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sábado, 4 de março de 2017

ESTA BATATA NÃO É SÓ DOCE, TAMBÉM DÁ SAÚDE

Aqui se traçam os estranhos desígnios de uma raiz a que chamam batata e apelidam de doce, mas que pouco engorda e menos mal faz a diabéticos. Em poucos anos, a batata-doce passou de besta a bestial, e é por isso que rumámos a sul, ao encontro dela. Bom apetite

Luísa Oliveira
Jornalista
Rumo ao Sul, o termómetro do carro chegou aos dois graus e começou a piscar, como um alarme. Temíamos, por isso, tiritar assim que pisássemos os terrenos do maior produtor de batata-doce nacional, a empresa Atlantic Sun Farms, junto à praia do Carvalhal, já no Algarve do Sudoeste. Felizmente, a viagem foi de 250 quilómetros e deu para a temperatura subir, permitindo até que o sol de inverno nos aquecesse enquanto enterrávamos os pés no solo arenoso que esconde as batatas. “Ela também se dá em barro, mas depois é difícil apanhá-la sem se estragar, porque tem a pele muito sensível”, ensina-nos João Costa, 35 anos, o gerente da quinta.
O meio da manhã já é muito tarde para quem anda na apanha da batata – nem um português. Nesta altura do ano, não se espera que haja raiz já com dimensão suficiente para as encomendas, mas os 120 hectares que a empresa semeia pelo Parque Natural, e as diferentes variedades que por lá existem, assim o permitem. “Como mantemos o solo bem drenado, conseguimos ter batata-doce quase o ano inteiro”, explica Silvana Oliveira, 33 anos, a gerente da empresa.
Algo que não acontece com os pequenos produtores, aqueles que só se dedicam à variedade certificada. Quando uns quilómetros abaixo, e umas horas mais tarde, já ao cair do dia, fomos espreitar os campos que Helena Arsénio, 68 anos, cultiva sozinha, só encontrámos ervas daninhas e resquícios do que foi a sua pequena colheita do ano passado. Mas já lá voltaremos. Por enquanto ainda estamos em cima do trator verde, a perceber de perto como se apanha parte das 2700 toneladas que a Atlantic Sun Farms (detida por alemães, que se encantaram com a região e as condições ideais para esta cultura) produz – 80% dela irá para fora do País, especialmente Alemanha e Holanda.
Do cimo do trator, vê-se o mar
Deste troço de terra que ainda falta lavrar, avista-se o azul do mar bem perto. Mas isso é coisa que não importa para quem está de olhos postos na batata-doce, num silêncio concentrado, apenas interrompido pelo rouco ruído do trator, que avança lento sobre o cultivo. Quando passa por cima do rego onde há rama, apanha o que houver no terreno, a eito, e atira os exemplares recolhidos para cima de um tapete rolante na plataforma atrelada. É então que dois trabalhadores, de cara tapada e bem abrigados do frio, retiram as ervas que vêm agarradas, e mais a terra e as pedras. Atrás deles, outros quatro dedicam-se à primeira escolha – nem tudo vai para o armazém. E o que se aproveita cai em caixas de madeira, cheias aos 390 quilos. Tudo isto se passa na companhia de uma elegante garça branca, que caminha a um ritmo compassado, sempre atrás do trator.
Esta será a rotina por aqui até fevereiro, quando se desbastarem os 31 hectares que ainda escondem batata-doce. Em maio recomeça a sementeira, nos terrenos em que a colheita ocorreu mais cedo. E, em agosto, os tratores voltam a entrar em ação. Entretanto, no armazém guarda-se a batata-doce Lira, a de polpa branca, laranja ou roxa, a uma temperatura ideal, depois de elas passarem pela lavagem, serem calibradas e embaladas. Lá fora, espera-as um camião TIR que se encherá da raiz antes de viajar até à Alemanha.
Mas este, voltamos a repetir, é o calendário especial de uma quinta que fatura quatro milhões de euros, produz muita batata-doce e tem como objetivo chegar às cinco mil toneladas em 2017 (nada que se compare ao “rei da batata-doce”, que produz 240 mil toneladas na Califórnia. Para saber mais sobre esta história, há que ler a caixa O rei é português).

A Lira protegida
Os restantes agricultores do concelho, que também são sócios da Associação de Produtores de Batata-Doce de Aljezur, têm outra agenda, mais rigorosa. O produto que retiram da terra, a chamada Lira, é selado, desde 2009, com a Indicação Geográfica Protegida, e só dá uma vez por ano. 
“É única, genuína e mais doce. Quando se coze, fica consistente e adequa-se muito bem à doçaria”, garante Manuel Marreiros, o presidente da associação, que agora também se dedica a esta cultura, mas antes presidiu à Câmara Municipal.
Para as cerca de duas dezenas de produtores desta variedade de batata-doce, janeiro é a altura para se dedicarem ao viveiro. Quando a raiz pega, lá para maio, fazem a transplantação para a terra onde ela irá crescer. E só em setembro começam na apanha. Quando bem armazenada – nas instalações da associação, na zona industrial do Rogil, por exemplo –, num ambiente em que a humidade não passa dos 80% e a temperatura dos 14 graus, pode aguentar-se até ao verão. Isso só não acontece porque as 250 toneladas que todos apanham são curtas para as encomendas – e as encomendas não saem muito da região.
Polvo à Lagareiro, com puré de batata-doce, vinagrete algarvio e chips de alho, assinado pela chef Susana Felicidade e servido no seu restaurante Pharmacia, em Lisboa
Polvo à Lagareiro, com puré de batata-doce, vinagrete algarvio e chips de alho, assinado pela chef Susana Felicidade e servido no seu restaurante Pharmacia, em Lisboa
DR
A chef Susana Felicidade, 44 anos, dona dos restaurantes Pharmacia e Cozinha da Felicidade, na capital, é uma das que se abastece com produtores locais para os seus pratos. Não admira muito – nasceu na Arrifana, uma bela praia do concelho de Aljezur, e desde que tem memória que a batata-doce faz parte dos pratos lá de casa. “Até vir para Lisboa, achava que o cozido à portuguesa se fazia com batata-doce, porque na minha região ela não fica fora de nada”, lembra. O clima da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano, aliás, é perfeito para este tipo de cultura: muito ameno, com sol quase todo o ano e terrenos arenosos e húmidos.

De besta a bestial
As recordações de Susana Felicidade (que criou pratos como bochechas de porco estufadas com puré de batata-doce ou rosti de batata-doce, palha de batata-doce e salmão fumado), ou de qualquer pessoa da sua zona, são de um tempo em que a batata-doce ainda era malvista. Pensava-se que por ter doce no nome e no paladar engordava muito e era até proibida a diabéticos. Com a crescente importância da nutrição, que se empenhou em estudos científicos para determinar as características deste tipo de alimento que se chama batata, mas que na verdade é uma raiz, percebeu-se como se estava perante um produto de vasto interesse nutricional (ver caixa A raiz mais que perfeita). “Ao contrário da batata inglesa, esta é rica em hidratos de carbono complexos de baixo índice glicémico, de absorção lenta, não provocando picos de produção de insulina”, diz a nutricionista Ana Ni Ribeiro. Num ápice, a raiz saiu da sombra e tornou-se gourmet. Passou a fazer parte de muitas ementas de restaurantes, nas suas mais variadas aceções – frita, assada, cozida, em puré e até (passe a redundância) em doces. Em Portugal, entre 2012 e 2014, consumiu-se dois quilos per capita (em Espanha foram apenas 200 gramas por pessoa).
Com esse advento, denuncia Manuel Marreiros e outras pessoas ouvidas para esta reportagem, chegou também a batata chinesa, como é conhecida em Aljezur. Não vem da China, mas trata-se de um exemplar parecido com a Lira, que dá duas vezes ao ano (em vez de uma) e se desfaz assim que é cozinhada, dizem os peritos. Torna-se difícil distingui-las a olho nu, a não ser depois de se ver como perde a consistência ao ser trabalhada, mas note-se que a certificada tem de estar embalada e trazer consigo o selo de qualidade.
Nada a opor a que haja mais variedade nos terrenos e nas lojas, se não aparecesse quem ande por aí a vender gato por lebre – a Lira tem melhor reputação no mercado e um preço de transação mais alto (€1,3 o quilo).
Para a chef de cozinha algarvia (e muito viajada), não há dúvidas e rejeita exageros: “A batata de Aljezur é a melhor do mundo, não só pelo doce mas pelo sabor complexo que perdura. Toda ela é densa e não tem buracos, porque demora tempo a crescer.”

Pastel de nata de batata-doce
Tal como Susana, a produtora Helena Arsénio, sócia nº 1 da associação local, não imagina a sua vida sem a batata-doce e usa mesmo a palavra paixão quando fala dos anos, ou de uma vida, que já dedicou a esta cultura. “O meu pai plantava-a, e eu, desde os meus 5 ou 6 anos, também pegava na mangueira para a regar. Sempre foi um bichinho e agora é também um complemento à reforma de 279 euros”, conta, com alguma nostalgia. Chegou a deitar à terra 100 mil pés, quando ainda tinha a ajuda dos pais e do irmão, que entretanto morreram. Hoje, apesar das três hérnias discais, dedica-se às batatas-doces sozinha: semeia, planta, corta a rama e cuida delas até ao fim. Resultado: uma tonelada que vende à associação, para que as embalem e revendam no mercado. Este ano, “velha e cansada”, avisa que só vai tratar de um hectare delas.
Anabela Claro, 59 anos, não sabe se as batatas-doces com que dá forma aos produtos à venda no Pão do Rogil são de Helena. Mas, desde que tomou as rédeas do negócio familiar aberto há 50 anos, teima em inovar à custa do produto mais popular da região. Nas prateleiras da sua pastelaria, o pastel de nata de batata-doce arregimenta clientes habituais. Podemos acrescentar, depois de o provarmos, que é menos doce do que o tradicional e mais compacto. Natural: Anabela não usa farinha para fazer o pão de batata-doce, os bolos à fatia, os bolinhos embalados, as broinhas ou o bolo príncipe (uma espécie de bolo-rei à sua moda) – “É tudo com a batata ao natural e sempre da certificada.” Acentua este último adjetivo para se distanciar de um restaurante que abriu há três anos, chamado Museu da Batata-Doce, onde, garantiram-nos, não se usa a genuína para fabricar os produtos que lá vendem, desde travesseiros a azevias ou queijadas.
Desde que Maria Andrade introduziu a variedade alaranjada em Moçambique que as crianças estão mais habituadas a comê-la, aumentando assim os níveis de vitamina A
Desde que Maria Andrade introduziu a variedade alaranjada em Moçambique que as crianças estão mais habituadas a comê-la, aumentando assim os níveis de vitamina A
DR
O doce que dá saúde
A mais de 16 mil quilómetros de Aljezur, Maria Andrade não está muito preocupada com a genuinidade da batata-doce que se come em Moçambique. A investigadora cabo-verdiana, doutorada em genética e fisiologia da batata-doce pela Universidade do Arizona, nos EUA, e a viver há 20 anos nesta ex-colónia portuguesa, centra-se antes na quantidade de vitamina A que pode dispensar, através desse alimento, aos meninos moçambicanos. E, nesse campeonato, não há como a de polpa alaranjada, a mais consumida nos Estados Unidos.
Maria sabe como as estatísticas são duras – quando começou o projeto, perto de 70% das crianças com menos de 5 anos apresentava carências de vitamina A, o que pode levar à cegueira noturna e a um enfraquecimento do sistema imunitário. A UNICEF financia a suplementação, mas nem todos conseguem chegar a um local onde ela seja dispensada. Foi então que a investigadora pensou num sistema sustentável para diminuir a deficiência. Já havia o hábito de cultivar batata-doce em Moçambique, mas não era laranja (quanto mais betacaroteno tiver, mais rica será em vitamina A). Aproveitando que a maioria dos cultivos desapareceu com as cheias de 2000, introduziram a nova variedade e lançaram uma campanha de promoção, baseada no slogan “O Doce que Dá Saúde”. E pegou. Em 2011, “depois de melhoramentos em laboratório, conseguimos identificar 15 variedades tolerantes à seca e aos vírus e que dão duas vezes mais do que as tradicionais”, conta Maria Andrade, entusiasmada, ao telefone. A campanha também ensina os moçambicanos a fugirem às receitas rotineiras do antigamente. Agora, já as consomem em sumo, bolos, pães, sobremesas ou purés. A coisa tem corrido tão bem que em 2016 o prestigiado prémio World Food foi parar às mãos deste projeto moçambicano (e a outros quatro investigadores que desenvolvem a mesma ideia noutras latitudes). Foram 250 mil euros para que a batata-doce continue a espalhar a sua magia por quem mais dela precisa.
Manuel (ao centro) e os seus dois filhos, vice-presidentes da empresa, líder da produção nos Estados Unidos
Manuel (ao centro) e os seus dois filhos, vice-presidentes da empresa, líder da produção nos Estados Unidos
DR

O REI É PORTUGUÊS

Aos 72 anos, Manuel Eduardo Vieira é conhecido no meio como o rei da batata-doce, nos EUA. Como chegou até aqui, este açoriano que andou descalço até aos 11 anos? “Com a graça de Deus, a minha família, uma gestão rigorosa, disciplinada e eficiente, e a melhor equipa”, diz, como quem já conhece de cor a resposta, e sem esconder o orgulho. Vive há quase 50 anos na Califórnia, numa região em que a terra é leve e arenosa, como se quer para esta cultura ser bem-sucedida, e desde então está aos comandos da A. V. Thomas, uma empresa que atualmente produz 240 mil toneladas de batata (grande parte dela biológica) numa área que ascende aos 2500 hectares. Quando comprou a empresa ao tio, trabalhavam lá 7 empregados; hoje, emprega 1100 pessoas. Há que bem servir toda a América do Norte, numa população que se estima ser de 450 milhões. Manuel Vieira, comendador, produz mais de 10 variedades diferentes desta raiz e sabe que “todas têm elementos fantásticos”. Mas a de polpa laranja é a mais popular nos seus mercados – grandes consumidores deste tipo de vegetal. Mesmo assim, o maior produtor do mundo tem notado, nos últimos anos, um aumento substancial na procura. “O sabor até pode ser igual ao produto português, mas aqui ele tem melhor aparência, e os olhos também comem.” Já houve agricultores nacionais que o visitaram para aprender com o rei. E ele tem todo o gosto em ensinar.

OS BENEFÍCIOS DA BATATA-DOCE

- Como é rica em vitamina A, fortalece o sistema imunitário.
- Embora tenha muitos hidratos de carbono, a sua absorção é lenta, o que a torna indicada para diabéticos.
- Pode inserir-se num regime 
de perda de peso porque ajuda a diminuir o apetite.
- Melhora a digestão e o funcionamento intestinal, 
pois tem bastante fibra.
- Fornece boa energia para o treino, auxiliando na queima da gordura e ganho de massa muscular.
- Só a batata-doce providencia vitamina E, sem acréscimo de gordura.
- Tem bastantes antioxidantes, que ajudam ao bom funcionamento do cérebro.
- Trata-se de uma excelente fonte de potássio, essencial à manutenção da integridade das células.
- Como há 33 mg de cálcio em cada 100 gramas, dá saúde aos ossos.
- É uma boa fonte de magnésio e por isso diminui os níveis de stresse.
- Tem menos 10% de calorias do que a batata branca.

visao.sapo.pt

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