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quarta-feira, 15 de março de 2017

Lady Day: uma voz eterna e dolorida


    A história de Billie Holiday merece ser contada. Foi uma artista grandiosa, que na beleza e sensibilidade de sua arte escondeu a miséria de sua vida.

    A memória de uma voz que era emoção pura, que transmitia toda a crueza da miséria, da indignidade, da perda, da ruína, do sofrimento e de tudo o que, enfim, foi a sua vida.
   
    Conhecer sua biografia é enfrentar um desafio emocional profundo, uma viagem aos abismos da natureza humana, uma lembrança de quão sórdida pode ser a existência por detrás das luzes e dos aplausos.
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    Eleanora Fagan nasceu em 7 de abril de 1915. Sua mãe tinha treze anos quando ela nasceu; seu pai tinha dezesseis e até os dez anos foi criada por uma tia. Depois passou algumas temporadas no reformatório ou viajando com a mãe, que não tinha um trabalho fixo, vítima de abusos e constante abandono.

    Com quatorze anos foi viver com a mãe, no Harlem, e passou a prostituir-se para sobreviver, até que foi presa por quatro meses. Nesse período aproximou-se da música e, posteriormente, começou a cantar junto ao saxofonista Kenneth Hollan.

    Envolvida pelos temas de Louis Armstrong e de Bessie Smith, aprendeu a cantar e a dar nova interpretação ao que cantava. No início dos anos trinta já era conhecida nos clubes de Nova Iorque.

    Em uma de suas primeiras interpretações emudeceu a plateia ao cantar Travellin’ all alone, fato que mais tarde recordaria dizendo que, naquele instante, se houvesse caído um alfinete, teria soado como uma bomba.  
    Começou a cantar regularmente e adotou o nome de Billie - em homenagem a Billie Dove, grande estrela do cinema mudo e modelo da mulher de sucesso em um mundo dominado por homens – e Holiday – sobrenome paterno, como forma de um contato ilusório com uma figura ausente, com seus ascendentes escravos, com aqueles que buscaram a dignidade na pobreza.

    Um homem foi essencial à sua carreira: o legendário John Hammond, caça-talentos da Columbia, que a ouviu cantar em 1933 e imediatamente a colocou junto a Benny Goodman, a grande estrela do swing de Chicago, para gravar pela primeira vez: Your mother's son in law.
    Sua voz prontamente despertou a atenção e aos poucos tornou-se conhecida no mundo do jazz. O saxofonista Lester Young, que ela chamava Prez (presidente) e que a tratava como Lady Day converteu-se em um de seus melhores amigos. Juntos, protagonizaram gravações históricas.

    Entre 1935 e 1942 realizou mais de cem gravações nas quais cada canção trazia uma interpretação que nenhum outro artista era capaz de reproduzir. Seu timbre era especial e a emoção com que cantava era, ao mesmo tempo, simples e profunda. 
    Sempre cantou acompanhada pelos melhores músicos, como Lester Young, que foi o grande amor de sua vida e que, como ela, viveu uma existência autodestrutiva. O sax tenor de Young e a voz de Billie Holiday forjaram obras primas.
    Outros grandes músicos em sua carreira foram o pianista Teddy Wilson, o trompetista Charlie Shavers e o clarinetista Artie Shaw. Também cantou com lendas como Johnny Hodges, Roy Eldridge, Ben Webster e Count Basie.
    Contudo, longe dos refletores, Billie Holiday enfrentava a realidade de uma artista negra na época. Como todos os músicos negros, entrava pela porta dos fundos e era impedida de reunir-se com os brancos. A estrela do espetáculo era tratada dessa forma e, na sordidez das ruas, participava do tráfico de drogas, iniciando-se no caminho que mais tarde aniquilaria sua vida.

    Um artista negro não tinha condições, na época, de viver da música. A venda de discos se reduzia a poucas pessoas e as apresentações aconteciam em clubes pequenos. Além disso, boa parte dos ganhos de Billie era entregue aos seus companheiros ou aos traficantes.

    Sua época dourada inclui canções como My Last Affair (This Is), My ManI Can’t Get StartedNight and DayYou Got To My Head e, sobretudo, Strange Fruit, canção que foi o marco divisório da sua carreira, que canta a história do linchamento de um negro que lutava contra o racismo imperante nos Estados Unidos e se converteu em um lema do movimento pelos direitos civis.

    Anos mais tarde, Billie incluiu nos contratos uma cláusula reservando-se o direito de interpretar o tema em todos os seus shows. Strange Fruit foi considerada pela revista Time, em 1999, a melhor canção do século XX.
    Billie viveu relações pessoais nocivas, desprezando a todos os que a tratavam bem e preferindo a companhia de homens que acabavam destruindo seu coração. Viveu intensamente ciclos nos quais se envolvia constantemente com homens violentos e amorais e que, aliados ao consumo de álcool e heroína, precipitaram sua vida em um vazio.

    Em 1941 casou-se com o trompetista Jimmy Monroe e, ao mesmo tempo, manteve um caso com outro, Joe Guy. Nenhuma das duas relações foi adiante e, em 1952, casou-se com Louis McKay que, curiosamente, ao mesmo tempo em que por estranhas convicções religiosas tentou livrá-la das drogas, também foi responsável pelas cicatrizes que Billie exibia no rosto em público e por sua ruína definitiva.

    Seus últimos anos de carreira trouxeram várias iniciativas musicais, como a gravação do programa The sound of jazz para a CBS, em 1957, onde realizou interpretações memoráveis de temas como Fine and MellowI love you Porgy e God Bless the Child,  junto a Webster Young, Gerry Mulligan e Coleman Hawkins.
    A voz e o corpo de Billie Holiday se ressentiam da falta de autoestima e de apreço pela vida, mas apesar disso, em 1958, gravou Lady in Satin, um dos discos que melhor a definem como uma artista única.

    Os anos seguintes foram ainda mais lamentáveis em sua vida pessoal. Por sua condição de mulher, negra e viciada em drogas e álcool, converteu-se no alvo principal do Departamento Federal de Narcóticos, passando vários meses na prisão e suas ausências coincidiram com a ação de inúmeros aproveitadores que a deixaram na miséria.

    Ao falecer, em 17 de julho de 1959, vitimada por uma cirrose hepática, Lady Dayreuniu três mil pessoas em seu funeral, mas em sua conta bancária tinha apenas um dólar.

    Em sua autobiografia, deixou um aviso: "Você estar vestida de cetim, comgardênias no cabelo, e não ver uma única cana de açúcar por vários quilômetros, mas ainda assim vai continuar a trabalhar em uma plantação".

    No vídeo abaixo, o documentário Lady Day, The many faces of Billie Holiday, uma retrospectiva de sua carreira que foi gravado no ano de 1990, co-produzido por Toby Byron/ Multiprises e dirigido por Matthew Seig.

deanimaverbum.weebly.com

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