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sábado, 25 de março de 2017

Mitos e sinais das unhas


A unha, objeto de numerosas crenças, torna-se uma fonte de informações médicas e médico-legais.


Conforme as épocas e os meios, as unhas são longas ou curtas. Para os chineses, as unhas longas são sinal de distinção
No meio de um deserto de areias e rochas, a descoberta de uma mastaba, em 1964, na necrópole de Saqqarah, Egito, trouxe revelações surpreendentes. Ali estavam as tumbas de Niânkhkhnoum e Khnoumhotep, que viveram na V dinastia do antigo Império, em 2400 a.C. Segundo as inscrições nas paredes, os dois irmãos eram encarregados das manicures do faraó.
A descoberta comprova como, desde a mais remota Antigüidade, as unhas têm sido objeto de cuidados especiais. Presentes em rituais e diversas crenças ancestrais, as unhas também foram utilizadas em poções de amor ou receitas miraculosas, capazes de livrar os doentes de seus tormentos. Embora as fórmulas à base de unhas não constituam uma terapia comprovada, médicos e legistas atualmente recorrem a elas em busca de sinais do corpo. 
As Virtudes das Unhas
GEORGES ACHTEN COMPAROU A UNHA a um "semipêlo ignorado". Sua composição é próxima à dos pêlos e cabelos, mas há várias diferenças. Enquanto o cabelo sofre os caprichos de um ciclo evolutivo - os fios crescem, caem e perdem a cor -, a unha está submetida a um monótono crescimento. Seu surgimento se dá ao final do quarto mês de vida intra-uterina e, após o nascimento, a unha da mão cresce cerca de 1 mm a cada dez dias e a do pé, a metade disso. A velhice desacelera o crescimento, que finalmente se detém na morte, contrariando algumas idéias infundadas segundo as quais o tecido continua a crescer após a morte.
Todos os vertebrados superiores têm unhas. Nos pássaros e carnívoros, elas tornam-se garras, e nos ungulados como, por exemplo, os ruminantes, transformam-se em cascos. Apenas os homens e os primatas possuem unhas planas. Este apêndice desempenha várias funções. Ele protege a extremidade vulnerável dos dedos contra os choques e o frio e permite uma apreensão precisa dos objetos pequenos. A unha, considerada uma ferramenta, agarra, arranha, belisca mas, principalmente, assegura uma sensibilidade tátil. Quando pegamos um objeto, a unha detecta as informações táteis que permitem aos dedos ajustar sua pressão à natureza do objeto em questão. Na ausência da unha, dizemos que o dedo está cego. Um gesto simples como abotoar a roupa pode tornar-se tão desajeitado sem esse tecido que o resultado fica comprometido. Em tradições hoje abandonadas, as parteiras na Itália e na França afiavam a unha de um dos dedos polegares e a usavam para cortar o cordão dos recém-nascidos.
As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos
Poderes mágicos não eram atribuídos apenas ao pó do chifre dos rinocerontes. As virtudes conferidas aos restos de unhas também soam surpreendentes. Para males do estômago, reumatismos ou convulsões de uma criança, bastavam alguns restos de unhas e tudo ficava bem. A única dificuldade era conhecer o ritual, a posologia. Para impedir as convulsões de crianças, a prática mais disseminada consistia em enterrar ou queimar fragmentos de unha, ou reuni-los em um pequeno saco e colocá-lo sob o berço. Para um doente febril, havia, em toda a Europa, um único remédio: enterrar seus restos de unha em uma encruzilhada, de preferência à noite. Na Alemanha, para lutar contra problemas de estômago, cortavam-se e enterravam-se sob uma goteira 20 fragmentos das unhas das mãos e dos pés do doente. No sul da França, para fazer cessar as náuseas e os vômitos, fazia-se o paciente ingerir pó de unha.
De acordo com o médico francês Xavier Bichat (1771-1802), e também segundo o naturalista Jean-Baptiste Lamarck, seu contemporâneo, a unha é um "singular espaço anatômico que se presta a uma leitura filosófica", como relata Nicolas Postel-Vinay, escritor e médico que analisou a Anatomia Geral, de Bichat. Os antigos tratados de anatomia não eram apenas descritivos, mas, freqüentemente, ricos em digressões ideológicas. A Anatomia de Bichat estava marcada por uma filosofia vitalista, que tentava compreender as fronteiras da morte e da vida. Situada nas extremidades do corpo, a unha representava os limites de separação entre a vida e a morte, a civilização e a selvageria, o animal e o humano.
Em sua Anatomia Geral, Bichat consagra às unhas um artigo inserido na seção Épidermoïde. Segundo ele, a epiderme e as unhas são "espécies de corpos inorgânicos". O selvagem, o animal e o inorgânico são limites para a expressão do humano. A unha é um corpo "estranho", exterior à vida, uma marca que reflete a perspectiva vitalista, em que a vida se caracteriza por um movimento de expansão do simples ao complexo e do mole ao duro. Bichat constata que as unhas dos pés dos idosos tornam-se "extremamente grossas".
As unhas longas enrolam-se sobre si mesmas. Shridhar Chillal, indiano, detém o recorde das unhas mais longas do mundo (6,15 metros, no total, para as cinco unhas). Ele as deixou crescer durante 48 anos
Bichat trata, em seguida, de outras questões, principalmente a da relação entre a unha e a sociabilidade humana. "Unha polida e cuidada, marca de decoro; unha em forma de garra, marca de animalidade." Algumas pessoas, entretanto, fazem do crescimento das unhas um ponto de honra, para satisfazer um desejo estético ou uma vontade de se diferenciar. Os chineses consideravam as unhas longas um sinal de elevada distinção: entre os mandarins, o comprimento das unhas simbolizava os esplendores da ociosidade e da preguiça.


Ainda hoje, os dançarinos balineses deixam crescer as unhas da mão esquerda. Com isso, provam que não precisam suportar o trabalho cotidiano no arrozal e que a sua arte basta para prover suas necessidades. Montesquieu observou em sua obra magistral, O Espírito das Leis, que "há vários lugares na Terra em que se deixa crescer as unhas para sinalizar que não se trabalha". Dois séculos mais tarde, alguns habitantes do Extremo Oriente ostentam unhas com quase 70 cm. O recorde mundial cabe a um indiano. Suas unhas da mão esquerda, cuidadosamente enroladas, têm um comprimento total de mais de 6 metros (ver foto ao lado).
Sob as unhas longas, a sujeira acumula-se facilmente. Quando não há higiene, diversos microrganismos podem se desenvolver. A sujeira acumulada sob a unha forma um meio que contém mofos, como o Aspergillus flavus e o Aspergillus parasiticus, dos quais muitas variedades produzem as aflatoxinas, substâncias tóxicas. Há também as micotoxinas, metabólitos de mofos, que estão entre os tóxicos naturais mais poderosos da Natureza. A manutenção das unhas é, portanto, vital.
Hora Marcada
Por muito tempo o dia consagrado ao cuidado das unhas foi escolhido segundo critérios precisos. Na França, cortar as unhas nos dias "em R" (mardi/terça-feira, mercredi/quarta-feira, vendredi/sexta-feira) trazia infortúnios e fazia crescer pequenas peles em torno da unha. Na Holanda, o cuidado às sextas-feiras provocava doenças; na Dinamarca, aparar uma unha no domingo traria aborrecimentos. Para os portugueses, o sábado era dia proibido, pois estava reservado para que o demônio cortasse as unhas. Se a data importava, o lugar também: na Antigüidade, era proibido cuidar das unhas a bordo de uma embarcação, sob pena de atrair tempestades.
As unhas freqüentemente entravam na composição de poções de amor ou para as dores dos apaixonados. Para ser eficazes, esses líquidos mágicos deveriam ser preparados de preferência às sextas-feiras, dia de Vênus. Segundo os anglo-saxões, para enamorar um homem bastava misturar uma colher de café de unhas a uma bebida e fazer o eleito beber, sem saber de sua composição. Desde a Idade Média, na França e na Inglaterra, as moças carregavam, como amuleto, as unhas de seus amados para "amarrá-los" pelo casamento.

Com o recurso adicional de sedução, desde a Antigüidade as mulheres embelezam suas unhas. Durante séculos, as moças elegantes poliram as unhas com a ajuda de uma fina poeira abrasiva, geralmente de pedra-pomes, e passaram diversas tinturas, em particular de hena, utilizada no Egito Antigo e ainda em moda no norte da África. Na América Central, até os anos 70, as prostitutas tinham unhas coloridas e ornadas com motivos decorativos.
O esmalte de unhas só foi descoberto nos anos 20, em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Sua produção se deu a partir da nitrocelulose, um explosivo obtido ao se fazer as fibras de celulose, obtidas do algodão ou da madeira, reagirem em uma solução concentrada de ácido nítrico. Após a ebulição, a nitrocelulose torna-se solúvel nos solventes orgânicos e, depois da evaporação, deposita-se em uma película dura e brilhante, chamada de laca. Em 1930, Charles Revson teve a idéia de utilizar pigmentos opacos para colorir esta laca incolor e, em 1932, criou a Revlon.

Desde 1930, os esmaltes evoluíram, adquirindo as mais diversas cores e eliminando risco de alergia. Alguns deles são utilizados para tratamentos, já que atravessam a placa ungueal. Os esmaltes antifúngicos, por exemplo, combatem certas onicomicoses, doenças causadas por fungos que destroem a unha. Um esmalte de cortisona está sendo testado para combater a psoríase das unhas. Liberando medicamentos imunomoduladores, ele poderia agir sobre as verrugas que se desenvolvem sob a unha, eliminando-as sem soltar a placa, intervenção necessária hoje. Observar as unhas pode revelar características mais ou menos fundamentadas sobre as pessoas. Os elegantes as mantêm cuidadas e coloridas; os ansiosos costumam roê-las.
Unhas Reveladoras
DO EXAME DAS UNHAS E DE SUAS LESÕES, os médicos extraem informações confiáveis. Por exemplo, contrariando uma idéia disseminada, as manchas brancas não estão vinculadas à falta de cálcio, mas, às vezes, a uma carência de zinco. As manchas amarelas são freqüentes nas pessoas que fumam muito, mas também naquelas que seguem um longo tratamento antibiótico com ciclinas. Algumas unhas apresentam faixas negras como códigos de barras, que surgem em decorrência, por exemplo, de disfunções hormonais (uma insuficiência das glândulas supra-renais), da ingestão de certos medicamentos citotóxicos ou de tumores da matriz ungueal. A forma e a textura das unhas também fornecem indicações. Unhas convexas e sem brilho encontram-se às vezes em pessoas acometidas por uma doença cardíaca ou pulmonar crônica grave. Costuma-se dizer que unhas secas e frágeis resultam de falta de vitaminas A, B ou E ou de uma carência de cálcio, mas a suplementação, muitas vezes proposta, nem sempre é eficaz. Mas sabemos tratar de unhas côncavas, que assinalam um eventual déficit de ferro na criança.
O estudo da unhas é também uma fonte de informações em medicina legal e, mais especialmente, criminal. Vestígios de sangue ou de terra sob as unhas constituem indícios, da mesma forma que os arranhões que elas podem deixar. Certa vez, os policiais da Scotland Yard investigavam um desaparecimento. Eles só haviam encontrado uma unha no chão de uma adega londrina. Entraram em contato conosco e pediram nossa ajuda. Estabelecemos então que a unha pertencia a uma mulher, não em razão de sua forma, mas porque continha ferro. Nas mulheres que usam esmaltes coloridos, a queratina ungueal retém por mais tempo os óxidos de ferro presentes nos corantes. A análise toxicológica das unhas em medicina legal pode revelar os sinais nas unhas produzidos pelo envenenamento por arsênico: faixas brancas transversais em todas as unhas (as faixas de Mees).
Mas esse domínio, rico em promessas, ainda deve ser decifrado. Os resultados poderiam ser empregados na luta contra o doping, em que o exame das unhas fornece algumas informações. Pesquisadores britânicos desenvolveram uma técnica baseada na análise da extremidade livre das unhas dos dedos do pé que poderia evidenciar, antes de uma competição, traços de produtos ilícitos dopantes, como a testosterona e a preguenolona, mais de um ano após seu emprego (a renovação de uma unha do dedo do pé ocorre entre 12 e 18 meses). Este método foi testado com êxito na busca por sinais de heroína ou de cânabis nos toxicômanos. A onicologia - a ciência das unhas - passou a ser uma realidade científica com crescentes possibilidades terapêuticas, tornando indispensável a inserção da semiologia das unhas no ensino e na prática médicos.

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