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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CENTENÁRIO DA PARTICIPAÇÃO DE PORTUGAL NA PRIMEIRA GRANDE GUERRA MUNDIAL


 
 1917 - 2017
 
 
 
 
 

Depois da Alemanha ter declarado guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, na sequência da detenção de todos os navios alemães em portos portugueses, no total de 72 navios, em 23 de fevereiro de 1916, pelo Governo português a pedido da Inglaterra.
A declaração de guerra da Alemanha a Portugal determinou o início da intervenção portuguesa na frente europeia, dando lugar ao entendimento entre os Partidos Democrático e Evolucionista na constituição do Governo de União Sagrada. Foi necessário proceder-se à rápida mobilização e preparação dum corpo militar. O então Ministro da Guerra entre 1915 e 1917, o general José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos (1867 - 1955), publicou um diploma a 24 de maio, ordenando o recenseamento militar obrigatório de todos os cidadãos com idades compreendidas entre os 20 e os 45 anos, juntamente com a colaboração do general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva (1856-1924), o responsável pela organização do Corpo Expedicionário Português (CEP), no centro de instrução de Tancos, o chamado "milagre de Tancos", como ficou conhecido. Foram afixados editais de grandes dimensão nas portas dos edifícios públicos, nas câmaras municipais, estações de caminhos de ferro, praças publicas, etc., indicando os locais e as datas para apresentação dos homens, nas respectivas unidades mobilizadoras. De acordo com relatórios oficiais, rapidamente se transformaram em soldados aptos e capazes para um conflito duro homens que, pouco tempo antes, tinham uma vida civil, pacata e tranquila. Muitos destes homens, recrutados nas diferentes terras portuguesas de norte a sul do país, à semelhança do que aconteceu em outros países envolvidos no conflito, não tinham noção do que era uma guerra, isto em comparação ao que hoje por exemplo temos, igualmente muitos deles mal sabiam ler e escrever, muitos nunca tinham saído das suas aldeias e dos campos para ir à cidade. O CEP foi a principal força militar que Portugal, durante a Primeira Grande Guerra Mundial, enviou para França, com a finalidade de, através da sua participação ativa no esforço de guerra contra a Alemanha que também ameaçava os seus territórios ultramarinos, conseguir apoios dos seus aliados e evitar a perda daqueles territórios. Outros objectivos da participação de Portugal neste conflito foram a consolidação do então jovem regime republicano na esfera internacional, a harmonia das relações luso - britânicas, tal como a distinção ou contraste de Portugal face à posição neutral e germanófila de Espanha, ao recusar a neutralidade num contexto anglófilo, assim como a nível interno, atenuar ou adiar conflitos político-sociais na sociedade portuguesa reforçando desta forma o Parido Democrático. Mas entre a declaração de guerra da Alemanha, e a chegada a França das primeiras forças do CEP, passou quase um ano repleto de tensões entre os políticos apoiantes da guerra e muitos militares contrários ao envolvimento português no conflito. Problemas que marcaram as profundas divisões internas no exército, não apenes entre os apoiantes da guerra e os não apoiantes mas também entre militares do quadro milicianos.
Entre Mafra, Tancos e Torres Novas, Tancos foi o local escolhido para a instrução militar devido à existência de instalações adequadas, ao abastecimento de água proporcionado pela proximidade dos rios Zêzere e Tejo, assim como à proximidade da estação ferroviária do Entroncamento. Porém, estes fatores não tinham capacidade para dar resposta às necessidades de cerca de 20 000 mil homens acantonados, provenientes de três divisões do Exército sediadas em Tomar, Coimbra e Viseu, tendo-se deparado com vários problemas, tais como o insuficiente abastecimento de água potável para um tão grande número de homens, deficiente construção de tendas de campanha para os acomodar, obrigando alguns praças a dormirem ao relento na primeira noite e escassa capacidade de produção do Arsenal do Exército e do Depósito Central de Fardamento. As tropas foram chegando a Tancos aos poucos porque tinham sido recrutadas por todo o país, tinham tido algum treino preliminar nos respectivos quartéis regionais. Apesar de tudo isto, esta primeira fase de treinos, pela rapidez na preparação dos homens, foi designada pela imprensa da época de "milagre de Tancos". Conseguiu-se no final desta primeira fase concentrar cerca de 20 000 homens e ter um treino de conjunto. No entanto esta instrução irá falhar em muito aspectos importantes porque os instrutores não estavam preparados para a este novo tipo de guerra de trincheiras. Findo este processo de instrução em Tancos, as unidades da divisão de instrução reforçada regressaram às sedes dos seus quarteis permanentes. Devido à incapacidade de acomodar todos os praças, nos quarteis existentes, muitos regressaram a suas casas com licenças registadas concedidas.
 
 

 

Marinheiros da armada portuguesa areiam o pavilhão alemão a bordo do navio Enérgie,
fundeado no rio Tejo em 1916 (arq. pess.)


Marinheiros da armada portuguesa içam o pavilhão português a bordo do navio Enérgie,
 fundeado no rio Tejo em 1916 (arq. pess.)
 

Rebocador Cisne conduzindo as forças que tomaram posse dos navios alemães fundeados no rio Tejo,
foto Joshua Benoliel (arq. pess.)

  
 
Notícia da declaração de guerra da Alemanha a Portugal no cabeçalho do jornal
A Capital de 10 de março de 1916 (arq. Hemeroteca Digital)
 

 

General José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos 1867 - 1955
Ministro da Guerra (arq. priv.)

 

General Fernando Tamagnini de Abreu e Silva 1856-1924
responsável pelo CEP (arq. priv.)



Distintivo do Corpo Expedicionário Português CEP (arq. priv.)



Mapa da Europa durante a Primeira Grande Guerra Mundial
com os países  as Alianças Militares e os neutrais (arq. priv.)



Mancebos dos campos para os quartéis nas cidades em 1916 (arq. pess.)

 

Preparação do Corpo Expedicionário Português CEP, exercícios de cavalaria em 1916 em Tancos
(arq. AML)
 
 

Abastecimentos de viveres durante os exercícios em Tancos em 1916 (arq. priv.)
 
 


Treino da infantaria em Tancos em 1916 ainda sem dispor do capacete, novidade desta guerra
(arq. priv.)
 
 
 
Militares do CEP marchando em Belém para o embarque em 1916 (arq. AML)
 
 
 
Infantaria do CEP em treino no Campo de Instrução de Tancos em 1917 (arq. pess.)
 
 
 
Corpos de infantaria do CEP no treinamento em Tancos em 1917 (arq. pess.)
 
 

Acampamento de tropas do CEP em instrução em Tancos em 1917 (arq. priv.)
 

 
 
Com a Convenção assinada entre a Inglaterra e Portugal em 3 de janeiro de 1917 é agendado o início do processo de transporte marítimo do CEP para janeiro do mesmo ano. As diversas unidades receberam ordens de marchar de comboio para Lisboa, provocando o caos na capital. A viagem dos mobilizados, por comboio, das diversas cidades do país até Lisboa era feita sem contratempos. Pela primeira vez e por causa da guerra, muitos jovens, maioritariamente de 25 anos e solteiros, abandonavam assim as famílias, os lares, as suas terras, viajando de comboio e aventuram-se visitando a cidade de Lisboa. O choque dos dois mundos, o rural e o urbano, o civil e o militar, são simultaneamente brutais e fascinantes. Apesar das insubordinações e alguns focos de resistência ocorridos, em Tomar, Leiria e Santarém por exemplo, o primeiro contingente de tropas do CEP destinado à guerra europeia, composto por 1551 oficiais e por 38034 sargentos e praças, sob comando do general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e tendo como comandante da 1ª Divisão o general Manuel Gomes da Costa (1863-1929), partiu para a Flandres em 26 de janeiro de 1917, sendo constituído por: 1 quartel-general, 3 brigadas de infantaria (18 batalhões), 4 grupos de metralhadoras (64 metralhadoras), 4 grupos de 3 baterias de tiro tenso (12 baterias), 3 grupos de baterias de tiro curvo (6 baterias), 4 companhias de sapadores-mineiros; 1 grupo de dois esquadrões de cavalaria; serviços de engenharia, artilharia, saúde, veterinária e administrativos. As tropas do CEP começaram a partir oficialmente para França em 30 de janeiro de 1917 e duraram até outubro. Foram colocados à disposição de Portugal sete navios de transportes: "Bellerophon", "City of Banares" , "Inventor" , "Bohemian", "Rhesus", "Flavia" e "Lasmedon" , que juntamente com os navios portugueses "Pedro Nunes" e o "Gil Eanes", conduziram as forças do Corpo Expedicionário Português para França, até ao porto de Brest. No porto de embarque não houve lugar para grandes despedidas efusivas nem pompas, o receio da desmobilização e da espionagem impuseram esse embarque sem festejos de tropas, viaturas e animais. Zarparam nesse dia do Tejo três vapores britânicos levando a bordo a 1.ª Brigada do CEP, comandada pelo general Gomes da Costa. A primeira partida foi feita quase em segredo, o Governo decidiu que assim se garantia a "rapidez e boa ordem". Tudo decorreu de noite, por conveniência do "serviço dos comboios", explica a revista de O Século, a Illustração Portugueza. Revista esta que ao longo de meses iria documentar as sucessivas partidas e as despedidas entre os que ficavam e os que partiam nos cais. A viagem de navio até terras de França embora entusiasmante para muitos, pois alguns nunca tinham visto o mar, torna-se mais tarde penosa para estes homens do CEP pela falta de condições a vários níveis por vezes a bordo. Estes navios chegaram ao porto de Brest na França três dias depois, no dia 2 de fevereiro. Em 23 de fevereiro, partiu para França um segundo contingente do CEP. Ao longo dos meses, Lisboa fervilhou de chegadas e de partidas. Centenas de homens chegavam em comboios de vários pontos do país. Desembarcavam na estação de Santa Apolónia em Lisboa e esperavam para marchar até Alcântara, onde seguiam em transportes marítimos até Brest, em França. Nos cais dos comboios e depois no cais de Alcântara, os familiares deixavam um último abraço, um último carinho. Antes de embarcar muitos soldados aproveitavam para escrever um último postal, ou comprar alguma fruta às vendedeiras.

 

Partida de tropas do CEP para Lisboa na estação de Guimarães em 1917 (arq. pess.)

Soldados de Lamego do Regimento de Infantaria nº 9, passam na estação da Régua,
a caminho de Lisboa (arq. pess.)

Chegada ao cais de embarque de Lisboa de um Batalhão de Infantaria vindo de Castelo Branco em 1917,
foto Joshua Benoliel
 (arq. priv.)
 

Embarque de mantimentos do CEP na estação de caminho de ferro de  Campolide em 1917 
(arq. priv.)

Chegada ao cais de Alcântara de um transporte de tropas do CEP, foto Joshua Benoliel
(arq. pess.)


Tropas portuguesas do CEP em Alcântara a caminho do porto de embarque de Lisboa em 1917,
fotos Joshua Benoliel (arq. pess.)

Tropas do CEP marchando para o cais de Alcântara em 1917, foto Joshua Benoliel
(arq. AML)

Tropas do CEP  marchando no cais de embarque de Alcântara em Lisboa em 1917
(arq. pess.)

Soldados do CEP no cais de Alcântara na despedida (arq. priv.)

Momento de despedida na partida de soldado português para a guerra em 1917
(arq. pess.)

Militares de Infantaria 9 de Lamego embarcando em Lisboa  em 1917 (arq. pess.)

Militares do CEP já a bordo de embarcação a caminho de França em 1917 (arq. priv.)
 
              
Militares do CEP abordo de navio em viagem para a França em 1917 (arq. priv.)


Cartazes ilustrados produzidos entre 1916 e 1917 no contexto da participação de Portugal
na Primeira Grande Guerra Mundial (col. Jorge Silva)   



    
 
                                        
                                            
          
                                     
 
     
Publicações da Ilustração Portugueza de 12 de fevereiro a 27 de agosto de 1917
com capas alusivas à partida das tropas portuguesas do CEP para a guerra
(col. pess.)



No desembarque no porto de Brest, atabalhoado e confuso, as tropas portuguesas apresentaram-se em formatura às autoridades locais ao som da Portuguesa e da Marselhesa. A recepção foi calorosa e amistosa por parte da população civil local, amenizando o desalento e o cansaço acumulados a bordo.
A recepção foi calorosa e amistosa por parte da população civil local, amenizando o desalento e o cansaço acumulados a bordo. Os futuros combatentes são acolhidos por uma Proclamação dirigida pelo Serviço da República ao Corpo Expedicionário Português, assinada pelo seu comandante, general Fernando Tamagnini. A "guerra psicológica" instalava-se…
Logo após o desembarque no porto de Brest, as tropas portuguesas necessitaram de um período de adaptação sendo submetidas a preparação em escolas inglesas e portuguesas criadas para o efeito e a estágios na frente junto de unidades inglesas. Tudo pela brevidade do tempo de instrução e as insuficiências de aprendizagem resultantes do treino militar fornecido em Tancos, tal como a necessidade de adaptar as tropas ao terreno, ao clima e aos exercícios fundamentais à guerra de trincheiras, foi a justificação para tal procedimento. O Corpo de Artilharia Pesada (CAP), viria a receber instrução na Escola de Artilharia no campo de treino de Roffey em Harsham na Inglaterra entre 1917 e 1918. Por razões de uniformidade com o equipamento das tropas britânicas em cujo o sector iriam ser integradas, as nossas unidades, receberam em França armas ligeiras iguais às usadas pelas tropas inglesas, entre as quais espingardas Lee-Enfield MK III M/1917 de 7,7 mm em substituição da carabina Mannlicher m/896 em cal. 6,5 mm que era a arma normalmente utilizada pela Artilharia e Cavalaria. Os oficiais e alguns sargentos iam armados com pistolas americanas Savage 1907 de 7,65 mm, que Portugal tinha adquirido em 1915 em substituição das pistolas Luger Parabellum 7,65 mm. Segundo os registos, não há elementos seguros sobre o número de espingardas Lee-Enfield recebidas, mas calcula-se que terão sido mais de 40.000. Algumas das peças que faziam parte do equipamento português que cada homem levava consigo eram; cantil mod. 1914, o sabre baioneta (pertencente às carabinas Mannlicher), pá/enxada, marmita de lata, conjunto de garfo e colher, e o capacete mod. 1916 de fabrico português de copa canelada, sendo este mais tarde substituído em França pelo modelo britânico MK1 1916 de copa lisa. De referir por curiosidade que este capacete de copa canelada, foi até aos nossos dias o único modelo de fabrico português, cujo desenho pretendia reproduzir um modelo de capacete do século XV. Das peças de artilharia levadas para França, faziam parte os canhões Schneider-Canet de 7,5 cm T.R. m/904, contudo estas peças acabaram por não ser utilizadas na frente de combate, tendo ficado em reserva, sendo posteriormente reenviadas para Portugal. As peças de artilharia que foram distribuídas em sua substituição foram as famosas 75 mm francesas, adotadas pelo CEP sob a designação de peça 7,5 cm T.R. m/917. Por fim e após este período de treino e instrução, eram transportados em comboios até às proximidades da linha da frente. Foi-lhes atribuído um setor na frente, situado na Flandres francesa, em frente da cidade de Lille, entre Armentières e Béthune. Em 8 de fevereiro chegaram à Flandres francesa, região que acolheria o CEP.  São recebidos cerca de 55 000 militares portugueses de características significativas, recrutados e solteiros na sua maioria, com idades compreendidas entre os 20 e 25 anos. Ao chegarem à Frente Ocidental, depois de uma marcha de dois, cinco até de dez dias, até chegarem aos respectivos batalhões, as tropas portuguesas do CEP, adaptaram-se rapidamente ao ambiente de guerra de trincheiras, mostrando grande eficiência e espírito combativo. Em 4 de abril de 1917 as primeiras tropas portuguesas ficaram entrincheiradas e, nesse mesmo dia, António Gonçalves Curado foi o primeiro soldado português morto em combate. A notícia desta primeira baixo do CEP é noticiada em Portugal pela revista Ilustração Portugueza de 14 de maio de 1917.
 

 
Postal ilustrado mostrando o porto marítimo militar de Brest no início do século XX (col. pess.)
 
 


Tropas portuguesas do CEP desembarcam no porto de Brest na França, em 1917
(arq. Bibliothèque Nationale de France)

Desembarque no porto de Brest dos artilheiros do Regimento de Artilharia 2 da Figueira da Foz
que constituíram o 1.º GBA - Grupo de Baterias de Artilharia
 (arq. Bibliothèque Nationale de France)

Controlo de soldados da 1.ª Divisão de Artilharia do CEP pouco depois da chegada a Brest
(arq. Bibliothèque Nationale de France)
 
 
 
Soldados do CEP num momento de descanso no porto de Brest em 1917 (arq. priv.)

Tropas do CEP marchando em terras de França em 1917 (arq. priv.)

Militares do CEP esperando a partida na estação de comboio de Brest em  1917 (arq. pess.)

Publicação com a proclamação do general Fernando Tamagnini
às tropas do CEP em França em 1 de junho de 1917 (arq. priv.)


Tropas de infantaria do CEP em Locon em 24 de junho de 1917 (arq. Imperial War Museum)
 


Chegada de tropas do CEP a estação de caminho de ferro na Inglaterra em 1917 (arq. pess.)


Militares do CEP em campo de treino inglês fazendo tiro com as metralhadoras Lewis em 1917
(col. pess.)

Campo de treino dos sapadores de infantaria do CEP em França, com os soldados na aprendizagem
de construção de trincheiras, foto Arnaldo Garcês (arq. pess.)
 

Militares do CEP na prática de lançar granadas na escola de treino de infantaria de Marthes
em 23 de junho de 1917 (arq. priv.)

Soldados do CEP no campo de treino de Horsham na Inglaterra
treinando o uso da mascara de gás
 (arq. Imperial War Museum)

Artilheiros do CAP - Corpo de Artilharia Pesada no campo de instrução
de Roffey Camp, Horsham em Inglaterra no ano de 1918
 (arq. Imperial War Museum)




Postal ilustrado alusivo aos exercícios dos soldados do CEP em 1917 (col. pess.)
 
 
 
 
 
Pistola Savage de 7,65 mm (col. priv.)
 
 
 
Espingarda inglesa Lee-Enfield Mk III 7,7 mm e respectivo sabre (col. priv.)


Capacetes mod. 1916 utilizados pelo CEP (col. pess.)



Colher distribuída às tropas do CEP em 1917,
usada pelo meu avô materno José Claro André
(col. pess.)


Algum do material usado  pelas tropas do CEP nas trincheiras, cantil, lanterna a petróleo e marmita
(col. priv.)





Aspectos de soldado do CEP com todo o seu equipamento em 1917
(arq. priv.)

 
                          
 
 
Porta-Bandeira Português. Os portugueses saúdam seus amigos e aliados
na Grande Guerra Europeia por Augusto de Pina
(col. priv.)
 
 
 
                
 

                               Uniformes de oficial ajudante do Comando e soldado do Corpo Expedicionário Português (CEP) 
em 1916, edição Museu Militar (col. pess.)
 

 
Soldados de infantaria do CEP a caminho do campo de batalha na Flandres em 1917 (arq. pess.)
 
 

Marcha de uma bateria de peças 7,5 cm T.R. m/917, pertencente
a um dos Grupos de Baterias de Artilharia do CEP
(arq. Imperial War Museum)
 
 

Viaturas hipomóveis da artilharia do CEP numa estrada da Flandres em 1917 (arq. pess.)


Esquema com os perfis das trincheiras do CEP em 1917 (arq. CEP)


Disposição das linhas defensivas das trincheiras do CEP em 1917 (arq. CEP)


 
Militares do CEP na trincheira durante um combate em 1917 (arq. priv.)


Soldados do CEP na Frente portuguesa em 1917, foto de Arnaldo Garcez 
(arq. Histórico Militar, Lisboa)
 


Soldados do CEP nas trincheiras no campo de batalha em 1917 (arq. priv.)
 
 
 
 
Militares do CEP utilizando morteiros no campo de batalha em 1917/18 (arq. pess.)


 
Soldado do CEP junto a crucifixo no campo de batalha
da Flandres em 1917 (arq. pess.)
 
 

António Gouveia Curado, primeiro soldado português morto em França
pelos alemães in Ilustração Portugueza de 14 de maio de 1917
 (arq. Hemeroteca Digital)




No entanto as condições das tropas do CEP foram piorando ao longo dos tempos, nomeadamente devido à falta de reforços que impediam a substituição e descanso das tropas. Esta situação era agravada por outros factores tais como o Inverno frio e húmido, muito diferente do que os portugueses estavam habituados, por vezes atingindo os 30 graus negativos. A 2 de abril de 1917 o Corpo Expedicionário Português (CEP), a coberto da bruma da madrugada, entram nas trincheiras num total de 55 000 homens. Ai encontram um novo tipo de guerra, enfrentam o frio, a neve, a lama pegajosa, ratos, larvas, parasitas, o barulho ensurdecedor dos bombardeamentos e a surpresa dos gases asfixiantes. Os avanços tecnológicos militares, foram na prática um poder de fogo defensivo mais poderosos que as capacidades ofensivas, tornando esta guerra extremamente mortífera. Para além do desenvolvimento das armas ligeiras com metralhadoras cada vez mais rápidas e potentes, novos navios de combate, submarinos, assim como o uso da aviação e zepplins pela primeira vez para fins militares, o desenvolvimento da artilharia, como o famoso e designado "Canhão Kaiser", também conhecido como "Canhão Paris", os primeiros carros blindados de combate, lança chamas e o uso do arama farpado. Os alemães começaram a usar gás de cloro em 1915, sendo o início da utilização das armas químicas, e logo depois ambos os lados usavam a mesma estratégia, iniciando a utilização do designado gás mostarda. Estratégia esta que tornou a vida nas trincheiras ainda mais miserável, sendo um dos mais temidos e lembrados horrores desta guerra.  No começo do Inverno de 1917/1918, foram distribuídos aos soldados em França, pelicos e ceifões alentejanos. Houve, no entanto, alguns soldados que consideraram mas elegante usarem os agasalhos com o pêlo de carneiro virado para fora, o que lhes dava um aspecto curiosíssimo. A primeira vez que os alemães viram circular os nossos soldados pelas trincheiras com aquele aspecto peludo, juntaram-se numa fileira junto ao parapeito a observar o espectáculo com muito espanto. Foi então que começaram a surgir as gargalhadas de desdém e a ouvirem-se largos "mé!, mé!", depois imitando balidos e prolongado a onomatopeia "mé-é-é-é!"
Não faltando as respostas bem portuguesas à humilhação a que assistiam respondendo: "Carneiro será o teu pai, meu grande filho da ..." entre outras injúrias mais, bem à portuguesa como se pode imaginar. Habituam-se ao chamado corned beef, termo dado à ração de combate fornecida pelos ingleses (composta por um preparado de carne de bovino ou de cavalo, tratada em salmonela e fervida em vinagre), e bolachas, que os faz suspirar pelo bacalhau e pão escuro nacional. Mais tarde a ração será ligeiramente melhorada e mais adequada ao gosto destes soldados. No entanto adoecem, vêm corpos mutilados e enterram camaradas. A convivência diária com os elementos bélicos, ligados ao sofrimento e à morte, destroçavam a mínima réstia de esperança que os iluminasse. No depoimento do soldado, sapador ferroviário, Pedro Freitas, podem-se ler as cenas mais macabras desse clima da guerra:
"Os cadáveres de soldados, mulas, cavalos e mais fragmentos macabros, são em abundância e em verdadeiro estado de putrefacção. Espalhados à superfície da terra, incomodam-nos, horrorizam-nos. A falta de preparação para enfrentar-se de modo súbito a situação, é a causa do nosso aniquilamento moral. [...] O apetite desaparece. [...] Aqui arrumando-se, ali carregando-se; mais volta para aqui, mais volta para acolá; mais engulhos de enjoo por ter-se topado com uma perna ou cabeça a granel de mistura com pá ou picareta."
O CEP dispunha de Postos de Socorro Avançados em cada Batalhão, os feridos eram assistidos por um médico de forma a poder ser transferido para um Posto de Socorros por hipomóvel ou automóvel. No hospital da Cruz Vermelha Portuguesa estiveram 54 enfermeiras portuguesas, denominadas "Damas Enfermeiras". Estas foram preparadas através de cursos de enfermagem ministrados pela própria Cruz Vermelha Portuguesa e remuneradas por esta instituição. Este primeiro Grupo Auxiliar das "Damas Enfermeiras", chefiado por Eugénia Manuel, foi colocado no Hospital de Sangue n.º 8, em Herbelles, na zona avançada do CEP. O segundo foi colocado no Hospital de Base nº 1, substituindo as enfermeiras britânicas. O recrutamento de enfermeiras militares seria regulamentado pelo decreto de 28 de agosto de 1918. Maria Francisca Dantas Machado (1899 - 1918), filha do então presidente da República Bernardino Machado (1851 - 1944), foi "Dama Enfermeira", tendo servido nos hospitais de campanha do Corpo Expedicionário Português na Flandres.
Curiosamente neste clima de terror, os soldados portugueses criam o seu próprio calão de guerra, muitos destes termos tendo ficado como "Front" (linha da frente), "Ir aos arames" (ir de encontra o arame farpado), "Arraite" (do inglês all rigth), "Avenida Afonso Costa" (terra de ninguém), "Balázio" (tiro de pistola ou metralhadora) "Bife" (soldado inglês), "Boche" (soldado alemão, derivante do francês caboche), "Cachapin" (oficial ou soldados que conseguiram ser transferidos para a retaguarda, ou que tendo ordem de ir para as trincheiras nunca lá chegaram), "Cavanço" (fuga para a retaguarda), "Lãzudo" (soldado português), "Recoca" (serviços de apoio na primeira linha, cozinheiros, tratadores de gado, condutores, etc. longe do parapeito), "Toupeira""Trincha" (soldado das trincheiras), "Porco" (projéctil de morteiro pesado), "Salchichas" (balões de observação ou drachens), "Luísa" (metralhadora inglesa Lewis), "Básicos" (oficiais da base), "Palmípedes" (oficiais do Estado – Maior que anda de carro e dorme debaixo de telha), entre muitos mais que ficaram.
Nos momentos de descanso aproveitam para esquecer a guerra, jogando às cartas ou ao dominó, cantando fado, cantigas tradicionais, fazendo artefactos como futuras recordações de guerra, escrevendo cartas aos familiares ou namorando as francesas, mesmo sem saber uma palavra do seu idioma. Surge então o famoso Fado do Cavanço, cantado às escondidas, nesses poucos momentos de lazer. Eram os poucos momentos em que possibilitavam o gozo de momentos de alegria, de confraternização em grupo, de nostalgia da terra natal e da família e, por conseguinte, de evasão da realidade e de refugio em boas recordações. Como curiosidade, no início desta guerra, chegando a época natalícia, há relatos de os soldados de ambos os lados cessarem as hostilidades, sem consentimento do comando, saindo mesmo das trincheiras e cumprimentarem-se em tréguas de Natal. A comemoração dos dias festivos, tradicionais e populares em Portugal, como as vésperas de Santo António e de São João, levava os entrincheirados a organizar arraiais, apenas sem balões. Quando tinham hipótese iam até às vilas ou cidades próximas para se distraírem nos "estaminés", como eram designados os estabelecimentos comerciais com mercearia e taberna, onde se reuniam com outros camaradas ingleses, franceses e australianos para confraternizar, jogar e até namoriscar as francesas, onde podiam comer algo melhorado, beber café, cerveja e vinho. Aproveitam nesses poucos tempos de saída e de distração para nessas vilas irem a fotógrafos fazer fotos em forma de postais que enviavam para os familiares, amigos e namoradas em Portugal. Juntamente escrevem, ou pedem para escrever aos camaradas alfabetizados, a esses entes queridos, enviando postais alusivos à guerra.
Mas os duelos aéreos da Artilharia e da Aviação contrastavam com a luta corpo a corpo entre as trincheiras dos adversários. O arame farpado constituiu, também, um obstáculo à progressão dos atacantes. O receio de enfrentar o arame farpado tornou-se imobilizador. A perigosidade do fogo das armas envolvia os combatentes num ritmo de desvalorização do ser humano, exacerbando egoísmos de sobrevivência e indiferenças perante a dor do seu próximo, como testemunham Quirino Monteiro e Melo Vieira:
"Não há tempo de pensar nem acudir aos camaradas que tombam. A febre do combate torna os homens egoístas e indiferentes. Toda a sensibilidade se anula. Uma vida não vale nada; um corpo esfacelado é apenas um incidente; os gemidos não passam de sons que se juntam ao ruído infernal de tantos outros formado. Toda a trincheira está em fogo."
 Outros por sua vez sentem viver uma espécie de sentimento de "lotaria da guerra", como recorda David Magno: 
"como se assistissemos a uma prolongada lotaria, em que estivéssemos momento a momento à espera de um número em que "sorte grande" era morte, uma cegueira, uma tuberculose por gáses, etc., e os pequenos prémios a perda de um braço ou de uma perna ou qualquer ferimento." 
Sentem medo, desolação e cansaço. O dia-a-dia na trincha era horrível, desumano. Quando chovia, o que era vulgar na Flandres, os soldados tinham de lutar, comer e dormir, semanas a fio, ensopados e enregelados. Muitos desses soldados acabam por contrair pneumonias e tuberculose, vindo a baixar às enfermarias, acabando muitos deles  por morrer dessas mesmas doenças. A lama estava por todo o lado. As ratazanas, grandes como gatos, e os corvos, negros como a fuligem, tornavam ainda mais pesada aquela cruz, pois roíam e debicavam os cadáveres dos camaradas que à vista dos vivos jaziam, semienterrados, na Terra de Ninguém. Na própria trincheira os bichos roedores disputavam o espaço e mesmo a comida dos infelizes expedicionários. Os combatentes constroem uma relação muito especial com o sagrado para garantir a estabilidade psicológica e o apoio capaz de assegurar a sobrevivência nos campos de batalha, para além de acenderem velas nas capelas destruídas que encontram, adoram as imagens e os crucifixos que vão encontrando perto dos campos de batalha na Flandres, trazem ainda alguns com eles, amuletos e figuras sagradas cristãs, mais tarde punidas por alguns oficiais. Na frente de batalha, combatem com coragem e heroísmo, outros desertam (como o soldado João Ferreira de Almeida que é fuzilado em 1917, represtinando a lei para crimes de guerra em 16-09-1916), outros revoltam-se ou são feitos prisioneiros pelos alemães. 
Em Portugal, por iniciativa de Genoveva de Lima Mayer Ulrich, iniciaram-se os peditórios a favor das vítimas da guerra. "A venda da Flor", como ficou conhecida esta, começou no dia 15 de março de 1917 com um grupo de senhoras da sociedade portuguesa, envergando braçadeiras brancas que vendiam pequenas flores artificiais aos cavalheiros que as colocavam nas lapelas dos casacos, a troco de donativos. Estes peditório eram feitos nas ruas e estabelecimentos da cidade de Lisboa e do Porto, no Parlamento e até na residência do Presidente da República. O balanço deste peditório ascendeu a algumas dezenas de contos, iniciativa esta que se repetiu em abril de 1918.


 
Soldados no campo de batalha em 1918 durante a Primeira Grande Guerra (arq. priv.)
 

 Soldados espreitando nas trincheiras em campo enlameado em 1917/18 (arq. priv.)

Novas armas e material bélico da Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)
 

O denominado "Canhão do Kaiser" ou "Canhão Paris" (arq. priv.)

Ataque de gás na Primeira Grande Guerra Mundial em 1915 (arq. priv.)

Zepplin sobrevoando barcos de guerra na Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)
 
 
Soldados aliados no campo de batalha enfrentando o arame farpado em 1917 (arq. priv.)



Militar do CEP utilizando o periscópio na trincheira em 1917 (arq. priv.)


Soldados do CEP nas trincheiras entre Neuve-Chapelle e Ferme-Du-Bois (arq. priv.)

Um abrigo de artilharia do CEP em 1917 (arq. priv.)
 

Soldados do CEP em posição de combate na Flandres (arq. priv.)
 

Soldados aliados numa trincheira num campo de batalha sob fogo em 1917 (arq. priv.)


Ilustração de 1917 de soldado português João Ninguém da Grande Guerra
envergando o pelico alentejano desenho do capitão Menezes Ferreira
(col. Hemeroteca Digital)


Soldado de Infantaria do CEP trajando
os pelicos alentejanos em 1918,
edição Museu Militar
(col. pess.)


Soldados do CEP feitos prisioneiros pelos alemães trajando os famosos pelicos alentejanos em 1918
(arq. priv.)
 

Dois soldados do CEP comem a sua refeição de corned beef nas trincheiras (arq. pess.)

Distribuição do rancho ás tropas do CEP nas trincheiras (arq. pess.)

Tropas do CEP nas trincheiras perto de Neuve Chapelle, em 25 de junho de 1917 (arq. priv.)



Homens e animais mortos num campo de batalha durante a Primeira Grande Guerra Mundial
(arq. priv.)


Soldados aliados num campo de batalha enlameado em 1917, foto colorida da época
(arq. priv.)
 

Soldados aliados observam cadáver de camarada no campo de batalha em 1917,
foto a cores da época (arq. priv.)

A morte no campo de batalha em "O glorioso sono...", gravura de Menezes Ferreira
(col. priv.)


1º Grupo de auxiliar de "Damas Enfermeiras" do CEP (arq. priv.)


"Damas Enfermeiras" da Cruz Vermelha Portuguesa  no sector recuado do CEP na Flandres
(arq. priv.)

Postal ilustrado alusivo às "Damas Enfermeiras" do CEP na I Grande Guerra Mundial
(col. pess.)

Maria Francisca Dantas Machado 1898-1918
(arq. priv.)



Soldado alemão confraternizando com soldado aliado
durante a Primeira Grande Guerra Mundial
(arq. priv.)


Soldados do CEP numa trincheira em 1917 com foguetes de localização usados em caso de ataque
 (arq. priv.)
 

Soldados do CEP num momento de pausa na trincheira perto de Neuve Chapelle
escrevendo para a família em 1917 (arq. priv.)


Artefacto religioso feito nas trincheiras
nas horas vagas (col. pess.)

Lamparina artefacto de militares nas trincheiras
(col. pess.)


Soldados do CEP comemorando o dia de São João numa vila francesa, foto colorida
(arq. CEP 1917-1918)

Militares do CEP em tempo livre à porta de um "estaminé" (arq. pess.)
 
 
 
 
Soldado do CEP José Claro André, meu avô materno,
foto tirada em França em 1917 (arq. pess.)


Papel de carta distribuído às tropas do CEP (col. priv.)


Postal ilustrado bordado alusivo a Portugal
da época da I Grande Guerra Mundial
 (col. pess.)

Postal ilustrado português da época
da I Grande Guerra Mundial
(col. pess.)


 

                                  


                                  


                                                    

Postais ilustrados alusivos à vida nas trincheiras do CEP entre 1917 e 1918
 (col. pess.)

 

Grupo de soldados do Batalhão de Infantaria do CEP descansando em acampamento
(arq. priv.)
 
  
 
Artefacto religioso da I Grande Guerra disfarçado (col. pess.)


Soldados aliados no campo de batalha transportando camarada ferido em combate
 (arq. priv.)


Hospital de campanha português na frente de batalha em Saint Venant em 1918 (arq. priv.)


Soldados portugueses prisioneiros no campo alemão de Breesen in Mecklembourg em 1918
(arq. priv.)



Venda da flor, iniciativa  a favor das vítimas da guerra, junto ao café Suisso em Lisboa em 1917,
foto de Leilão Soares e Mendonça (arq. AML)
 

Pequena flor artificial que era vendida a favor das vítimas da guerra
(col. Manuel Ribeiro)



O CEP quase conhece a sua destruição, no dia 4 de abril de 1918 e as tropas amotinaram-se em pleno campo de batalha. As condições foram-se agravando a tal ponto que o Comando do 1º Exército Britânico decidiu a rendição das tropas portuguesas por tropas britânicas, com o objectivo de permitir o descanso daquelas. É justamente no dia previsto para a rendição do CEP que se dá a ofensiva alemã e a Batalha do Lys, apanhando as forças portuguesas numa posição completamente desfavorável. Com a ofensiva "Georgette" dos alemães, montada pelo general Erich von Ludendorff (1865 - 1937), os portugueses, não motivados e muito mal preparados, acabaram por sofrer uma derrota estrondosa na Batalha de La Lys (sector de Ypres), em 9 de abril de 1918, logo após a derrota do Exército Britânico em Arras. Não se pode definir um tempo de duração da fase inicial da ofensiva, mas, em quatro horas de batalha, as tropas portuguesas perderam cerca de 7500 homens, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, ou seja, mais de um terço dos efetivos, entre os quais 327 oficiais. A Batalha de La Lys, foi considerada por muitos como a "Alcácer Quibir do século XX" onde terão morrido cerca de 2089 soldados do CEP. Como símbolo desta terrível Batalha de La Lys,  ficou uma tosca cruz em madeira, deixada pelos alemães na campa do soldado Manuel da Silva com a inscrição: "Hier ruht ein tapferer Portuguiese" (Aqui jaz um valente Português).
Era o princípio do fim da guerra para os portugueses. Assim o CEP retirou-se para a retaguarda dos Aliados (com base na Tríplice Entente, entre Reino Unido, França e o Império Russo), alguns efetivos foram integrados no exército inglês, outros utilizados para mão - de - obra na abertura de trincheiras, o que foi desmoralizando cada vez mais os soldados portugueses. Esta derrota já era esperada pelo comandante do CEP, general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e pelo comandante da 2.ª Divisão Manuel Gomes da Costa e pelo Chefe do Estado-Maior do Corpo Expedicionário Português (CEP), em França o coronel João José Ludovice Sinel de Cordes (1867 - 1930), que por diversas vezes avisaram o governo de Portugal e o comando do 1º Exército Britânico, das dificuldades existentes. O envio do CEP para França tinha sido motivo de desacordo interno entre os vários departamentos do Governo Britânico e o Governo Francês. Enquanto que o Governo Francês e o Ministério da Guerra Britânico (War Office) se mostravam bastante favoráveis à ajuda portuguesa (originalmente tinha sido o Governo Francês a pedir ajuda a Portugal logo no início da guerra), o Ministério do Exterior Britânico (Foreign Office) opunha-se, por razões políticas, à mesma ajuda. A estadia do CEP em França foi sempre muito atribulada, não tendo havido a substituição de efectivos, devido aos navios britânicos necessários para isso, terem sido requisitados para o transporte das tropas americanas para a Europa e porque alguns dos oficiais que conseguiam vir a Portugal, já não voltavam para o seu posto em França. Após La Lys, o governo de Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1872 - 1918), afirmou tentar enviar mais 10 a 15 mil homens, mas esse envio nem nunca foi efectivamente concretizado. Apesar da Batalha de La Lys ter sido, em termos tácticos imediatos, uma derrota para o CEP, a mesma acabou por dar origem a uma vitória estratégica para as forças aliadas. A resistência das forças portuguesas foi muito desigual mas globalmente ténue, o que se justifica pelo estado de fatiga e desmotivação do CEP causado pelo tempo excessivo passado nas linhas da frente. A ordem inglesa de "morrer na linha B" não foi cumprida. De qualquer forma o ímpeto do ataque germânico foi-se perdendo e a sua progressão foi atrasada impedindo que o Exército Alemão alcançasse os seus objectivos estratégicos.



Soldados do CEP em movimentações na trincheira num campo de batalha em 1918 (arq. priv.)


Batalha de La Lys in cabeçalho da Ilustração Portugueza de 9 de abril de 1918
(arq. pess.)
 

Tropas do CEP no campo de batalha enfrentando arame farpado em 1918 (arq. priv.)


Gravura água -forte representando a Batalha de La Lys em 9 de abril de 1918
por Adriano Sousa Lopes (col. pess.)


Soldado do CEP morto na batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)


Soldado morto na batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)


Imagem de Cristo mutilado em pleno campo de batalha de La Lys
oferecido a Portugal em 1958 (arq. priv.)


Soldado aliado chorando no campo de batalha enlameado em 1918
(arq. priv.)


Cruz em madeira deixada pelos alemães na campa do soldado
do CEP Manuel da Silva após a Batalha de La Lys
com a inscrição Aqui jaz um valente Português
(col. museu Militar de Lisboa)

 
 
Tropas do CEP feitos prisioneiros em 1918 (arq. priv.)
 

Tropas do CEP cansados e desmotivados numa trincheira em 1918 (arq. priv.)



O general Gomes da Costa condecora combatentes da batalha de La Lys
in capa da publicação Ilustração Portugueza de 22 de julho de 1918
(col. pess.)



Generais Tamagnini, Hacking e Gomes da Costa (arq. priv.)


Feridos ingleses após ataque de gases (arq. Imperial War Museum)


Soldado do CEP despede-se de soldado inglês em 1918
(arq. priv.)




 
Entre alguns heróis portugueses esquecidos desta guerra, salienta-se o Soldado Milhões de seu nome Aníbal Augusto Milhais, que se destacou por atos heroicos na Batalha de La Lys, em que sozinho na trincheira, munido apenas da sua metralhadora Lewis, ou "Luísa" como era designada em calão das trincheiras, enfrentou as colunas de alemães que se atravessaram no seu caminho o que possibilitou a retirada de outros camaradas portugueses e ingleses para posições defensivas na retaguarda. Depois perdido vagueando por trincheiras e campos, ora de ninguém ora ocupados pelo inimigo, foi-se defendendo, até que quatro dias depois encontra um médico militar escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. Valeu-lhe as palavras do comandante Ferreira do Amaral que o saudou com as palavras que ficaram para a história "Tu és Milhais, mas vales Milhões". Foi premiado com várias condecorações estrangeiras e a mais alta condecoração honorária nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Outros heróis portugueses se salientaram nesta guerra como o primeiro - tenente José de Carvalho Araújo, conhecido como o Mártir do Mar e o primeiro piloto de guerra português Óscar Monteiro Torres, conhecido como O Cavaleiro Voador. No dia 11 de novembro de 1918, às 2h 05 da madrugada, num episódio mais tarde conhecido como Dia do Armistício, éassinado o cessar-fogo, entre a então designada República de Weimar. Tudo isto aconteceu numa carruagem restaurante Nº 2419 D da CIWL, na floresta de Compiègne no norte de França. Os principais signatários foram o marechal Ferdinand Foch (1851 - 1929), comandante chefe das forças da Tríplice Entente, o almirante inglês Sir Rosslyn Wemyss e Matthias Erzberger, representante alemão. Termina assim esta guerra com a vitória dos Aliados. Seguindo-se depois ao Armistício o Tratado de Paz de Versalhes, celebrado em 1919, os termos do acordo foram severos para Alemanha, segundo o qual, a Alemanha, derrotada, era obrigada a reduzir as suas tropas pela metade, pagar pesadas indemnizações aos países vencedores, ceder todas as colónias e restituir a região da Alsácia – Lorena à França.
Em Portugal à semelhança dos outros países envolvidos no conflito, comemora-se o fim da guerra, as ruas das cidades enchem-se de populares e é feito um discurso alusivo ao facto no varandim do palácio de Belém pelo então presidente da República Sidónia Pais em novembro de 1918. Apesar dos reforços não terem sido enviados, no final da guerra, com os restos do CEP ainda se conseguiu organizar alguns Batalhões que tomaram parte nas últimas operações que levaram à vitória final aliada, tendo participado na marcha da vitória em Paris em 1919, trazendo assim alguma glória e honra para Portugal.



 
Heróis portugueses da Primeira Grande Guerra Mundial, José de Carvalho Araújo,
Aníbal Milhais e Óscar Monteiro Torres (arq. pess.)



Ilustração do soldado Milhões durante o ataque alemão em 1918
(col. pess.)


Responsáveis pela assinatura do Armistício em 11 de novembro de 1918
junto a carruagem Nº 2419 D da CIWL
(arq. priv.)

 

Soldados aliados num campo de batalha, erguem os seus capacetes e saúdam o dia do Armistício,
em 11 de novembro de 1918 (arq. priv.)
 


Mapa da Europa após a Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)



Pagina do jornal Diário de Noticias do dia 11 de novembro de 1918 anunciando o Armistício
(arq. priv.)
 

Notícia do fim da guerra com a assinatura do Armistício no cabeçalho do jornal A Capital
do dia 11 de novembro de 1918 (arq. priv.)


Comemorações no final da Primeira Grande Guerra Mundial com Sidónio Pais
discursando do varandim do palácio de Belém em novembro de 1918
(arq. AML)



Desfile de batalhões do CEP em Paris nas comemorações do final da guerra em 14 de julho de 1919
(arq. priv.)


Tropas do CEP sendo agraciadas por criança na parada da vitória em Paris, a 14 de julho de 1919,
foto Arnaldo Garcez, colorida por Jorge Henrique Martins (arq. Liga dos Combatentes)


 

Após o final da guerra, alguns soldados portugueses desmobilizados, temem pelo regresso à Pátria assim como a incerteza do futuro que os espera, fazendo com que muitos construíssem laços afetivos com França e lá ficassem temporária ou definitivamente, optando por casamentos com francesas e constituindo família. Mas no entanto em março de 1919, regressam a Portugal os últimos expedicionários portugueses, alguns feitos prisioneiros durante a guerra, com saudades da família e da terra natal. Para trás ficava uma guerra devastadora sem sentido que, entre mortos, feridos e prisioneiros, marcou a vida de 14062 portugueses, recebendo uns condecorações com a Cruz de Guerra e sendo outros completamente esquecidos. Com o passar do tempo, apenas restou aos "trinchas" a saudade... dos bons e maus momentos das trincheiras, recordados com alegria e exageros por vezes dos seus feitos, mas também com tristeza e muitas lágrimas, capazes de emudecer qualquer um. Todos afinal foram heróis, os que morreram assim como os que sobreviveram. Uns morreram, os que sobreviveram passaram o terror e as tormentas desta guerra, tudo pela Pátria, e, principalmente, pelo tal jovem regime republicano que se quis impor e a má política. Foi como todas as guerras, um conflito de violência e brutalidade do homem para com o e seu semelhante, que para além das vítimas e estropiados que fez (mutilados e gaseados), traumas psicológicos devido as neuroses de guerra, levando em alguns casos ao suicídio,  deixando um rasto de destruição e consequências para as gerações vindouras.
É de louvar também o trabalho de reportagem fotográfica feito por os vários repórteres e fotógrafos de guerra, quer estrangeiros quer portugueses, como Joshua Benoliel (1873 - 1932), Arnaldo Garcez Rodrigues  (1885 - 1964), entre outros e  artistas como João Guilherma de Menezes Ferreira (1889 - 1936), Adriano Sousa Lopes (1879 - 1944), que representaram à sua maneira cenas deste conflito, sem os quais hoje não se poderia perceber com exactidão o que foi esta guerra por imagens passo a passo. Ergueram-se monumentos aos combatentes quer em Portugal, quer nos demais países envolvidos no conflito, homenagearam-se ainda os mortos desta guerra em cemitérios, assim como aos soldados desconhecidos dos seus países.
Em jeito de opinião conclusiva, a Primeira Grande Guerra Mundial acabou em vergonha para os alemães, decepção com os ingleses, respeito pelos franceses e  de punição para os governantes portugueses da época.
 


Soldados do CEP prisioneiros em campo de presos alemão (arq. priv.)

 

Desembarque dos prisioneiros do CEP repatriados em 1919 (arq. pess.)

Cruz de Guerra, condecoração portuguesa da Primeira Grande Guerra,
frente e verso (col. pess.)

Soldados do CEP na Flandres por Adriano Sousa Lopes
(sala da Grande Guerra do Museu Militar de Lisboa)

 
 
Um soldado com prótese para braço amputado
no hospital de Arroios em 1919 (arq. pess.)
 
 
 
 
Representação das mulheres cujos filhos e maridos estão dados
como desaparecidos na guerra
 por Adriano Sousa Lopes em 1927
(arq. priv.)


Vagão transportando os restos mortais do soldado desconhecido
na estação do Rossio em 9 de abril de 1921 (arq. priv.)


Túmulo do soldado desconhecido da Grande Guerra na Casa do Capitulo
do mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha
 (arq. priv.)

Lápide do túmulo do soldado desconhecido da Grande Guerra na Casa do Capitulo
do mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha
(arq. priv.)


Cemitério português dos combatentes do CEP mortos na Primeira Grande Guerra
 em Richebourg, França (arq. priv.)


Lapides dos combatentes do CEP mortos na Primeira Grande Guerra
no cemitério português em Richebourg França
(arq. priv.)


Monumento aos combatentes da  Grande Guerra em Lisboa (arq. priv.)



 
Uma vez mais, e porque nunca será demais, presto aqui homenagem a todos os combatentes desta guerra, que há 100 anos partiram de Portugal, nela lutaram com bravura e heroísmo, aos que nela pereceram, assim como aqueles que regressaram, em especial ao meu avô materno, que não conheci, José Claro André, conhecido como "Zé Guardado", natural de Penha Garcia na Beira Baixa, que fez parte do Corpo Expedicionário Português (CEP) entre 1917 e 1919.















Texto:
Paulo J. André Nogueira

 

Fontes e bibliografia: 
 
MARTINS, Luiz . A. F., Revista MilitarMobilização do Exército da República, janeiro de 1916
Ilustração Portugueza, II série, nº 573, de 12 de Fevereiro de 1917, edição semanal do jornal O Seculo, Lisboa
Ilustração Portugueza, II série, nº 578, de 19 de Março de 1917, edição semanal do jornal O Seculo, Lisboa
Ilustração Portugueza, II série, nº 589, de 14 de Maio de 1917, edição semanal do jornal O Seculo, Lisboa
PONTES, José, Mutilados portugueses. Narrativas de guerra e estudos de reeducação, Guimarães & C.ª, Lisboa, 1918
MARQUES, Isabel Pestana, "Das Trincheiras, com Saudades" A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Grande Guerra Mundial. Lisboa, A Esfera dos Livros, 1ª edição Março 2008 
KEEGAN, John (1998), "The First World War", Hutchinson, General Military History
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