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domingo, 5 de março de 2017

MARGENS DA HISTÓRIA - O ESTRANHO CASO DO CAPITÃO DREYFUS





                       



    Nos finais do século XIX, um acontecimento social e político tornou a França num campo de batalha da opinião pública à volta de um grande escândalo. Graves suspeitas de espionagem a favor dos alemães, que podia ser pior?
    Era o caso Dreyfus que se iniciava. Os franceses, durante anos, não falavam nem discutiam acerca de outra coisa. Em público, ou privado, quem tocasse no assunto, arriscava-se a uma tal discussão que acabava em desacatos ou até numa boa bordoada. Os caricaturistas não perderam a ocasião para boas sátiras e, antes de um jantar circunstancial o melhor era estabelecer a regra de que não se falaria no caso, ou o repasto acabaria em discussões e descortesias demasiado desagradáveis.
    Mas que caso era esse que muito ultrapassou outros acontecimentos aparentemente bem mais graves e tornou os franceses debatidos nos quatro cantos do mundo?
    Até então, Alfred Dreyfus, (1859-1935) era apenas mais um capitão francês, de família alsaciana, que podia talvez até ter uma bela carreira no exército. De repente, uma série de suspeitas gravíssimas caem sobre ele. Acusam-no de espionagem, de traição e de conspirar contra a pátria a favor dos alemães. Os indícios foram porém sempre muito polémicos e confusos.
    Surgiu um documento altamente comprometedor nas repartições do Estado Maior alemão em 1894. Tudo indicava haver algum espião francês a soldo dos alemães que estava a dar informações preciosas aos inimigos. Uma empregada de limpeza encontrou num caixote de lixo informações secretas e, por causa disso, começava um caso que inflamou os ânimos dos franceses dividiu a nação e até muitos outros países do mundo incluindo Itália, Portugal ou o Brasil. Tornava-se um assunto internacional.



                 
    As características deste capitão Dreyfus são importantes para o entendimento do caso. Era da Alsácia, província disputada pelos franceses, há bem pouco tempo na guerra franco-prussiana. Era judeu e, para piorar a situação de uma família judia culta e de ricos industriais. Muito reservado e com ar um pouco agradável, não tinha muitas simpatias. Podia-se desconfiar dele com o antissemitismo crescente. Era ainda o primeiro judeu a chegar a um posto tão elevado e na altura, tinha então apenas 35 anos.
    Sem consenso acerca do modo como foi descoberto o tal documento comprometedor, se estava mesmo num caixote de lixo, ou quem o encontrara, o certo é que um grande mal-estar e desconfiança invadiam o Ministério de Guerra que se transformaram em suspeita geral que se alastrava por todos os ministérios.
    Quem seria o culpado ou os culpados?  A desconfiança entre os militares era crescente e todos esperavam que aparecesse alguém desmascarado para pôr fim a tão constrangedora situação. Havia um traidor oculto e não se podia saber até onde o caso podia ir. Para apaziguar os ânimos e manter a moral face ao escândalo, era preciso, o mais depressa possível, identificar o espião, ou conseguir um bode expiatório, que seria excelente para acabar com o clima de suspeita que se vivia.
   O documento fatal, ou o “bordereau”, como ficou conhecido, era uma carta sem assinatura e que precisava de ser identificada. Foi sobre o capitão Dreyfus, que era então oficial de artilharia, que caíram as suspeitas.  A culpa ou inocência do oficial alsaciano passa a discutir-se por todo o lado. As provas? Passavam a segundo plano. Aliás, o secretismo de um caso como este, tornava a opinião pública capaz de dar sentenças, incriminar, ou inocentar o oficial judeu sem quaisquer provas, testemunhos ou argumentos com justificação sólida.
    Em termos de concluir o assunto e mostrar um culpado tudo se passou em pouco tempo. A solução oficial do caso deu-se rapidamente. Dreyfus é acusado em setembro, em outubro é preso e o julgamento por um tribunal militar foi célere, em apenas quatro dias, pouco antes do Natal de 1894 o tribunal decide e é dado por culpado, Dreyfus é condenado. Tudo foi seguido por uma multidão sedenta de vingança seja de quem quer que fosse e muito mais sabendo-se que era um judeu.




    A sentença foi prisão perpétua na Ilha do Diabo para onde embarca logo em Fevereiro do ano seguinte. Antes, a 5 de janeiro, num espetáculo terrivelmente humilhante, retiram-lhe os galões e quebram a sua espada de oficial. A multidão ululante seguiu os acontecimentos com furor desmedido e o julgamento foi comprovado pela opinião pública.








    A colónia penal na ilha do Diabo, situava-se nas Guianas francesas e que por grande ironia, recebera a denominado de arquipélago das ilhas da Salvação. Salvação! Ali não havia salvação mas horror e morte. Para além da monstruosidade da pena, o horrível clima da ilha, o degredo para a vida inteira em condições desumanas não podia deixar de ser terrível.


  


    O livro “Papillon” de Henri Charrière,  (1969) que escreveu a sua autobiografia num estilo simples como se fosse falado  e que devido à sinceridade da sua escrita teve grande êxito, bem como  o filme do mesmo nome e com esse tema desempenhado pelo malogrado ator Steve McQueen -demonstram a vida infernal dos presos e a ilha rodeada de tubarões assassinos.
      

       





 Todos os prisioneiros,  enviados  para um tal degredo, estavam a cumprir penas por crimes medonhos e ali era fácil um preso enlouquecer, suicidar-se ou morrer de mil doenças devido ao clima insalubre. Além disso, o capitão estava a ferros, numa espécie de cabana, em péssimas condições, sem sequer ver a luz do sol e tinha ainda tais castigos que só demonstravam o ódio que criara à sua volta.
    O antissemitismo, ajudado pelo rancor aos alemães e desprezo por traidores, deu provas de grande força pelo enorme tumulto da multidão enfurecida que acompanhou o julgamento. A opinião pública tomava conta da situação e não eram os tribunais que ditaram a sentença.






                     
    O castigo de Dreyfus não calou o público. Pode dizer-se que era a ponta de um enorme icebergue do ataque aos judeus que aconteceria anos mais tarde, com toda a sua violência.
    Algum tempo depois da ida de Dreyfus para o degredo, aparece outra acha para a fogueira. Desta feita era uma defesa do condenado. Em outubro de 1896, o jovem jornalista Bernard Lazare, um poeta e anarquista da época, inicia a publicação de mais de 60 artigos intitulados "O erro judiciário - A verdade sobre o caso Dreyfus" no jornal “L'Echo de Paris”. Por toda a França se lia e discutia a ferro e fogo o assunto.



             


    Entretanto um irmão do acusado, sempre confiante na possibilidade de provar a sua inocência, Mateus Dreyfus, estava convicto de que era preciso haver novas investigações antes de haver essas campanhas para revisão do caso. 
A exaltação dos franceses acendeu-se ainda mais quando apareceu no jornal “Le Matin”, uma nota a confirmar a assinatura do prisioneiro no fatal memorando. Eram menos agora as esperanças de provar a sua inocência.
    Faltava ainda mais um golpe de teatro a contrariar o desenrolar dos acontecimentos. Nos fins de 1897, Mateus Dreyfus, sempre seguro da inocência do irmão, descobre que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy era o verdadeiro culpado. Sem mais dúvidas, a sua assinatura é reconhecida. Um banqueiro de origem portuguesa, de nome Castro, afirma que a assinatura encontrada é de um seu cliente. Tratava-se do major Esterhazy.


                          


    Face às provas que evidenciavam a inocência de Dreyfus, agora era possível um segundo julgamento. O caso contava já com o apoio do famoso escritor Zola, conhecido mundialmente e muitos outros dreyfusianos ilustres. Para indignação e espanto de uns, incompreensão e suspeita de outros, Dreyfus é novamente julgado e recebe uma nova sentença, outra vez condenatória. Agora, porém aparece que o tribunal lhe encontrara outras provas e assim era outra vez considerado culpado, porém “com atenuantes” o que não deixa de ser confuso.
 É óbvio que cresceu a indignação dos que acreditavam na inocência do oficial judeu. Por outro lado, como entender a aparição de haver “atenuantes” se dão nova condenação agora com 10 anos de trabalhos forçados?

                 


    Acirraram-se os ânimos e as polémicas por todo o lado. Os antissemitas franceses estão exaltadíssimos e há fortes manifestações em Paris clamando contra os judeus. Porém os anti dreyfusianos depararam-se com defensores dos judeus, em número crescente, enquanto do outro lado a reação também subia de tom. Aos defensores de Dreyfus, Bernard Lazare e Scheurer veio juntar-se o jornalista Teodoro Herzl, famoso por ser o criador do sionismo e do ideal de um Estado de Israel, muito perturbado pela vaga de antissemitismo que alastrava na França e no resto da Europa.

                              
                      





    Este ódio aos judeus tinha fortes raízes. O escritor Edouard Drumont, em 1886, publicara "La France Juive", uma obra muito polémica contra os judeus. Outras obras semelhantes aparecem insinuando males causados pelos judeus, a sua influência excessiva na sociedade e na sombra da política.  
O clamor era grande e o clima reacionário crescia com ataques a judeus, roubos, pilhagens, mortos e feridos. Mesmo na Argélia francesa houve até autênticos “pogroms” com muitos mortos e as revoltas sucediam-se.
    A escritora judia, Hannah Arendt, 1906 - 1975)  recentemente, ainda evocava  este estranho fenómeno de massas quando escrever: “toda a vida política da França durante a crise Dreyfus passou-se fora do Parlamento”.







    Seria à volta de um assunto do foro dos tribunais, que os franceses tanto se exaltavam e ainda mais se agitavam. Demonstra bem os terríveis conflitos que se escondiam por trás de um só homem. Vítima ou culpado, no fundo isso era de menor importância. Nada melhor do que o sentimento da vingança e do insucesso para empedernir o coração e debilitar a razão. 


    O caso do capitão Dreyfus teve um tal impacto que ultrapassa em muito os aspetos pessoais, familiares ou da sua carreira. A ligeireza com que, no início, os Ministérios trataram a situação deu lugar à desconfiança e ao medo. Cresceu o temor de graves consequências de uma nova guerra com a Alemanha. A França tornava-se num barril de pólvora e com bons motivos para explodir. 
    Os ânimos já muito irritados exaltam-se e a discussão da inocência ou da culpa do oficial é a questão fulcral de todo o país. Emociona, comove, enfurece e irrita, sem haver nada concreto pois o julgamento foi a portas fechadas e ninguém podia verificar as provas.
As razões de Estado são sempre sólidas. Só que este era um bom pretexto para mostrar descontentamento e reativar conflitos da época tão mal curados. As guerras perdidas causavam raiva e soavam a retaliação cada vez mais alto.Aquando do primeiro julgamento, toda a França tremeu, as disputas faziam furor nos cafés e botequins, enquanto os jornais alimentavam a polémica, suscitando paixões, entusiasmos ou um ódio fatal ao oficial judeu que, depois das piores humilhações, fora condenado.
    Tornava-se numa causa pública, um pomo de discórdia para afastar o público dos reais problemas do país e, ao mesmo tempo, apagar qualquer sombra de culpa dos ministérios franceses que se viam envolvidos num escândalo tal que, tendo, um bom pretexto para ter um culpado, podiam sentir-se a salvo da opinião pública.    
    Porém a imprensa sentiu o filão a explorar, como se vê em tantos casos desde então, pois o sensacionalíssimo vende sempre e cada vez melhor que deu tal destaque como não havia memória de outro caso igual. Hoje já não se falaria assim!














    Choviam artigos a favor e contra de todos os lados a mostrar que não se tratava só do capitão alsaciano, mas era muitíssimo mais do que isso. Era a divisão interna da França.










    Por um lado, havia uma fação com vontade de um regresso à monarquia, também não se podia esquecer todos os ressentimentos que a comuna de 1871, causara a outros, especialmente ao medo por parte da burguesia, e á frustração dos revoltosos, as achegas que vinham das leituras de Marx e Engels, sem poder esquecer também a derrota da guerra franco-prussiana, que tanto ressentimento causou no nacionalismo francês, agravado ainda pela perda das suas províncias.
    A humilhação de ter sido na cidade de Versalhes, o centro mais solene e emblemático da monarquia francesa, que o rei da Prússia, Guilherme I, com toda a pompa e circunstância, em 18 de janeiro de 1871 foi proclamado imperador de uma Alemanha unificada foi muito grave para os franceses. O acontecimento passou a ser o dia da fundação do moderno estado-nação reunido sob Berlim – o II Reich.
    Era o sonho de Bismarck que se realizava e os franceses tinham toda a razão pelo seu enorme descontentamento.

         








A tudo isso podemos acrescentar o receio crescente de espiões escondidos entre os patriotas, ou ainda a tese dos judeus estarem ocultos na sombra à espera da hora de atacar e de serem eles mesmo espiões que a troco de avultadas somas conspiravam contra o seu país. Aliás, discutia-se mesmo se essa era a sua pátria. Foi a opinião pública que guiou a sentença dos magistrados.
O poder da opinião pública, foi o que fez tremer a mão de Dreyfus, ao copiar o documento incriminatório e, como os heróis, não tremem, a conclusão mais óbvia era de que tinha de ser culpado. A sua vacilação quase ditou a sentença. Quem podia duvidar de um veredicto pronunciado por multidões em fúria e seguras das convicções para além dos factos?


 



    A culpa do verdadeiro autor do “bordereau” levanta fortes questões ainda hoje muito obscuras. Teria sido a cobardia e o ódio de um outro militar, Esterházy (1847-1923) um oficial do exército francês, de velha e nobre família húngara que, por detestar Dreyfus, urdira toda a trama e o documento que serviu de prova. O ódio bastaria para uma tal denúncia? O caso envolvia também quantias elevadíssimas, depoimentos contraditórios e desconfianças muito confusas, à mistura com cartas anónimas e os artigos nos jornais. Havia ainda a publicação das cartas familiares do capitão à esposa Lucie e desta para o marido. Mas coloca-se ainda outra interrogação. Não seriam tais cartas escritas de modo a influenciar os possíveis leitores?
    Os factos são contraditórios e dão um clima de suspeita que se alastrava.
Se Esterházy era um espião, ou um caluniador, é bem estranho que, quando foi descoberto e julgado, não fosse castigado, mas sim absolvido. A pergunta ainda hoje tem razão de ser. Mas nessa altura não houve reações ou ânimos exaltados.
    Por que razão lhe deram um tratamento tão diferente do outro acusado e porque é que foi absolvido por um crime que levara o outro para a Ilha do Diabo?
Saberia ele demasiado? Era preciso calá-lo?
     À distância a que estamos dos factos, há novas perspetivas. Será que havia mais espiões e de patentes ainda mais altas?Esterházy acusou Dreyfus como forma de esconder casos, bem mais graves, dentro do ministério de Guerra ou de outros ministérios?

                                  


     Eram vários os culpados e o caso estendia-se como um os tentáculos poderosos de um polvo ao qual não se podia cortar os braços demasiado extensos para poderem ser apanhados pela lei?A situação interna respirava muitas situações ambíguas, medos, suspeitas e um mal estar geral.
.     No fundo acusava-se a França e não um só homem, esse não passava de excelente pretexto.Se foi uma ação de propaganda contra a república, de forças antissemitas e xenofobia face a uma França desunida, ou uma série de atos de corrupção e de espionagem por parte dos mais altos oficiais do Ministério de Guerra, nunca se poderá descobrir.
    A questão Dreyfus foi muito mais do que o próprio Dreyfus, aliás um militar cumpridor, pouco simpático e muito reservado. É curioso como depois abandona a reserva nas cartas que escreve para a família enquanto esteve no degredo. Não esconde os horríveis sofrimentos, nem diminui as dores que passa, lança gritos dilacerantes e lamentações impressionantes, de mistura com expressões de afeto e de inocência.

                   
                                     

     Pelas cartas que escrevia à esposa, os seus protestos e lamentações são ecos da terrível e lastimável situação. Levanta-se a hipótese de estar ciente de que essas missivas seriam lidas por muitos, e não apenas a família. Assim, esconderiam o intuito de comover muita gente para além da esposa? Não há sinais de valentia ou de estoicismo face ao sofrimento. A dor e a aflição ao lado das lamentações e saudades da família são o assunto único nunca temperado por brados de valentia face ao infortúnio, ou mesmo alguma palavra de ânimo para os seus. Tais cartas muito perturbariam a mulher e os dois filhos pequenos. Mas a família procurava defesas e veio a encontrá-las.
    Após o veredito do segundo julgamento que causou a maior indignação ao escritor Émile Zola, este publica  “ J´acuse”, 1898, no jornal “ L Aurore”.


       

 




 Este escritor era um dos maiores vultos intelectuais do seu tempo, equiparando-se aos maiores romancistas de todo o mundo.
O seu artigo fez furor e esgotou a edição do jornal. O texto apresentava, provas da inocência do capitão, pelas investigações do inspetor Picquart, notável pelo empenho nas diligências que fez para descobrir pistas até chegar ao culpado.
       Mas o mais importante do texto de Zola era o facto de citar diretamente uma série de nomes sonantes do exército e tornou o escândalo ainda maior do que a sentença.
 Zola foi épico, inflamado e único, na sua carta aberta ao Presidente da República, Félix Fauré. Ergueu a França num coro de protestos, ao ponto em vários locais havia tais discussões, com tumultos graves.
  “O meu dever é falar, não quero ser cúmplice. As minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, [ na terrível Ilha do Diabo] por um crime que ele não cometeu.











                  



     Nunca artigo algum teve tamanha fama e um tal eco no mundo jornalístico. Recorda um tribuno romano pela espantosa capacidade de despertar emoções pela escrita insuperável. A revolta de Zola deu brado e alertou os franceses contra a arbitrariedade do julgamento e condenação do capitão Dreyfus. A petição para a revisão do processo fora assinada por dezenas de intelectuais, como o famoso escritor Marcel Proust, Anatole France, que cheio de revolta, devolveu a sua medalha da Legião de Honra, e ainda muitos outros intelectuais. Fez coro com eles a revoltada massa estudantil e muitos populares. Nada disso demoveu as forças do Estado, nem ministérios, nem tribunais. Durante anos, entre suspeitas e acusações, afirmações de inocência e incriminações a França viveu o drama deste militar.
     O próprio Zola, depois do artigo ter esgotado a edição de 30 mil exemplares,  foi levado a tribunal, com graves consequências pelo seu gesto,  com condenação a prisão e multa, que foi paga por um amigo Octávio Mirabeau.


                           


    O diretor do jornal foi preso e também pagou uma pesada multa. Entretanto Zola partira para o exílio em Inglaterra,  durante um ano, único meio para poder escapar à prisão.
 Em 1899 - o tribunal de cassação anula o julgamento de 1894 e reabre o processo. Dreyfus é reenviado a um novo conselho de Guerra em Rennes para novo julgamento em 1899. Isso não liberta Dreyfus. Continua a ser considerado culpado, e é condenado a 10 anos de cadeia. Repare-se que as penas vão diminuir, como se a opinião pública é que desse a sentença. É uma ironia ou pasmo ainda maior que, no dia 19 de Setembro de 1899, o capitão é amnistiado e deixa a prisão. Apesar de tudo isso, da alegria da restituição à família e à liberdade, não lhe retiraram o estigma da culpa.
     Se, bem mais tarde, as provas levaram a julgamento Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, considerado então o verdadeiro culpado do crime de traição, há um tratamento completamente diferente para este espião descoberto. É uma Justiça sem verdade e com dois critérios como tantos casos se conhecem na História!
    No meio de acusações e negações, algo escapa a um completo entendimento. A Justiça demonstra uma parcialidade incrível e só causa um descrédito espantoso. Que razões de Estado se escondem e como é que os Tribunais podem ser tão frágeis face à verdade? 
     Por que razão afinal, depois de descoberto um outro culpado, este é absolvido pelo tribunal? Se era culpado, porque não foi também para a ilha do Diabo? Haveria razões para temer que houvesse mais franceses, de altas patentes até, envolvidos na espionagem? Por que razão Dreyfus nunca pede uma indemnização ao Estado francês? Porque não acusa os tribunais? Porque se mantém sempre calado e demonstra um comportamento tão conformista?
Haverá sempre interrogações sobre este caso mais do que sombrio que arrastou anos a fio os franceses a um clima de instabilidade social e descredito político.





    



    No início da segunda guerra mundial, o Dr.Bruno Tavares Carreiro, (1888-1957) conhecido por ser grande admirador de Antero, tendo mesmo investigado e escrito a mais cuidada e pormenorizada biografia sobre o pensador micaelense que até hoje serve de precioso apoio aos anterianistas, ilustre jornalista e político, parece que se apaixonou quase fanaticamente pelo caso Dreyfus.
    Talvez o prefácio explique um pouco esse interesse, pois escreve que neste caso de juntam heroísmos e crimes, figuras admiráveis e sinistras e, à roda deste assunto, se reuniu a humanidade num ideal de Justiça e de culto da honra que fica como exemplo imortal para os homens em todos os tempos. O certo é que T.C. passou longos anos em profundas pesquisas, até publicar uma das suas obras mais conhecidas na época, “O Caso Dreyfus” 1939-1950.
A motivação para um trabalho tão profundo e também único em Portugal está, possivelmente, na vontade de T.C., conceituado jurista açoriano, em defender, aos 51 anos que então tinha de ter, pelo menos uma vez na sua vida de jurista, a possibilidade de advogar num dos mais célebres casos de tribunal onde encontravam todos os ingredientes para estudo, desde o filósofo ao político, do sociólogo ao militar, até ao dramaturgo, ou ao cineasta e que deixou feridas que nunca mais se apagaram da memória dos homens.
    Ser advogado de Dreyfus, mesmo em ficção, é um desafio e também é desvendar um pouco as terríveis tramas sociais e políticas, a inveja e a admiração, o medo e a cobardia, os amores e ódios e, acima de tudo, a força da opinião pública nessa era.


                
 



    A França inteira, dividida entre forças opostas, foi levada a tribunal, sem ter um veredito final e só atacada e defendida por opiniões exaltadas e extremistas até se reduzirem estranhamente ao silêncio. Mas um silêncio que grita muito alto e ainda incomoda mais.
O caso Dreyfus depois de tudo ter terminado, separava-se das pessoas envolvidas e passava a ser um problema político e social que interessava pouco discutir.
        O açoriano mostra uma tal admiração por Dreyfus que deixa mais falar o coração do que o advogado que era. Torna a peito ser defensor do alsaciano, marcando bem o seu horror por este drama. Por outro lado, condena logo mesmo no início o major Esterhazy, o verdadeiro espião, sem seguir a cronologia do caso.
    Com uma paciência quase infinita na recolha de documentos, elabora uma obra que trata em forma de tragédia mas com triunfo da Justiça.
Os diálogos imaginários e as cartas muito comentadas que ilustram o drama dão um ar de ficção mais do que realidade, por serem estranhos aos factos e serem fruto da sua ficção e assim há uma certa perda do rigor estrito para estudo. Isso pode ter sido um meio de tornar o caso mais próximo dos leitores. Descreve com extrema minúcia o que se passava nos ministérios onde a desaparição de documentos levantava tantas suspeitas. Dividiu a obra em atos como um drama: Da “Iniquidade”,  em que trata da prisão e condenação; depois o “Suplício”, com a terrível afronta, humilhação pública e vivência na Ilha do Diabo, através das cartas trocadas entre Dreyfus e a mulher Lucie que sempre se mostrou forte e corajosa face às dores e desespero do marido. Surge a “Batalha”, no empenho do irmão Mateus e dos dreyfusianos em descobrir a verdade. Aqui T.C. não julga a má fé da opinião pública, nem acusa a direita ou a esquerda. Deseja mais falar dos que lutam quer contra quer a favor. Se mostra já a primeira “Brecha” na condenação, passa à “Verdade em marcha”. Todavia um indulto é ainda muito pouco para apagar o erro judiciário. O final é a apoteose da “Justiça” em que Dreyfus é condecorado com a Legião de Honra. Mas qual o sentido dessa medalha, se nunca foi declarado formalmente inocente, mas sim amnistiado? Um perdão, neste caso, não equivale a um insulto’


 


    A bela obra de T.C. deixa por mencionar o silêncio da opinião pública após o indulto que se desinteressou pelo caso. Isso só revela que Dreyfus era o pretexto e não a causa. Estranhamente, o verdadeiro espião, que seria Esterhazy é julgado e absolvido sem grande relevo e a opinião pública não se manifestou. Causa bastante admiração que tal aconteça pois os factos são os mesmos e só mudaram as personagens. Por que razão tudo se passa como se não houvesse culpados?


  


 





    Esterhazy é o oficial que se apresentara ao surpreso militar alemão Schartzkoppen para, a troco de avultada quantia, dar informações preciosas ao inimigo. Este alemão negou firmemente, como seria óbvio, qualquer veracidade de tudo isso.  
Mas impõe-se a pergunta, não seria perfeitamente lógico que negasse qualquer envolvimento com espionagem? A cena descrita por T.C. é algo pouco verosímil com a recusa indignada de Schartzkoppen que ficaria horrorizado por uma tal ação. Por fim, o alemão aceita as informações com bom lucro para ambos. Segundo confissão do espião, este teria necessidade extrema de dinheiro pois tinha dívidas e precisava de fazer operar a esposa quase a morrer. Fora esta a justificação para a espionagem e traição. 



                  
          

 



                         
    Para T.C., Dreyfus foi vítima dos colegas, não só do ódio de Esterhazy, pois um judeu entre altas patentes militares era inédito e sem simpatias. As perguntas acerca das viagens que fazia foram altamente suspeitas pois as datas não coincidindo bem podia estar a mentir. Também quando afirmava não se recordar de um facto, isso podia ser um meio de omitir a verdade.



            

 

    A reação de Dreyfus, quando confrontado com a acusação, deu forte aval à “prova” do delito. Tremeu ao copiar a carta. Sabia porque tinha de copiar tal missiva. Mas porque razão não se opôs ou mostrou ofendido? Não esteve à altura da situação. Disse que estava com frio nas mãos, estávamos em pleno inverno, acrescenta T.C. e era essa a razão da sua letra irregular.
    Mais tarde, o presidente da República Clémenceau dirá que o seu grande erro foi a falta de firmeza e a timidez de uma resposta que não demonstrou ser a de um oficial altivo e brioso. Faltou-lhe um espírito forte e impetuoso que calasse os delatores. Os seus protestos de inocência e a afirmação de não conhecer quaisquer inimigos pessoais foram fracas defesas.
    Há que ter em conta que, apesar da sua vida dissoluta, caráter extravagante e gastador impenitente, Esterhazy era simpático e com mérito inegável. T.C. não quer ver essa particularidade. Aqui o T.C. usa, talvez sem o notar, o “argumentum ad hominem”. Afasta-se do caso para descrever amplamente os erros do traidor que se deviam ter em conta. Já a defesa de Dreyfus tem muito do “argumentum ad populum pois, a cada passo nos incita à piedade e à simpatia pelo acusado e sua desolada família.
    O major Esterhazy era o culpado. Mas quem o diria ao compará-lo com Dreyfus? Granjeara amigos e conseguira uma carreira brilhante, com um espírito vivo e alegre tendo por “feitos de guerra”, recebido em 1882, a condecoração da Legião de Honra.
                           
             


 



    Mais tarde, Dreyfus também receberá uma medalha. Mas que valor têm todas elas? O nosso açoriano chama a Esterhazy “um herói falhado de Balzac” e divide os dois protagonistas mais por adjetivos pejorativos para um e lisonjeiros para o outro do que por factos bem claros.
Um bom político não é um bom juiz, muito menos procura a verdade. Sem pragmatismo, que seria de qualquer político? Não interessa ser mas também parecer, desde a mulher de César.
   É paradigmático como os ideais transtornam os factos. Zola, já de regresso de Inglaterra, onde se exilara, quis oferecer um jantar em 1906 ao capitão Dreyfus e à esposa. Era a confrontação real com o homem que defendera pelos seus ideais e pelo qual tanto lutara.




 



    Diante da figura apagada e intimidada do capitão, face ao seu aspeto tacanho e desajeitado, nada simpático, Zola sentiu uma forte desilusão e quase repulsa. Não via aquela aparência heroica e garbosa do inocente que tanto esperara encontrar. Entre a realidade e o imaginário vivido e alimentado à roda do caso, o grande escritor ironicamente era vítima da sua própria criação.
    Dreyfus era apenas um militar, judeu, inocente e era muito mais do que isso, tornara-se um símbolo de uma França dilacerada por ódios e paixões, algo muito mais grave do que a condenação de um só homem.


             
 



    Infelizmente Zola não chegaria a ver o fim do processo. Apareceu morto por asfixia devido a gaz misteriosamente em 1902. Dreyfus ainda teve de esperar 4 anos para ser reconhecido inocente, sem outro julgamento. O novo pedido de revisão feito em 1902, só em 1906, foi confirmado definitivamente com a inocência de Dreyfus, mais uma vez sem julgamento.
    Olhando para a sua figura já no fim da sua vida, com um ar perdido, quebrantado, de rosto fechado, não se adivinha o que possa pensar de tanto sofrimento que teve.
    Admira muito que nunca exigisse ou, pelo menos, pedisse qualquer indemnização ao Estado, pela arbitrariedade do processo, que manchou para sempre a carreira que, antes deste caso, era promissora, nem exigiu pagamentos pelos danos económicos, sofrimentos tão graves, nem pela enorme humilhação sofrida. Manteve-se sempre calado e nada pediu ou exigiu pela afronta e erro de que foi vítima.
    Haveria mais elementos neste tenebroso caso? Quantas pessoas se ocultam na sombra e nunca se soube? A sua passividade mostrava uma reação imprópria de um lutador. Aceitou a perda de tempo de serviço e entrou na grande guerra onde serviu como coronel em Paris. Quanto morreu, aos 74 anos, em 1935, já nem notícia de relevo foi.
    Tristes marionetas nos conflitos históricos, as pessoas retratavam os ódios e as ideológicas que ressurgiram mostrando a antissemitismo que se ocultava sob uma tolerância hipócrita.
    Recordar este caso é não esquecer como os ódios, as paixões se acendem e apagam, as multidões se agitam e a verdade ou a justiça não passam de uma ilusão que o vento da História se encarrega de varrer. As vítimas e os culpados confundem-se bem perigosamente. Os grandes julgamentos são fruto das arbitrariedades do que se chama lei, ou ética coletiva para Aristóteles. Apesar de realista, cada Polis tem o juiz que merece.



 



    Refletir sobre tudo isto é aprender a ver serenamente o “pathos” humano e temer muito mais a arbitrariedade e as ideologias subliminares do que o longo braço de qualquer lei.
    Lei? Justiça? Sonhos para uma noite de maio em promessas de primavera. Depois do sonho, a realidade impõe-se.



         

 


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