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domingo, 12 de março de 2017

Comunista francês ganha fama como ‘catador de lixo’ em São Petersburgo


O artista francês Marc Ahr patina ao longo dos canais congelados de São Petersburgo recolhendo todo lixo que encontra. Mas esta é apenas uma pequena parte do que do trabalho ideológico que ele faz na capital do norte da Rússia.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
“Sabe, ele poderia ser o símbolo da cidade, se ainda não for”, diz um músico de São Petersburgo. Nos conhecemos há cinco minutos e estamos assistindo juntos a como Marc patina ao longo do canal Griboedov congelado.
O francês pinça o lixo com uma lança que ele mesmo fez e tenta jogá-lo em um cesto que usa como mochila (na qual é possível ver a inscrição “Spb Eco Cleaner”). Nem sempre consegue coletar tudo o que vê pela frente, mas, mesmo assim, quem observa fica atônito. Perplexa, uma mulher corada pelo frio para e exclama: “É aquele estrangeiro que pega lixo dos canais congelados!”. Os locais acham a ideia de Marc inusitada, porém divertida, e seu projeto ecológico vem ganhando popularidade.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Marc é, de fato, extravagante. Para a grande maioria dos moradores da cidade, ele parece um expatriado louco com pencas de tempo livre. E não é que não pense em ecologia em São Petersburgo, mas ninguém entra nos canais para catar lixo,  ainda mais com uma lança em forma de martelo e foice.
VÍDEO
Um saco de cascas de ovo e bitucas de cigarro
Ao conhecer Marc Ahr, o “famoso artista”, como ele próprio se chama, ele enfiou as mãos em um cesto de lixo da rua e, sorrindo, pescou seu cartão. Ele então nos levou para seu quintal, onde possui um ‘jardim’: uma coleção de garrafas de plástico, cascas de ovo, rolhas, cascas de banana e muitas outras coisas.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Em outras palavras, parece mais um lixão particular, e alguns de seus vizinhos realmente pensam assim. “As pessoas sempre pensam que eu sou um pouco louco, um malucão, mas fazer o quê?”, diz, com um sorriso no rosto.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
“Eu dou essas latas de alumínio para minha avó, que as leva para reciclagem e usa o dinheiro para comprar remédios”, explica Marc.
“E para que serve o saco com cascas de ovo?”, perguntou eu.
“Vão ser usadas para compostagem, vou levá-las para a ‘datcha’.”
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Para Marc, o lixo não é lixo, mas sim arte ou algo que pode ser reutilizado. Neste inverno russo, por exemplo, o francês fez uma série de esculturas com gelo. Ele também as mantém no quintal, envolvidas em fibra de vidro e madeira compensada para que o sol de fevereiro não derreta sua produção.
Seu trabalho favorito foi feito com pontas de cigarro ‘parafusadas’ no gelo; agora que a temperatura já ultrapassou a marca dos 0ºC, as bitucas estão encharcadas e penduradas. Existe ainda um trabalho semelhante com rolhas plásticas multicoloridas.
“Na França, é possível obter 190 euros em troca de uma tonelada dessas rolhas, mas aqui ninguém precisa delas”, diz Marc, em tom de decepção. “E eu amo gelo, porque não é eterno, assim como o nosso planeta.”
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
“Não há nada para temer em relação à Rússia”
De repente, uma mulher entra em seu o quintal. Ela é uma das incomodadas pelo vizinho “ecológico”. Eles não se gostam porque, segundo Marc, ela “não paga o aluguel”, e isso ofende. “Ela acha que pode mais do que os outros. Mas ela não pode; não é um comportamento comunista”, diz Marc.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Em sua sala de estar, o francês tem símbolos bolcheviques na forma de um mosaico feito com pedaços do Muro de Berlim.
“Eu queria fazer algo com esse Muro de Berlim por um muito tempo. E quem gastou dinheiro para construí-lo? Os comunistas, para se protegerem do capitalismo”, diz.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Marc esteve em Berlim uma semana após a queda do muro e começou a recolher pequenos pedaços, que eram colocados em pacotinhos com o rótulo “Fragmento do Muro de Berlim, original”. Pelas primeiras quatro horas no Muro e pelas fotos da experiência, ele ganhou US$ 500 na França. Anos mais tarde, ele ficou tão rico que viajou para a Rússia, onde comprou um apartamento de 230 metros quadrados. Prestou homenagem, por assim dizer, às suas raízes russas.
Pergunto-lhe então se ele acredita que o comunismo voltará ao país.
“Não, ainda é muito cedo, estamos apenas passando pela primeira fase do capitalismo. Karl Marx disse que o comunismo só chegaria depois do capitalismo”, afirma.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
Marc transformou seu apartamento em um microestado comunista no qual cada hóspede paga por um quarto de acordo em sua renda: enquanto alguns pagam 20 euros, outros desembolsam 120. Enquanto o modelo funciona e todos estão felizes, ele pretende passar um tempo na França para se “envolver na política, se livrar de lobistas corporativos e unir a Rússia à Europa”.
(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)(Foto: Ruslan Chamukov/Gazeta Russa)
“Eu quero que as pessoas entendam que não é preciso ter medo da Rússia. O fato de que temos um único caminho já foi demonstrado por Aleksandr 2º e Pedro, o Grande. Vocês [russos] até preparam o bolo Napoleão! Vocês têm petróleo, e nós, na França, temos pessoas inteligentes. Vocês têm meninas muito bonitas, e nós temos um feminismo terrível. Um equilíbrio perfeito. Precisamos viver melhor e, definitivamente, precisamos de uma revolução se quisermos salvar nosso planeta. Eu não sei como aumentar a consciência das pessoas, mas eu quero muito tentar.”


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