quinta-feira, 2 de março de 2017

PIMBA - Histórias do adro - de António Garrochinho


Era uma vez um país onde havia muita música. Música para pular, música para abanar o capacete, música para esbracejar como loucos, música para nos fazer esquecer a importância da música e vender, vender, vender.
As pessoas pagavam bilhete para ver os humanos que abriam a boca e diziam coisas repetidas acompanhados de ruídos sempre iguais e estridentes. Alguns músicos não tocavam nada, os instrumentos tocavam, grunhiam, por eles.
Os "cantores" faziam-se acompanhar de moças roliças que dançavam sempre da mesma maneira exibindo as coxas e as enormes mamas feitas de plástico reciclado e quiçá da pele de que eram feitos os tambores da bateria.
Uma mistura de luzes fazia parecer que tudo aquilo vinha do espaço sideral e por isso mesmo justificava o preço da entrada na bilheteira. Num desses sacrifícios a que pomposamente os criadores do evento rotularam de " especial concerto" continuava o artista berrando, fazendo pular o micro de uma mão para outra qual exímio malabarista e sucediam-se os títulos, as canções, que em nada diferiam uma da outra .
Eis que num ritmo mais louco e frenético no sapateado das bailarinas, o palco, também ele já cansado do miserável espectáculo, vem abaixo. PIMBA, PIMBA, PIMBA. Tudo se desmoronava peça a peça, PIMBA, PIMBA, PIMBA, enquanto isso, algumas pessoas porque estava calor debruçadas de uma janela de um primeiro andar poupando o ingresso, riam às gargalhas e exclamavam: ainda bem que não fomos ao recinto ou então levá-va-mos com toda aquela pimbalhada em cima e vínhamos completamente surdos para casa.
Um homem exclamava risonho: do PIMBA gosto mas é daquela ginástica debaixo dos lençóis mála minha Maria.
António Garrochinho

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