domingo, 5 de março de 2017

Quando a droga está do outro lado da janela


A neta de Fernanda, de dois anos, "já pega em folhas de papel e finge que cheira droga". Imita o que vê da janela de casa, no bairro do Aleixo, no Porto. O cenário estende-se ao Cerco, Pinheiro Torres, Pasteleira, Lagarteiro e Aldoar.

É nos bairros sociais que o problema da toxicodependência mais se faz sentir na cidade. O Centro Histórico, nomeadamente a Sé, também não escapa. Há gente a consumir em plena luz do dia. Os edifícios abandonados pela cidade dão guarida ao vício. O tráfico faz-se às claras. A prostituição ajuda a pagar a dose. O fenómeno da toxicodependência está longe de ser erradicado e agudizou-se com a crise. As associações de apoio aos consumidores que andam no terreno garantem que há muito por fazer.

Não são as paredes que fazem as pessoas, são as respostas

O consumo ao ar livre

Nem todos os consumidores de droga do Porto vivem no Aleixo e "nem todos os moradores do Aleixo são drogados". Farta desse estigma, e para defender a família, Fernanda grita palavras pouco bonitas para um grupo de consumidores que se concentra num descampado, em frente à torre 2 do bairro. De pouco adianta. No dia seguinte estão no mesmo sítio. F.M. fala abertamente sobre o assunto. "Prometem-nos há anos salas de chuto, mas são só tangas. Preferem que a gente consuma à frente de toda a gente", queixa-se. Tem 42 anos de droga e poucos mais de idade. "Comecei com os meus pais e os meus filhos comigo. Já não vou largar, mas isto podia ter outra dignidade". Fala e aponta com o caneco [utensílio usado para fumar droga] para um camião branco, enorme, que acaba de estacionar. O logótipo da empresa bem visível dos lados. Toda a imagem é desconfortável para quem tenta resguardar-se dos olhares.

F.M. assegura que naquele troço da rua que dá acesso às torres do Aleixo "o que não falta são exemplos destes que, todos os dias, compram, consomem e depois vão-se embora. Fazem tudo assim, à descarada".

Sandra Vieira, psicóloga clínica, trabalha há dez anos numa equipa de rua da Norte Vida - Associação para a Promoção da Saúde, uma instituição privada de solidariedade social. É ela a primeira a dizer que "não são as paredes que fazem as pessoas, são as respostas". O que significa que, mesmo que tirem as pessoas do Aleixo, nunca tirarão a droga às pessoas. As carrinhas "Rotas com Vida", onde trabalha, percorrem por isso os locais de consumo mais problemáticos, na zona ocidental da cidade, como o bairro do Aleixo e de Pinheiro Torres. Tentam, pelo menos, reduzir os riscos e minimizar os danos de quem está dependente, construindo uma relação terapêutica com os consumidores.

Só queria que a minha família me viesse aqui buscar

O dinheiro fácil da rua

Florina aproxima-se tímida. Tem um pedido a fazer: "Posso contar a minha história?". Tem 37 anos e consome há 20. Passado tanto tempo, "é hora de parar". A voz fraqueja-lhe um pouco. Quase suplica: "Só queria que a minha família me viesse aqui buscar". O "aqui" é um lugar chamado dependência, que combina cocaína e heroína e a obriga a "tentar a sorte", em frente às piscinas do Cerco. "Ando cansadinha desta vida. Nem vejo as minhas filhas crescer". Da carteira tira a fotografia de uma criança. "As instituições já fazem muito. Dão-nos de comer ao meio-dia e à noite, mas a família tem outro poder". O sorriso da bebé, agora com dois anos, volta para o fundo da mala. "Se a minha família me deita a mão eu agarro a oportunidade com unhas e dentes", diz entre lágrimas.

Segundo José Goulão, diretor-geral do SICAD - Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências -, a perceção que existe é de que, "embora tenha havido um recrudescimento recente de franjas mais desorganizadas da população toxicodependente, muito à custa de recaídas de antigos consumidores (facto a que não será alheia a crise económica e social), estamos longe da realidade que enfrentámos nos finais dos anos 90". Mas há outras perceções menos animadoras. "Veem-se cada vez mais raparigas na prostituição", contam os técnicos das carrinhas de apoio. Troca-se o corpo por uma dose. É o caso de Joana. Foi parar à Alameda de Cartes, no Cerco, há uma semana. "Devíamos ter mais apoio para intervir logo nestes casos", revela Rui, da CASO. O grupo Consumidores Associados Sobrevivem Organizados trabalha há dez anos no terreno junto da população mais fragilizada.

Eu tenho casa. Só aqui venho para consumir

Edifícios ao abandono

Da Alameda de Cartes, Renata aponta para o esqueleto de um prédio. É lá que diz habitar com outras sete pessoas. Os edifícios abandonados são um clássico nesta matéria. À direita das piscinas municipais, um caminho sulcado na terra leva a uma casa em ruínas. É nesse sítio coberto de lixo que muitos consomem todos os dias. Porém, naquela zona, o pior caso será mesmo o da antiga escola básica do Cerco, onde muitos passam as noites. Há sete anos avançou-se que a escola seria transformada num centro de saúde. A construção da nova unidade deveria ter ficado pronta no final de 2011, mas degrada-se todos os dias. Joaquim, com quase 60 anos, tem ali um "apartamento". "Eu tenho uma casa. Só aqui venho para consumir. A discriminação que fazem aos toxicodependentes obriga a que a gente se organize desta maneira", lamenta.

Tenho um Ferrari num braço e uma moradia no outro

Falta de ocupação

João explica os seus motivos: "Não quero falar e não quero fotos, porque a minha filha não sabe que consumo", ilude-se. Parar, já depois dos 50 anos, "era uma asneira", ri-se. Toca no corpo com força: "Tenho um Ferrari num braço e uma moradia no outro, nem posso pensar no assunto".

Sérgio Rodrigues, colega de Rui na CASO, assegura que uma "ocupação faria muito por estas pessoas". "Não é a guerra às drogas que ajuda. Antes eram criminosos, agora são doentes, e por interiorizarem isso não conseguem ser autónomos e não querem trabalhar. Era necessário criar mecanismos que lhes dessem formação, pelo menos aos que já estivessem no programa metadona [redução de danos]", sustenta.

Sem dinheiro, não tive outra saída, voltei para o tráfico

O negócio

Um exemplo não são exemplos, porém, Manuel garante que a sua história ilustra bem a realidade de muitos ex-reclusos. Em 2014, o relatório anual de 2015 sobre a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências revelava que 69% dos reclusos inquiridos declaravam já ter consumido algum tipo de droga. Manuel pertence a esse grupo. Esteve detido na cadeia de Custóias, em Matosinhos, quase seis anos. Saiu em outubro. "Aquilo lá dentro é o piorio, mas cá fora é mais difícil".

Aos 40 anos garante que é com revolta que se deita e levanta, todos os dias. "Estive sem rendimento social de inserção quase meio ano. Tive de fazer-me à vida". Voltou ao Aleixo, mas assegura que nunca mais consumiu. "Usei droga durante 20 anos. Não imagina o que me custa agora andar com cocaína e heroína sempre nas mãos, mas isto é um trabalho para mim". Que lhe traz grande vergonha. "Não me sinto bem, sei que o dinheiro que levo para casa é sujo. Já estive do outro lado e sei bem o que a gente faz para conseguir ter uma dose. Mas, sem dinheiro, não tive outra saída, voltei para o tráfico".

























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