NOTA

OS TEXTOS ASSINADOS POR OUTRÉM OU RETIRADOS
DE OUTROS BLOGUES OU SÍTIOS NÃO REFLECTEM NECESSÁRIAMENTE
A OPINIÃO OU POSIÇÃO DO EDITOR DO "desenvolturasedesacatos"

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL - PRESENÇA NA ÍNDIA - A IGREJA E A SANTA SÉ NA GUERRA COLONIAL

India Portuguesa - morto em combate
O herói Cmdt Oliveira e Carmo


Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, oficial da Marinha Portuguesa, morreu em combate depois de uma acção heróica contra as forças da União Indiana que invadiam a Índia Portuguesa.


Em finais de 1961, o jovem 2º Tenente Oliveira e Carmo, 25 anos, comandava a Lancha "Vega" baseada em Diu ao serviço do Comando Naval da Índia Portuguesa, quando se dá o ataque da União Indiana àquele território. No dia 18 de Dezembro, depois de tentar efectuar um ataque e reconhecimento ao cruzador indiano "Delhi", o Tenente Oliveira e Carmo decide entrar em combate com os caça-bombardeiros Vampire, da Força Aérea Indiana, que atacavam as forças portuguesas em Diu. Começou por se fardar «de branco», explicando aos marinheiros «que assim morreria com mais honra». Exortou-os a lutar até ao fim: «Fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível». Com o fogo da peça antiaérea de 20 mm da "Vega" são repelidos vários ataques aéreos. No entanto num derradeiro ataque os Vampire bombardeiam a lancha atingido-o mortalmente no peito por disparos de um avião, mas antes, já uma rajada lhe havia cortado «as pernas totalmente pelas coxas». Morrem também dois marinheiros - António Ferreira e Aníbal Fernandes Jardino - e  ficam feridos outros dois. A guarnição da «Vega» era, apenas, de sete homens.
Pelo seu acto heróico, a título póstumo, Oliveira e Carmo foi condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada e promovido ao posto de Capitão-Tenente.






















A pequena lancha de fiscalização, de 17 metros de comprimento e uma única metralhadora de 20 mm, largada da doca de Diu, passou a barra e fez-se ao mar alto, em direcção ao «Delhi», um cruzador indiano de 9740 toneladas. Durante a sangrenta batalha, não foi a artilharia do navio inimigo que derrotou a «Vega», mas a metralha cruzada de dois ou três aviões.
O corpo do Cmdt Oliveira e Carmo nunca foi encontrado. 

cadernosmilitares.blogspot.pt


A Igreja Católica nas Colónias 

Luís Salgado de Matos 

A lgreja Católica teve papel decisivo na ascensão e na queda do colonialismo português durante o Estado Novo (1926-1974). Este regime - produto da aliança entre a administração pública, as Forças Armadas e a Igreja Católica - era um Estado de ordens moderno, assente no monopólio da soberania daquelas três instituições. 

O Estado Novo tinha, desde o seu início, a defesa das colónias como um dos objectivos. Os inimigos eram, então, as outras potências coloniais, em particular a Alemanha e a Itália, vencidas na Primeira Guerra Mundial e às quais eram geralmente atribuídas ambições africanas. 
Também neste campo foi decisivo o papel da Igreja na aliança. O seu símbolo era o Acordo Missionário entre Portugal e a Santa Sé, assinado no mesmo dia da Concordata, em 7 de Maio de 1940, e que vigorou enquanto se manteve a soberania portuguesa em África. 

O Acordo concedia ao Governo o direito de vetar as nomeações de bispos residenciais, subordinava todos os missionários àqueles prelados, entregava todo o ensino elementar dos indígenas à Igreja Católica e obrigava o Estado a financiar as missões em montantes superiores às verbas, aliás avultadas, que a I República afectara à Igreja em África depois da passagem do comandante Rodrigues Gaspar pelo Ministério das Colónias (1919). 



O apoio do Estado à Igreja vinha, pois, do tempo do anticlericalismo e o seu fundamento era laico: a Igreja civilizava por isso o Estado dava-lhe dinheiro e reconhecia-lhe autoridade. A Igreja, de acordo com as concepções da época, aceitava de bom grado este papel: para evangelizar era necessário civilizar e civilizar significava aportuguesar. 

A maior parte do financiamento do Estado às missões católicas ia para as escolas. O colonialismo português necessitava delas devido à presença das missões protestantes, quase exclusivamente estrangeiras. Todos os quadrantes políticos portugueses as viam como ameaça desnacionalizadora, mas, por muito que as execrassem, não podiam proibí-Ias, porque o Acto da Conferência de Berlim garantia, desde 1884, a liberdade de instalação de missionários. 

O Estado precisava também das missões católicas, pois elas foram, até ao começo dos anos 60, a única presença visível e produtiva - da soberania portuguesa em grande parte de vastos territórios coloniais, ignorados pela administração pública e pelas empresas portuguesas. 
A Igreja dependia dos dinheiros do Estado, por isso que os católicos portugueses - mais poupados do que franceses, italianos ou alemães - nunca pagaram o esforço missionário, e para obter verbas orçamentais não hesitou em manipular o argumento de que os protestantes desnacionalizavam os nativos. 

O começo das independências, após a Segunda Guerra Mundial, não impediu a Igreja Católica em Portugal de continuar a apoiar a presença portuguesa em África. Em 13 de Janeiro de 1961, dois meses antes da eclosão do conflito em Angola, uma nota do episcopado da metrópole, redigida como habitualmente pelo cardeal Cerejeira, afirmava: «A guarda e conservação e desenvolvimento da herança, que todo o Portugal considera ter-lhe sido confiada pela Providência, está no "sentido" da sua história, tem a significação e valor de serviço ao homem, à família, à sociedade, à ordem, à civilização, ao mundo.» 




O episcopado deixou claro desde o início da guerra, que não aceitaria qualquer contestação católica à política africana do Governo. Na sequência da «perda de Goa», os bispos voltaram ao tema na «Nota Pastoral de Confiança e Exortação Nacional», reafirmando que não terminara a «missão histórica de Portugal ... e acentuando a obrigação de «obedecer constante e lealmente à autoridade pública», tanto mais que «o comunismo ( ... ) assesta contra a nossa pátria todas as suas peças de assalto ... (20 de Janeiro de 1962). Posteriormente, a hierarquia reduziu as declarações pró-colonialistas que, no final do Estado Novo, acabaram por desaparecer do seu discurso.


www.guerracolonial.org

2. Católicos e anticolonialismo 


Luís Salgado de Matos 

O problema africano dividiu profundamente a consciência católica portuguesa, divisão que ocorreu tanto na metrópole como nas províncias ultramarinas, para usarmos a terminologia do Estado Novo. 
Comecemos por Portugal. A questão colonial desperta cedo uma sensibilidade particular nas correntes católicas oposicionistas. António Alçada Baptista e Francisco Lino Neto não assinam o Programa para a Democratização da República (1961) por acharem que faltava uma referência ao direito à autodeterminação. 

Lino Neto virá, aliás, a ser o primeiro dirigente político português a propor publicamente o reconhecimento daquele direito. 
As primeiras manifestações de anticolonialismo católico foram clandestinas - é o caso do boletim «Direito à Informação», iniciado em 1963 na esteira da encíclica «Pacem in Terris», do Papa Paulo VI, e que dava particular relevo às questões coloniais. 

Logo no ano seguinte, em 18 de Outubro de 1964, o Papa anuncia que presidirá a um congresso eucarístico em Bombaim. No dia seguinte, Franco Nogueira, então chefe da diplomacia portuguesa, declara a visita um «agravo gratuito». A razão da ofensa era Bombaim situar-se na Índia, que, anos antes, tinha invadido Goa. Os bispos portugueses estão no Concílio e os acontecimentos isolam-nos dos outros padres conciliares. A Censura proibiu a divulgação de notícias sobre a visita papal e muitos padres protestaram. Em 6 de Dezembro, um grupo de leigos distribuiu clandestinamente, em numerosos templos do país, o jornal «igreja Presente», a divulgar a viagem. 
O desenvolvimento de acções anticoloniais católicas acentuou-se depois da conclusão do Concílio do Vaticano II.






Em 1970, o padre Mário Pais de Oliveira, pároco de Macieira de Lixa, na diocese do Porto, é julgado no Tribunal Plenário daquela cidade por ter criticado, nas suas homílias, a guerra de África e sustentado o direito à independência. 

Defendido pelo advogado José da Silva e apoiado por D. António Ferreira Gomes, é absolvido. O Dia Mundial da Paz, coincidindo com o dia de Ano Novo - iniciativa das Comissões Justiça e Paz, criadas por Paulo VI - passou a polarizar a luta anticolonial de sectores católicos. A maior parte dos bispos portugueses não institucionalizou aquelas comissões diocesanas, ou manteve-se em surdina, para evitar problemas com o Governo. 

O Dia Mundial da Paz de 1973, particularmente movimentado, fora preparado pelo começo da publicação clandestina, em Outubro de 1972, do «Boletim Anticolonial» (Bac), em que elementos católicos se aliavam ao PRP.
No 1.º de Janeiro, em Macieira de Lixa, o padre Mário proferiu uma homilia por via da qual foi preso, em Maio de 1973. Em 31 de Dezembro de 1972, um grupo de católicos reuniu-se na capela do Rato, em Lisboa, e realizou uma vigília de 48 horas sobre o tema «A paz é possível», aprovando uma moção a condenar a «guerra criminosa» e «a atitude cúmplice da hierarquia da Igreja». A polícia invadiu a capela e seguiram-se perseguições aos participantes. O cardealpatriarca, D. António Ribeiro, condenou a intromissão policial e teve palavras apenas reservadas para os autores da manifestação.


www.guerracolonial.org

4. A Igreja nas colónias 


Luís Salgado de Matos 

Nas colónias em que a independência foi precedida pela luta armada, a presença católica só era forte em Angola e em Moçambique. Na Guiné, os católicos eram 26 499, segundo o «Anuário Pontifício», de 1973, numa população de mais de meio milhão de almas e, enquanto confissão, não tiveram papel autónomo no desenrolar do conflito. 

A Guerra Colonial teve efeitos diferentes nas igrejas daquelas duas colónias, dado que cada uma tinha as suas caracteristicas próprias. Em Angola, a presença demográfica, cultural e católica dos portugueses era mais forte do que em Moçambique e o começo abrupto do terrorismo da UPA, em Março de 1961, no Congo português, teve também efeitos específicos. 

Os mesmos factores de fundo actuaram, porém, em ambos os territórios: o Concílio do Vaticano II propôs um modelo de evangelização centrado na «inculturação» da fé católica e, consequentemente, rejeitou a civilização como condição da cristianização. Desenvolveu-se um clima de circulação internacional das ideias e de crescente desapego da Igreja aos Estados nacionais e ao colonialismo e a presença dos missionários estrangeiros reforçou este clima. 

Depois do Concílio, as Igrejas de Angola e de Moçambique constituíram as suas próprias conferências episcopais e, assim, tornaram-se independentes da metrópole colonizadora. 
www.guerracolonial.org

 A Igreja Católica manteve em ambos os territórios, tal como em Portugal, silêncio sobre a condução da guerra e o direito à autodeterminação e, dia após dia, esta omissão era vista, internacional e nacionalmente, como apoio ao regime português. Esse silêncio foi atacado por uns e defendido por outros. 

A eclosão do conflito e a afirmação do direito à autodeterminação constituíam desafio para o qual os missionários portugueses estavam mal preparados. Eram geralmente provenientes de famílias rurais, pobres ou remediadas, com escasso acesso à informação e, para eles, o advento do Estado Novo fora providencial. Nos seminários, na metrópole, tinham-lhes inculcado que Portugal era católico por essência, que a sua grande função era missionar, civilizando, que Salazar se ajustava a este desígnio - e tinham ocultado qualquer aspecto negativo da sua acção.

Uma vez em África, ensinavam os indígenas a ler, medicavam-nos, assistiam-nos e defendiam-nos dos excessos da administração e dos colonos, mas a sua escassa cultura política não lhes permitia interiorizar a reivindicação da independência. 

Esta surgiu ao mesmo tempo de um Concílio destruidor do modelo de missionação no qual tinham sido formados: passaram agora a dever implantar a Revelação nas culturas locais e ficaram proibidos de as subverter pela civilização ocidental. A adaptação seria rápida mas difícil e um dos seus frutos virá a ser o reforço dos catequistas africanos e a criação, no terreno, de estruturas eclesiais inovadoras, o que foi realizado em clima de guerra.


5. A Igreja em Angola 


Luís Salgado de Matos 

O começo das hostilidades em Angola, em Março de 1961, foi seguido de perseguições a igrejas protestantes consideradas aliadas dos «terroristas» - e da repressão do clero africano da arquidiocese de Luanda. 
O vigário-geral, monsenhor Manuel Mendes das Neves, foi preso (e morreu, exilado em Portugal, em 11 de Dezembro de 1966), sendo os restantes padres desterrados para Portugal. Entre eles, o actual cardeal Alexandre do Nascimento e Joaquim Pinto de Andrade. 

A sensatez do espiritano D. Moisés Alves de Pinho - o chefe da Igreja em Angola (1932-1966), que condenou os excessos da luta antiterrorista, sempre aplicou a doutrina social da Igreja e soube pilotar a africanização dos quadros, apesar da oposição oficial - contribuiu para amortecer os conflitos entre a Igreja e o Estado português e entre o clero angolano e as outras igrejas africanas, mas não os evitou totalmente. 

A agitação na Igreja angolana começou no final da década de 60. Em Abril de 1968, um grupo de cristãos escreveu aos bispos a defender os movimentos de libertação, tendo o Governo proibido os Primeiros Colóquios Sociais. Nesse ano, o padre Adalberto Postioma, professor do seminário de Luanda, foi incomodado pelas autoridades (e apoiado pelo arcebispo) por ensinar o direito à independência. 

Em Agosto de 1969, um grupo de cristãos convidou os bispos de Angola a condenarem as acções do Exército português contra populações indefesas. 
Em 1970, vinte e dois missionários da congregação do Espírito Santo, a mais numerosa em Angola, onde fora pioneira da evangelização moderna, enviaram um documento à Conferência Episcopal a acusar a Igreja de cooperar nas injustiças sociais. O padre José Veiga, também espiritano, propôs à Conferência a criação de «comunidades novas», o que foi aceite, com algumas condições, por carta de 30 de Julho de 1970. 

Em 9 de Abril de 1970, a missão de Chamavare, onde missionários estrangeiros se dedicavam aos bosquímanes, foi alvo de ataque de agentes da DGS, disfarçados de terroristas - pretexto para o seu encerramento, no que terá sido uma medida preventiva da denúncia de massacres e, em Julho desse ano, o Governo fechou a missão dos Irmãozinhos de Jesus. 



Em Dezembro de 1972, o espiritano padre Jorge Sanches publicou na revista católica «Spiritus» um artigo a acusar os bispos de «incapazes de tomar a peito a liberdade da Igreja e a defesa dos oprimidos» o primeiro ataque católico internacional à Igreja católica em Angola. 

Respondeu-lhe o arcebispo de Luanda, D. Manuel Nunes Gabriel, apoiado pelos superiores espiritanos locais: os bispos de Angola têm tido quase uma «obsessão» pela «questão social», e defender a independência política seria «cair em novo clericalismo». 

Aquelas oposições não abalaram a unidade do episcopado angolano, que viu a sua posição conciliadora legitimada pela nomeação - estimulada pela Santa Sé, contrariada por Lisboa - do primeiro bispo negro da evangelização moderna portuguesa, D. André Muaca (auxiliar de Luanda, 1970; residencial de Malanje 1973).

www.guerracolonial.org



6. A Igreja em Moçambique 


Luís Salgado de Matos 

A evolução em Moçambique seria diferente e os conflitos no interior da Igreja mais agudos, pois a guerra era mais violenta, devido à Operação Nó Górdio e às exigências da segurança da barragem de Cahora Bassa. Por outro lado, era mais fraca a presença portuguesa tanto na sociedade como na Igreja. Abundavam mais os missionários estrangeiros, mais predispostos para sentir os pontos fracos do nacionalismo missionário português. 
Acresce que a direcção da Igreja em Moçambique fora enfraquecida pelas mortes do arcebispo de Lourenço Marques, D. Teodósio Clemente de Gouveia, homem conservador e prudente (1962), e do bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende (1967). 

D. Sebastião distinguira-se na defesa dos direitos dos africanos desde os anos 50 e, para garantir o ensino religioso não hesitara em enfrentar o Governo de Lisboa. Nas suas pastorais, condenara o trabalho forçado, e o começo da guerra levara-o a endurecer as suas posições a favor das liberdades dos autóctones e da autonomia do território. O jornal que fundara, o «Diário de Moçambique», foi proibido em 22 de Maio de 1965 por ter publicado, sem o visto censório, a homília «Meditação sobre o 25. º Aniversário do Acordo Missionário», proferida dias antes por D. Sebastião. 

Um incidente descredibilizou a hierarquia moçambicana. Em Julho de 1969, Paulo VI presidiu ao simpósio dos bispos africanos em Campala, Uganda e, para esta ocasião, foi convidado o episcopado de Moçambique. D. Francisco Nunes Teixeira, de Quelimane, e D. Eurico Dias Nogueira, de Vila Cabral, prepararam-se para seguir viagem, sendo depois desconvidados, enquanto foram a Campala, sem problemas, os prelados angolanos D. Altino Ribeiro Santana, de Sá da Bandeira, e D. Francisco Esteves Dias, do Luso. Era claro o isolamento internacional da Igreja em Moçambique. 

Neste contexto, os acontecimentos iriam precipitar-se: denúncia da guerra, divisão da Igreja, conflito com o Estado. O epicentro do terramoto estava na diocese da Beira, pois o Governo de Lisboa vetara o sucessor de D. Sebastião proposto pela Santa Sé e a diocese ficara desgovernada. Os Padres Brancos, predominantemente italianos, decidiram abandonar o território em protesto contra o colonialismo português e, paradoxalmente, queixaram-se do excesso de benefícios que ele dava à Igreja. O Governo de Caetano fez-lhes a vontade e expulsou-os, em 27 de Maio de 1971, mas deixaram um clima de cizânia na Igreja moçambicana. 

O Dia Mundial da Paz de 1972 foi comemorado em Moçambique. Do púlpito da catedral de Nampula, o bispo D. Manuel Vieira Pinto criticou o Governo e nas celebrações no Macuti, paróquia da Beira. o padre Joaquim Teles de Sampaio denunciou o massacre de Mucumbura, povoado próximo de Tete (Novembro de 1971). Foi preso em 14 de Janeiro, bem como o seu coadjutor padre Fernando Mendes, após campanha articulada pelo engenheiro Jorge Jardim, que os acusou de falta de respeito pela bandeira nacional. Na realidade, o padre Sampaio não tinha feito mais do que a aplicar o regulamento do escutismo: o juramento dos «Iobitos» era feito perante a bandeira da organização, no interior da igreja. 

Neste mesmo mês, foram presos os padres de Burgos, espanhóis, devido à denúncia do referido massacre de Mucumbura. 

www.guerracolonial.org



Os excessos da guerra feriram a consciência católica em Moçambique e foi a Igreja Católica que tomou a iniciativa de denunciar os comportamentos condenáveis das Forças Armadas portuguesas. O massacre de Wiryamu, ocorrido na zona de Tete, em Dezembro de 1972, foi divulgado pelo jesuíta inglês Adrian Hastings, em artigo publicado em «The Times», em 10 de Julho de 1973, facto que estragou completamente a visita oficial que Marcelo Caetano fazia então à capital britânica. 

Na sua origem estão os relatos dos missionários em Tete jesuítas, combonianos, padres de Burgos -, mas a preparação vinha de trás. Em Novembro de 1971, os padres Alfonso Valverde e Hernandez comunicaram ao conselho presbiterial da diocese de Tete provas de crimes cometidos por forças portuguesas contra africanos. 

Eram os massacres de Mucumbura. O conselho encarregou o padre Luís Afonso da Costa da sua divulgação internacional e conseguiu que fossem publicados pelo menos numa revista dos jesuítas espanhóis, mas com eco reduzido, como era habitual nas publicações confessionais. Os missionários de Tete aprenderam a lição: recorreram à grande imprensa (o circunspecto «The Times») e escolheram um momento em que as luzes da ribalta apontavam para Portugal (a controversa visita de Caetano a Londres). 




A Guerra Colonial dividiu a Igreja em Moçambique, que foi o único episcopado de matriz portuguesa que não manteve a regra da unidade pública. Uma minoria, cujo elemento mais vocal era o arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, defendia expressamente a soberania portuguesa e outra minoria, mais numerosa e sobretudo mais activa, cujo expoente era o bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, atacava abertamente a identificação da Igreja com Portugal e preparava-se para defender o direito à independência. D. Francisco Nunes Teixeira, o presidente da conferência episcopal, procurava uma linha intermédia, que se queria em perfeito uníssono com a Santa Sé: recusa da intervenção da Igreja na política quer para defender o colonialismo, quer para sustentar a independência, defesa dos direitos humanos mas sem fazer disso cavalo de batalha com as autoridades. 


Exemplo desta posição intermédia seria a atitude da Igreja moçambicana face a Wiryamu. A Conferência Episcopal de Moçambique tinha condenado o massacre, já em 3 de Março de 1973, em carta particular ao governador-geral, mas só a divulgou em 30 de Agosto desse ano. 


A moderação não satisfez os católicos militantes: para uns, era preciso condenar o terrorismo, porque a Igreja rejeita a violência; para outros, o mínimo estava no reconhecimento do direito à independência e o desejável apoio explícito à Frelimo.

www.guerracolonial.org 


 A Santa Sé 


Luís Salgado de Matos 

O colonialismo português esteve também no centro do agravamento das relações entre o Governo de Lisboa e a Santa Sé. Em 5 de Julho de 1969, a Frelimo (Urias Simango), o MPLA (Agostinho Neto) e o PAIGC (Amílcar Cabral) tinham dirigido uma carta aberta ao simpósio dos bispos africanos: acusavam a Igreja Católica romana de «apoiar explicitamente» a guerra feita por Portugal e condicionavam a «atitude futura» dos seus povos face à Igreja, de acordo com a «posição que a Igreja hoje tomar». Era difícil falar mais alto e ser mais claro. 

Em 1 de Julho de 1970, Paulo VI recebeu dirigentes daqueles movimentos nacionalistas: Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos, tendo a audiência provocado uma tempestade nas relações entre Lisboa e a Santa Sé. 
A ruptura estava iminente, só não ocorreu porque o Vaticano declarou que aqueles dirigentes foram recebidos na qualidade de cristãos, tendo o Governo português preferido aceitar esta pia justificação. 

Nas vésperas do 25 de Abril de 1974, desenvolvia-se em Moçambique outro conflito, mais grave. No Domingo de Páscoa, em 14 daquele mês, a DGS tinha expulsado D. Manuel Vieira Pinto, que veio para Portugal com uma variante da residência fixa. 

O bispo de Nampula divulgara um documento, «Imperativo de Consciência», assinado também pelos combonianos, sobretudo italianos, que foram igualmente expulsos, estes aceitavam o reconhecimento das reivindicações dos movimentos de libertação conforme os Direitos do Homem, e recusavam o Acordo Missionário, os subsídios do Estado e o ensino nas escolas públicas, mas diferentemente dos Padres Brancos queriam permanecer no território, o que aumentava o embaraço do Governo.

Os Católicos nas colónias 

Luís Salgado de Matos 

O colonialismo contribuíra decisivamente para desfazer o Estado de ordens português, quebrando a aliança institucional entre a administração pública, as Forças Armadas e a Igreja Católica, mas não impedira um crescimento notável da Igreja Católica na África portuguesa, entre 1945 e 1974. 
Na década de 1930, havia cerca de cem mil católicos entre os três milhões de angolanos e aproximadamente quarenta mil nos quase quatro milhões de moçambicanos. 

No final do colonialismo português, seguindo as estatísticas oficiais, eram católicos cerca de quatro dos cinco milhões de habitantes de Angola e quase dois dos oito milhões que viviam em Moçambique. 
A formação de cristandades tornara-se bem visível em Angola, na década de 1950, e em Moçambique já na década de 1960, em pleno período de guerra, pois o número de católicos tinha sido multiplicado por 40, em Angola, e por 45, em Moçambique. 


A Santa Sé fez menos católicos do que a República Portuguesa: segundo o Anuário Pontifício, em 1973 haveria 2,3 miIhões de fiéis em Angola e 1,3 milhões em Moçambique, mas ainda assim o crescimento fora surpreendente. 
A obra das missões fora assinalável nos campos do ensino, da saúde e da assistência, e a Igreja Católica fornecera involuntariamente muitos dos quadros dos movimentos de independência. Com efeito, as missões, desde o início, tinham dado prioridade à escola rudimentar e à catequese, descurando a formação de elites africanas. 



Só no final dos anos de 1950 puseram o ênfase na formação de clero indígena, mas então já era tarde: o ambiente estava contaminado pela guerra, que dificultava ainda mais a formação sacerdotal, e muitos seminaristas abandonaram quer em Angola, quer em Moçambique. Porém, a maior parte dos militantes e dirigentes dos movimentos de libertação passou pelas escolas das missões e muitos tinham estudado para padre ou para pastor. 






Com efeito, funções idênticas foram preenchidas pelas missões protestantes, que também tiveram a sua dose de perseguições policiais. Em Moçambique, por exemplo, foram presos trinta e dois presbiterianos, em 13 de Junho de 1972, tendo morrido na prisão da Machava dois deles (um dos quais o pastor Zacarias Maganhela). As independências de Angola e Moçambique vieram mostrar que as suas Igrejas Católicas tinham implantação suficientemente forte para poderem viver sobre si e, sendo o caso, resistir às perseguições.
O afastamento da família, a distância, a pressão do ambiente de guerra e o clima transformavam as efemérides que pautavam a vida individual e colectiva dos homens, em momentos particularmente marcantes nos quartéis dos teatros de operações em África. 


Durante os dois anos da comissão, a família do militar era o seu batalhão e os camaradas, gostasse ele ou não. Mas este facto não o fazia esquecer os laços que o uniam aos seus, que continuavam na terra-mãe a celebrar os acontecimentos segundo os rituais em que fora educado, o que era particularmente doloroso. Para amenizar a saudade, iludir o isolamento e vencer os medos, todas as ocasiões serviam de pretexto para celebrar: aniversários, boas notícias ou vitórias desportivas. De entre todas estas datas, porém, o Natal era a festa por excelência. 


Viver noutro continente entre povos diferentes e em guerra uma data profundamente inscrita na cultura cristã europeia como momento de paz e esperança de vitória da luz sobre as trevas, do calor sobre o frio e da representação do nascimento do Menino Deus, foi experiência única para os que a viveram. 


Nos quartéis, os militares procuravam, nesse dia, imitar os rituais e cumprir o que a sua cultura estabelecera como tradição. Sempre que possível, o capelão rezava a missa, o rancho era melhorado com batatas e bacalhau, distribuía-se o correio e apresentavam-se as Boas-Festas. A Acção Psicológica ajudava também a elevar o moral das tropas, através de prendas do MNF, visita de artistas, mensagens de Natal gravadas e transmitidas pela televisão. Também os comandantes militares procuravam, nessa quadra, estar junto das tropas e justificar os sacrifícios por que todos passavam. 


Mas apesar de o Natal ser quase sempre respeitado pelos inimigos e haver, efectivamente, diminuição da actividade militar, a ameaça de algum ataque estava sempre presente, pelo que muitos militares passavam essa data festiva nos seus postos de sentinela, de arma na mão.

www.guerracolonial.org


Capelães militares 


Luís Salgado de Matos 

Os capelães militares constituíram um abcesso de fixação dos opositores católicos à guerra, pois simbolizavam a aliança do trono e do altar, o apogeu do catolicismo constantiniano que o Concílio do Vaticano II viera ultrapassar.
O facto de o seu sacerdócio ser remunerado pelo Estado distinguia-os do resto do clero e criara-lhes um ambiente eclesial que, à partida, estava longe de ser dos melhores. 


Padres fardados de oficial eram também uma experiência surpreendente e, para muitos, aberrante. 


Alguns capelães militares, sobretudo no começo da guerra, proferiram declarações patrioteiras e belicistas, cujo carácter mais político do que religioso haveria de ser sublinhado. 


As suas actividades concentraram-se no apoio moral e religioso às tropas portuguesas, sendo esporádicos os contactos que tiveram com a população africana. Tinham, aliás, pouca ocasião para isso, pois as missões eram deliberadamente construídas longe de centros urbanos ou de aquartelamentos, para evitar os maus exemplos de colonos e soldados. 

O que os capelães viram na guerra, impressionou muitos - entre os quais o já referido padre Mário de Oliveira, capelão na Guiné - e trouxeram a mensagem para as estruturas eclesiais da então metrópole.

www.guerracolonial.org



MARCELINO DOS SANTOS (FRELIMO)


EXCERTO DO BLOG - liceu-aristotelico.blogspot.pt 


 Portugal e os americanos


(introduzi aqui este texto apesar de o considerar tendencioso)

«Os protestos na comunidade internacional não cessaram. O Papa Paulo VI solidarizou-se em Julho com missionários espanhóis que tinham escrito o relatório [sobre o massacre de Wyriamu]. O Secretário-Geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim, recebeu Hastings em Nova Iorque e mostrou-se indignado com os genocídios. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Krister Wickman, anunciou em Agosto a duplicação do financiamento à FRELIMO. Willy Brandt reconheceu oficialmente em Setembro o movimento de Samora Machel. Entretanto, os pelotões da FRELIMO, passaram a manejar rockets de 122 mm, de origem soviética, tentavam bloquear a linha de comunicação Beira-Salisbúria e praticavam o assassinato selectivo de líderes tribais favoráveis a Portugal» (2).
Papa Paulo VI

Consequentemente, enquanto a Frelimo, sobretudo depois da morte de Eduardo Mondlane, conjugava o apoio político e militar proveniente de Moscovo e Pequim com significativas aproximações a Washington, as nações nórdicas, nomeadamente a Suécia, constituíam, por sua vez, a «fonte de apoio material no Ocidente» (3). 

Quanto ao Vaticano, o Papa Paulo VI, subjugado à pressão maquiavélica da ONU e, mais que tudo, à estratégia e à propaganda terceiro-mundista da União Soviética, colaborou com o inimigo ao receber em Roma, em sinal de reconhecimento político e independentista, os dirigentes rebeldes Amílcar Cabral, do PAIGC, Agostinho Neto, do MPLA, e Marcelino dos Santos, da FRELIMO (4). Quanto àONU, em especial, também ela se dispôs, em clara concertação mundialista, a receber e a apoiar directamente os dirigentes rebeldes, como no caso de Amílcar Cabral, que chegou, inclusivamente, a discursar perante o plenário das Nações Unidas, organização, aliás, que também se prontificou a admitir o PAIGC como membro associado das suas agências especializadas (5).

Não há dúvida de que o PAIGC recebia considerável e significativo armamento da União Soviética, causando ao Exército português crescentes dificuldades defensivas (6), tal como também, por outro lado, não restam dúvidas sobre «o auxílio prestado pela UNESCO a membros da FRELIMO e do PAIGC, no âmbito de um programa de assistência aos refugiados de guerra» (7). Por outro lado, enquanto a UNITA de Jonas Savimbi, um bacharel formado na Suíça, recebia apoio de Pequim por oposição ao influxo soviético sobre o MPLA (8), Marcelino dos Santos, intelectual activista formado em Lisboa, bem como Samora Machel, instruído em Argel na técnica de guerrilha, protagonizaram, com Uria Simango, um triunvirato cuidadosa e heterogeneamente manobrado por Moscovo (9). Nisto, também Eduardo Mondlane mantinha claros contactos com o bloco comunista, muito embora tivesse estudado e ensinado nos Estados Unidos, na Universidade de Siracusa (10).

Entretanto, não deixa de ser igualmente significativa a sombra da Maçonaria no novo contexto então emergente quanto ao destino histórico de Portugal, conforme atesta a seguinte passagem:

«O caminho da paz na Guiné era potenciado por dois factores confluentes. Em primeiro lugar, os contactos clandestinos que desde 1970 foram estabelecidos, com o conhecimento de Caetano, entre o comando de Spínola e a direcção do PAIGC. Além da sua consciência sobre a invencibilidade da guerra, Spínola reconhecia o pragmatismo de Cabral, um homem que distinguia a luta nacionalista de sentimentos anti-portugueses e era tido como um “assimilável” pelos arautos da autonomia em África. Spínola estava mesmo fascinado pela estatura política do líder do PAIGC e seu principal inimigo (o mesmo tipo de fascínio que Nguyen Van Giap inspirou a alguns americanos) e começou em 1971 a considerar Cabral “um moderado e um amigo de Portugal”. A abordagem exploratória entre Spínola e o PAIGC, sem carácter regular e obviamente marcada pela desconfiança mútua, conduziu à deliberação do plano de cessar-fogo discutido na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional. 

Le Grand Orient de France (GOF)
O segundo catalisador da paz na Guiné era a forte vontade de Senghor em agir como mediador. Poeta de renome, o Presidente da República do Senegal foi paladino de uma nova realidade geopolítica (a Euráfrica), mostrava orgulho na sua ancestralidade lusíada (Senghor é a derivação nativa da palavra “senhor”) e defendia uma convergência de tipo confederal, envolvendo Portugal (na sua dimensão pluricontinental) e o Brasil. Senghor era também um membro da Maçonaria dependente do Grande Oriente de França. Um membro do clandestino Grande Oriente Lusitano diz que a “luz verde” para uma mudança de atitude dos maçons portugueses quanto à independência dos territórios de África foi dada pelo Grande Oriente de França: “Repare, por exemplo, nas posições tímidas que a CEUD defendia, em 1969, acerca do dramático problema africano. A viragem deu-se efectivamente a partir das novas directrizes do Grande Oriente de França. 

Era então Grão-Mestre Fred Zeller”. A teia multinacional da Maçonaria explica também o maior intervencionismo de Senghor, que começou por incitar as autoridades do Brasil a impulsionarem a projecção da comunidade luso-afro-brasileira. Mais tarde, usando os canais da PIDE/DGS, dado que Lisboa e Dacar tinham cortado relações diplomáticas, propôs a Spínola um encontro no mar, fora das águas territoriais do Senegal e da Guiné. O Governo, a pretexto dos riscos para a segurança pessoal do general, não autorizou a cimeira» (11).

Por outro lado, também é verdade que, com a Administração Kennedy, os americanos, no dizer de Oliveira Salazar, estiveram «ingenuamente a fazer o jogo dos russos» (12). Senão vejamos:

«Conquistar “os corações e as mentes” do Terceiro Mundo era uma prioridade de Kennedy. O Presidente transpôs para a luta personalizada com Khruschev o ardor competitivo da sua educação familiar e a sua obsessão de “ser o primeiro”. Perante a multiplicidade de crises em África e na Ásia, e face à popularidade do comunismo, tratava-se de vencer os soviéticos no próprio jogo em que eram mestres: a subversão de países estrangeiros. Na primeira reunião do Conselho de Segurança Nacional, em 1 de Fevereiro, Kennedy ordenou a MacNamara que desse relevo às doutrinas de contra-subversão no programa do Pentágono. Formou-se um Special Group para as questões de insurgency, que incluía Robert Kennedy e Maxwell Taylor, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, e surgiram os Green Barets, uma força de élite que atingiu rapidamente 12 000 membros. A mobilização foi geral: mais de 10 000 diplomatas americanos e mais de 7 000 estrangeiros receberam cursos de contra-subversão durante a Administração Kennedy. Este novo espírito traduziu-se também na criação do Peace Corps, uma espécie de liga de missionários do idealismo americano, onde se alistaram muitos jovens para acções de humanitarismo em países do Terceiro Mundo» (13).

Mais lapidarmente, no que toca ao apoio americano aos movimentos de guerrilha em África, considere-se a seguinte passagem:

«A política dos Estados Unidos em relação a Portugal e às possessões de África foi entre 1961 e 1963 a expressão de dois vectores dramaticamente conflituais. Por um lado, sob iniciativa directa de John Kennedy, um simpatizante da causa emancipalista no Terceiro Mundo, Washington apoiou política e financeiramente movimentos de guerrilha em Angola e Moçambique. O apoio americano, canalizado de forma secreta, recaiu sobre a UPA, mais tarde GRAE e depois FNLA, chefiada por Holden Roberto (14), e também sobre a MANU, antecessora da FRELIMO, liderada por Eduardo Mondlane. No seu esforço para debelar a resistência de Salazar, os Estados Unidos combinaram os ataques públicos à orientação africana de Lisboa, a coacção diplomática e a intervenção clandestina» (15).

Jacqueline Kennedy e Charles de Gaulle

Uma viragem, por parte dos Estados Unidos, pareceu ocorrer a favor de Portugal quando Oliveira Salazar recebe, a 2 de Março de 1965, o príncipe de Radziwill, vulto influente no mundo dos negócios e bastante íntimo dos Kennedy, sobretudo por via do seu casamento com uma irmã de Jacqueline Kennedy. Entre outros pontos decorrentes da aparente viragem, está, supostamente, o fim do «auxílio [americano] a chefes terroristas de Angola ou Moçambique, feito por instituições privadas norte-americanas, designadamente a Fundação Ford», assim como o apoio na ONU à posição portuguesa no contexto ultramarino (16). 

Enfim, isso e muito mais sob a forma de uma mensagem de que Radziwill estava sendo o secreto intermediário, porquanto partia ela de Roswell Gilpatric, o qual, por seu turno, mantinha na «Administração Johnson os contactos e a influência de que desfrutava na Administração Kennedy».

Sobre Gilpatric, diz-nos Franco Nogueira que, depois de ter sido, durante três anos, vice-ministro da Defesa da Administração Kennedy, veio a Lisboa, em Agosto de 1964, como emissário americano de «alta categoria, rápido e lúcido», com uma compreensão que excede a de Anderson, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal (17). Longamente recebido por Oliveira Salazar, Gilpatric é convidado, em missão tida por secretíssima, para visitar Angola e Moçambique com vista a observar a acção de Portugal em África, a par da respectiva situação no continente. Diz-nos mais uma vez Franco Nogueira:

«De retorno de Angola e de Moçambique, concluída a sua visita, Gilpatric está em Lisboa em meados de Setembro de 1964. Confessa-se altamente impressionado. Afirma Gilpatric: há sociedades civilizadas em Angola e Moçambique; é elevado o nível da administração e grande a competência dos técnicos; é forte o moral das tropas; é excelente o sistema de educação; há um sentimento geral de contentamento, sem embargo de críticas ao governo; teve o sentimento de que se trata de sociedades abertas, apesar de cercadas de perigo; há uma boa rede de aeroportos; é tremendo o potencial económico de Angola, enquanto Moçambique é mais território de trânsito e de serviços; e os cônsules americanos em Angola e Moçambique apenas relatavam para Washington o que sabiam agradar ao Departamento de Estado, como comprovou pela leitura dos seus despachos. Quanto a aspectos de segurança? Gilpatric não tem dúvidas de que é preciso traçar e defender um cordão sanitário que passa pelas fronteiras norte de Angola e de Moçambique e que, se não conseguir abranger a República do Congo, tem de incluir pelo menos a Zâmbia, o Malawi, a Rodésia do Sul e toda a demais África Austral. É nesta base que se propõe redigir o seu relatório e elaborar as suas recomendações ao presidente Johnson» (18).

Mais adiante, prossegue Franco Nogueira:


«Regressa a Washington o enviado confidencial do presidente Johnson. Em Lisboa, há a convicção de que, pelas suas ideias e pela sua visão dos acontecimentos e dos interesses dos próprios Estados Unidos, Gilpatric ficou em condições de entender a política africana de Portugal, ou, pelo menos, de a justificar perante o seu governo. E efectivamente o relatório que Gilpatric entrega em Washington é favorável em extremo; não o ocultam altos funcionários da Casa Branca e do Departamento de Estado. Para Gilpatric, aparecem claras as conclusões: do ponto de vista da segurança dos Estados Unidos, a continuação de Angola e Moçambique como parte da Nação portuguesa é preferível a qualquer outra alternativa previsível; o abandono por parte de Portugal criará um vazio perigoso que pode levar a uma confrontação séria entre potências africanas, e não africanas; não há motivo para pensar que a política africana de Portugal se modificará nos tempos mais próximos, nem que tenham qualquer efeito nesse sentido os esforços ou pressões exteriores, ainda que provenientes dos Estados Unidos; a situação económica e social de Angola e Moçambique, no contexto africano, é de franco progresso, e só por si constitui base para uma ulterior autonomia ou independência a longo prazo; e aos Estados Unidos, em face de tudo, cumpre reorientar a sua política e, sem negar os seus princípios, deixar de seguir cegamente a hostilidade afro-asiática contra Portugal. No plano prático, e como sinal de boa-vontade dos dois lados, algumas atitudes poderiam e deveriam ser modificadas: Portugal renovaria as facilidades concedidas nos Açores e encararia outras suplementares; os Estados Unidos levantariam as restrições ao fornecimento a Portugal do material de guerra que este desejasse, ficando Lisboa livre de o usar onde quisesse. No plano interno norte-americano, o relatório Gilpatric provoca a cólera da secção africana do Departamento de Estado, em especial de Mennen Williams e Harriman. Mas tem a receptividade de Rusk, de Ball e, sobretudo, do Conselho de Defesa da Casa Branca. Simplesmente, o presidente Johnson não encontra oportunidade, com os seus conselheiros, de se debruçar sobre o documento Gilpatric: o seu interesse pelas questões de África, se comparado ao de Kennedy, é mínimo: para mais, como candidato que é, está embrenhado na campanha para a eleição presidencial norte-americana, a realizar dentro de semanas. E não são palpáveis as consequências imediatas da viagem de Gilpatric» (19).

Posto isto, compreende-se que Oliveira Salazar tenha escrito, por sugestão do Príncipe Radziwill, uma carta a Gilpatric, onde expõe as duras mas objectivas razões das queixas portuguesas no declinante contexto das relações luso-americanas, entre as quais o apoio financeiro aos terroristas por parte de organizações privadas americanas, a desinformação e a hostilidade de certos responsáveis americanos a respeito de Portugal e sua política ultramarina. Uma carta, para mais, reveladora da lucidez na pessoa impoluta de Oliveira Salazar no desconcerto das relações internacionais. De qualquer modo, a testemunhar a dita e referida lucidez, estavam «os perigos que – nas palavras de Franco Nogueira – rodeiam o continente», ao agravar-se «de novo a situação no Congo (Léopoldville)». Ou seja:

«Ganham terreno os rebeldes, recompostos das derrotas sofridas, e em Léopoldville o presidente Kasawubu, que nomeara o político catanguês Tschombé para o cargo de primeiro-ministro, entregava-se agora a manobras contra este, havendo notícias de um seu entendimento com aqueles enquanto, por outro lado, alguns chefes do exército nacional pensam num golpe que lhes dê o poder. Tshombé ausenta-se do Congo, passa em algumas capitais africanas, e a Lisboa chegam notícias de que, em desespero de causa, o primeiro-ministro está pronto a um acordo com os rebeldes que incluiria mesmo um entendimento com os grupos terroristas que têm atacado o Norte de Angola. Em Lisboa, há notícia, de fontes internacionais, de que por detrás de Kasawubu e dos militares estão americanos, cujo objectivo seria o de promover o regresso ao poder do grupo de Binza, ou seja dos políticos de velha guarda como Adoula, Ileo, Bomboko, outros ainda. De todos os modos, consultados os ministros competentes, Salazar resolve a suspensão de toda a ajuda portuguesa ao governo de Tshombé; e seja qual for a evolução futura da política congolesa, parece que Lisboa terá de adoptar a maneira dura – bloqueio da foz do Zaire, corte de comunicações e transportes, suspensão de abastecimentos, perseguição de terroristas para além da fronteira – se quiser que se tornem normais as relações de vizinhança entre Angola e o Congo»(20).






AS TESES INDEPENDENTISTAS DOS MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO AFRICANA NOS ANOS 50 – HISTÓRIA LUSÓFONA

Amílcar Cabral


Agostinho Neto
Eduardo Mondlane 
Os movimentos de libertação das colónias portuguesas afirmaram-se em meados dos anos 50, num ambiente de clandestinidade, em resultado da Conferência de Bandung de 1955 que proclamou o direito dos povos coloniais à autodeterminação e do surgimento de movimentos congéneros nas vizinhas colónias africanas que combatiam as potências colonizadoras. Na verdade, este processo histórico internacional conduziu nos finais dos anos 50 à maioria das independências africanas.
Em Portugal, alguns indivíduos negros que vieram estudar à metrópole e se conheceram através da Casa dos Estudantes do Império, como Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Agostinho Neto, Vasco Cabral, Marcelino dos Santos, Mário Pinto de Andrade, Eduardo Mondlane foram os grandes propulsores das teses independentistas na Guiné, em Angola e em Moçambique, tendo sido perseguidos pela PIDE ou expulsos por atentarem ideologicamente contra a noção de pátria portuguesa do regime autoritário do Estado Novo, pois nas suas convicções ideológicas acreditavam que esses territórios existiam como nações "de per si" e portanto a independência seria um corolário lógico.
Estas teses tiveram expressão clandestina, nos territórios ultramarinos portugueses[1],  em alguns movimentos surgidos em meados dos anos 50 como a União das Populações de Angola ( UPA ), o Partido Africano da Independência criado em Bissau em 1956 ( PAI ), mais tarde designado ( PAIGC ) e em diversos grupos desunidos que em Moçambique proclamavam o direito à independência[2]. Na realidade, estas teses foram o "fermento" ideológico que potenciou, poucos anos depois, o desencadear, nas populações arreigadas a estes territórios, da Guerra Colonial Portuguesa.
Nuno Sotto Mayor Ferrão


ERA UMA VEZ UM MILÉNIO
Entrevista com Nuno Teotónio Pereira e Fernando Rosas
“Em tempo de mudança, a História do Século XX”
Por Franklim Rodrigues, Ana Colaço, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.


Em 1966 o papa Paulo VI proclama o dia 1 de Janeiro o dia de reflexão sobre a paz em todo o mundo cristão. Em Portugal muitos católicos consideraram uma hipocrisia que num país em guerra a igreja católica silenciasse o problema.
Em 1967 o papa Paulo VI visita Portugal.
“Excelentíssimo padre

Esta nação cuja terra Vossa Santidade acaba de pisar é assim há mais de oito séculos e sempre tem vivido sob o signo de Cristo.”
(palavras de Américo Tomás)

O tema do nosso programa é hoje “O marcelismo e a oposição católica”. Como sempre temos a colaboração do professor Fernando Rosas e convidado o arquitecto Nuno Teotónio Pereira.

Fernando Rosas – Muito boa tarde, muito obrigado Nuno por ter vindo mais uma vez a este programa, agora na qualidade e testemunho do que foi a oposição católica. A minha primeira pergunta era um pouco esta. Como é que um sobrinho dum alto dignatário do regime, um dos mais altos, duma família, de alguma maneira, tão ligada ao Estado Novo como é que uma pessoa desse meio se encontra na oposição ao regime, no seu caso.


Nuno Teotónio Pereira – Bom, é depois duma caminhada bastante longa porque é claro eu fui educado com os valores da direita tradicional, católica, até monárquica, conservadora e depois fui-me libertando disso, libertando exactamente e por duas vias. A via principal foi essa exactamente a do catolicismo empenhado, queria ser um cristianismo autêntico, o mais possível, fiel, etc.

Fernando Rosas - Militante da Acção Católica?

Nuno Teotónio Pereira – Por acaso não fui propriamente da Acção Católica, mas estive noutros movimentos e acompanhei muito, tinha muitos amigos, muitos companheiros que estavam na Acção Católica e por outro lado também por via profissional, dediquei-me, trabalhei durante muitos anos na habitação social e por aí vi o que eram as falsidades do Regime, as promessas que havia, enfim, em relação a resolver o problema das barracas, dos mal alojados, etc. Aquilo andava a passo de caranguejo com muitas contradições. Portanto foi por essas duas vias que eu me fui, digamos assim, convertendo a adversário da ditadura portuguesa.

Fernando Rosas - Em que fase é que pode considerar-se que começa a sentir-se colocado num campo oposto ao do Regime? Em que período da sua vida e da história do próprio Regime?




Nuno Teotónio Pereira – Bom, houve digamos dois processos que conduziram a isso, muitos, eu e muitos outros companheiros. Um deles foi exactamente a Acção Católica, e os grupos, vários grupos que havia no âmbito da Acção Católica que tinham por lema, agora estou a citar de cor, possivelmente não são as palavras exactas: “Que o problema ver, reflectir e agir”. E as pessoas tomavam isso a sério portanto viam o que é que se passava à sua volta, no País, reflectiam, reflectiam em conjunto, era um trabalho muito colectivo, muito participado e depois agiam, depois dispunham-se a agir e portanto por essa via, com essa metodologia, de facto, houve um grande número de militantes católicos que se tornou adversário do Regime. Depois outra via foi, isso coincidiu com o Concílio Ecuménico e com o pontificado do João XXIII que de facto foram dois momentos exaltantes.

Fernando Rosas - Esse momento foi mais importante que a carta do bispo do Porto em 58?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, a carta do bispo do Porto também ajudou muito, claro, foi importantíssima e

Fernando Rosas - Que idade é que tinha quando o bispo do Porto divulga a carta a Salazar?

Nuno Teotónio Pereira – Que idade é que tinha? Foi em 58, tinha 36.

Fernando Rosas - Portanto já era licenciado, já era um arquitecto profissional.

Nuno Teotónio Pereira – Já, já. Com alguns projectos importantes realizados.


Fernando Rosas - Como católico como é que reagiu a essa carta?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, com uma grande satisfação, com um grande contentamento porque foi a carta do bispo do Porto foi produzida no contexto da campanha eleitoral do Humberto Delgado e esse momento foi um momento decisivo para um grande número de católicos também. A campanha do Humberto Delgado pôs a nu, duma maneira muito manifesta, muito clara enfim os males da ditadura.

Fernando Rosas - Homens como o Alçada Baptista também nessa altura já tomam posição, o Lino Neto, mas qual foi o seu primeiro gesto público contra a ditadura?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, creio que foram justamente os abaixo assinados durante a campanha do Humberto Delgado e na sequência dessa campanha, vivos(?) e exigidos pelo Francisco Lino Neto, foi ele o grande animador, foi ele que redigiu os textos que reuniu assinaturas, foi a Coimbra, foi ao Porto.

Fernando Rosas - Penso que está a referir-se ao célebre manifesto dos 101?

Nuno Teotónio Pereira – O 101 é mais tarde.

Fernando Rosas - É mais tarde.

Nuno Teotónio Pereira – Sim, sim. O 101 é mais tarde. No contexto diferente e com outras pessoas.





Fernando Rosas - Com outras pessoas. Mas eu queria falar não do 101. Exactamente tem razão, mas do célebre manifesto em que se denunciam os safanões a tempo.

Nuno Teotónio Pereira – Foram dois. Esse a denunciar os crimes da PIDE e o outro a denunciar o conluio entre a Igreja e o Estado.


Fernando Rosas - Portanto, no rescaldo das eleições de 1958.

Nuno Teotónio Pereira – Exactamente.

Fernando Rosas - O Nuno subscreveu outro.

Nuno Teotónio Pereira – Subscrevi e também colaborei com o Lino Neto.

Fernando Rosas - Quem era, se disso se pode falar, quem é que era o núcleo duro dos católicos que movimentavam, animavam essa movimentação nessa altura.

Nuno Teotónio Pereira – Bom, o Lino Neto, depois o grupo que formou O Tempo e o Modo, o Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Nuno Bragança, também pessoas ligadas à Juventude Operária Católica, Manuel Bidarra, João Gomes, por aí fora. Era esse grupo que...

Fernando Rosas - De qualquer forma que antes dessa grande rotura de 58 já tinha havido alguns casos. O padre Abel Varzim. Quer dizer, já havia sobretudo a nível da Liga Operária Católica, já havia um passado de alguma contestação ao Regime. Esse passado também vos inspirou nessa altura?

Nuno Teotónio Pereira – Inspirou, claro, evidentemente, mas esses acontecimentos antes dessa época ficaram muito isolados, ficaram muito isolados. Não tiveram o apoio que deviam ter tido de grande parte dos católicos.

Fernando Rosas - Como católico e como homem, pessoa da sociedade da altura, sentiu, que tipo de reacção sentiu à sua volta quando das suas tomadas de posição. Perdeu amizades, houve zangas na família? Que reacções sentiu à sua tomada de posição?

Nuno Teotónio Pereira – Sim. Houve problemas na família, claro. Houve problemas na família, evidentemente. Inclusivamente com o meu tio Pedro Teotónio Pereira, embaixador, porque e isso foi um pouco mais tarde. Ele estava embaixador em Washington e escreveu-me uma carta a dizer que pedira ajuda aos americanos. Tinham falado num abaixo assinado católicos contra o colonialismo português e que entre os signatários estava um sobrinho do embaixador de Portugal e ele escreveu-me a pedir-me para eu, enfim, me retratar e disse que não acreditava que isso fosse verdade e que pediu-me para eu escrever uma declaração a dizer, a explicar porque é que havia esse engano e eu respondi-lhe a dizer que se eu escrevesse, se desse esclarecimentos e fundamentasse a minha posição isso ainda teria resultados piores para ele e a partir daí houve um corte de relações, enfim, bastante ...

Fernando Rosas - Antes desse corte de relações teve alguma vez oportunidade de discutir com ele, com o Pedro Teotónio Pereira, os seus pontos de vista?

Nuno Teotónio Pereira – Ah não, não tive. Não tive porque, porque ele, por um lado, era uma pessoa que estava muito no estrangeiro. Ele foi embaixador na Espanha, depois esteve aqui na presidência do Conselho. [Fernando Rosas - Estive na Presidência a partir de 48] Passou muito tempo fora e portanto não tive oportunidade e era difícil falar-se com ele. Havia uma grande diferença de idades e eu não teria, teria sido para mim naquelas circunstâncias criar uma discussão.

Fernando Rosas - E dentro da Igreja teve oportunidade de discutir dentro da Igreja, ou dentro da militância, do activismo católico, discutir os seus pontos de vista com elementos da hierarquia.

Nuno Teotónio Pereira – Sim, aí dentro da Igreja o problema que havia, as discussões que haviam, o diálogo que havia não era com pessoas que se opusessem às nossas posições. Não havia oposição, as pessoas, duma maneira geral, com quem nós contactávamos, amigos, etc. até aceitavam as nossas posições. O grande problema aí nesse diálogo era fazê-los abandonar uma atitude de complacência, de aceitação, de conformismo. Esse é que foi o grande problema. E isso criou, de facto, porque havia vazios à nossa volta. Havia grandes círculos também de católicos e havia até militantes que não nos acompanhavam e isso é que era o grande motivo das discussões.



Fernando Rosas - Como é que o Nuno Teotónio Pereira caracterizaria as relações do Estado com a Igreja nesse período nos anos, fim dos anos 50, princípio dos anos 60.

Nuno Teotónio Pereira – Bom, ao longo de todo o período da ditadura foi de total cumplicidade. Às vezes um pouco disfarçada com algumas atitudes pontuais, mas havia de facto ali uma comunhão de interesses muitíssimo estreita.

Fernando Rosas - E a rotura do bispo do Porto não mexeu de alguma maneira dentro da Igreja com essa situação.

Nuno Teotónio Pereira – Bom, dentro da hierarquia não, infelizmente. Era uma coisa que nós, que era muito dolorosa verificar é que ele foi exilado, foi compelido ao exílio e não houve nenhuma manifestação de apoio, de solidariedade para com ele, pelos colegas de episcopado. Isso foi uma coisa que nos chocou terrivelmente.

Fernando Rosas - E da parte dos leigos?

Nuno Teotónio Pereira – Ah, isso aí houve. Isso aí houve. Houve e da parte de certos grupos de leigos houve.

Fernando Rosas - Portanto, depois dessa tomada de posição vem o papa João XXIII. Como é que vocês receberam as primeiras encíclicas do papa, o Pax in Terris, enfim, aquela.

Nuno Teotónio Pereira – Foi com grande entusiasmo, não é, um enorme entusiasmo. Até delas, essa Pax in Terris deu origem à criação da cooperativa PRAGMA onde nós nos empenhámos muito como instrumento de...

Fernando Rosas - Em que ano foi criada a PRAGMA?

Nuno Teotónio Pereira – Foi em 63, se não me engano. Em 63 foi no primeiro aniversário da Praxis in Terris e fundámos essa cooperativa justamente como instrumento de diálogo até com não crentes, com a sociedade, com os vários sectores da sociedade. Foi muito importante exactamente porque a palavra de ordem, uma das palavras de ordem do Concílio foi exactamente a abertura ao mundo que era também usada pelo João XXIII.

Fernando Rosas - Portanto a oposição católica de qualquer maneira busca espaços de expressão. Cria-se a revista O Tempo e o Modo que é dirigida pelo Alçada Baptista, a PRAGMA surgirá pouco depois, espaços de pressão legal. Porque é que isso nunca se vai traduzir na tentativa de criar um movimento político de inspiração católica ou de oposição católica?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, houve tentativas disso, chegou a haver projectos concretos.

Fernando Rosas - Havia divergências acerca dessa questão?

Nuno Teotónio Pereira – Claro que havia divergências.

Fernando Rosas - Quais eram os pontos

Nuno Teotónio Pereira – Aí punham-se divergências porque havia, por um lado, uma certa inclinação para criar um partido à imagem das democracias cristãs da Europa Ocidental, mas essa linha era recusada por uma grande parte dos militantes.




Fernando Rosas – Quem eram os defensores dessa ideia?

Nuno Teotónio Pereira – Olhe não posso lembrar-me bem. Eles eram minoritários, entre os activistas eram minoritários e portanto chegaram sempre, nunca tiveram eco, enfim, em relação ao conjunto dos elementos mais activos porque eram partidos de direita e portanto a maior parte de nós tínhamos posições nessa altura claramente já de esquerda.

Fernando Rosas - Já de esquerda, mas era possível criar um movimento de esquerda católica.

Nuno Teotónio Pereira – Mas fazia parte,   nós criar um movimento confeccional era uma opção errada. Nós éramos contra os partidos confeccionais portanto seria uma contradição criar um partido desses.

Fernando Rosas - E portanto digamos que isso fica esse projecto morre.

Nuno Teotónio Pereira – Morre, morre.

Fernando Rosas - E qual é a vossa reacção como grupo, como oposição católica ao início da guerra colonial a partir de 61? Isto teve importância na vossa definição?

Nuno Teotónio Pereira – Teve uma importância enorme porque isso foi mais uma situação que levou, enfim, a que nos levou ainda a acentuar o combate à ditadura. Foi exactamente a guerra colonial porque aí... Há bocado citou aí a encíclica Pax in Terris e aparecem os dias da paz celebrados no primeiro de Janeiro de cada ano, num deles até a palavra de ordem do papa, aí já era o Paulo VI, era a paz apetecível, a paz obrigatória e portanto numa situação de guerra, uma guerra injustíssima, ainda por cima, não é, isso mobilizou uma grande parte dos católicos a lutarem contra a guerra colonial em nome justamente dos princípios cristãos.

Fernando Rosas - É nessa altura que vai começar a vossa actividade clandestina, digamos assim?

Nuno Teotónio Pereira – Sim, é nessa altura, sim. É um pouco depois, é em 63, mais ou menos.

Fernando Rosas - Que formas é que ela tomou, a actividade clandestina?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, a edição de um pequeno jornal policopiado chamado Direito à Informação.

Fernando Rosas – Direito à Informação. Quem é que o dirigia? Quem é que coordenava...

Nuno Teotónio Pereira – Bom, havia um grupo de coordenadores onde eu estava, estava a minha mulher, Maria Natália, estava o padre António Martins que depois foi mandado pelo cardeal Cerejeira estudar para França porque ele fazia isso, mandava os padres mais irrequietos mandava-os para fora e, enfim, depois também a certa altura ficou ligado a isso. Frei Bento Domingues e havia vários, havia um grupo. Olhe também posso citar a Maria Vitória Vaz Pato, a Ana Vicente, que é bastante conhecida. Enfim, isso era o grupo que...

Fernando Rosas – E vocês imprimiam clandestinamente. Onde é que imprimiam?

Nuno Teotónio Pereira – Bom, imprimimos em alguns sítios e depois fixámo-nos na, imprimimos em geral em paróquias, em paróquias.

Fernando Rosas – Portanto, com a cumplicidade dos párocos. Com as máquinas deles.




Nuno Teotónio Pereira – Eram com os copiógrafos. É claro que isto nunca, aqui nunca se atingiu, digamos assim, a perfeição que nós soubemos depois que havia em Espanha, por exemplo, porque os nossos. Nós estabelecemos contactos com católicos anti-franquistas, tivemos vários e numa dessas reuniões até foi avançada pelo Tito [...] em Madrid, articulado com os católicos para o diálogo e então, por exemplo, soubemos que esses problemas em Espanha eram resolvidos, entregando à porta de um convento, de um convento de freiras, os originais e no dia seguinte estava tudo impresso.

Fernando Rosas - Era mais prático. E eram depois vocês também que os distribuíam depois. [Nuno Teotónio Pereira – Sim éramos nós que os distribuíamos.] Distribuíam pelo correio?

Nuno Teotónio Pereira – Sim, distribuíamos pelo correio, com muitos cuidados porque se fosse assim tudo metido ao mesmo tempo na caixa do correio, a PIDE tinha um serviço nos correios para vigiar a correspondência e tudo era apreendido. Arranjávamos envelopes timbrados de empresas fictícias, às vezes até conseguíamos apanhar envelopes de movimentos católicos e por aí fora.

Fernando Rosas - Mas não foi o único movimento, o único órgão que foi criado clandestinamente? O Direito à Informação.

Nuno Teotónio Pereira – Depois mais tarde, houve um chamado os Boletins Anti-Coloniais, os BAC.

Fernando Rosas – Isso já no período marcelista.

Nuno Teotónio Pereira – No período marcelista, exactamente.

Fernando Rosas - E esses BAC eram jornais mais elaborados.

Nuno Teotónio Pereira – Porque a certa altura nós percebemos que o problema crucial da sociedade portuguesa era a guerra colonial e então, enfim, empenhámo-nos mais na denúncia da guerra colonial e foi criado esse boletim anti-colonial, dirigido esse pelo Luís Moita e esse era policopiado, era numa paróquia ao pé de Mafra e, enfim, mas houve outras coisas também doutros grupos, não é, convergentes. Por exemplo, uma coisa semi-legal, essa era semi-legal que eram os Cadernos Gedoc dirigidos pelo padre Felicidade Alves que esses eram até impressos 

[Fernando Rosas - Estudos e Documentação] eram impressos numa tipografia e tal. Depois a tipografia foi visitada pela PIDE a partir de um certo número e depois teve que ser policopiado.

Fernando Rosas - Esses órgãos, a publicação desses jornais clandestinos foi interrompida normalmente pela acção da Polícia Política.

Nuno Teotónio Pereira – Foi esse, O Direito à Informação transformou-se nos BAC 

[Fernando Rosas - Exactamente nos Boletins Anti-Coloniais] e esse acabou por acção da polícia. A polícia conseguiu cinco meses antes do 25 de Abril prender toda a organização.

Fernando Rosas – Toda a organização. Mas não chegou a haver nenhum processo em tribunal por causa de...

Nuno Teotónio Pereira – Não chegou a tribunal. Estava eu, quando veio o 25 de Abril o processo estava em gestação, até já estava acabado.

Fernando Rosas - Quem eram os réus?





Nuno Teotónio Pereira – O Luís Moita, eu, esse padre de Mafra, a Maria da Conceição Moita, a Luísa Cabral que tinha cedido uma parte da casa dela para a instalação dessa acção porque nós tínhamos um centro de informação anti-colonial. Nós recolhíamos documentos, tínhamos contactos com o estrangeiro, sobretudo com o Comité Angola de Amsterdão e permutávamos informação e então recolhíamos essas informações e difundíamo-las no tal Boletim Anti-Colonial e tínhamos uma casa para isso e essa casa foi também assaltada.


Fernando Rosas - Foi também assaltada e todas essas pessoas foram presas e o Nuno também. [Nuno Teotónio Pereira – Também.] Quanto tempo é que teve preso?

Nuno Teotónio Pereira – Estivemos presos mais ou menos cinco meses até ao 25 de Abril. Fomos libertados no 25 de Abril. Mais concretamente no dia 26 à meia noite.

Fernando Rosas - À meia noite. Todos nos lembramos muito bem desse dia. Foi maltratado na polícia?

Nuno Teotónio Pereira – Fui, fui bastante torturado. Já tinha sido preso várias vezes e dei-me conta...

Fernando Rosas – Quantas vezes tinha sido preso Nuno?

Nuno Teotónio Pereira – Ou três ou quatro, já não tenho a certeza se foram três ou quatro, mas das primeiras vezes verifiquei que os católicos eram tratados com benevolência na PIDE e por isso eu até depois cheguei à conclusão de que podíamos ter aproveitado podíamos ter feito mais coisas e dessa vez fui torturado porque aí havia um problema de armamento e porque eu fui solicitado por uma pessoa amiga que estava em apuros para esconder uma mala com armas e resolvi ajudá-la e pronto e depois houve prisões e a partir daí tudo descambou e eu houve tortura mesmo a sério. Pancada, chicotadas, desmaios, a tortura do sono, etc.

Fernando Rosas - Essa questão levanta-me um problema que eu gostaria de conversar consigo. Esse grupo católico, militante, opositor do Regime e da guerra colonial teve vários níveis de empenhamento na luta contra o Regime e também várias aproximações políticas distintas às várias oposições que existiam. Qual era a relação desse campo de oposição católica com as oposições que existiam, os comunistas, os socialistas, os da extrema esquerda. Como é que vocês...

Nuno Teotónio Pereira – Por exemplo, com os comunistas ficou muito claro na campanha da CDE nas eleições de 1969. Nós aí, esse grupo todo, não digo todo, mas a maioria, a grande maioria dos activistas alinhou pela CDE.

Fernando Rosas - O Alçada Baptista, o Sousa Tavares encostaram-se à CEUD.

Nuno Teotónio Pereira – Sim, sim. Não foi na totalidade, mas a maioria, sobretudo os mais activos, mais empenhados e portanto aí trabalhávamos em conjunto, trabalhávamos em conjunto, fazíamos acções com o Partido Comunista, etc. Sempre conservando uma certa distância porque havia de facto, não é, havia posições irredutíveis em relação à [...] como sobretudo à prática comunista e depois havia também ligações com o Partido Socialista, sobretudo através dos elementos de que falou há pouco.

Fernando Rosas - Também no âmbito d’O Tempo e do Modo? Não havia essa...

Nuno Teotónio Pereira – Sim, sim. Exactamente.

Fernando Rosas - Essa cooperação. Mas há uma parte dos católicos que se aproximam também da esquerda radical. [Nuno Teotónio Pereira – Sim, sim.] Sei lá fala-se hoje com mais clareza, hoje pode-se falar e estudar esses assuntos de ligações de elementos católicos com as próprias Brigadas Revolucionárias e com a luta armada que nessa altura se desencadeou.

Nuno Teotónio Pereira – Exactamente.

Fernando Rosas - Isso passou-se, efectivamente?

Nuno Teotónio Pereira – Passou-se, passou-se, passou-se.

Fernando Rosas - Que apoio é que prestavam à luta armada.

Nuno Teotónio Pereira – Era apoio logístico, sobretudo apoio logístico.

Fernando Rosas - E foi por isso que foram presos nessa fase final do Regime?

Nuno Teotónio Pereira – Não foi por isso. Por acaso essa tal mala com armamento não era das Brigadas Revolucionárias, era da LUAR. Por acaso era da LUAR, isso foi uma coisa casual, pronto, aconteceu assim.
 “A oposição católica ao Regime marcelista” foi o tema de hoje. Tema que pela sua importância continua na próxima semana ainda com as participações de 

Fernando Rosas e Nuno Teotónio Pereira.
Fizeram este programa Franklin Rodrigues, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.



(Programa gravado da Antena 2 no dia 8 de Maio de 1998)
2ª Parte

1973, Janeiro. Por decisão do Conselho de Ministros, são demitidos os doze funcionários públicos que tinham participado na vigília organizada na Capela do Rato. Esta medida repressiva origina o envio ao Presidente do Conselho de um abaixo assinado de protesto subscrito por mais de 400 personalidades das mais diversas áreas de actividade. Na Assembleia Nacional, o deputado Miller Guerra, da ala liberal, defende os participantes dessa vigília.

Casal-Ribeiro – Perguntava a Vossa Excelência de realmente achava bem que se discutisse a presença de Portugal no Ultramar.

Miller Guerra - Ora aí está uma pergunta objectiva e concreta e que eu respondo também objectivamente e concretamente. Acho sim senhor. Não só na igreja, mas como qualquer noutra parte.

Casal-Ribeiro - Então não preciso de mais nenhuma resposta de Vossa Excia. Está realmente, politicamente definido para mim, duma vez para sempre.

Miller Guerra - Ainda bem, senhor Casal-Ribeiro, ainda bem senhor almirante, ainda bem senhor almirante.
Um dos organizadores da ocupação da Capela do Rato foi o arquitecto Nuno 


Teotónio Pereira, o nosso convidado de hoje. Terminamos assim o tema iniciado na semana passada. O marcelismo e a oposição católica. Como sempre contamos com a cooperação do professor Fernando Rosas.

Fernando Rosas - O Nuno acha que vocês enquanto opositores católicos constituíram uma minoria isolada da opinião pública católica ou representaram a consciência católica genuína do país? Enfim, o que é que pensa disso, o que é que pensa da vossa posição enquanto católicos face à consciência católica do país.

Nuno Teotónio Pereira – Bem, nós sempre nos sentimos como uma minoria, como uma minoria. Sentimos um certo isolamento dentro da Igreja, embora houvesse enfim, de uma forma crescente, íamos recebendo mais apoios, até de padres e tudo, mas sempre nos sentimos como uma minoria, de facto.

Fernando Rosas - Acha que a Igreja católica portuguesa devia fazer alguma coisa semelhante à que fez a espanhola, recentemente, que pediu desculpa pela sua colaboração com o franquismo.

Nuno Teotónio Pereira - Desculpas públicas. Eu acho que, acho que sim, acho que sim, sobretudo no que respeita à guerra colonial, sobretudo no que diz respeito à guerra colonial. Em relação, enfim, àquela ligação muito forte, sempre à ditadura foi um facto, mas eu aí penso que pode haver algumas razões históricas que tenham justificado isso. As perseguições que houve até depois da República, etc. E é claro em relação à realidade da guerra colonial que demorou treze anos, eu aí penso que a Igreja católica portuguesa tinha que fazer o acto público de desculpa, sem dúvida nenhuma.


Fernando Rosas - Como é que o cardeal Cerejeira lidava com essa crescente, chamemo-lhes assim insubordinação católica, mesmo por parte de padres, já para não falar dos leigos.

Nuno Teotónio Pereira - Bom, ele tinha um grande ascendente sobre as pessoas, sobretudo sobre os padres e também sobre os leigos. Tinha um grande ascendente, por exemplo, alguns de nós foram falar com ele duas ou três vezes na fase inicial, só na fase inicial. 
[Fernando Rosas - O Nuno também foi?] Depois desistimos de falar com ele. Na fase inicial ainda fomos. 
[Fernando Rosas - O Nuno também participou nalguma dessas...] Também, duas ou três vezes e a seguir às eleições do Delgado, justamente. E ele tomava, era uma táctica que ele tinha. Ele falava todo o tempo, falava todo o tempo, era um grande conversador, falava todo o tempo, quase que não deixava a gente pôr, explicar as nossas posições. Sempre sorridente e uma dessas vezes até nos avisou, aconselhou-nos. Vocês têm as vossas vidas, a vossa família porque é que se estão a meter nessas coisas. Sempre com uma palavra de prudência na boca. A prudência que era a grande virtude. A prudência.

Fernando Rosas - Portanto ele não tomava uma oposição de hostilização aberta das vossas posições.

Nuno Teotónio Pereira - Não, não, não. Não tomava, não.

Fernando Rosas - E como é que ele lidava com os padres que eram, com os padres, em particular, que eram perseguidos politicamente. Havia perseguições paralelas da Igreja aos padres que eram objecto...

Nuno Teotónio Pereira - Sim, havia dentro daquilo que o Salazar entendia como a União Nacional que era um pacto não escrito, mas implícito entre a Igreja e o Estado em que a Igreja se responsabilizava por tomar conta de todo o rebanho, por manter na ordem o seu rebanho e de facto o cardeal Cerejeira fazia isso, fazia por manter na ordem o rebanho e em relação aos padres mais irrequietos ou recalcitrantes ou afastava-os ou mandava-os embora ou deixava-os isolados como no caso do padre Abel Varzim que foi demitido de vários cargos que tinha. Era professor no Instituto de Serviço Social e era pároco da Encarnação e assistente da Acção Católica, foi demitido de tudo isso na altura em que o Estado resolveu, impõe silenciá-lo.

Fernando Rosas - Portanto acha que houve pressão política do Estado para obrigar a Igreja a tomar medidas em relação ao seus padres.

Nuno Teotónio Pereira – Havia, havia. Evidentemente.

Fernando Rosas - Em relação ao padre Felicidade Alves isso foi mesmo levado até um pouco mais adiante. Essas, digamos, essas medidas que a Igreja tomou. Ele foi mesmo afastado da paróquia e não sei mesmo se não terá sido afastado da própria Igreja.




Nuno Teotónio Pereira - Sim, ele foi, como é que se diz, não me estou a lembrar do termo. Foi-lhe posta [Fernando Rosas - Excomunhão?] Não, excomunhão não, mas foi destituído de todos os cargos, foi afastado das responsabilidades pastorais e numa situação já muito adiantada em que aí o que estava em causa era a denúncia da guerra colonial e de facto a questão da guerra colonial radicalizou posições dos católicos e também da repressão.

Fernando Rosas - Há no entanto algumas posições da Igreja colonial em dissonância da Igreja, da Igreja mesmo africana, digamos assim, da Igreja em África.

Nuno Teotónio Pereira – Mas da Igreja representada por quem? Pela hierarquia? [Fernando Rosas - Pelos bispos] Há sim, pelo bispo da Beira, por exemplo. Sem dúvida e mais tarde pelo bispo de Nampula.


Fernando Rosas – Tinham conhecimento dessas posições cá do bispo da Beira e de Nampula?

Nuno Teotónio Pereira - Tínhamos, tínhamos. Eu, o bispo da Beira nunca falei com ele porque entretanto ele já tinha morrido, na altura mais adiantada, mas tínhamos contactos com o bispo de Nampula, contactos quando vinha a Lisboa.

Fernando Rosas – E com os padres do MPLA que estavam cá refugiados...
Nuno Teotónio Pereira – Ah sim, esses tiveram um papel muito importante para a nossa tomada de consciência em relação à guerra.

Fernando Rosas - Como é que isso aconteceu?



Nuno Teotónio Pereira - Porque houve uma leva de prisões de padres em Angola, na sequência da   guerra da insurreição do 4 de Fevereiro e então eles vieram deportados para cá. Foram presos, vieram deportados, foram colocados, foram dispersos, colocados...

Fernando Rosas - O Joaquim Pinto de Andrade.

Nuno Teotónio Pereira - O Joaquim Pinto de Andrade, o actual cardeal de Luanda, Alexandre de Nascimento, o actual arcebispo de Lubango, Franklin, Franklin Costa enfim, era a fina flor do clero angolano. Professores do seminário e então foram colocados aqui em casas religiosas dispersas pelo país com obrigação de se apresentarem à PIDE e de certa maneira sob a vigilância dos superiores dessas casas religiosas e então nós tínhamos contactos com eles. Fomos alertados para esse acontecimento que não vem nos jornais, evidentemente, não vem nos jornais, mas tivemos conhecimento e então tínhamos contactos com eles.

Fernando Rosas - Podiam visitá-los?

Nuno Teotónio Pereira - Podíamos visitá-los, exactamente, e isso contribuiu muito, pela nossa parte para a tomada de consciência porque vimos que a aspiração à independência era uma aspiração muito autêntica, muito profunda. Não eram coisas de propaganda política e foi extremamente importante.

Fernando Rosas - Na sua opinião há alguma mudança sensível de atitude quando o cardeal Cerejeira renuncia e vem o novo cardeal António Ribeiro?

Nuno Teotónio Pereira - Eu penso que não houve nenhuma mudança importante. Penso que não, penso que não.

Fernando Rosas - Tinha contactos com o novo cardeal?

Nuno Teotónio Pereira - Sim, alguns, não muitos mas alguns. Ele foi assistente da JUC, por exemplo. Eu não era da JUC, mas fui a umas conferências, uma vez ou outra, encontrei-o e, de certa maneira, foi uma decepção porque podia-se pensar que ele introduziria alguma alteração, mas não introduziu.

Fernando Rosas - Maior prudência, talvez. Há um certo distanciamento aparente do Regime nessa altura ou não.

Nuno Teotónio Pereira - Sim, talvez. Um certo distanciamento, mas muito relativo, claro. Não havia, digamos, aquela fraternidade, aquele à vontade que era característico das relações entre o cardeal Cerejeira e o Salazar.

Fernando Rosas - O novo cardeal toma aliás uma posição, como é que caracteriza a posição que ele toma na questão da Capela do Rato em que o Nuno também participou.

Nuno Teotónio Pereira - Bom, acho que ele tomou uma posição de certa maneira de condenação daquilo que se passou na Capela do Rato porque ele destituiu o padre Alberto.

Fernando Rosas - Condenação da acção da polícia ou condenação da vossa atitude?

Nuno Teotónio Pereira - Da nossa acção.

Fernando Rosas - Quer lembrar um pouco aos nossos ouvintes o que é que se passou nesse dia 1 de Janeiro, nessa... [Nuno Teotónio Pereira - No dia Mundial da Paz] No dia Mundial da Paz.


Nuno Teotónio Pereira - Dia Mundial de Acção pela Paz. Foi exactamente com essa palavra de ordem que eu há pouco disse do Paulo VI, “a paz é possível, a paz é obrigatória” e então organizámos uma vigília para celebrar essa acção do dia 1 com uns dias de antecedência. 
[Fernando Rosas - Estamos no ano de 1972] Exactamente. Dois anos antes tinha-se feito um coisa semelhante na igreja de S. Domingos.




Fernando Rosas - Sem incidentes?

Nuno Teotónio Pereira - Sem incidentes. É curioso porque houve a missa da meia noite celebrada pelo cardeal Cerejeira e o grupo foi ter com ele à saída, quando ele saía da igreja fomos ter com ele e anunciámos que íamos ficar ali toda a noite em oração pela paz e ele não objectou, não opôs resistência. Encarregou o pároco de nos acompanhar, para, penso, nos controlar, etc. E, de facto, o pároco esteve toda a noite a vociferar, interrompia o que nós dizíamos, protestava, etc.

Fernando Rosas - Em 70, portanto.

Nuno Teotónio Pereira – De 69 para 70.

Fernando Rosas - Mas já teve um cariz claro de oposição à guerra.

Nuno Teotónio Pereira - Sim. Houve testemunhos de pessoas que tinham estado nas colónias a combater e tudo isso. Um deles foi o de Manuel Lopes, por exemplo, da CGTP, estava mobilizado e portanto já com concretamente. O que não houve foi, a polícia resolveu não reprimir. [Fernando Rosas - Não houve greve da fome da vossa parte, nem houve...] Não, não, não houve. Foi só aquela noite, não é. 

Fernando Rosas - Nisso mudou relativamente ao tipo de acção dois anos depois.

Sim, sim. Exactamente.

Fernando Rosas - Portanto em 73...

Nuno Teotónio Pereira - Foi mais ousada. De 72 para 73 foi muito mais ousada porque foi uns dias antes.

Fernando Rosas - Quais eram os vossos propósitos?

Nuno Teotónio Pereira - Dois dias antes e depois declarou-se aberta, a Capela declarou-se aberta para a discussão com toda a gente que quisesse discutir o problema da guerra colonial. Portanto isso foi uma coisa muito mais ousada e que durou dois dias, se não me engano, não é. Depois, ao fim do segundo dia, lá apareceu a polícia com os cães a ladrar e entrou na Capela, arrastou as pessoas para a esquadra do Rato que era ali mesmo ao lado e depois houve uma triagem. Fomos para o Governo Civil, depois no Governo Civil passámos lá a meia noite. Houve uma triagem aí, foram quinze para Caxias. Os considerados os cabecilhas da acção. Estivemos lá quinze dias, mais ou menos. Quer dizer, uns estiveram menos, outros estiveram mais, foram só quinze dias. Não houve maus tratos.

Fernando Rosas - Na sequência disso, aqueles que eram funcionários públicos foram objecto de demissão.

Nuno Teotónio Pereira - Exactamente. Foi o professor Pereira de Moura, do ISE, e mais o Fonseca Meneres. Depois constituíram advogados, fizeram um recurso em relação a essa demissão, mas não obtiveram nenhum resultado prático.

Fernando Rosas - Essa jornada na Capela do Rato nos primeiros dias de Janeiro de 73, de 72 para 73, foi, esteve ligada ao rebentamento de petardos que anunciavam, em papéis, a realização...

Nuno Teotónio Pereira - Exactamente. Aí para essa acção houve uma acção conjugada com as Brigadas Revolucionárias que eram portanto especialistas em explosivos e coisas desse género e eles então encarregaram-se de distribuir panfletos a anunciar essa acção na Capela do Rato e esses panfletos eram distribuídos através dos petardos, duns pequenos explosivos que faziam rebentar um pacote e os manifestos, os papéis espalhavam-se na rua.

Fernando Rosas - Vocês tinham consciência de que a polícia podia intervir na Capela?

Nuno Teotónio Pereira - Ah sim, tínhamos consciência disso. Até dávamos isso quase como certo.

Fernando Rosas - Portanto era uma acção de claro desafio ao poder que estava estabelecido. [Nuno Teotónio Pereira - Claro, claro.] E o cardeal como é que reagiu a isso?

Nuno Teotónio Pereira - Bom, ele emitiu um comunicado a condenar a intervenção das forças policiais, sobretudo por terem entrado na Capela, mas por outro lado também condenava a acção dos militantes que tinham ocupado a igreja para fins que não eram fins religiosos, digamos assim. E, enfim, esse comunicado é perfeitamente pacífico, quer dizer, uma condenação para qualquer dos lados. Parece-me que seria natural, mas o que considerámos nada pacífico foi ter afastado o padre Alberto Neto de responsável pela Capela do Rato, até porque ele nem sequer estava lá, ele estava doente e portanto ele não estava lá e portanto essa retaliação, tomámos isso como de facto castigo que foi imposto ao padre Alberto Neto para dar satisfação ao Governo, de que tinha punido de alguma maneira aquela acção.

Fernando Rosas - Também um pouco antes disso a célebre recepção do papa aos dirigentes dos Movimentos de Libertação que provoca uma violentíssima reacção por parte do Governo de Lisboa. Tem ideia de como é que a hierarquia em Portugal sentiu esse episódio?

Nuno Teotónio Pereira - Não, não me lembro. Não me lembro. Até nem me lembro do que é que o jornal “Novidades” que era o jornal da Igreja como é que noticiou esse acontecimento. Lembro-me do “Diário de Notícias” falar nisso porque isso não foi censurado, foi objecto de notícias e depois houve protestos do Governo português, etc. e aquilo acabou por uma declaração do Vaticano dizendo que, o Vaticano também com a sua duplicidade tradicional, dizendo que afinal que esses dirigentes nacionalistas tinham sido, tinham tido um encontro quase casual com o papa num corredor do Vaticano. Uma coisa deste género. E essa explicação para satisfazer o Governo português. Tinha sido uma coisa casual num corredor, quando não foi nada. Foi uma recepção, preparada com antecedência, combinada por uma militante italiana, Marcela Guizenti, que se encarregou, que se propôs conseguir essa audiência.

Fernando Rosas - Que ligações internacionais é que o vosso movimento, o vosso grupo, as pessoas que formavam esse espaço de intervenção católica, que ligações internacionais é que tinham com grupos congéneres?

Nuno Teotónio Pereira - Bom, tivemos mais com os espanhóis de Madrid, agrupados à volta dos “Coelliares del Leal” que era uma revista muito semelhante ao “Tempo e o Modo” e depois também com esse comité de Amsterdão que desenvolveu uma luta muita activa contra o colonialismo português, também com grupos belgas, alguns franceses e lembro-me, por exemplo, também duma viagem que fizemos para contactos em Itália a convite da Federação Sindical Católica Italiana, estivemos em contacto com os sindicatos. Foi o Vítor Wengorovios que organizou essa deslocação. Portanto esses contactos iam-se alargando e não havia de facto contactos, não tivemos contactos, pelo menos o nosso grupo mais activo dirigidos para os dirigentes das democracias cristãs.

Fernando Rosas - E com o Vaticano?

Nuno Teotónio Pereira - Com o Vaticano creio que não houve, não houve. Entretanto, o João XXIII tinha morrido já há uns anos. Não houve.

Fernando Rosas - E acha que os católicos, os chamados católicos progressistas espanhóis tinham mais liberdade de movimento em Espanha do que vocês cá nessa altura?

Nuno Teotónio Pereira - Sim, eu creio que eles tinham mais porque não havia o problema da guerra colonial que aqui foi muito responsável não só pela nossa radicalização como também pelo aumento da repressão.

Fernando Rosas - Quem eram os vossos autores em termos do discurso católico renovador? Quem eram os vossos autores, quais eram as vossas leituras? A vossa inspiração?

Nuno Teotónio Pereira - Agora já tenho dificuldade em dizer-lhe isso, em dizer-lhe nomes. Mas eram sobretudo franceses. 

[Fernando Rosas - Maritain?

Como sabe Maritain, justamente, pois o Maritain, depois também um outro brasileiro que eu não me lembro já do nome que era já um pouco a adivinhar o que seria depois a teologia da libertação, não é. 
[Fernando Rosas - Havia o exemplo francês dos padres operários também.] 

Padres operários, exactamente. Eu lembro-me de uma vez que o Francisco Lino Neto foi a Paris e esteve em contacto com padres operários, participou em reuniões, etc. Padres operários que, como sabe, depois foram dissolvidos.

Fernando Rosas - Vocês tinham aqui ligações com os sindicatos, o vosso grupo de intervenção? Com o movimento sindical?

Nuno Teotónio Pereira - Havia, havia pessoas do nosso grupo. 
[Fernando Rosas - Porque a LOC manteve-se sempre como um sector muito irrequieto da Acção Católica] 
Quem, quem? 

[Fernando Rosas – A LOC] 

Sim, sim, sim. Havia elementos da LOC ligados ao que foi depois a CGTP, ligados à Intersindical.

Fernando Rosas - Como é que os católicos progressistas se relacionaram e viram o surgimento da ala liberal do marcelismo.

Nuno Teotónio Pereira - Bom, nós, digamos assim, em conjunto vimos o aparecimento do Marcelo Caetano como sucessor do Salazar com alguma expectativa, com uma expectativa até benevolente, mas passado pouco tempo, posso dizer que a maioria de nós já tinha perdido essa expectativa, mas houve alguns elementos que apostaram, apostaram de facto numa renovação do Regime. Posso falar no Alçada Baptista, por exemplo, e sobretudo no José Pedro Pinto Leite que era uma pessoa muito marcada porque tinha sido um estudante de direito do Marcelo Caetano e muito marcado pelo Marcelo Caetano e esse, portanto, afirmou-se muito convicto dessa posição e depois também tínhamos ligações com o Sá Carneiro e com outros elementos que formaram a ala liberal, com o Miller Guerra, por exemplo, também, mas a maior parte, sobretudo os mais activos rapidamente se desencantaram de tal renovação do Marcelo Caetano e eu lembro-me de uma vez que encontrei o, encontrei por acaso na rua o Sá Carneiro. Ele quando vinha a Lisboa instalava-se no hotel Tivoli, no hotel Tivoli Jardim que é um pouco por detrás, e encontrei-o na avenida da Liberdade e ele disse: - “Acabou-se. O Regime não tem emenda. Vou dizer isso, amanhã ou coisa assim. Vou anunciar isso.”
“O marcelismo e a oposição católica” contou com as colaborações de Nuno 


Teotónio Pereira e Fernando Rosas.
Fizeram este programa Ana Colaço, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.
(Programa gravado da Antena 2 no dia 15 de Maio de 1998)
Transcrição: Ireneu Batista



Ocorreu ontem o trigésimo quarto aniversário da morte de Paulo VI. Como se sublinhou na semana passada, em Nairobi, no Quénia, no Colóquio sobre Paulo VI e a África, o Papa Montini reservou à África uma especial atenção. No que diz respeito aos países africanos de língua oficial portuguesa, já ontem o nosso programa recordou o histórico encontro que o pontífice teve, no Vaticano, a 1 de julho de 1970, com os três líderes dos principais movimentos de libertação das colónias portuguesas: Agostinho Neto, de Angola; Marcelino dos Santos, de Moçambique; e Amílcar Cabral, para a Guiné-Bissau e Cabo Verde. Estes três maiores protagonistas das lutas que conduziram à independência daquelas quatro colónias portuguesas (e ainda de São Tomé e Príncipe) estavam em Roma para animar um Encontro - debate de vários dias, na tentativa de sensibilizar a opinião pública e os governos europeus para a sua causa, mas também a Santa Sé, a Igreja Católica e o próprio Papa Paulo VI.






Tudo isto foi recordado e celebrado, anos atrás, a 31 de Dezembro de 1999, num Congresso sobre a figura e obra de Amílcar Cabral, realizado aqui em Roma, na Rádio Vaticano. Nele participaram, nomeadamente, Luís Cabral, primeiro Presidente da Guiné-Bissau independente e irmão do herói guineense, e o cardeal Achile Silvestrini, que em 1970 colaborava com o então Secretário de Estado, o cardeal Agostinho Casaroli e que, nessa qualidade, acompanhou de perto o processo que levou ao referido encontro do Papa com os três líderes africanos de língua portuguesa.

Evoquemos aqui hoje esta intervenção do cardeal Silvestrini, que sublinhou a importância daquele histórico encontro de 1970, que (observou) “permite compreender melhor a acção da Igreja e do Papa”. Um encontro que há que situar à luz do Concílio Vaticano II (concluído em 1965) e da Encíclica “Populorum Progressio”, publicada em 1968…
“Tinha terminado não há muito o Concílio Vaticano e esta Encíclica veio como uma espécie de grande mensagem do interesse e do apoio da Igreja à promoção de todos os povos da África, da Ásia, e também da América Latina, que de algum modo estavam em condições de sujeição: ou de colonialismo, ou de subdesenvolvimento, ou de uma coisa e outra. Uma grande Encíclica que ainda hoje se lê com enorme admiração, porque foi um passo enorme.
Na minha experiência, que tive, se tivesse que dizer quais são os dois grandes acontecimentos da vida da Igreja nos últimos 50 anos, diria sem dúvida: o Concílio Vaticano II (sobre o qual estamos todos de acordo), mas o outro acontecimento paralelo é a descolonização.”

O cardeal Silvestrini recordou qual era, antes de 1960, a situação da África: praticamente todos os poderes coloniais estavam ainda intactos. Foi só a partir daí que começou um processo em que se confrontaram, por um lado, a vontade dos Estados democráticos da Europa e a aspiração dos povos africanos. “Uma luta áspera, dura, dos povos africanos, para se libertarem da colonização”,sem esquecer toda a questão, gravíssima, do apartheid. E é impressionante ver como foi possível, num tempo bastante breve, a partir de 1960, o acesso à independência dos diversos países africanos…

“A Populorum progressio é o grande documento que mostra este grande olhar, visão, e empenho da Igreja em relação aos povos. De facto, o Papa Paulo VI foi ele que disse que o desenvolvimento é o novo, grande, nome da paz”.

Foi neste contexto, dois anos após a “Populorum progressio”, que se realizou em Roma, em 1970, a referida Conferência dos Movimentos de Libertação das Colónias Portuguesas, em finais de julho, para pedir a solidariedade da Europa e da Igreja de Roma, para concluir a terrível guerra em que estavam empenhados desde há dez anos. Aqui se reuniram, pois, o angolano Agostinho Neto, o moçambicano Marcelino dos Santos e o guineense Amílcar Cabral.

“Está claro que vir a Roma não era só abrir – digamos – um discurso com a Europa. Significava também ter um encontro com o Papa e com a Igreja. De facto, o grande desejo destes três expoentes era acima de tudo o de serem recebidos pelo Santo Padre”.

No referido Colóquio de dezembro de 1999, sobre Amílcar Cabral, que estamos a evocar, o cardeal Silvestrini, testemunha dos acontecimentos, explicou que a audiência do Papa foi precedida de verdadeiras “negociações”, em que intervieram diversas figuras italianas, católicas, atentas à causa dos povos africanos.

“Estas pessoas, que conheciam a realidade africana, conseguiram que o pedido de audiência fosse examinado, pedido que o Papa imediatamente acolheu de modo favorável.”

O encontro teve lugar a 1 de julho, quarta-feira. Depois da audiência geral, o Santo Padre, numa sala ao lado da Aula das Audiências, encontrou-se com “estes três distintos… digamos, protagonistas da luta de libertação destes países” – afirmou o cardeal Silvestrini, que referiu mesmo as palavras de Paulo VI:

O Papa disse-lhes: “Nós não podemos entrar em questões políticas. Mas conhecemos a aspiração que tendes. A Igreja, a esta aspiração, não dá apenas a sua simpatia, mas também o seu apoio. A Igreja, porém, recomenda que se encontrem soluções pacíficas e negociadas. E entregou-lhes pessoalmente uma bela edição, em português, da Encíclica Populorum progressio”.

Era o cardeal Silvestrini, evocando em 1999, num Colóquio sobre Amílcar Cabral, aqui na Rádio Vaticano, o histórico encontro do Papa Paulo VI com os três líderes dos Movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné - Cabo Verde…