sexta-feira, 10 de março de 2017

OS MAÇONS, HOJE NA RODA DOS INTERESSES E DOS MILHÕES - Maçonaria em Portugal: Como funciona e porquê o secretismo?


São organizações rodeadas de secretismo, de ritos e rituais, de regras, simbolismos, hierarquias e compromissos, mas, afinal, o que são as obediências maçónicas e como funciona a maçonaria?


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De modo genérico, a maçonaria é uma sociedade semi-secreta e que se caracteriza por seguir os princípios da fraternidade, da liberdade, da igualdade, do humanismo ou da filantropia, e que, sendo progressista, tem como objetivo a construção de uma sociedade livre e justa. Porém, há ainda muita controvérsia em torno do tema.
Obediências maçónicas portuguesas
Entre dezenas de organizações maçónicas, em Portugal, existem atualmente duas grandes obediências ligadas à maçonaria: o Grande Oriente Lusitano (GOL) e a Grande Loja Legal de Portugal / GLRP.
A primeira, fundada em 1802, de caráter agnóstico e intimamente ligada ao liberalismo, é a mais antiga e influente em território nacional. A segunda, de cariz mais tradicional e reconhecida a nível internacional como regular, foi criada em 1991 sob o nome de Grande Loja Regular de Portugal. Em 1996, as divergências internas levariam, no entanto, a uma cisão e à criação de uma nova obediência: a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP). Uma divisão que, mais tarde, em 2011, viria a culminar numa reconciliação e na criação de uma única obediência.
No total, serão cerca de 5 mil os maçons agregados às várias obediências e lojas portuguesas.
Porquê o secretismo?
Não é uma questão de resposta fácil e direta, tal como muitas das questões relacionadas com a maçonaria, mas, segundo os maçons, mais do que qualquer tentativa de ocultar uma agenda ou qualquer atividade ilegal, o secretismo tem que ver, sobretudo, com a privacidade necessária para a realização dos rituais e com a não divulgação de símbolos ou formas de reconhecimento dos designados "irmãos" - os membros de uma determinada obediência.
Em declarações à TSF, José Adelino Maltez, politólogo e maçom assumido - e potencial candidato às eleições no Grande Oriente Lusitano, que é liderado desde 2011 por Fernando Lima - defende que o secretismo é apenas uma forma de preservar um certo "recato do ambiente litúrgico" em que decorrem as práticas, que são consideradas "ridículas" para quem se encontra fora do círculo maçónico.
Para o politólogo, seria, no entanto, benéfico para os próprios maçons que o grau de secretismo fosse menor.
"Sou favorável a que se acabe com alguns secretismos, porque não faz diferença nenhuma. Se alguém for bom cidadão, é ótimo que diga que é maçom, até para acabar com esta ideia de se consultar no Google e só aparecer a maçonaria ligada a situações mais complicadas", justifica.
Os símbolos
Quando se fala em simbologia ligada à maçonaria, é quase sempre o avental que é referido como o símbolo do maçom. Simboliza o trabalho, mas também a inocência, sendo que, de início, os "aprendizes" - sujeitos a um ritual iniciático - são presenteados com um avental branco, enquanto os superiores hierárquicos têm aventais mais elaborados.
Já o compasso e o esquadro, outros dos símbolos, podem ser a representação da perfeição, mas também da retidão, justiça e moralidade. No rol de símbolos, destacam-se ainda o cinzel, o malhete, a espada ou o triângulo, ligado à espiritualidade.
"Qualquer pessoa que vá à internet fica a saber quais são os símbolos secretos, as saudações, como é que se dá um abraço, o que é que se diz. Os rituais estão todos publicados, só não sabe quem não é curioso", diz José Adelino Maltez.
Qualquer um pode entrar na maçonaria?
A entrada surge através de um convite e o perfil do candidato, que é minuciosamente analisado, difere segundo a obediência à qual poderá vir a estar ligado.
Em regra, e, segundo os maçons, ao contrário daquela que é a visão do cidadão comum, de que os candidatos pertencem a famílias de recursos financeiros elevados, a escolha tende a recair sobre cidadãos considerados "exemplares", quer na vida social quer do ponto de vista da moralidade.
Ainda assim, e até porque a entrada numa organização maçónica irá dar lugar a alguns compromissos financeiros, o candidato, que é depois sujeito a uma série de entrevistas e a um período de iniciação, deve apresentar-se com a situação profissional bem definida e, dessa forma, com a possibilidade de se vir a comprometer com algumas das obrigações - como é o caso da atividade filantrópica.
"Quando se fala de um maçom diz-se que é um corrupto e que está ligado a uma destas operações da Polícia Judiciária e do Ministério Público, mas ninguém diz se tem uma instituição de solidariedade social, quantos os atos de filantropia foram criados ou quantas organizações surgiram de iniciativa maçónica, como hospitais", refere José Adelino Maltez.
Nesse sentido, o politólogo aponta o dedo àqueles que considera responsáveis pela não divulgação de alguns feitos beneméritos dos maçons: "Se calhar a culpa é da própria maçonaria".
As polémicas e as ligações políticas
Questionado sobre se a maçonaria tem hoje maior ou menor poder sobre a política, José Adelino Maltez não tem dúvidas: "Menos. Muito menos", mas a realidade aponta para um cenário bem diferente. Em 2012, o Diário de Notícias dava conta de que, na Assembleia da República, nove em cada dez deputados estavam ligados à maçonaria.
Porém, não só ao parlamento se estende a rede. Já em 2016, o Expresso noticiava que, com a chegada do novo governo, era clara a disputa entre as duas maiores obediências maçónicas portuguesas para chegar ao topo do SIRP (Serviços de Informação da República Portuguesa).


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