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sábado, 18 de março de 2017

A CIA lê a teoria francesa: sobre o trabalho intelectual de desmantelamento da Esquerda cultural

Está já muito solidamente identificada e investigada a intervenção da CIA no plano da cultura e das artes, no plano do esforço de influenciar a intelectualidade. Este texto recorda aspectos fundamentais de uma acção que, nestes moldes, remonta à guerra-fria. E que exige uma muito maior mobilização e combate, e de compreensão de que o terreno da cultura é hoje uma das frentes centrais do combate anti-imperialista.



Presume-se, com frequência, que os intelectuais têm pouco ou nenhum poder político. Empoleirados numa privilegiada torre de marfim, desligados do mundo real, envolvidos em debates académicos sem sentido sobre minúcias especializadas ou flutuando nas abstrusas nuvens da alta teoria, os intelectuais são frequentemente retratados não apenas como isolados da realidade política mas também como incapazes de ter nela qualquer impacto significativo. A CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) não pensa assim.


De fato, a agência responsável pelos golpes de Estado, os assassínios direccionados e a manipulação clandestina de governos estrangeiros não só acredita no poder da teoria, como também dedicou significativos recursos para ter um grupo de agentes secretos dedicados a debruçar-se sobre o que alguns consideram ser a mais recôndita e intrincada teoria já produzida. Num intrigante trabalho de pesquisa escrito em 1985 (ver aqui), e recentemente publicado com pequenas alterações através da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act), a CIA revela que os seus agentes andaram estudando a complexa e internacionalmente influente teoria francesa, filiada nos nomes de Michel Foucault, Jacques Lacan e Roland Barthes.


A imagem de espiões americanos reunindo-se em cafés parisienses para estudar assiduamente e comparar notas acerca dos sumos-sacerdotes da intelligentsia francesa pode chocar quem presuma que tal grupo de intelectuais é constituído por luminárias cuja requintada sofisticação jamais poderia ser capturada numa rede policial tão tosca, ou quem assuma que, pelo contrário, charlatães produtores de uma retórica incompreensível que pouco ou nenhum impacto tem sobre o mundo real. Não deveria, entretanto, surpreender aqueles familiarizados com o longo e contínuo investimento da CIA numa guerra cultural global, incluindo o apoio às suas formas mais vanguardistas, que tem sido bem documentado por pesquisadores como Frances Stonor Saunders, Giles Scott-Smith, Hugh Wilford (fiz a minha própria contribuição em “Radical History & the Politics of Art”, ver aqui).


Thomas W. Braden, anterior supervisor de actividades culturais na CIA, explicou o poder da ofensiva cultural da Agência num franco relato publicado em 1967 : “Lembro-me da enorme alegria que tive quando a Orquestra Sinfónica de Boston [que foi apoiada pela CIA] ganhou mais elogios para os EUA em Paris do que John Foster Dulles ou Dwight D. Eisenhower poderiam ter conseguido com uma centena de discursos”. Esta não era de modo algum uma operação pequena ou pouco elaborada. De facto, como Wilford argumentou com razão, o Congresso para a Liberdade Cultural (CCF), que foi sediado em Paris e mais tarde identificado como uma organização da CIA no decurso da Guerra Fria, foi um dos mais importantes patrocinadores na história mundial, apoiando uma incrível gama de actividades artísticas e intelectuais. Contava com escritórios em 35 países, publicou dezenas de revistas de prestígio, esteve envolvida na indústria do livro, organizou conferências internacionais de grande relevo e exposições de arte, coordenou apresentações e concertos, e contribuiu com amplo financiamento para vários prémios culturais e bolsas de estudo, bem como para organizações de fachada como a Farfield Foundation.


A agência de inteligência entende que a cultura e a teoria são armas cruciais no arsenal global que desdobra a fim de perpetuar interesses dos EUA em todo o mundo. O trabalho de investigação de 1985, intitulado “França: Defecção dos intelectuais de esquerda”, recentemente publicado, examina – sem dúvida para manipular – a intelectualidade francesa e o seu papel fundamental na conformação de tendências que geram opções políticas. Sugerindo que tem havido um relativo equilíbrio ideológico entre esquerda e direita na história do mundo intelectual francês, o relatório destaca o monopólio da esquerda no imediato período pós-guerra – ao qual, sabemos, a CIA se opôs raivosamente – devido ao papel chave dos comunistas na resistência ao fascismo e em finalmente ganhar a guerra contra ele. Embora a direita tivesse sido massivamente desacreditada devido à sua contribuição directa para os campos de extermínio nazistas, bem como pela sua agenda xenófoba, anti-igualitária e fascista (de acordo com a própria descrição da CIA), os agentes secretos sem nome que elaboraram o esboço do estudo sublinham com nítido deleite com o retorno da direita aproximadamente a partir do início dos anos 1970.

Mais especificamente, os guerreiros culturais secretos aplaudem o que vêem como um duplo movimento que tem contribuído para a deslocação do foco crítico da intelligentsia dos EUA para a URSS. À esquerda, havia uma gradual desafectação intelectual para com o estalinismo e o marxismo, uma retirada progressiva do debate público por parte dos intelectuais radicais e um afastamento teórico do socialismo e do partido socialista. Mais à direita, os oportunistas ideológicos referidos como “Novos Filósofos” e os intelectuais da “Nova Direita” lançaram uma intensa campanha mediática de denegrimento do marxismo.
Enquanto outros tentáculos da organização mundial de espionagem estavam envolvidos em derrubar líderes eleitos democraticamente, fornecendo inteligência e financiando ditadores fascistas e apoiando esquadrões da morte de direita, o esquadrão central de intelligentsia de Paris estava a recolher dados sobre como a deriva teórica à direita do mundo beneficiava directamente a política externa dos EUA. Os intelectuais de esquerda do imediato pós-guerra tinham sido abertamente críticos do imperialismo norte-americano. A influência mediática de Jean-Paul Sartre como crítico marxista aberto e seu papel notável – como fundador do Libération – em desmascarar a estação da CIA em Paris e dezenas de agentes secretos, foi monitorado de perto pela Agência e considerado um problema sério.

Em contraste, a atmosfera anti-soviética e antimarxista da emergente era neoliberal desviou o escrutínio público e forneceu excelente cobertura para as guerras sujas da CIA, tornando “muito difícil para qualquer um mobilizar entre as elites intelectuais oposição significativa às políticas dos EUA na América Central, por exemplo”. Greg Grandin, um dos principais historiadores da América Latina, resumiu perfeitamente esta situação em “The Last Colonial Massacre” (ver aqui): “Além de realizar intervenções visivelmente desastrosas e mortíferas na Guatemala em 1954, na República Dominicana em 1965, no Chile em 1973, em El Salvador e Nicarágua durante a década de 1980, os Estados Unidos emprestaram discreto e constante apoio financeiro, material e moral aos Estados terroristas assassinos e contra-insurgentes. […] Mas a enormidade dos crimes de Stálin garante que tais histórias sórdidas, por mais convincentes, completas ou condenatórias, não perturbem a fundamentação de uma cosmovisão que assume o papel exemplar dos Estados Unidos na defesa do que hoje conhecemos como democracia.”

É neste contexto que os mandarins mascarados da CIA elogiam e apoiam a crítica implacável que uma nova geração de pensadores antimarxistas como Bernard-Henri Levy, André Glucksmann e Jean-François Revel desencadearam sobre “a última camarilha de comunistas ilustrados” (composta, segundo os agentes anónimos, por Sartre, Barthes, Lacan e Louis Althusser). Dadas as tendências de esquerda destes antimarxistas na sua juventude, eles fornecem o modelo perfeito para construir narrativas enganosas que amalgamam o suposto amadurecimento político pessoal com a marcha progressiva do tempo, como se tanto a vida individual como a história fossem simplesmente uma questão de “crescer” e reconhecer que a profunda transformação social igualitária é uma coisa do passado pessoal e histórico. Este derrotismo paternalista e omnisciente não só serve para desacreditar novos movimentos, especialmente os impulsionados pela juventude, mas também desfigura os relativos sucessos da repressão contra-revolucionária como o natural progresso da história.

Mesmo teóricos que não eram tão opostos ao marxismo quanto esses intelectuais reaccionários deram uma contribuição significativa para um ambiente de desilusão com o igualitarismo transformador, o desapego à mobilização social, a “investigação crítica” desprovida de políticas radicais. Isto é extremamente importante para entender a estratégia geral da CIA nas suas amplas e profundas tentativas de desmantelar a esquerda cultural na Europa e em outros lugares. Reconhecendo que era improvável que pudesse aboli-la inteiramente, a organização de espionagem mais poderosa do mundo procurou afastar a cultura de esquerda de uma resoluta política anticapitalista e transformadora para posições reformistas de centro-esquerda que são menos abertamente críticas das políticas externa e doméstica dos EUA. Na verdade, como Saunders demonstrou detalhadamente, a Agência seguiu na esteira do Congresso de liderança Macartista do período pós-guerra de modo a apoiar directamente e promover projectos de esquerda que desviaram os produtores culturais e os consumidores para longe da esquerda resolutamente igualitária. Ao cindir e desacreditar esta última, também aspirava a fragmentar a esquerda em geral, deixando o que restava do centro-esquerda com apenas um mínimo poder e apoio público (bem como sendo potencialmente desacreditada pela sua cumplicidade com políticas da direita de luta pelo poder, questão que continua a atormentar partidos institucionalizados contemporâneos à esquerda).
É sob esta luz que devemos compreender a afeição da Agência de inteligência pelas narrativas de conversão e a sua profunda apreciação pelos “marxistas reformados”, um leitmotiv que atravessa o trabalho de pesquisa sobre a teoria francesa. “Ainda mais eficazes em minar o marxismo”, escrevem as toupeiras, “foram aqueles intelectuais que se propuseram aplicar a teoria marxista às ciências sociais mas terminaram por repensar e rejeitar toda essa tradição”. Citam, em particular, a profunda contribuição dada pela Escola dos Annales na historiografia, e pelo estruturalismo – particularmente Claude Lévi-Strauss e Foucault – à “demolição crítica da influência marxista nas ciências sociais”. Foucault, que é referido como “o pensador mais profundo e influente da França”, é especificamente aplaudido pelo seu elogio aos intelectuais da Nova Direita por recordarem aos filósofos que “sangrentas” consequências “fluíram da teoria social racionalista do Iluminismo do século 18 e da era revolucionária”. Embora seja um erro creditar o colapso de qualquer política ou efeitos políticos face a uma única posição ou resultado, o esquerdismo anti-revolucionário de Foucault e a sua perpetuação da chantagem do Gulag – isto é, a afirmação de que os movimentos radicais expansivos que visam a profunda transformação social e cultural apenas ressuscitam as mais perigosas tradições – estão perfeitamente em sintonia com as estratégias globais de guerra psicológica da agência de espionagem.

A leitura da teoria francesa pela CIA deveria dar-nos uma pausa, então, para reconsiderar o verniz radical-chic que acompanhou boa parte de sua recepção anglófona. De acordo com uma concepção etapista da história progressista (que é normalmente cega à sua teleologia implícita), o trabalho de figuras como Foucault, Derrida e outros teóricos franceses de ponta é muitas vezes identificado intuitivamente como uma forma de crítica profunda e sofisticada que presumivelmente ultrapassa qualquer coisa encontrada nas tradições socialista, marxista ou anarquista. É certamente verdade, e merece ênfase, o facto de que a recepção anglófona da teoria francesa, como justamente apontou John McCumber, teve importantes implicações políticas enquanto polo de resistência à falsa neutralidade política, aos tecnicismos seguros da lógica e da linguagem, ou à ideologia do conformismo operante nas tradições da filosofia anglo-americana apoiadas por McCarthy. No entanto, as práticas teóricas de figuras que deram as costas ao que Cornelius Castoriadis chamou a tradição da crítica radical – significando resistência anticapitalista e anti-imperialista – certamente contribuíram para a deriva ideológica que se afasta de políticas transformadoras. Segundo a própria Agência de espionagem, a teoria francesa pós-marxista contribuiu directamente para o programa cultural da CIA de empurrar a esquerda para a direita, ao mesmo tempo que desacreditava o anti-imperialismo e o anticapitalismo, criando assim um ambiente intelectual no qual seus projectos imperiais poderiam ser prosseguidos sem serem incomodados pelo exame crítico sério por parte da intelligentsia.

Como sabemos da investigação sobre o programa de guerra psicológica da CIA, a organização não só acompanhou e procurou coagir os indivíduos, mas sempre se interessou por compreender e transformar instituições de produção e distribuição cultural. Na verdade, o seu estudo sobre a teoria francesa aponta para o papel estrutural que as universidades, as editoras e os meios de comunicação social desempenham na formação e consolidação de um ethos político colectivo. Em descrições que, tal como o resto do documento, nos deveriam convidar a pensar criticamente sobre a actual situação académica no mundo anglófono e para além dele, os autores do relatório colocam em primeiro plano as formas pelas quais a precarização do trabalho académico contribui para a demolição do radicalismo de esquerda. Se as pessoas de esquerda mais convictas não conseguirem os meios materiais necessários para realizar seu trabalho, ou se somos mais ou menos subtilmente obrigados a conformar-nos para encontrar emprego, publicar os nossos textos ou ter uma audiência, estão dadas as condições estruturais para uma comunidade de esquerda enfraquecida. A profissionalização do ensino superior é outra ferramenta utilizada para este fim, uma vez que visa transformar as pessoas em engrenagens tecnocientíficas no aparelho capitalista em vez de cidadãos autónomos com ferramentas confiáveis para a crítica social. Os mandarins da teoria da CIA louvam assim os esforços por parte do governo francês para “empurrar estudantes para os negócios e cursos técnicos”. Apontam igualmente os contributos de editores de destaque como Grasset, dos grandes media e o sucesso da cultura americana na promoção da sua plataforma pós-socialista e anti-igualitária.

Que lições podemos extrair deste relatório, particularmente no ambiente político actual, com o seu contínuo ataque à intelligentsia crítica? Em primeiro lugar, ele deve ser um lembrete convincente de que, se alguns presumem que os intelectuais são impotentes, e que as nossas orientações políticas não importam, a organização que tem sido um dos mais poderosos corretores de poder na política mundial contemporânea não pensa desse modo. A Agência Central de Inteligência, como o seu nome ironicamente sugere, acredita no poder da inteligência e da teoria, e devemos levar tal facto muito a sério. Supondo falsamente que o trabalho intelectual tem pouco ou nenhum impacto no “mundo real”, não apenas deturpamos as implicações práticas do trabalho teórico, como corremos o risco de fechar perigosamente os olhos aos projectos políticos dos quais podemos facilmente tornar-nos, sem o saber, embaixadores culturais. Embora seja certo que o Estado-nação e o aparelho cultural franceses constituem uma plataforma pública muito mais significativa para os intelectuais do que a que se encontra em muitos outros países, a preocupação da CIA em mapear e manipular a produção teórica e cultural noutros lugares deveria servir como um alerta para todos nós.

Segundo, os agentes do poder do presente têm interesse em cultivar uma intelectualidade cuja visão crítica tem sido embotada ou destruída por instituições patrocinadoras fundadas em interesses empresariais e tecnocientíficos, equiparando política de esquerda com anti cientificidade, correlacionando a ciência com uma suposta - mas falsa - neutralidade política, promovendo meios de comunicação que saturam as ondas sonoras com cavaqueira conformista, sequestrando gente sólida de esquerda fora das principais instituições académicas e dos media, e desacreditando qualquer reivindicação de transformação igualitária e ecológica radical. Idealmente, procuram nutrir uma cultura intelectual que, se está à esquerda, é neutralizada, imobilizada, tornada apática e contente com um esbracejar derrotista, ou com o criticismo passivo da esquerda radicalmente mobilizada. Esta é uma das razões pelas quais podemos considerar a oposição intelectual ao esquerdismo radical, que é preponderante na academia norte-americana, como uma posição política perigosa: não é ela directamente cúmplice da agenda imperialista da CIA em todo o mundo?
Terceiro, para combater este assalto institucional a uma resoluta cultura de esquerda, é imperativo resistir à precarização e à educação voltada para a profissionalização. É igualmente importante criar esferas públicas de debate verdadeiramente crítico, proporcionando uma plataforma mais ampla para aqueles que reconhecem que outro mundo é não apenas possível mas necessário. Também precisamos de nos unir para contribuir para (ou continuar a) desenvolver meios de comunicação alternativos, diferentes modelos de educação, contra-instituições e colectivos radicais. É vital promover precisamente o que os combatentes culturais encobertos querem destruir: uma cultura de esquerda radical com um amplo quadro institucional, amplo apoio público, influência mediática prevalecente e poder expansivo de mobilização.

Finalmente, os intelectuais do mundo devem unir-se no reconhecimento do nosso poder e basear-se nele para fazer tudo o que pudermos para desenvolver uma crítica sistémica e radical tão igualitária e ecológica como anticapitalista e anti-imperialista. As posições que se defendem na sala de aula ou publicamente são importantes para definir os termos do debate e traçar o campo da possibilidade política. Em oposição directa à estratégia cultural da agência espiã de fragmentar e polarizar, pela qual tem buscado separar e isolar a esquerda anti-imperialista e anticapitalista, que ao mesmo tempo se opõe a posições reformistas, devemos federar-nos e mobilizar-nos, reconhecendo a importância de trabalharmos juntos – em toda a esquerda, como Keeanga-Yamahtta Taylor nos lembrou recentemente – para o cultivo de uma intelligentsia verdadeiramente crítica. Ao invés de proclamar ou lamentar a impotência dos intelectuais, devemos aproveitar a capacidade de falar a verdade ao poder trabalhando em conjunto e mobilizando a nossa capacidade de criar colectivamente as instituições necessárias para um mundo aberto à esquerda cultural. Pois é somente em tal mundo, e nas caixas-de-ressonância que a inteligência crítica produz, que as verdades ditas podem realmente ser ouvidas e assim mudar as próprias estruturas de poder.


Publicado originalmente no site The Philosophical Salon e traduzido por Pablo Polese para o site Passa Palavra.
Tradução revista por odiario.info

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