicológicos.
Estima-se que cerca de 120 milhões de pessoas no mundo sofrem desse quadro de desordem psiquiátrica, que se encontra em quarto lugar entre as doenças no último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), com perspectivas de alcançar o segundo lugar em 2020.
Embora seja tratada por muitos como o mal do século, a depressão não é uma doença exclusivamente pós-moderna, sendo abordada, inclusive, por inúmeros filósofos ao longo da história da humanidade

Na Antiguidade, já havia entre os gregos a ideia moderna de que as doenças da mente se conectam a disfunções corporais. A melancolia - denominação primeira do que hoje se entende por depressão - era diagnosticada por observação clínica, em detrimento de explicações mitológicas. Hipócrates, no século V a.C., definia a melancolia como uma afecção sem febre, na qual o espírito triste permanece sem razão fixado em uma mesma ideia, constantemente abatido, definição que se assemelha à dos quadros depressivos actuais. Para Aristóteles, os melancólicos eram pessoas que tinham mais espírito que as demais.
Na Idade Média, a ascenção do Cristianismo promoveu uma alteração na perspectiva das doenças mentais, agora associadas ao sobrenatural, à superstição e ao misticismo. Segundo Santo Agostinho, o homem é um ser diferente dos demais, pois dotado de razão. A perda dessa razão é um desfavor de Deus, a punição para uma alma pecadora. Portanto, a melancolia era um afastamento de tudo que era sagrado, sendo considerada até mesmo um pecado punido pela Inquisição.
Na Idade Moderna, a melancolia era definida principalmente pela presença de ideias delirantes. Nessa época, vários foram os contrastes entre os pensadores europeus, sendo até mesmo considerada por alguns como uma doença e uma qualidade da personalidade que indicava profundidade. Na Itália, Marcilio Ficino foi o filósofo que mais discutiu a depressão, definindo a melancolia como um fenómeno presente em todos os homens, em razão do seu anseio pelo grande e o eterno. Dizia que todo génio é um melancólico. No século XVII, René Descartes inaugura o racionalismos moderno, segundo o qual o universo é explicado de forma mecânica e matemática. Nesse contexto, surge a convicção de que a razão humana é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos das paixões e das emoções, governadas e dominadas pela vontade orientada pelo intelecto. O dualismo cartesiano - dicotomia entre corpo e mente - promoveu uma mudança na perspectiva da depressão: a doença é aspecto físico; a mente, distinta do cérebro, apresenta dúvidas e inconsistências, mas não a doença. Novos sintomas passam a ser considerados, como a tristeza, amargor, gosto pela solidão e imobilidade.
Ainda na Idade Moderna, o século XVIII caracterizou-se pelo advento do Iluminismo, movimento de acelerado desenvolvimento da ciência e fé no poder da razão humana, que seria capaz de promover um progresso sem limites. Nesse contexto, surgem as primeiras teorias que fundamentam os pensamentos actuais, como as concepções de que as doenças mentais são hereditárias e de que a melancolia constitui uma alteração da função nervosa e não dos humores. O Romantismo, movimento de reacção à razão apregoada pelo Iluminismo, promove a defesa do sentimento, imaginação e da mente voltada para o sublime, magnífico e comovedor. A depressão novamente se torna desejada. Para Immanuel Kant, o sublime sempre fora acompanhado por algum terror ou melancolia; na visão de Arthur Schopenhauer, o depressivo vive simplesmente porque tem um instinto básico e o trabalho constitui uma forma de distração dos homens de sua depressão essencial. Soren Kierkegard - precursor do Existencialismo - encarava a humanidade como melancólica.
No século XIX (marcado por descobertas na biologia, física, química, anatomia, neurologia e bioquímica), as doenças mentais - inclusive a depressão - foram relacionadas com patologia orgânica do cérebro e passaram a ser medicadas. Para Foucault, essa medicação constitui parte de um plano de controle social; para Friedrich Nietzche, Deus está morto e nós que o matamos.
Finalmente, Na Idade Contemporânea, ocorreram progressos científicos em torno da compreensão e tratamento das enfermidades mentais, acarretando a consolidação da psiquiatria e modificações na forma de atendimento e assistência ao paciente psiquiátrico. Sigmund Freud definiu a melancolia como uma forma de luto que surge de uma sensação de perda da libido, tornando o ego pobre e vazio. Em 1950 houve a descoberta dos antidepressivos, a partir de pesquisas, ainda não conclusivas, acerca dos neurotransmissores que regulam as emoções.
Actualmente, a depressão, salvo excepções, é uma doença mental segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde e de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, recebendo hoje abordagens científicas, como a médica, a psicanalítica e a cognitivista, além das visões filosóficas e religiosas que ao longo da história da humanidade sempre permearam a questão.

problemadomal.blogspot.pt

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