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quinta-feira, 2 de março de 2017

A INQUISIÇÃO ESTÁ VIVA ! - Lançada à fogueira mulher de 25 anos para "expulsar o demónio"


Manifestação em Manágua diante da sede da polícia nacional, em novembro de 2016, para chamar a atenção para o elevado número de mulheres que todos os anos morrem vítimas de diferentes formas de violência deste país latino-americano. Em algumas das folhas, o nome e a idade das vítimas, acompanhados pela sigla da região da Nicarágua onde sucederam os crimes
Alegado pastor de culto responsável pela morte de mãe de duas crianças. Por ano, neste país, morrem em média 70 a 90 mulheres, vítimas de diferentes formas de violência.


"O demónio foi expulso e ela caiu no fogo." "Ela" chamava-se Vilma Trujillo García, tinha 25 anos e morreu no último dia de fevereiro num hospital de Manágua, para onde fora transferida no dia anterior, vítima de queimaduras.
Vilma García estava atada e nua, o corpo atirado para trás de um barranco após ter sido retirada das cinzas da fogueira, onde fora colocada por estar "possuída". "Deus disse que iria tirar esse espírito mau de dentro dela e, para isso, era preciso fazer uma fogueira para se expulsar o espírito" - foi assim que um alegado elemento da chamada Igreja Visão Celestial das Assembleias de Deus (IVCAD), Juan Gregorio Rocha Romero, explicou o sucedido a jornalistas pouco antes de ele, e mais quatro elementos, ser transferido para a capital nicaraguense, sob custódia das autoridades, onde os cinco - três homens e duas mulheres - foram acusados de homicídio.
O marido de Vilma García, Reynaldo Peralta Rodríguez, disse ao periódico nicaraguense Hoy estar-se perante um gesto "imperdoável e doloroso". Segundo Reynaldo Rodríguez, a sua mulher "não estava possuída por nenhum demónio. Para mim, o que lhe fizeram é que foi bruxaria", afirma.
O corpo apresentava queimaduras em 50% do corpo, sendo o rosto, braços e pernas as partes mais afetadas. Apresentava ainda fortes sinais de desidratação. Segundo o marido, alguns órgãos teriam ficado "cozidos", o que tornava impossível a sobrevivência da jovem, mãe de duas crianças.
As Assembleias de Deus negam que qualquer dos cinco elementos tenha ligação ao culto. Juan Romero, de 23 anos, mantém que é pastor há dois anos.
Um dos envolvidos no alegado exorcismo, Franklin Jarquin, segundo a cadeia televisiva Univision, disse que a jovem "cometera um erro perante Deus", que foi ter "um companheiro para a vida, mas estar com um outro homem". Isso só podia significar que estava "possuída" e tinha de "ser libertada do demónio".
Os familiares de Vilma García têm uma versão distinta: a jovem teria sido violada, mas não adiantam pormenores, receosos de represálias. Segundo a Univision, a família do alegado pastor teria proferido ameaças de morte a quem contasse versões diferentes da veiculada pelos detidos. Este não é o primeiro caso de fanatismo religioso no país. Em 2015, foi desarticulada uma seita em que o seu líder mantinha reféns cerca de 600 pessoas. Dois anos antes, 15 elementos de uma outra seita atacaram uma povoação aos gritos de "Morte ao diabo, glória a Deus", matando 11 pessoas.
As autoridades recusam fazer comentários até serem conhecidos os resultados da autópsia.
Para uma ativista dos direitos das mulheres, Herania Amaya, que está a acompanhar a família da vítima, a jovem teria "problemas de saúde mental" e teria sido sequestrada pelo alegado pastor. "Ficou retida vários dias antes de ser queimada na fogueira, como nos tempos da Inquisição." Para Amaya, está-se neste caso perante o padrão comum na violência e prepotência no país: o poder sem controlo de líderes religiosos em comunidades remotas, em geral pobres e subdesenvolvidas; a atitude machista; e a ausência dos mecanismos de proteção do Estado. A ativista refere que, por exemplo, "os homens não são atirados a fogueiras". Muitas destas localidades não possuem energia elétrica nem transportes que as sirvam de forma regular.
"Tendência para aumentar"
Desde 2012 existe legislação bastante completa para prevenir crimes contra mulheres, de natureza física, psicológica, raptos, violência doméstica ou no trabalho, mas os resultados continuam por se fazer sentir. O que torna ainda mais brutal o sucedido em El Cortezal, a confirmar-se a ligação à morte de Vilma García a um pretenso exorcismo, é que a violência, além de profundamente enraizada na sociedade nicaraguense, surge associada a fenómenos pseudorreligiosos.
"Todos os anos são mortas entre 70 e 90 mulheres. O que num país de seis milhões de habitantes é um horror. E a tendência é para aumentar. Este ano já tivemos 30 casos", declarava a 16 de fevereiro de 2016 uma das figuras mais conhecidas na defesa dos direitos das mulheres na Nicarágua, María Teresa Blandón. Na entrevista, concedida ao site International Viewpoint, Blandón diz que a violência é algo quase natural na sociedade nicaraguense e começa muito cedo, dando como exemplo o caso de, naquele mês, um adolescente de 14 anos ter matado a namorada, de 12 anos, apenas porque lhe disseram que a jovem fora vista na companhia de outro rapaz. A Univision revela que, entre janeiro e final de fevereiro, nove mulheres foram assassinadas na Nicarágua.
O fenómeno da violência sobre mulheres não é exclusivo da Nicarágua. É algo transversal a toda a América Latina. Divulgado em 2016, um relatório das Nações Unidas com números referentes ao ano anterior, mostrava que 14 dos países com a taxa mais elevada de morte de mulheres devido a violência se encontram nesta parte do mundo.
Um outro relatório, também com valores de 2015, resultado do cruzamento de números da ONU, Organização Mundial da Saúde e várias ONG de direitos humanos, indicava que cinco dos dez países com maior taxa de homicídio de mulheres estão na América Latina. Em primeiro, situava-se El Salvador (8,9 mortes para cem mil mulheres), seguido pela Colômbia, Guatemala, Brasil, México e Suriname.

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