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segunda-feira, 20 de março de 2017

Há um outro Algarve por descobrir


Domingos-Vaz
“É geralmente sinónimo de praia e calor, mas também um lugar de história, tradições, gastronomia e paisagens serranas de tirar o fôlego. Rumámos a Sul para encontrar outro(s) Algarve(s).”
“Agora que as temperaturas já não convidam a banhos de sol e dias infinitos de praia, fomos até ao Algarve descobrir que outros segredos esconde a região veraneante por excelência. Do artesanato à gastronomia, passando pelo vinho e actividades ao ar livre, encontrámos diferentes projectos que procuram mostrar que o Algarve é muito mais que sol e mar.”
“Razões suficientes para voltar a descer até ao sul do país e explorar a serra, as localidades do interior ou o rio Guadiana.”
Artes e ofícios
“Vamos abri-la para tentarmos ripar, cortar as barrigas e depois entrelaçá-la.” Estamos em Loulé e Odete Rocha vai-nos pacientemente explicando o que fazer com a folha de palma que temos entre as mãos. Há que ter sempre quatro tiras de um lado e cinco do outro e continuamente enlaçá-las numa trança até o tamanho ser suficiente para criar um cesto, uma mala ou um tapete.”
“Odete nasceu em Benafim, uma pequena povoação no interior do concelho, e foi lá que aos nove anos se interessou pelo artesanato ao “ver os trabalhos que uma vizinha fazia”. Hoje, a artesã de 59 anos vende as peças feitas de palma e esparto em exposições, lojas e feiras. E dá formação a quantos queiram aprender: “É importante que as pessoas conheçam o que havia antigamente e que é obrigatório nós usarmos agora porque a palma é saudável e tem origem no campo, ao contrário do plástico”, defende.”
“A empreita é uma das técnicas de artesanato que descobrimos numa tarde dedicada às artes e ofícios típicos da região. Pouco depois, metemos as mãos na argila algarvia com o oleiro Armando Martins e iniciamos um cesto de cana e uma rústica espingarda de brincar com Domingos Vaz. Entre conversas animadas recheadas de histórias de outros tempos, cada artesão vai explicando como tratar e trabalhar a matéria-prima.”
“Os mini-ateliers fazem parte da segunda fase do projecto TASA (Técnicas Ancestrais, Soluções Actuais), que reúne artesãos e designers com o objectivo de utilizar os métodos tradicionais em novos produtos, úteis, inovadores e “vendáveis”. Além de 15 novas peças (há um cesto de piquenique, por exemplo, inspirado nas técnicas de fabrico de pandeiretas e tambores), o projecto tem agora um programa de workshops (um dia, meio dia ou fim-de-semana) onde os interessados são convidados a ir a casa de cada artesão aprender as fases do ofício, desde a recolha e tratamento da matéria-prima ao trabalho da peça.”

Das mãos de um mestre cesteiro das Furnazinhas

Cesta do pão - nocícias
Cesta do pão
Esta cesta para guardar pão, que recorre à arte da cestaria em cana algarvia, apresenta uma inovadora forma oval que não é habitual ver-se nos cestos tradicionais. Incorpora uma tampa no topo para resguardar e conservar o pão e duas pegas laterais de madeira que a tornam muito prática de transportar. É decorada com entrelaçados que formam um padrão geométrico inspirado nas platibandas e mosaicos algarvios. O seu interior é revestido a pano cru, que se retira e lava com facilidade. De dimensão generosa, convida a guardar os saborosos pães algarvios de tamanho familiar.
Artesão: António Gomes
Design: Proactivetur_ Joana Cabrita Martins  & Ana Rita Aguiar
O mestre cesteiro, do monte das Furnazinhas
O monte das Furnazinhas é berço de cesteiros formados pela necessidade e o engenho de gerações de antepassados. As lides rurais, a abundância de cana e a atividade piscatória exercida nas proximidades, criaram o costume entre os homens de aproveitar os tempos de descanso para fazer cestos e canastras.
António Gomes não foi exceção. Começou aos 7 anos a fazer cestos com o junco “que é mais fácil de trabalhar”. Mais tarde, atreveu-se com os companheiros a “enlear” (entrelaçar) a cana. Ele e os amigos viam os gestos repetidos dos mais velhos, e quando iam com os porcos aos barrancos, aproveitavam para rachar cana, fazendo e desmanchando até que tomavam o jeito, “porque isto não se aprende num dia, vai-se aprendendo”.
Mais velho começou a fazer o seu “pé de meia” à conta das canastras que vendia a “10 tostões” aos pescadores. “Cheguei a fazer 24 numa noite, eu e um companheiro, à luz do candeeiro de petróleo”. Foi assim que levou 300 escudos para Moçambique onde fez o serviço militar. Retornado, foi marceneiro, mecânico e manobrador de máquinas “de arrasto” no campo.
Quando os plásticos invadiram a nossa vida, os cestos em cana tornaram-se apenas uma entretenha e uma teima de quem não perde o gosto à arte.
No final dos anos 80, António Gomes foi formador num curso em Castro Marim onde ensinou um grupo de jovens mulheres. Foi uma experiência inesquecível, mas a única que teve na área do ensino. Atualmente o seu envolvimento com o artesanato, limita-se aos “mercados do Castelo” de Castro Marim, onde por vezes apenas vende um cesto.
Quando a Joana Cabrita e a Ana Rita Aguiar apareceram no “monte” das Furnazinhas, foi uma revolução. O mestre Gomes readquiriu o entusiasmo do desafio de fazer algo diferente e de voltar a relacionar-se com a “malta mais jovem”. Mas não foi só ele. Sempre que elas chegam, a vizinhança entra na oficina do cesteiro para observar os avanços e opinar sobre os resultados. Aproveitam para contar histórias dos outros tempos e comprovar na emoção com que falam, a magia deste lugar tão singular.
Esta cesta do pão tem a mão do mestre Gomes em tudo. Fez e desmanchou as voltas da cana as vezes que foram precisas para que o cesto ficasse com a forma atipicamente oval, o tamanho certo, a reprodução exata do desenho. Reportando aos seus saberes de marceneiro construiu as asas da madeira. Com a sapiência da ruralidade, enrolou a fibra de pita para fazer a corda que prende a tampa.
A expressão do mestre cesteiro ao olhar para a sua obra é de visível alegria. “Gosto de fazer estes inventos, e de saber que esta cesta que estou a fazer vai para o Porto”, afirma com orgulho e humildade. E também é isto que nos dá alento para continuar com este projeto. Um bem haja ao monte das Furnazinhas e à sua extraordinária gente.

Designers e artesão da cortiça num rodopio

 O nosso escritório é onde quisermos. Candeeiro Pião
Um candeeiro de secretária inspirado nos inesquecíveis piões de madeira.  O candeeiro pousa diretamente na superfície da mesa ou do chão dando aso a múltiplas e práticas formas de direcionar a sua luz. É feito artesanalmente a partir de aglomerado de cortiça, um material ecológico português extraído do sobreiro, classificado como a Árvore Nacional de Portugal. Tanto a base de madeira como o fio elétrico apresentam-se nas cores azul, amarelo, vermelho, rosa e laranja. A cortiça pode ser aproveitada para afixar lembretes com pioneses.
ARTESÃO: António Luz 
DESIGN: Proactivetur_ Joana Cabrita Martins & Ana Rita Aguiar
António Luz, o artesão da cortiça
Primeiro marceneiro, agora artesão da cortiça, António Luz tem mãos hábeis e ideias sabidas. “Não gosto que me deem palpites quando não sabem do que falam, mas gosto de aceitar ideias novas”, remata. É esse equilíbrio entre a teima do saber e a paixão pelo desafio, que constitui a imagem de marca deste artesão, com quem o Projecto TASA não prescinde de trabalhar desde o início, em 2010.
Há todo um processo de negociação que tem de ser conduzido entre designers e artesão para que se chegue a consenso sobre o produto final. “A peça tem de ter jeito, para além de ser bonita, tenho de ver que é viável, se não, não a faço”, explica. “O que vale é que reajo sempre bem às ideias delas [designers Joana Martins e Ana Rita Aguiar] pois as peças que elas trazem no desenho são engraçadas e quase sempre viáveis”, atira com o seu riso brincalhão, que é meio caminho andado para angariar a nossa incondicional simpatia.
Domina a técnica de trabalhar a cortiça a tal ponto que quando um designer lhe apresenta as ideias, consegue fazer mentalmente o percurso inteiro do processo de trabalho, antecipando os erros que podem acontecer pelo caminho. “Normalmente faço as peças todas na minha cabeça à noite e quando me levanto já tenho parte do trabalho adiantado”, confessa.
É com os fundamentos da experiência que discute com as designers todas as soluções que podem levar, por exemplo, a diminuir o desperdício de material. Porém, sabe reconhecer a vantagem de introduzir sugestões que aperfeiçoem e inovem o resultado final, ainda que encareçam a peça.
Nestes meses intensos de trabalho com as designers diz ter aprendido a ter mais paciência para ouvir os outros e a imaginar novos produtos para o seu artesanato (está sempre com a cabeça no objeto que vem a seguir).
Defensor da inovação do artesanato, afirma que essa é a melhor forma de lhe dar continuidade, mas pede que haja o devido reconhecimento do valor associado a essas peças “mais sofisticadas”. E justifica: “demoram mais tempo a fazer, exigem mais paciência, fazer e refazer com todo o cuidado, e se as pessoas não reconhecerem não as podemos vender, nem trazer trabalho para o artesão”.
Mas uma luz acende-se. O artesão verifica que os mais jovens sabem ler a dedicação que está por detrás desse tipo de peças, inovadoras e úteis, como as do TASA. “Dá-me esperança no futuro do artesanato”, conclui com aquele sorriso do tamanho do mundo.

Histórias vivas na memória de Alcoutim, para inspirar

Alcoutim, tal como outros concelhos, é um repertório vivo de memórias associadas às artes e ofícios. As pequenas povoações deste vasto concelho nordeste algarvio, são testemunhas de um passado ainda muito recente, em que as comunidades se provinham dos artefactos necessários às lides rurais, recorrendo aos recursos naturais mais abundantes, ou àqueles oriundos da atividade mercantil que por ali se fazia. Ambos, lugares e habitantes, estão povoados de objetos carregados de histórias e de histórias guardadas na memória dos seus atores.
As principais artes tradicionais que marcaram a produção artesanal desta região no século passado foram a olaria, as artes do metal, a tecelagem e a cestaria. Tal se deve aos recursos disponíveis e também às necessidades associadas à atividade rural e à época.
A tradição oleira era estimulada pela presença de terrenos ricos em argila. Martinlongo, importante freguesia do concelho, foi um dos principais centros oleiros até à década de sessenta do século XX, chegando a haver doze fábricas de louça de barro e cerca de trinta oleiros. Hoje, resta apenas uma olaria praticamente pronta a funcionar à espera de quem queira retomar esta atividade
Fazendo parte do quotidiano rural, o metal servia como matéria-prima para inúmeros artefactos, sobretudo, alfaias, ferraduras, e utensílios domésticos.
Fernando Colaco (2)
A latoaria, dedicava-se à elaboração ou reparação de objetos produzidos em chapas de estanho ou zinco. Pelo que referiu um antigo latoeiro de Martinlongo, produziam-se alguidares, tachos para cozer tremoços, almotolias, regadores, potes de azeite, candeias, cataventos, moldes para fazer filhós, cântaros e caldeirões para a água e funis. Não faltou trabalho, até surgir o plástico.
Na memória dos alcoutenejos, regista-se a presença fortemente marcada de artífices do ferro, representadas nos ofícios do ferreiro e do ferrador. O ferreiro forjava ferro para fazer variados objetos, na maioria alfaias, balanças e ferraduras. Faziam ainda objetos úteis do quotidiano como camas, lavatórios ferrolhos e trempes. O ferrador dominava a arte de ferrar, ou seja colocar ferraduras no casco de animais (profissionais esses que nem sempre as forjavam). Por vezes, estes dois ofícios eram acumulados por uma só pessoa. No Pereiro é possível visitar “A Casa do ferreiro”, um interessante Pólo Museológico “onde é possível conhecer esta tradição. Nesta aldeia ainda habita o último ferreiro que trabalhou nesta oficina e que alimenta o desejo de partilhar a sua arte com quem a queria conhecer.
A cestaria é praticada nesta região sobretudo com cana e esse ofício competia (e compete ainda) aos homens. Os abundantes canaviais nas margens do Guadiana e seus afluentes, ou junto aos barrancos, providenciavam a matéria prima para criação de canastras, cestos, cestas e cestinhos, tão úteis nas lides agrícolas, piscatórias e domésticas. Conhecem-se ainda três mestres cesteiros a laborar.
Antonio Ramos (2)
A lã e o linho eram os materiais utilizados na tecelagem artesanal que se fazia em grande número em meados do século passado em várias freguesias do concelho de Alcoutim. Esta região conheceu muitas tecedeiras a trabalhar nos teares feitos artesanalmente em pinho. Neles se teciam as curiosas “Colchas de carapulo” (também conhecidas por “mantas de albardarura” ou “mantas de aparelho”) que serviam para utilizar nos animais como enfeite em dias festivos, festas pagãs ou religiosas. O “carapulo” é uma técnica em que se repuxa o fio de maneira a formar figuras, na maior parte das vezes geométricas que se repetem harmoniosamente. A linha branca da teia contrasta com o azul anil ou preto da lã tingida nessas cores. Das muitas tecedeiras, restam agora menos que as que se possam contar pelos dedos de uma mão.
Mas a criação de artefactos em Alcoutim não se limita àqueles transmitidos de geração em geração ao longo dos séculos. O engenho humano joga mão de outros recursos capazes de mobilizar, como a criatividade. Há perto de 30 anos que Martinlongo é conhecido pelas suas características bonecas de juta, miniaturas que retratam profissões típicas da região e atividades tradicionais. Começaram a ser produzidas na sequência de um curso de formação profissional que originou a criação da “Flor d’Agulha”. Esta pequena unidade artesanal, especializada em produção de miniaturas em juta, laborou até há poucos anos atrás. Duas artesãs ainda trabalham nesta arte.
Outras vezes, nunca se chega de facto a saber a história de algumas artes nascidas da propensão humana para a criatividade. É o caso das cestas de palhinha do “Fernandilho”, uma pequena povoação recolhida na lonjura, a 40 km da sede de concelho. É lá que vive uma artesã que aprendeu com o seu tio a aproveitar uma erva fina, a que chama palhinha, para fazer cestas e chapéus. Dessa erva aproveita os caules, que junta em feixes, e cose em forma de espiral. Não é muito diferente da técnica de cestaria oriunda do Norte de África que em Portugal se chama de “breza”, mas ninguém sabe explicar como é que ela foi parar ao Fernandilho.
Cestaria em palhinha (5)
O Projecto TASA está em Alcoutim a inspirar-se nestas histórias, as contadas pela memória coletiva de criar a partir das práticas ancestrais, e também estas outras que falam de novas formas de criar a partir do que a terra dá.
Brevemente, irão nascer os resultados desta inspiração.
Nota: O Projecto TASA está a colaborar com o município de Alcoutim em ações de dinamização das artes e ofícios que passam, além de outros aspetos, pela criação de produtos feitos com artesãos do concelho.
http://projectotasa.com

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