quinta-feira, 9 de março de 2017

Berlim avalia pirataria da CIA antes da ida de Merkel à Casa Branca


WikiLeaks diz que primeiros documentos representam apenas 1% do material do Vault 7, a maior fuga de informação de sempre da CIA
Consulado norte-americano em Frankfurt terá sido utilizado como base para operações na Europa, Médio Oriente e África

A procuradoria federal alemã está a estudar a alegação de que a CIA utilizou o consulado dos EUA em Frankfurt como uma base clandestina para os piratas informáticos desenvolverem as suas operações na Europa, Médio Oriente e África. A denúncia é feita pela WikiLeaks, com base nos quase nove mil documentos confidenciais que publicou e que revelam as ferramentas utilizadas pela agência para aceder a telemóveis, computadores e outros aparelhos. As empresas de software já estão a analisar a informação para ver como podem colmatar as falhas.
"Vamos iniciar uma investigação se encontrarmos provas de atos criminosos concretos ou perpetradores específicos", disse à Reuters o porta-voz do gabinete da procuradoria alemã. O seu homólogo do Ministério dos Negócios Estrangeiros indicou também que o tema está a ser levado a sério, mas era preciso saber mais pormenores. Em 2013, soube-se que a Agência Nacional de Segurança (NSA) tinha acedido ao telemóvel da chanceler alemã, Angela Merkel, gerando mal--estar entre os dois países.
Na terça-feira, Merkel viaja até Washington para um encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump, que ontem disse estar "extremamente preocupado" com a falha de segurança que permitiu a publicação dos documentos - na prática confirmando a sua autenticidade, algo que a CIA não fez. Fontes citadas pela Reuters garantiram contudo que a agência já tinha conhecimento desde o final do ano passado de que tinha havido uma falha de segurança - a WikiLeaks diz que os documentos são de um período entre 2013 e 2016, representando apenas 1% do material que recebeu o nome de código Vault 7.
"Nós vamos atrás das pessoas que divulguem documentos classificados. Vamos processá-los", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. A WikiLeaks alega que a informação circulou sem autorização entre "antigos piratas informáticos do governo e contratistas". Um deles partilhou a informação com a organização de Julian Assange, esperando gerar um debate sobre a legitimidade do uso e controlo destas armas cibernéticas.
As empresas a cujos produtos a CIA pode alegadamente aceder já reagiram. A Apple, por exemplo, lembra que a tecnologia de proteção de dados presente nos iPhones é sempre a mais recente e que trabalha constantemente para garantir a segurança dos utilizadores. "Apesar de a nossa análise inicial indicar que muitas das questões que saíram a público já estão corrigidas na última versão do iOS [o sistema operativo], vamos continuar a lidar rapidamente com qualquer vulnerabilidade que seja identificada", disse a empresa em comunicado.
Por outro lado, as apps de comunicação como a WhatsApp, Signal ou Telegram não apresentam falhas no sistema de encriptação usado para garantir o secretismo das mensagens, mas estão na mesma vulneráveis já que a CIA consegue ter o controlo total do aparelho. "Este não é um problema da app. É relevante ao nível dos aparelhos e sistemas operativos", reagiu a Telegram.
Já a Samsung, cujos televisores inteligentes podem alegadamente permitir à CIA escutar tudo o que se passa à sua volta, disse que "proteger a privacidade dos utilizadores e a segurança dos seus dispositivos é uma das nossas prioridades", acrescentando estar a "investigar o assunto com urgência". A Microsoft disse estar a fazer o mesmo, mas a Google não o quis comentar.

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