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quarta-feira, 5 de abril de 2017

A OPINIÃO DE OUTROS - As perguntas difíceis de Tavares, Gusmão e Carvalhas

Pergunta: pode alguém, durante um debate, dizer disparates, ignorar os adversários quando lhe chamam a atenção para isso, evitar as perguntas difíceis que lhe são dirigidas e ainda assim estar convencido - e querer convencer os outros - que tem razão? Pode, mas não é para todos.

Para quem não deu por isso (o que é tudo menos grave), há um debate em curso no jornal Público sobre a saída do euro e o retórico hábil é Rui Tavares, historiador e ex-deputado ao Parlamento Europeu. No artigo que lançou a discussão, Rui Tavares escreveu que caso Portugal saísse do euro (e cito) “não poderia exportar para os mercados que são os nossos maiores clientes no mercado único da UE”; acenou ainda com o risco de os “tribunais internacionais” poderem determinar “que a nova moeda não é transaccionável”; e acusou os defensores da saída de Portugal do euro de não explicarem “como se fará para redenominar as dívidas”. José Guilherme Gusmão, economista e dirigente do BE, respondeu-lhe pedagogicamente, explicando que as relações comerciais entre países não dependem da pertença à UE ou à zona euro, que a utilização de moedas nacionais não depende da decisão de “tribunais internacionais” e que a dívida emitida pelo Estado português está em geral sujeita à legislação nacional, pelo que não teria de ser redenominada em euros, caso voltássemos ao escudo. Esta mesma clarificação foi feita por Carlos Carvalhas, economista e ex-Secretário-Geral do PCP, em reposta no mesmo jornal. 

Tanto Gusmão como Carvalhas replicaram à acusação de Tavares sobre a indisponibilidade dos defensores da saída do euro para responderem a perguntas difíceis, desafiando quem se opõe a essa saída com a mesma pergunta: como pode uma economia como a portuguesa perspectivar um desenvolvimento sustentado a prazo dentro de um arranjo monetário que lhe é profundamente prejudicial? Realisticamente, que expectativas podemos ter de que esse arranjo monetário possa ser substancialmente alterado nos próximos anos? Rui Tavares não parou para reconhecer os erros da sua argumentação, nem para responder à questão que lhe foi colocada. 

Eu percebo e respeito quem valoriza o actual processo de integração europeia acima de tudo e que vê no fim do euro um enorme risco de dissolução de tudo o que se conseguiu nesse sentido desde a segunda guerra mundial. Também eu valorizo aquele processo, não iludindo porém a sua natureza ideológica e os interesses que nele predominam (que são tudo menos favoráveis ao bem-comum dos europeus); nem sobreponho a estabilidade do processo de integração europeia ao direito das democracias nacionais para definirem o futuro das comunidades que representam. É isto que está em causa na União Europeia que temos – e é por isso que não me revejo em quem quer proteger a UE de todos os riscos, mesmo que para tal tenha de recorrer a argumentos errados e diversões retóricas.

Aqueles que acusam os defensores da saída do euro – ou quem, como eu, assume que esse cenário tem de ser sempre considerado e devidamente preparado – de fugir às questões difíceis (e são muitas, sem dúvida), tem obrigação de clarificar uma questão básica: assumem que Portugal viverá para sempre dentro deste arranjo monetário, independentemente das suas implicações para o país e das opções de quem cá vive? Se a resposta for afirmativa, estamos conversados. Se não o for, temos todos a obrigação de pensar a possibilidade de vivermos fora do euro – e não fugir a esta discussão como o diabo da cruz.


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