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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

QUE HIPOCRISIA ! ELES, OS ASSASSINOS ! Israel: O Parlamento irá considerar um projeto de lei para retirar da Internet "incentivos" à violência


L’Etat hébreu assure qu’Internet a joué un rôle clé dans l’incitation aux violences perpétrées contre les Israéliens par des Palestiniens depuis octobre 2015.
LEMONDE.FR

VÍDEO - O PCP VALORIZA OS AVANÇOS ALCANÇADOS MAS CONSIDERA SEREM LIMITADOS E INSUFICENTES



VÍDEO

A MARAVILHOSA PINTURA DE VIDAN DANGELICO

ARTISTA FAZ QUADROS SOMENTE COM RETALHOS DE JEANS





Ayrton Senna feito de retalhos de jeans
Ayrton Senna feito de retalhos de jeans, por Ian Berry.
À primeira vista, muitos acreditam que o trabalho de Ian Berry são fotos com tonalidade azulada ou pinturas a óleo de cor índigo.  E isto não ocorre somente quando sua arte é vista online ou impressa, quando muito do detalhe e profundidade se perde.  Mesmo à uma distância em que se pode tocar sua arte, muitas pessoas não percebem que estão olhando para muitas camadas e tonalidade de jeans.
Ao ver a arte de Ian de perto, você fica ciente da profundidade e da textura, e vê como cada pequeno retalho de jeans foi analisado e considerado antes de sua aplicação.
Ele cria cenas urbanas melancólicas, muitas vezes mostrando o lado solitário e menos glamoroso da vida na cidade. Ele diz que jeans agora é um tecido muito urbano, após ter suas origens na região rural. Assim, que melhor mídia para capturar a vida urbana do dia-a-dia?
É difícil acreditar que tudo isso começou por uma simples observação: olhando para uma pilha de velhos jeans e notando as tonalidades contrastantes de azul.
Seu sucesso captou a atenção de muitos e, embora seus trabalhos sejam extremamente meticulosos e demorados, ele conseguiu produzir alguns retratos comissionados: Debbie Harry, Jennifer Saunders, Giorgio Armani e Lapo Elkann, e da modelo Gisele Bündchen, entre outros. Contudo, seu trabalho mais conhecido foi o do brasileiro, Ayrton Senna, usando jeans de sua família em apoio à Instituição que carrega seu nome.
Veja abaixo o vídeo da entrega do quadro em jeans de Ayrton Senna para a família do herói brasileiro, seguido de outro vídeo de seu trabalho e mais fotos de sua arte:
VÍDEO

otimundo.com

faleceu o cantor Georges Michael



VÍDEO


O mundo visto de cima: Dinamarca [Kalundborg até Skagen]


Desta vez conheceremos mais um país incrível, com paisagens realmente espectaculares: A Dinamarca.


Acompanhe o caminho de Kalundborg até Skagen, onde teremos vistas aéreas surpreendentes, cheias de casarões antigos, uma natureza belíssima e com castelos incríveis. Confira!

Para isso, assista ao documentário abaixo:

 

tudorocha.blogspot.pt

informação minimalista



Desde 2004 que o salário real em Portugal não acompanha a variação da produtividade. Esta diferença aprofundou-se brutalmente a partir de 2010, em resultado da política de austeridade.

cris-sheandbobbymcgee.blogspot.pt

HIPNOSE


PARECE QUE A SOCIAL DEMOCRACIA (ANTECÂMARA DO FASCISMO) ANDA POR AÍ A DEIXAR BABA DE CARACOL.

JÁ NÃO BASTAM AS PROPAGANDAS DOS PAÍSES NÓRDICOS A MERECEREM EXAGERADOS ELOGIOS MANÍACOS DE MODELOS SE SUPER SOCIEDADES (LÁ TODOS PAGAM IMPOSTOS) AGORA PARECE SURGIR NA CABEÇA DO ZÉ POVINHO QUE POR CÁ EXISTE ESSA HISTÓRIA DA SOCIAL DEMOCRACIA E QUE PODERIA FUNCIONAR.

NO PSD LOGO A SEGUIR AO 25 ABRIL (VEJAM REGISTOS VÍDEO AUTÊNTICOS) SÁ CARNEIRO FECHAVA O PUNHO E GRITAVA "RUMO AO SOCIALISMO" DEPOIS DEU NA MERDA QUE DEU.

A SEGUIR O PARTIDO XUXA AFIRMAVA-SE SOCIALISTA E HOJE ESTÁ RECHEADO DE BURGUESES E NEO LIBERAIS TIPO SÃO FRANCISCO DE ASSIS.

O BLOCO DE ESQUERDA, BLOCO ELEITORAL, TEM UMA POLÍTICA EXCLUSIVA. SÃO OS SEUS DIRIGENTES QUE DECIDEM QUEM É DE ESQUERDA OU DE DIREITA. PARA ELES A ANÁLISE QUE FAZEM PRINCIPALMENTE DA POLÍTICA EXTERNA DÃO VONTADE DE RIR E AGRADAM AO SISUDO CAVACO SILVA.

TODOS ESTES ENGANADORES SE BASEAVAM NA FALSA SOCIAL DEMOCRACIA E DAS CUECAS NEM O ELÁSTICO TINHAM ABRINDO AS SUAS POLITICAS À DIREITA, AO CAPITALISMO E AOS MONOPÓLIOS.

A PROPAGANDA DOS MEDIA E NÃO SÓ LEVANDO NO COLINHO QUEM LHES INTERESSA E O QUE LHES CONVÉM TEM FEITO OS SEUS ESTRAGOS.

A CONTINUAR ASSIM O POVO SE NÃO ABRIR A PESTANA PAGARÁ CARO ESTA EUFORIA DE QUE DEPOIS DE REPOSTO O QUE JÁ TINHA SIDO ROUBADO PORTUGAL SERÁ MELHOR E QUE OS QUE SEMPRE NOS ROUBARAM VÃO TORNAR-SE SANTINHOS E AMIGOS DO POVO.

QUEM NOS GARANTE QUE NÃO NOS VÃO ROUBAR
OUTRA VEZ ? ALGO MUDOU NOS PARTIDOS QUE SEMPRE FORAM OS PROTAGONISTAS DAS POLÍTICAS DE DIREITA QUE LEVARAM PORTUGAL À RUÍNA ?

HOJE DE MANEIRA DISSIMULADA ESTÃO A DISTRIBUIR-SE MIGALHAS AO POVO E COMO ANTIGAMENTE A ENTREGAR AOS PATRÕES O OURO E A PRATA.
António Garrochinho

MULTAS - Multa de mil euros se não se der prioridade a grávidas e deficientes/Flores na escada podem dar multa de 370 euros


A partir de amanhã, grávidas, deficientes e idosos com evidente incapacidade são atendidos primeiro.

Não dar prioridade no atendimento a uma grávida, a portadores de deficiência ou de incapacidade física e a pessoas acompanhadas por uma criança até aos dois anos é ilegal, a partir de amanhã. Quem não respeitar a lei, arrisca-se a ver entrar a Polícia pelo estabelecimento e, ainda, a ter de pagar uma multa que vai dos 50 até ao mil euros. As regras da prioridade valem praticamente em todos os serviços e deixam de estar dependentes da boa formação ou educação de cada um.


Flores na escada podem dar multa de 370 euros


A colocação de vasos de flores ou outros objetos de decoração em áreas de circulação de um prédio é punível com uma coima entre os 370 e os 3700 euros (pessoas singulares).

É isso que estabelece o Regime Jurídico da Segurança Contra Incêndios em Edifícios, aprovado pelo Decreto Lei n.º 220/2008, mas a maioria das pessoas desconhece esta legislação.
"Não é uma situação do conhecimento geral, mas, efetivamente, a lei prevê esses valores para casos de flores nas escadas de prédios", confirma ao JN Sofia Lima, da Associação de Defesa do Consumidor (Deco). A advogada acrescenta que "cabe à administração do condomínio fazer a advertência e solicitar a retirada dos objetos. Caso não seja acatada, deve solicitar uma inspeção dos bombeiros".

www.jn.pt

VÍDEOS - JAZZ OS 20 MELHORES DISCOS DO ANO E MAIS (72 ESSENCIAIS)


Suíça, Luxemburgo, Noruega, Finlândia e Portugal são alguns dos países de onde saíram os melhores discos de jazz de 2016, um ano de safra abundante que confirma a extraordinária vitalidade do jazz.
    A fragmentação e a dissolução das fronteiras do universo do jazz prosseguem em ritmo imparável e isso é bom. Quem acredita que o jazz é um “estilo”, definido por um conjunto de marcas identitárias tal como fixadas num disco de Oscar Peterson ou Art Blakey do final dos anos 50, discordará e lamentará a “decadência”. Quem entenda que o jazz é uma questão de atitude e não a reprodução dos padrões de qualquer fase da sua história de mais de um século, sentirá que se vivem tempos excitantes.

    Os 20 melhores


    Num mundo tão diverso e fervilhante não faz muito sentido comparar o que não é comparável – maçãs não são melhores do que laranjas e vice-versa – pelo que a ordem dos discos que se seguem não reflecte qualquer hierarquia: são todos excepcionais, cada um à sua maneira.







































    1. Stefan Aeby Trio: “To the light” (Intakt)
    Comecemos por um país que, num exercício de livre associação de ideias, poucos justaporão à palavra “jazz”. E, todavia, a Suíça conta com duas das mais relevantes editoras de jazz – a Hat Hut e a Intakt – e um número crescente de jovens talentos capazes de rivalizar em técnica e criatividade com a nata do jazz norte-americano ou francês ou alemão.

    Stefan Aeby nasceu em 1979 em Freiburg/Fribourg (a ambivalência explica-se por a cidade ficar na fronteira entre as zonas de influência germânica e francesa) e To the light é o terceiro disco do seu trio com André Pousaz (contrabaixo) e Michi Stulz (bateria), que pratica um jazz despojado, minimal, de gestos reduzidos ao essencial e ambientes meticulosamente construídos.
    Num disco dominado por atmosferas amplas e transparentes, a captação de som é um factor crucial e To the light beneficia do superlativo trabalho do Idee und Klang Studio, de Daniel Dettwiller.
    2. Florian Favre Trio: “Ur” (Traumton)
    Continuamos na Suíça, como os prados verdejantes e as montanhas escarpadas em fundo indicam. Florian Favre partilha com Stefan Aeby o ano de nascimento (1979), a cidade natal (Freiburg/Fribourg), o instrumento (piano) e o principal veículo para as suas ideias (o trio com piano, contrabaixo e bateria). Porém, Aeby e Favre são bem diversos, com o segundo a explorar uma rítmica viva e intrincada, no que ajuda ter como colaboradores os seus compatriotas Manu Hagmann, no contrabaixo, e Arthur Hnatek, um dos mais originais e irrequietos bateristas da nova geração, que tem posto o seu talento ao serviço de músicos tão diversos como Tigran Hamasyan (em Mock root, um dos grandes discos de 2015) e François Truffaz (em Doni doni, de 2016).

    Favre mantém em paralelo um projecto de piano solo (registado em Dernière danse) e outro de miscigenação jazz/rap (intitulado Rêves de Gosses) e este é o seu segundo disco em trio (antes houve T’inquiète pas, ça va aller).
    3. Black Bombaim & Peter Brötzmann: “Black Bombaim & Peter Brötzmann” (Shhpuma/Lovers & Lollypops)
    O que faz uma banda de stoner rock de Barcelos numa lista de melhores discos de jazz? Não é um equívoco e não é uma manifestação de patrioteirismo – o disco que uniu o trio Black Bombaim a um veterano do free jazz está aqui estritamente por mérito próprio.

    Que se tire o chapéu a quem teve a presciência de intuir que estes dois elementos tão diversos iriam fundir-se, numa reacção violentamente exotérmica, numa nova e incandescente matéria. Cataloguem-no como stoner jazz, thrash jazz, free metal, pouco importa, mas não deixem de ouvir, mesmo que deixe os ouvidos combalidos aos primeiros embates.
    4. Carlos Bica & Azul: “More than this” (Clean Feed)
    No mundo dos jazzmen mais criativos, feito de constantes permutações, múltiplas colaborações e busca incessante, a maioria dos projectos raramente se eterniza ou mantém exactamente a mesma formação. O trio Azul do contrabaixista português Carlos Bica é uma excepção, pois vai já no 20.º ano de existência (Azul, o disco de estreia, é de 1996), apesar dos múltiplos interesses que os seus membros alimentam e os incontáveis grupos por que se desdobram. Mas compreende-se que, mais tarde ou mais cedo, Bica volte a juntar-se ao guitarrista alemão Frank Möbus e ao baterista norte-americano Jim Black, pois há uma química entre eles que seria irreprodutível com qualquer outro músico.

    More than this, o sexto álbum do trio, tem um título para ser levado a sério, pois há mais no mundo do que parece evidente num olhar distraído e a música do trio Azul é disso prova: as suas belíssimas melodias são enganadoramente simples, os seus acessos de fúria ocultam sofisticação e subtileza. O novo disco combina originais de Bica, um tradicional alentejano (“Na rama do alecrim”, gravado por Janita Salomé) e um tradicional americano (“Silver dagger”, gravado por Bob Dylan), jazz e rock, serenidade e paroxismo.
    5. Melt Trio: “Stroy” (Traumton)
    Peter Meyer (guitarra), Bernhard Meyer (baixo) e Moritz Baumgartner (bateria) tinham cerca de 10 anos de idade quando o primeiro disco do trio Azul de Carlos Bica surgiu e quando se ouve o Melt Trio fica-se com a certeza de que passaram o seus anos de formação a ouvir atentamente tudo o que o Azul tem vindo a produzir.

    Não é que o jovem trio alemão seja um decalque do trio de Bica, mas, para lá da mesma geometria instrumental, há afinidades, quer na linguagem individual, quer na forma como se articulam, bem como na combinação de melodias etéreas e energia rock. Stroy é a terceira peça de uma discografia que inclui Melt (2011) e Hymnolia (2013).
    6. Flat Earth Society: “Terms of embarrassment” (Igloo)
    A big band flamenga liderada pelo guitarrista Pierre Vervloesem decidiu que era mais que tempo de prestar homenagem à sua mais poderosa fonte de inspiração – Frank Zappa. Terms of embarrassment intercala peças de Zappa – “Take your clothes off when you dance” (de We’re only in it for the money), “City of tiny lites” (de Sheik Yerbouti) e “Random riffs” (uma colagem de riffs de diferentes proveniências) – com composições de Vervloesem, registadas ao vivo numa tournée pela Bélgica e Holanda.

    Tal como Zappa, a FES oferece pirotecnia, sarcasmo, números circenses, abruptas mudanças de humor e uma rigorosa construção musical mesmo quando parece reinar o pandemónio. O disco abre com “Me standard, you poor”, que poderia tornar-se no hino oficial das agências de rating financeiro (acaso esta gente perdesse o seu precioso tempo a ouvir música).
    7. Wolfert Brederode: “Black ice” (ECM)
    O holandês Wolfert Bredrode ganhou nome com um quarteto com Claudio Puntin, Mats Eilertsen e Samuel Rohrer, que gravou três excelentes discos para a ECM. A mesma editora acolheu também este seu primeiro disco em trio com contrabaixo (o islandês Gulli Gudmundsson) e bateria (o holandês Jasper van Hulten), de espaços desafogados pontuados por notas esparsas que desenham figuras melancólicas. A ECM tem por ideal “o mais belo som a seguir ao silêncio” e são discos como este que lhe dão sentido.

    8. Damana: “Cornua copiae” (Clean Feed)
    Subindo um pouco no mapa da Europa, chegamos à Noruega e ao baterista Dag Magnus Narvesen, que se divide por uma mão-cheia de projectos, a maior parte deles ainda sem registo fonográfico.

    O octeto Damana (nome formado pelas duas primeiras letras do nome do músico) junta alguns expoentes do moderno jazz escandinavo e pratica uma música fogosa e azougada, com raízes nos anos 60, com afinidades com o projecto Angles do norueguês Martin Küchen, mas com som próprio e disposição mais festiva.
    9. Fire! Orchestra: “Ritual” (Rune Grammofon)
    O trio sueco Fire! – Mats Gustafsson (saxofone), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werlin (bateria) – já será uma formação intimidante para quem tenha um entendimento do jazz como requintada música de fundo, mas a sua versão expandida a uma vintena de membros – a Fire! Orchestra – pode deixar os cabelos em pé a muita gente. Após Exit! (2013) e Enter! (2014), a orquestra regressa com Ritual, que confirma o seu estatuto como uma das mais inovadoras (e demolidoras) big bands do século XXI.

    Como sintoma da pujança e reconhecimento internacional do novo jazz português deverá assinalar-se, entre a vintena de nomes sonantes da vanguarda escandinava, a presença da trompetista portuense Susana Santos Silva.
    10. GoGo Penguin: “Man-made object” (Blue Note)
    2016 foi um bom ano para o jazz britânico, mas haverá poucos “continentais” a dar por isso, pela razão de o jovem jazz britânico, feito por gente na casa dos 30-40 anos, não encontrar eco na Europa continental – neste domínio, o Brexit vai ter escassas consequências, pois o Canal da Mancha nunca deixou de ser uma barreira à circulação do jazz (o que contrasta com a facilidade com que o pop britânico invade a Europa).

    O trio GoGo Penguin é de Manchester e o seu terceiro disco, Man-made object, até foi publicado por uma major com distribuição global, mas poderia ser da Antárctica, a julgar pela recepção que teve do lado de cá do Canal.
    Nas cabeças, mãos e pés de Chris Illingworth (piano), Nick Blacka (contrabaixo) e Rob Turner (bateria), jazz é sinónimo de liberdade para fundir drum’n’bass, música clássica, electrónica e atmosferas cinemáticas, por vezes em crescendos de desenlace apocalíptico.
    11. Phronesis: “Parallax” (Edition Records)
    O trio Phronesis tem um contrabaixista dinamarquês Jasper Hølby, mas faz parte da “cena jazz” britânica: tem base em Londres e dois membros britânicos, o pianista Ivo Neame e o baterista Anton Eger. Os três elementos repartem as responsabilidades composicionais e o seu grau de entrosamento impede que seja possível adivinhar quem compôs o quê. Jazz de alta voltagem, com afinidades com o E.S.T.

    12. Elliot Galvin Trio: “Punch” (Edition Records)
    O jovem pianista britânico Elliot Galvin (n. 1991) tem sido comparado a Django Bates e ao ouvir-se Punch percebe-se a comparação: não há decalques nem sequer semelhanças formais, mas o espírito traquinas e zombeteiro, a falta de respeito pelas convenções e a coragem de arriscar coisas aparentemente insensatas ou ridículas fazem lembrar o Django Bates dos anos 80-90.

    Punch é o segundo disco do trio de Galvin com Tom McCredie (contrabaixo) e Simon Roth (bateria) e transborda de ideias que fazem cócegas nas circunvoluções mais remotas do encéfalo.
    13. Lorenzo Naccarato: “Lorenzo Naccarato Trio” (Laborie)
    Em 2012, um pianista italiano, com sólidas bases de música clássica e anos de investigação em torno de Thelonious Monk, aliou-se a dois franceses, Adrien Rodriguez (contrabaixo) e Benjamin Naud (bateria) para formar um trio que se estreou em 2016 com esta obra transbordante de lirismo, energia e invenção.

    Mesmo nos momentos mais serenos, sente-se a tremenda pulsação vital e a constante interacção dos músicos, complementando-se e desafiando-se. O piano pode assumir funções de moto continuo, o contrabaixo pode encarnar uma guitarra eléctrica hendrixiana, e a bateria, em vez de marcar tempos, torna-se num caleidoscópio de timbres.
    14. nOx.3: “Nox tape” (Jazz Village)
    A dada altura do vídeo abaixo, o grupo define-se como uma “mistura de jazz e música actual”. Percebe-se o que eles querem dizer, mas se quisermos ser picuinhas há nesta declaração um pleonasmo: o jazz é – ou pode ser – “música actual”. A verdade é que o mundo musical está a mudar tanto e tão depressa que as velhas designações e conceitos estão a ficar obsoletos e a distinção entre “jazz” e “música actual” só faz sentido se se acreditar que “jazz” corresponde a um estilo praticado há meio século e que assim cristalizou.

    Rémi Fox (saxofone), Matthieu Naulleau (teclados) e Nicolas Fox (bateria), com substancial ajuda de electrónica, criam no seu álbum de estreia (precedido de um EP em 2014) um universo musical próprio e 100% “actual”, onde cabem o electro, a música minimal-repetitiva, o rock. Já agora, registe-se que o trio não inclui baixo (acústico ou eléctrico) mas que ninguém dará pela falta dele, tal a inteligência e o virtuosismo com que os restantes instrumentos se articulam.
    15. Cuong Vu/Pat Metheny: “Cuong Vu Trio meets Pat Metheny” (Nonesuch)
    Cuong Vu, um trompetista norte-americano nascido em Saigão, é conhecido sobretudo como membro do Pat Metheny Group, mas tem carreira como líder bem mais original e estimulante do que a do seu celebérrimo empregador.

    O trio que Vu mantém com Stomu Takeishi (baixo) e Ted Poor (bateria, inicialmente confiada a John Hollenbeck) assinou dois discos fascinantes, Pure e Come play with me, convidou o guitarrista Bill Frisell para o terceiro (e não menos cativante), It’s mostly residual, e agora “aliciou” outro gigante da guitarra – nada menos do que o “patrão” de Vu, Pat Metheny – para este opus 4. Metheny integra-se na perfeição na sonoridade do trio – assente nas solenes e belíssimas melodias de Vu, que vão desenrolando-se com todo o vagar, em crescendos majestosos – e assina o seu melhor trabalho desde que se juntou a Ornette Coleman em Song X, já lá vão 30 anos.
    16. The Bad Plus: “It’s hard” (Okeh/Sony)
    O 12.º disco de estúdio em 16 anos de carreira do trio Ethan Iverson (piano) + Reid Anderson (contrabaixo) + David King (bateria) é quase integralmente preenchido com recriações de êxitos pop, de “Games without frontiers”, de Peter Gabriel a “Time after time”, de Cyndi Lauper, passando por Johnny Cash, Crowded House, Yeah Yeah Yeahs, TV On The Radio e Prince. Uma das mais brilhantes e radicais recriações é “The robots”, dos Kraftwerk, que vê a sua rigidez mecânica dar lugar a ritmos alterosos e irregulares.

    17. Jim Black Trio: “The constant” (Intakt)
    Este é o mesmo Jim Black que faz, há 20 anos, parte do trio Azul de Carlos Bica e é também o Jim Black que esteve nos Bloodcount de Tim Berne, no Tiny Bell Trio de Dave Douglas, nos grupos de Satoko Fujii, Chris Speed, Jenny Scheinman e Cuong Vu, nos colectivos Human Feel, Pachora, Big Air e BB&C (com Berne e Nels Cline) e em mais ums largas dezenas de projectos, cujos registos se contam, infalivelmente, entre os melhores discos do ano.

    A par desta frenética actividade, Black tem vindo a consolidar-se como líder, à frente dos AlasNoAxis e deste trio com o pianista austríaco Elias Stemeseder e do contrabaxista norte-americano Thomas Morgan, que tanto tem límpidas melodias pop como os ritmos convulsivos e quebrados que são típicos de Black. Este terceiro disco do trio tem a particularidade de incluir uma versão serena e lírica do standard “Bill”, de Jerome Kern, inesperada num músico que sempre tem alimentado os seus projectos com material de “fabrico próprio”.
    18. John Zorn/Flaga: “The Book of Angels 27: Flaga” (Tzadik)
    O colossal projecto Book of Angels está a aproximar-se do seu término, mas os superlativos para o qualificar esgotaram-se muitos volumes atrás. Recorde-se o conceito que lhe preside: repartir cerca de três centenas de peças de inspiração klezmer que Zorn compôs num único ano a uma série de formações diferentes, que vão do violoncelo solo à big band, do quarteto vocal feminino a cappella à banda de inspiração mariachi. Muitos dos grupos convocados já tinham existência prévia – caso dos Secret Chiefs 3, a Cracow Klezmer Band, Medeski, Martin & Wood, os Klezmer Madness de David Krakauer, os Zion 80 ou a SPIKE Orchestra – enquanto outros foram constituídos expressamente para o efeito.

    Entre os grupos ad hoc está o trio Flaga, com Craig Taborn (piano), Christian McBride (contrabaixo) e Tyshawn Sorey (bateria), criado para o registo do volume 27. O sabor klezmer funde-se na perfeição com a linguagem do trio com piano, num ambiente quase sempre efervescente, com um Taborn em estado de graça, impelido pela bateria irrequieta de Sorey e solidamente sustentado pelo contrabaixo de McBride. Os discos em trio de Taborn (Light made lighter e Chants) são muito recomendáveis, mas nenhum se ergue a esta altura, pelo que se fazem votos para que este trio passe de ad hoc a permanente e nos dê muitos discos e concertos.
    19. John Zorn/Nova Express Quintet: “The Book of Angels 28: Andras” (Tzadik)
    O quarteto/quinteto Nova Express também começou por ser uma formação ad hoc, reunida por Zorn para interpretar as composições incluídas em Nova Express (gravado em 2010), mas, desde então, tornou-se numa das task forces mais activas e marcantes da galáxia Zorn, surgindo em The gates of ParadiseA vision in BlakelightDreamachines e On leaves of grass e regressando agora para o volume 28 do Book of Angels.

    O “núcleo duro” formado por John Medeski (piano, órgão), Kenny Wollesen (vibrafone), Trevor Dunn (baixo e contrabaixo) e Joey Baron (bateria) é desta vez expandido por adição do percussionista brasileiro Cyro Baptista e o resultado é um dos discos mais serenos, luminosos e embaladores de toda a série.
    20. John Zorn/Simulacrum: “The painted bird” (Tzadik)
    O trio Simulacrum também foi criado expressamente para interpretar as composições de Zorn, no álbum homónimo lançado em Março de 2015, mas o resultado parece ter entusiasmado Zorn a tal ponto que fez sair mais dois discos dessa formação ainda em 2015, seguidos por mais dois em 2016.

    Em The painted bird o trio Matt Hollenberg (guitarra), John Medeski (órgão) e Kenny Grohowski (bateria) é reforçado por Kenny Wollesen (vibrafone) e ocorrem substanciais alterações de sonoridade: há agora maior variedade de timbres, estilos e densidade. O prog metal gótico e o psicadelismo negro têm a companhia de melodias de sabor klezmer e trechos de swing, sucedendo-se por vezes à velocidade da luz, numa colagem tresloucada evocativa dos Naked City. Em “Night”, que tem a participação de Ches Smith em congas, a sonoridade densa e febril faz pensar noutro fabuloso projecto de Zorn, os Electric Masada.

    Outras recomendações do ano

    Ananke: “Stop that train!” (Igloo)
    Após dois discos em trio, os Ananke, liderados pelo pianista belga Victor Abel, com Roméo Iannucci (baixo) e Alex Rodembourg (bateria), ganharam o contributo da flauta de Quentin Maufroy e do clarinete baixo de Yann Lecollaire e gravaram Stop that train!, por cujas composições cuidadas perpassam influências díspares, mas habilmente sintetizadas.
    Animus Anima: “Résidence sur la Terre” (Igloo)
    A editora apresenta Résidence sur la Terre como “o elo perdido entre Archie Shepp e os Pink Floyd” e, com efeito, o grupo liderado pelo saxofonista francês Nicolas Ankoudinoff exibe traços reconhecíveis das formações de Shepp em meados da década de 1960 e doses consideráveis de psicadelismo associáveis aos primeiros tempos dos Pink Floyd (antes de se terem tornado numa banda ponderosa e institucional), a que se juntam influências de músicas do mundo, absorvidas durante as viagens de Ankidounoff.
    O projecto Animus Anima nasceu em 2001 como trio e expandiu-se a quarteto, com Ankidounoff, Benoist Eil (guitarra), Pascal Rousseau (tuba) e Etienne Plummer (bateria), que são, neste disco, reforçados pelos convidados Bart Maris (trompete, da Flat Earth Society), Stephan Pougin (percussão, dos Rêve d’Eléphant) e Giovanni Di Domenico (piano, dos Tetterapadequ)
    Darcy James Argue’s Secret Society: “Real enemies” (New Amsterdam)
    Num tempo pouco favorável a big bands, Darcy James Argue conseguiu montar e manter uma formidável big band, alimentada exclusivamente com partituras suas, que já nos deus os excelentes Infernal machines e Brooklyn Babylon.
    Agora Argue inspirou-se “no fascínio da América por teorias conspirativas e políticas paranóicas” para elaborar uma suíte em 13 partes que, além de reflectir sobre o mundo em que vivemos, é também um paradigma da escrita para big band no século XXI.
    Eivin Austad Trio: “Moving” (Ozella)
    O pianista norueguês Eivin Austad já leva uns anos de actividade como sideman, mas só agora se estreia como líder, à frente de um trio com Magne Thormodsaeter (contrabaixo) e Hakon Mjaset (bateria), praticando um jazz de moldes clássicos, com melodias esmeradamente esculpidas.
    Num programa dominado por originais de Austad, insinuam-se o standard “All of you”, de Cole Porter, e uma versão de “Life on Mars”, de David Bowie, que é um prodígio de delicadeza e ternura.
    Johannes Bigge Trio: “Pegasus” (nWog)
    A Alemanha parece regurgitar com jovens trios de piano, contrabaixo e bateria, sem que daí resulte sobrepovoamento, pois cada um tem a sua linguagem própria. Johannes Bigge (piano), Athina Kontou (contrabaixo) e Moritz Baumgärtner (bateria) urdem uma delicada filigrana sonora, de gestos bem medidos e melodias de uma beleza discreta e serena.

    Piero Bittolo Bon’s Bread & Fox: “Big hell on air” (Auand)
    O saxofonista Piero Bittolo Bon é um verdadeiro dínamo do novo jazz italiano, liderando os projectos Jümp The Shark, Original Pigneto Stompers e Lacus Amoenus e co-liderando os colectivos Orange Room, Jaruzelski’s Dream, Crisco 3 e Rollerball.
    O quinteto Bread & Fox, uma das mais recentes emanações da sua mente fervilhante, tem uma constituição insólita, com trombone (Filippo Vignato), tuba (Glauco Benedetti), piano (Alfonso Santimone) e bateria (Andrea Grillini) e pratica uma música assente em riffs obsessivos e rítimica complexa, que tem afinidades com a de Tim Berne, mas que se desenrola num intervalo mais curto e evidencia um humor traquinas e explícito.
    Emil Brandqvist Trio: “Falling crystals” (Skip)
    O trio do baterista sueco Emil Brandqvist com o pianista finlandês Tuomas Turunen e o contrabaixista sueco Max Thornberg tem dois álbuns antes deste, Breathe out (com quarteto de cordas) e Seascapes, (com ensemble de sopros), feitos de melodias belas (por vezes apenas “bonitas”) e atmosferas tranquilas (por vezes próximas da musique d’ameublement). O novo disco, não alterando as coordenadas estéticas, soa como uma versão refinada, depurada e focada dos anteriores. O quarteto de cordas Sjöströmska, a percussão de Martin Brandqvist e uma ocasional pincelada de sintetizador dão colorido adicional a algumas faixas.
    “Longing” soa como uma passacaglia, com a sua linha de baixo obsessiva e dolente como um remorso que não nos larga, sobrevoada por melodias de requintada melancolia.
    Marc Buronfosse: “Aegn” (Abalone)
    Mais um disco que suscitará o furor dos puristas. Jazz? Electrónica? Trance? Post-rock? Pouco importa, mas se o arrumarem ao lado de Jon Hassell e Nils Peter Molvaer não ficará em má companhia. O novo projecto do baixista francês Marc Buronfosse reúne músicos franceses e gregos – Andreas Polyzogopoulos (trompete), Marc-Antoine Perrio (guitarra), Stephane Tapsis (teclados), Arnaud Biscay (bateria) e convidados – e foi gravado em Paros, na Grécia, de cujo festival de jazz Buronfosse é director artístico.
    Brain Tentacles: “Brain Tentacles” (Relapse)
    Já tínhamos o trio italiano Zu e o trio Simulacrum (ao serviço do lado mais negro da mente de John Zorn) e ninguém sabia bem onde arrumá-los. Agora surgiu o trio Brain Tentacles, unindo os maus fígados do saxofonista Bruce Lamont (dos Yakuza e Bloodiest), do baixista/teclista Aaron Dallison (dos Keelhaul e Axioma) e do baterista Dave Witte (dos Discordance Axis, Burnt By The Sun, Municipal Waste e Publicist UK) e o seu disco de estreia homónimo é um turbilhão de fúria, fel e violência que mais facilmente encontrará acolhimento favorável entre os fãs de extreme metal do que entre os apreciadores de Stan Getz.
    Jean-Philippe Collard-Neven: “Mardi 16 Juin” (Igloo)
    O eclético pianista belga Jean-Philippe Collard-Neven, cujo curriculum inclui experiências tão diversas como os Art Zoyd, o barítono José Van Dam, o guitarrista Philipep Catherine, o Quarteto Debussy ou o Coro de Câmara de Namur, aliou-se aos canadianos Michel Donato (contrabaixo) e Pierre Tanguay (bateria) para um disco que contribui para esbater as fronteiras entre jazz e música de câmara.
    Dave Douglas High Risk: “Dark territory” (Greenleaf)
    Segundo disco do quarteto High Risk, com a sua original mescla de jazz e electrónica, tendo por fundo as inquietações do trompetista americano Dave Douglas quanto aos tempos em que vivemos. Se o primeiro disco, homónimo, do quarteto, era inspirado pelas ameaças decorrentes das alterações climáticas, o “território escuro” do título do opus 2 alude ao vasto e ignoto território do ciberespaço. Jonathan Maron (baixos, eléctrico e sintetizado), Shigeti (electrónica) e Mark Guiliana (bateria), dão corpo às inquietações de Douglas.

    Mark Dresser Seven: “Sedimental you” (Clean Feed)
    O contrabaixista Mark Dresser tem sido, no último quarto de século, um dos esteios do moderno jazz americano e tem uma dúzia de discos em nome próprio, mas ainda não tinha registado como líder em formato tão alargado. O septeto que gravou Sedimental you conta com nomes sonantes como Marty Ehrlich (clarinete) e o ubíquo Jim Black (bateria) e Dresser consegue extrair dele uma inacreditável riqueza tímbrica. Um equilíbrio precioso entre jazz e música de câmara e a liberdade da improvisação e o rigor da composição,
    Espécie de Trio: “Por outras palavras” (Carimbo Porta-Jazz)
    O programa do disco de estreia do trio portuense é análogo ao de It’s hard, dos Bad Plus: tomar uma mão-cheia de canções do pop-rock anglo-saxónico, de David Bowie, Pink Floyd, The Doors, The Stranglers, The Beatles, U2 e Tom Waits, e reinventá-las em trio de piano (Hugo Raro), contrabaixo (Filipe Teixeira) e bateria (António Torres Pinto). Sendo um grupo português, faz todo o sentido juntar “Venham mais cinco”, de José Afonso, e “Construção” + “Deus lhe pague”, de Chico Buarque, até porque é na dupla incursão em Buarque que ocorre o momento mais assombroso do disco.
    EYM Trio: “Khamsin” (Kollision Prod)
    O título Khamsin – o nome dado no Norte de África a um vento quente e seco que sopra do deserto a sul – sugere o interesse por outras paragens e sons e, com efeito, este jovem trio francês, formado por Elie Dufour (piano), Yann Phayphet (contrabaixo) e Marc Michel (bateria), incorpora na sua linguagem influências do Magrebe e Próximo Oriente.
    Mas isso é apenas parte da história, pois o flamengo e a música dos Balcãs e da Bulgária também fazem as suas aparições. Neste segundo disco (antes houve Genesi), o tocador de oud Mohamed Abozekry e o acordeonista Marian Badoi condimentam algumas faixas desta feliz mestiçagem entre jazz e world music.
    Benjamin Faugloire Project: “Birth” (Jazz Family)
    trio de Marselha, liderado pelo pianista Benjamin Faugloire, com Denis Frangulian (contrabaixo) e Jérome Mouriez (bateria), vai no terceiro álbum, depois de Première nouvelle (de 2009) e The diving (2012) e soa cada vez mais pujante e épico.
    Jonathan Finlayson: “Moving still” (Pi Recordings)
    O trompetista americano Jonathan Finlayson, discípulo e parceiro de Steve Coleman (entrou para os Five Elements com apenas 18 anos) e colaborador de Muhal Richard Abrams, Steve Lehman e Mary Halvorson, lidera o quinteto Sicilian Defense (um nome vindo de uma célebre abertura de xadrez), com Miles Okazaki (guitarra), Matt Mitchell (piano), John Hébert (contrabaixo) e Craig Wenrib (bateria). O seu segundo disco revela composições sofisticadas, dançando sobre rítmicas complexas (por vezes inspiradas no M-Base de Coleman), alimentadas pelo génio das estrelas Mitchell e Hébert e do menos conhecido, mas não menos dotado, Wenrib. O equivalente jazzístico de um torneio de mestres.
    Fire!: “She sleeps, she sleeps” (Rune Grammofon)
    2016 foi um ano particularmente produtivo para o trio Mats Gustafsson (saxofone) + Johan Berthling (baixo) + Andreas Werlin (bateria), pois além do disco em formato expandido (a Fire! Orchestra) mencionado acima, editaram também um registo na sua formação original, em trio. A faixa de abertura, “She owned his voice” combina intensidade, imponência, solenidade e urgência e bastaria para explicar o que faz um ponto de exclamação no nome da banda: perante esta música resta ao ouvinte quedar-se em estupor.

    Michael Formanek & Ensemble Kolossus: “The distance” (ECM)
    O contrabaixista Michael Formanek é, como Mark Dresser, uma figura central dos últimos 25 anos do jazz americano e esta é, como Sedimental you, de Dresser, também a primeira incursão de Formanel no “grande formato”. O Kolossus Ensemble reúne 18 jazzmen de primeira linha (entre os quais estão Ralph Alessi, Tim Berne, Chris Speed, Kirk Knuffke, Mary Halvorson, Kris Davis) sob a direcção de Mark Helias. Não se espere daqui a clássica big band de swing, pois Formanek sintetizou nas suas composições influências tão diversas como a música de órgão de Olivier Messiaen e metal. O resultado é um disco de grande variedade de texturas e timbres, com amplo espaço para os excepcionais solistas recrutados por Formanek mostrarem o seu talento.
    Fresh Cut Orchestra: “Mind behind closed eyes” (Ropeadope)
    Fresh Cut Orchestra é um decateto de Filadélfia liderado por Josh Lawrence (trompete), Jason Fraticelli (baixo) e Anwar Marshall (bateria) e este seu segundo álbum revela, como o anterior, From the vine, composições minuciosamente estruturadas e um apurado sentido para construção de ambientes cinemáticos (alguns deles parecem estar memso a pedir que seja feito um filme para eles).
    Jari Haapalainen Trio: “Fusion machine” (Moserobie)
    O fino-sueco Jari Haapalainen é mais conhecido como guitarrista da banda de rock indie The Bear Quartet, membro do duo Heikki e produtor, mas é homem de sete instrumentos e múltiplos interesses, pelo que não é de estranhar que mantenha um trio – JH3 – em que assume a bateria e que se dedica a uma intensa e rugosa mistura de rock e jazz (que felizmente nada tem a ver com o caldo morno a que se convencionou chamar “fusion”). Per Texas Johansson (saxofone), uma das vozes mais proeminentes do moderno jazz escandinavo, Daniel Bingert (baixo) e Haapalainen cozinham uma música de riffs poderosos e groove contagiante a que não se ajusta pacificamente a designação de jazz, mas cuja audição se recomenda.
    Craig Hartley: “Books on tape vol. II” (ed. autor)
    No segundo disco do seu trio com Carlo De Rosa (contrabaixo) e Jeremy Clemons (bateria), o pianista Craig Hartley não só revisita alguns jazz standards (“Caravan” e “Mood Indigo”, de Duke Ellington) e canções pop (“Junk” de Paul McCartney), como promove casamentos inesperados: “Sinclair” resulta da fusão entre o Prelúdio n.º 2 de O cravo bem temperado, de Johann Sebastian Bach, com “Solar”, de Miles Davis, e em “Imagine peace piece” não se percebe onde acaba “Imagine”, de John Lennon, e começa “Peace piece” de Bill Evans. E isso é fascinante.
    David Helbock Trio: “Into the mystic” (ACT)
    O pianista austríaco David Helbock (n. 1984) já anda na música há uns anos – o seu primeiro disco, Happiness (auto-editado), surgiu aos 14 anos e o segundo, Emotions (Gramola), aos 19 – mas, até à data tinha publicado em editoras com escassa difusão fora da Áustria e Alemanha. Into the mystic marca a sua estreia numa editora de maior projecção internacional, a ACT, e é o segundo deste trio, que lançara o ano passado Aural colors na Traumton.
    Não se trata de “mais-um-trio-com-piano”: Helbock tem uma abordagem muito pessoal ao seu instrumento (nomeadamente pelo recurso à “preparação” ou à manipulação do interior do instrumento), o usual contrabaixo é substituído por um ukulele baixo (Raphael Preusch), a bateria (Reinhold Schmölzer) é pouco ortodoxa e o disco inclui, além de originais de Helbock, um intrigante e esquelético arranjo do II andamento da Sinfonia n.º 7 de Beethoven, três releituras em piano solo de um híbrido das BSOs de “Exodus” e “Star Wars”, que esvaziam os originais de toda a sua imponência e estridência, e uma versão em trio do tema de “Star Wars” que é um verdadeiro tour de force).
    Pablo Held Trio: “Lineage” (Pirouet)
    O pianista alemão Pablo Held está por estes dias a fazer 30 anos e este é já o seu oitavo disco como líder e todos contaram com Robert Landfermann no contrabaixo e Jonas Burgwinkel na bateria. Dos oito discos, cinco são em trio e são estes os mais conseguidos – a química entre Held, Landfermann e Burgwinkel dispensa outros reagentes. Lineage prossegue a via dos discos anteriores: jazz anguloso e abstracto, perturbado por assomos de energia impetuosa.
    The Heliocentrics: “From the deep” (Now Again)
    O disco é de 2016, mas resulta de uma repescagem de peças inéditas dos arquivos dos Heliocentrics. Não há, todavia, que temer: nem o material é de segunda qualidade ou datado, nem o disco soa incongruente. A imensa diversidade das 19 faixas, por onde perpassam jazz, funk, electrónica, kraut rock (da cepa Can), ethio jazz e pontuais inflexões orientais e magrebinas, acaba por ser unificada pelas atmosferas de ficção científica, pelo psicadelismo e pelos grooves irresistíveis. Pedindo emprestado o título que os Spiritualized deram ao seu terceiro disco, pode anunciar-se: “ladies and gentlemen, we are floating in space”.

    Fred Hersch: “Sunday night at the Vanguard” (Palmetto)
    Fred Hersch é um dos músicos que mais regularmente se tem apresentado no Village Vanguard e a afinidade desenvolvida com o clube nova-iorquino tem vindo a proporcionar vários registos ao vivo naquele espaço, nomeadamente Alone at the Vanguard (2011), a solo, e Alive at the Vanguard (2012), com o trio, com John Hébert (contrabaixo) e Eric McPherson (bateria), que agora reincide em Sunday night at the Vanguard. O disco contém composições de Hersch, um standard de Richard Rodgers, uma canção de Beatles e uma composição de Monk, “We see”, que é alvo de uma estupenda leitura, apropriadamente angulosa
    Régis Huby 4tet: “Equal crossing” (Abalone)
    O violinista francês Régis Huby tem intensa actividade como sideman mas é menos assíduo na qualidade de líder, o que, a avaliar por este Equal crossing, é de lamentar. Huby rodeou-se de uma equipa de luxo, com os franceses Marc Ducret (guitarra) e Bruno Angelini (teclados) e o italiano Michele Rabbia (bateria, electrónica), para gerar música de difícil classificação, entre o jazz, a música de câmara e o prog rock mutante.
    I Am Three: “Mingus Mingus Mingus” (Leo)
    Aqui, o Mistério da Santíssima Trindade não é como pode alguém ser, simultaneamente, uno e trino, mas como pode um trio de saxofone alto (Silke Eberhard), trompete (Nikolaus Neuser) e bateria (Christian Marien) recriar o ardor, a efervescência e a riqueza de peças que Charles Mingus compôs para ensembles bem maiores. O espírito de Mingus está mais vivo neste trio alemão no que na Mingus Big Band, na Mingus Dinasty ou nos outros ensembles ligados à viúva de Mingus e que se apresentam como herdeiros do genial contrabaixista.
    Christoph Irniger’s Pilgrim: “Big wheel live” (Intakt)
    O saxofonista suíço Christoph Irniger lidera um trio, um quarteto e o quinteto Pilgrim (e co-lidera o iconoclasta trio Cowboys From Hell, os Noir, os No Reduce, os RISS e os Spelterini) e é uma das mais marcante vozes do novo jazz helvético. Os Pilgrim contam com o pianista Stefan Aeby (cujo trio também figura nesta escolha de discos de 2016), o baterista Michi Stulz (membro do trio de Aeby), o guitarrista Dave Gisler e o contrabaixista Raffaële Bossard. Como Irniger explica no vídeo abaixo, nos Pilgrim as funções convencionalmente atribuídas a cada instrumento são suspensas e há uma redistribuição de tarefas e jogo combinatório que produz música cheia de ângulos e surpresas. Big wheel live é o terceiro disco dos Pilgrim e foi gravado ao vivo em Ratzeburg, Berlim e Altenburg.
    Julia Kadel Trio: “Über und Unter” (Blue Note)
    A pianista Julia Kadel (n. 1986), o contrabaixista Karl-Erik Enkelmann (n. 1987) e o baterista Steffen Roth (n. 1989) ainda não tinham chegado aos 30 anos quando gravaram este disco, mas revelam uma maturidade que, há umas décadas, só se atingiria por volta do 12.º álbum – e este é apenas o segundo do trio. As 15 faixas são invulgarmente concisas e concentradas e exibem uma admirável diversidade: há peças tecidas com farrapos de bruma, outras com densidade sinfónica, uma são líricas e delicadas e outras são complexos e bizarros mecanismos rítmicos.

    Aly Keïta/Jan Galega Brönnimann/Lucas Niggli: “Kalo-yele” (Intakt)
    Se, a quem tenha um entendimento americanocêntrico do jazz, a ideia de jazz feito por suíços poderá parecer uma bizarria comparável a fado esquimó, a aliança de dois jazzmen suíços – o clarinetista baixo Jan Galega Brönnimann e o baterista Lucas Niggli – a Aly Keïta, um mestre do balaphon da Costa do Marfim parecerá da ordem da heresia ou da piada de mau gosto. Porém, o resultado nada tem de desajeitado, postiço ou contra natura – depois de ouvi-lo podemos, pelo contrário, perguntarmo-nos porque não existem mais trios de balaphon, clarinete baixo e bateria.
    Krokofant: “Krokofant II” (Rune Grammofon)
    O segundo disco do power trio norueguês – Jørgen Mathisen (saxofone), Tom Hasslan (guitarra) e Axel Skalstad (bateria) – continua a explorar a intersecção entre a franja mais agressiva do free jazz e as latitudes mais musculadas do jazz rock. Saiu no final de 2015, tarde demais para figurar no balanço do respectivo ano, mas não deve ser ignorado por quem não receia música com dentes afiados.
    Axel Kühn Trio: “Zeitgeist” (Double Moon)
    O contrabaixista alemão Axel Kühn estreou-se como líder em 2006, no Kühntet co-liderado pelo irmão, Alexander, e tem extensa carreira como sideman, mas o trio com Ull Möck (piano) e Marcel Gustke (bateria) é um projecto recente, cujo primeiro disco, Open-minded, saiu em 2014.
    Joachim Kühn New Trio: “Beauty & truth” (ACT)
    Durante os anos 80 e 90, o pianista alemão Joachim Kühn (sem relação familiar com o Axel Kühn acima) manteve um estupendo trio com o contrabaixista francês Jean-François Jenny-Clark e o baterista suíço Daniel Humair, em que o entendimento entre os músicos era quase telepático. Desde a morte de Jenny-Clark, em 1998, Kühn tem mantido actividade intensa, mas nunca mais regressara ao formato piano + contrabaixo + bateria. Passada década e meia, o luto parece estar concluído e Kühn encontrou novamente duas almas gémeas (com idade para serem seus filhos) no contrabaixista canadiano Chris Jennings e no baterista alemão Eric Schaefer (conhecido sobretudo por ser um dos alicerces do trio de Michael Wollny).
    disco de estreia deste New Trio faz-se com uma desconcertante colecção de peças, onde se misturam originais de Kühn, um standard de George Gershwin (“Summertime”), uma versão em piano solo de “Beauty and truth”, de Ornette Coleman, uma das mais conhecidas composição de Gil Evans (“Blues for Pablo”), duas composições de Krzysztof Komeda (“Kattorna” e o belíssimo “Sleep safe and warm”, da banda sonora de “Rosemary’s baby”, de Polanski), duas canções dos Doors (“The End” e “Riders on the storm”) e uma canção dos Stand High Patrol, uma banda de dub da Bretanha (!). O resultado é, por estranho que possa parecer, um disco perfeitamente coerente.
    Jeremy Lirola: “Uptown desire” (La Buissonne)
    álbum de estreia como líder do contrabaixista francês Jeremy Lirola, com Denis Gucarc’h (saxofone), Josef Dumoulin (teclados) e Nicolas Larmignat (bateria), está habilmente construídoo de forma a evitar fórmulas e a propor soluções novas em cada uma das suas nove faixas: do impressionista e introspectivo ao denso e selvagem.
    Mammal Hands: “Floa” (Gondwana)
    O trio britânico nutre uma óbvia admiração pela escola minimal-repetitiva – e sobretudo por Philip Glass – mas não se deixa aprisionar na sua teia frígida e enquanto o piano de Nick Smart tece as suas malhas hipnóticas, o saxofone de Jordan Smart e a bateria de Jesse Barrett fornecem o impulso e o calor do jazz. Os mais atentos repararão que não existe contrabaixo ou instrumento análogo, mas a sagaz articulação entre a mão esquerda do piano e do bombo da bateria tornam essa ausência irrelevante.

    Fabrice Martinez Chut!: “Rebirth” (ONJ Records/La Compagnie Chut!)
    O trompetista Fabrice Martinez tem feito parte das mais importantes grandes formações do jazz francês – o MegaOctet de Andy Emler, Le Sacre du Tympan, Grand Lousadzak de Claude Tchamitchian, os Supersonic de Thomas de Pourquery e a a Orchestre National de Jazz – mas ainda lhe sobra energia e criatividade para liderar o seu próprio grupo, o quarteto Chut!, com Fred Escoffier (teclados), Bruno Chevillon (baixo) e Eric Echampard (bateria). O terceiro disco do grupo regista uma maior presença da electricidade e dos grooves funky, o que se explica por Martinez ter pretendido prestar homenagem ao som Motown dos anos 70.
    MAST: “Love and war” (Alpha Pup)
    MAST é o nom de plume que o multi-instrumentista norte-americano Tim Conley (guitarrista e baixista na Fresh Cut Orchestra: ver acima) escolheu para assumir a autoria destas 17 faixas onde convivem programações e efeitos electrónicos e um desfile de músicos de carne e osso. Por vezes não se anda longe da mescla de space jazz e world music de The Heliocentrics, mas em MAST a electrónica é mais conspícua.
    Brad Mehldau Trio: Blues & ballads (Nonesuch)
    Embora os outros projectos do pianista Brad Mehldau nem sempre sejam inteiramente conseguidos, pode dar-se como garantido que qualquer disco do seu trio é um sério candidato a figurar nas listas de melhores do ano. É o que se passa com Blues & ballads: o programa mistura standards com temas pop (desta feita não há composições de Mehldau) e o trio com os fiéis parceiros Larry Grenadier (contrabaixo) e Jeff Ballard (bateria) exibe a mestria e entrosamento sobrenaturais que permitem transformar canções sofríveis (“And I love her”, dos Beatles) ou até medíocres (“Valentine”, de Paul McCartney) em obras-primas.
    Nick Millevoi: “Desertion” (Shhpuma)
    Com Desertion, do guitarrista americano Nick Millevoi, entramos francamente em terreno post-rock, contaminado com Americana, e sem traços reconhecíveis de jazz – e, todavia, dois dos músicos envolvidos em Desertion provêm da esfera do jazz: o teclista Jamie Saft e o baterista Ches Smith. O projecto Desertion, contemplativo e crepuscular, funciona talvez como contrapartida ao frenesim insano de outra banda de Millevoi, o inclassificável trio Many Arms (em que também milita Johnny DeBlase, o baixista de Desertion).
    Quem queira conceder que a globalização também tem um rosto benigno registará que esta banda sonora para um périplo pelos ermos roídos pela ferrugem e sufocados pela poeira do interior dos EUA foi editado pela etiqueta lisboeta Shhpuma, uma associada da Clean Feed.
    Wolfgang Muthspiel: “Rising grace” (ECM)
    O guitarrista austríaco aliou-se a um quarteto norte-americano de luxo, com Ambrose Akinmusire (trompete), Brad Mehldau (piano), Larry Grenadier (contrabaixo, membro do trio de Mehldau há mais de duas décadas) e Brian Blade (bateria), para produzir um álbum luminoso e caloroso que destoa na produção cada vaz mais sombria e glacial da ECM.
    A intensidade com que os cinco músicos se escutam mutuamente e a entrega, a afabilidade e a generosidade com que se complementam, trocam ideias ou abrem espaços uns para os outros poderia servir de resposta paradigmática à magna questão “O que é o jazz?”.
    Nacka Forum: “We are the world” (Moserobie)
    Apesar do que a capa pode sugerir, este não é um disco para quem preencha as suas necessidades estáticas com vídeos de gatinhos. Os Nacka Forum são uma fanfarra trocista formada por quatro figuras de relevo do moderno jazz escandinavo – Goran Kajfeš (trompete), Jonas Kullhammar (palhetas), Johan Berthling (contrabaixo) e Kresten Osgood (bateria, piano). Excelente para desfazer a ideia de que o jazz escandinavo é uniformemente melancólico e soturno.
    Angelika Niescier & Florian Weber: “NYC Five” (Intakt)
    Donald Trump talvez atire o TTIP (a sigla inglesa para a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) para o caixote do lixo, mas não perturbará intercâmbios transatlânticos como o que foi estabelecido pela saxofonista germano-polaca Angelika Niescier e pelo pianista alemão Florian Weber com os americanos Ralph Alessi (trompete), Christopher Tordini (contrabaixo) e Tyshawn Sorey (bateria).
    Niescier mantém ainda outra parceria transatlântica – um trio com Tordini e Sorey –, lidera ainda o quarteto Sublim e co-lidera os Now, os The Great Divide e The Ortiz Project. Weber também tem vocação transatlântica e faz parte dos Minsarah e dos Biosphere.
    NYC Five reflecte a grande diversidade de influências e experiências dos cinco músicos e proporciona ambientes diversificados.
    Orchestre National de Jazz/Olivier Benoît: “Europa Rome” (ONJ Records)
    Ao terceiro álbum da ONJ sob a sua direcção artística, o guitarrista Olivier Benoît decidiu delegar a escrita a dois compositores com sólida formação clássica e gostos ecléticos: o francês Benjamin de la Fuente e o italiano Andrea Agostini. Além disso, optou também por não tocar, deixando a guitarra a Didier Aschour, e concentrar-se na direcção.

    As duas longas suítes são um caleidoscópio de ideias, onde tanto há trechos ambientais, como explosões de energia rock e danças desconjuntadas conduzidas pelo duende do funk.
    A ONJ tem um rico historial, iniciado em 1986, sob a direcção de François Jeanneau, mas nenhum dos talentosos directores artísticos anteriores a Benoît – no cargo desde 2014 – lograra rubricar três obras-primas consecutivas (as duas anteriores são Europa Paris e Europa Berlin).
    Aruán Ortiz Trio: “Hidden voices” (Intakt)
    A morte de Fidel Castro foi pretexto para muita gente exaltar, com um entusiasmo proporcional à ignorância do assunto, os sistemas de educação e de saúde da ilha do Caribe. Mesmo não se sendo especialista em análise comparada de sistemas de ensino, pode aventar-se que a instrução proporcionada aos jovens pianistas terá virtudes, pois a ilha produz pelo menos um portento do piano por década: Gonzalo Rubalcaba (n. 1963), Aruán Ortiz (1974), David Virelles (n. 1983).
    Hidden voices é o segundo disco do trio de Ortiz com Eric Revis (contrabaixo) e Gerald Cleaver (bateria) e oferece música de desafiante complexidade rítmica e melodias fracturadas, onde se distinguem, aqui e ali, ecos deformados e remotos de música afro-cubana.
    Emile Parisien Quintet: “Sfumato” (ACT)
    Após vários discos excelentes em quarteto, o saxofonista francês Émile Parisien, partiu para uma nova aventura, com uma formação completamente renovada, juntando o veterano pianista alemão Joachim Kühn a Manu Codjia (guitarra), Simon Tailleu (contrabaixo) e Mario Costa (bateria), a que se somam dois convidados de prestígio: o veterano clarinetista Michel Portal e uma das grande revelações do acordeão, Vincent Peirani.
    Florian Pelissier: “Cape de Bonne Espérance” (Heavenly Sweetness)
    O pianista francês Florian Pelissier montou um quinteto clássico, com trompete (Yoann Loustalor), saxofone (Christophe Panzaini), contrabaixo (Yoni Zelnik) e bateria (David Georgelet), e alimentou-o com combustível vintage, ao estilo dos anos de ouro da Blue Note: hard bop com condimentos funk (no sentido que o termo tinha na viragem dos anos 50-60), latinos e africanos, com arranjos cuidados, que conferem uma sonoridade quase orquestral ao quinteto. Ao contrário do que acontece com tanto disco de retro-jazz, este respira frescura e genuinidade.
    Marc Perrenoud Trio: “Nature boy” (Double Moon)
    quarto disco do trio do pianista suíço Marc Perrenoud com Marco Müller (contrabaixo) e Cyril Regamey (bateria) denota um afastamento da energia febril dos inícios do trio e uma ênfase em belíssimas melodias de recorte muito claro, com afinidades com a música pop.
    Ping Machine: Ubik e Easy listening (Neuklang)
    O guitarrista Fred Maurin, líder e compositor da big band Ping Machine, não parece ter falta de ideias: em 2016 a sua pouco ortodoxa banda fez sair em simultâneo dois discos, Ubik e Easy listening. O título do segundo tem alguma justificação, pois é mais acessível que o primeiro, uma rica e elaborada peça em 14 partes que, frequentemente, está mais próxima da música de câmara do que do jazz mainstream. De qualquer modo, “easy listening” não é expressão para ser levada à letra, pois o disco assim intitulado não só nada tem a ver com papel de parede sonoro como se pauta pela sofisticação e pela pesquisa tímbrica.
    Em qualquer deles, é manifesta a inesgotável criatividade de Maurin – que diz ter sido “criado ao som de Jimi Hendrix, King Crimson e Frank Zappa”, o que se reflecte na sua música – e a excelência da equipa de 15 músicos que congregou.
    PJ5: “Trees” (Gaya)
    Os Pj5 são o projecto principal do guitarrista francês Paul Jarret, que se divide pelos grupos EMMA (jazz/pop/música tradicional da Suécia), Sweet Dog (free jazz/pop/improvisação), VIND (jazz/folk), Light Blazer (jazz/funk/hip hop) e White Note (rock). Vale a pena enunciar este curriculum porque a música dos PJ5 reflecte o largo espectro de interesses do seu líder, em particular a faceta rock, fazendo com que alguns trechos de Trees tenham mais afinidades com o post-rock do que com o que habitualmente associamos ao jazz.
    É o caso de faixas como “This is not the sun”, “Kallsjön” ou “The teaser”, embora os PJ5 também apostem em ambientes cinemáticos, como acontece em “The anciente law”. Seja qual for a orientação, o disco reflecte um aturado trabalho de composição e arranjos que faz com que o quinteto possa soar por vezes como uma mini-orquestra (é o caso de “Kallsjön”).
    Grégory Privat: “Family tree” (ACT)
    Em Family tree, o jovem pianista Grégory Privat interroga-se sobre árvores genealógicas e mestiçagem, questões candentes para quem, como ele, nasceu na Martinica, onde confluem genes europeus, africanos e asiáticos, e pratica uma música – o jazz – nascida de uma mescla de tradições musicais. É “crioula” a música que nos traz este trio com Linley Marthe (contrabaixo) e Tilo Bertholo (bateria), condimentando a tradição clássica do trio com piano com influências caribenhas. As composições, todas de Privat, denotam um talentoso criador de melodias (ouça-se “La Maga”) e a componente rítmica pode atingir facilmente a ebulição (ouça-se “Ladja”).
    Reis/Demuth/Wiltgen: “Places in between” (Double Moon)
    Luxemburgo: mais um país que não se associa de imediato a jazz. E todavia foi lá que nasceu este trio que se mede com o que de melhor se faz a nível mundial. Michel Reis, Marc Demuth e Paul Wiltgen tocam juntos desde a escola secundária, o que ajuda a explicar que, indo apenas no segundo álbum, já exibam um nível superlativo. Com propensão para um lirismo épico afim do E.S:T., o trio parece por vezes desafiar as leis da física, pois não parece possível que um piano, um contrabaixo e uma bateria possam gerar um ímpeto tão avassalador.

    Eric Revis Trio: Crowded solitudes (Clean Feed)
    O facto de ser um contrabaixista constantemente requistado pode explicar que Eric Revis só tenha começado a gravar como líder em 2004 e, ainda assim, esparsamente. Após dois discos na etiqueta 11:11, Revis tem tem vindo a ser editado na Clean Feed, em quarteto (Parallax e o intensíssimo In memory of things yet seen) e com um trio com piano que se estreou com City of asylum, com Kris Davis no piano e o veterano Andrew Cyrille na bateria. Em Crowded solitudes, Cyrille cede o lugar a Gerald Cleaver, mudança que traz consistência acrescida, sem comprometer a ousadia (esta passa por estruturar toda uma composição em torno de um sample de uma frase proferida por uma criança – o filho de Revis).
    O ideal estético do trio está sintetizado na frase com que André Breton conclui Nadja: “La beauté sera convulsive ou ne le sera pas”.
    Aki Rissanen: “Amorandom” (Edition Records)
    Amorandom nasceu como banda sonora do pianista finlandês Aki Rissanen para um filme de animação de Tuula Leinonen. As composições acabaram por evoluir e conhecer uma segunda vida neste disco com o contrabaixista Antti Lötjönen e o baterista Teppo Mäkynen.
    Rissanen já tinha experiência noutros formatos – solo, duo, quarteto – mas até então evitara o trio “clássico” com piano por, na sua opinião, o meio já estar preenchido com muitos grupos de altíssimo nível. Esta selecção de melhores discos de 2016 confirma a asserção de Rissanen quanto à abundância de piano trios excepcionais, mas há sempre lugar para mais um, desde que haja originalidade e chama.
    Roswell Rudd/Jamie Saft/Trevor Dunn/Balazs Pandi: “Strength & power” (RareNoise)
    O trombonista Roswell Rudd, que foi uma das figuras cimeiras da vanguarda jazzística da década de 1960, aliou-se a gente bem mais jovem e com curricula bem diversos – o pianista Jamie Saft (The Dreamers, Electric Masada, Dave Douglas, New Zion Trio), o contrabaixista Trevor Dunn (Mr. Bungle, Tomahawk, John Zorn) e o baterista Balázs Pandi (Merzbow, Zu e incontáveis projectos de noise, electróncia e doom metal) – para produzir free jazz incandescente e impetuoso. Todos os temas são improvisados e, no entanto, nada ficam a dever à coerência. Rudd, nascido em 1935, alia a sabedoria e técnica de quem tem atrás de si 60 anos de experiência como trombonista à fogosidade de um rapaz de 20 anos, Saft lança cascatas de notas ou sonda as entranhas do piano, Dunn e Pandi geram turbulências capazes de arrancar árvores pela raiz.
    Gina Schwarz Unit: “Woodclock” (Cracked An Egg)
    Há afinidades fonéticas entre os nomes próprios Gina e Jim e há afinidades semânticas entre Schwarz e Black (“negro”, em alemão e inglês) e ao ouvir-se o fruto da sua cooperação não restam dúvidas de que a contrabaixista alemã e o baterista americano nasceram para se entender. Black traz a sua peculiar sonoridade e o seu poderoso impulso a um quarteto formado por Schwarz, Fabian Rucker (saxofone e clarinete), Benjamin Schatz (piano), Heimo Trixner (guitarra), naquele que é o quarto registo de Schwarz como líder e o primeiro da Unit e que revela um notável talento melódico e composições cuidadosamente elaboradas.
    Sidony Box/Gianluca Petrella: “Here comes a new challenger” (Naïve Jazz)
    Os franceses Sidony Box – Elie Dalibert (saxofone), Manuel Adnot (guitarra) e Arthur Narcy (bateria) – nunca sofreram de astenia, mas a adição, para o seu quarto disco, do trombonista italiano Gianluca Petrella veio trazer a sua energia para níveis assustadores. A intensidade é potenciada por se tratar de um registo ao vivo e de Adnot ter trocado a guitarra “convencional” por um monstro de 8 cordas, que lhe permite desempenhar funções de guitarra e de baixo.
    O disco, registado em 2014, saiu no final de 2015, demasiado tarde para ser incluído no balanço desse ano, mas seria injusto deixá-lo de fora.
    Starlite Motel: “Awosting Falls” (Clean Feed)
    O colectivo Starlite Motel junta o hiper-versátil teclista norte-americano Jamie Saft aos escandinavos Kristoffer Berre Alberts (saxofone), Ingebright Haker Flaten (baixo) e Gard Nilssen (bateria) para produzir música densa, sombria, claustrofóbica e inquietante. Este é um daqueles motéis em que as janelas estão perras, a porta não fecha, a decoração não é renovada desde a estreia de Psycho e a luz eléctrica vacila mal começa a trovejar, deixando entrever, à luz dos relâmpagos, uma silhueta carregando o que parece ser um machado e avançando em passadas lentas e decididas pelo parque de estacionamento deserto.
    Stirrup: “Cut” (Clean Feed)
    O violoncelista norte-americano Fred Lonberg-Holm foi aluno de composição de Anthony Braxton e Morton Feldman e pode (ou pôde) ser ouvido em companhias tão diversas como os Vandermark 5, o Peter Brötzmann Chicago Tentet, Mats Gustafsson, Jim O’Rourke e as bandas Mountain Goats, Smog, Califone, Rivulets e Horse’s Ha. Foi a estes últimos que foi buscar os parceiros para o trio Stirrup: o contrabaixista Nick Macri e o baterista Charles Rumback. Jazz-folk descarnado até ao osso, seco e adstringente.
    Sun Trio: “Reborn” (Cam Jazz)
    O Sun Trio tem em comum com o Cuong Vu Trio a formação pouco corrente com trompete (Kalevi Louhivuori) + baixo (Antti Ltjönen) + bateria (Olavi Louhivuori), a preferência por tempos lentos e melodias solenes e o recurso a pedais de efeitos para processar o som da trompete, mas enquanto o Cuong Vu Trio se empenha em criar uma sonoridade sinfónica, densa e épica – que a magreza do instrumentário não faria prever – os finlandeses do Sun Trio cultivam, durante a maior parte do tempo, uma sonoridade ascética, com o baixo e a bateria reduzidos a apontamentos minimais e uma trompete que desliza como uma nuvem preguiçosa.
    Claude Tchamitchian Sextet: “Traces” (Émouvance)
    O contrabaixista francês Claude Tchamitchian tem estado envolvido nalguns dos mais excitantes projectos do jazz francês, que como sideman de François Corneloup, Andy Emler ou Stéphan Oliva, quer como lider de vários grupos, entre os quais se destacavam o Lousadzak e a sua versão big band, o Grand Lousadzak. Em 2015, Tchamitchian voltou-se para as suas raízes arménias e compôs uma suíte inspirada pelo genocídio do povo arménio pelos turcos, ocorrido um século antes. O resultado dessa reflexão, mediada pelo romance Seuils (2011), do romancista arménio radicado em França Krikor Beledian, é este Traces. A declamação/ canto/ performance de Géraldine Keller sobre excertos de Seuils é desigual (tanto pode ser tocante como irritante), mas a componente instrumental evoca o jazz, ao mesmo tempo lírico e combativo, de Charles Mingus e a infinita melancolia das melodias tradicionais arménias.
    The Comet Is Coming: “Channel the spirits” (The Leaf Label)
    Mais um fascinante projecto do saxofonista Shabaka Hutchings (Melt Yourself Down, Sons of Kemet), agora em toada mais cósmica, tendo como cúmplices Dan Leavers (teclados) e Maxwell Hallett (bateria). Nesta incursão pelo space jazz psicadélico, este trio britânico devoto de Sun Ra e de sintetizadores vintage, aproxima-se de The Heliocentrics, grupo com que Hutchings colaborou, mas não é capturado na sua órbita. O cometa vem aí e é prenúncio infalível de fim do mundo – pelo menos para quem acredita que o jazz gira em torno de Louis Armstrong.

    Tous Dehors: “Les sons de la vie” (Abalone)
    Passaram 20 anos sobre a saída de Dans la rue, o disco de estreia do noneto liderado pelo saxofonista e clarinetista francês Laurent Dehors, e não há sinais de melhorias na jovial insanidade do grupo, pelo que se conclui que as lições da vida (o título faz um trocadilho entre “os sons da vida” e as “lições da vida”) colhidas nestas duas décadas não incluiram – felizmente – a sensatez, o decoro e a submissão aos padrões de bom comportamento. As peças de Les sons de la vie foram encomendadas a Laurent Dehors pela Ópera de Rouen, para um espectáculo estreado em 2012, juntando os Tous Dehors à orquestra sinfónica. O CD contém a versão reorquestrada para os efectivos do noneto, acrescido dos convidados Marc Ducret (guitarra) e Matthew Bourne (piano).
    Unnatural Ways: “We aliens” (Tzadik)
    É compreensível que muitos resistam com todas as forças a classificar os Unnatural Ways como jazz e, por outro lado, poucos serão os que perderão tempo a argumentar em favor da sua inclusão nessa categoria (nem sequer a editora o faz, arrumando o grupo na “rock/improv scene”). Debates taxonómicos à parte, o que seria de lamentar seria deixar de prestar atenção ao trio da guitarrista Ava Mendoza com Tim Dahl (baixo) e Sam Ospovat (bateria), pois é indubitável que We aliens é uma das revelações do ano, independentemente da categoria. Os Unnatural Ways já tinham tido outra encarnação, em Oakland, na Califórnia, mas foi com a mudança para Nova Iorque e com a parceria com Dahl e Ospovat que os prodigiosos talentos de Ava Mendoza encontraram o contexto ideal. We aliens faz-se de blues, hardcore, metal, math rock, alguma improvisação e muita aspereza.
    The Watershed: “Inhale/Exhale” (Shed Music)
    Os franceses Christophe Panzani (saxofone, clarinete), Pierre Perchaud (guitarra) e Tony Paeleman (teclados) e o canadiano Karl Jannuska (bateria) são suficientemente novos para que o pop-rock seja uma das suas influências dominantes. A faixa que dá título ao álbum ilustra bem a estética do quarteto, com a energia efervescente do rock a dominar a primeira parte e uma doce e melancólica letargia a tomar conta da segunda.
    Huw V. Williams: “Hon” (Chaos Collective)
    “O que mais irão eles inventar?”, protestará quem estava habituado a guiar-se por um mapa simplificado do mundo, em que boa parte dos territórios exteriores a Nova Iorque estavam assinalados como “terra incognita”, e agora descobre que também há jazz a brotar do País de Gales. Do País de Gales! Verdade seja dita que o contrabaixista galês Huw V. Williams se faz acompanhar, neste azougado álbum de estreia, por gente de outras regiões do Reino Unido, mais concretamente por alguns dos mais criativos membros do irreverente Chaos Collective, como Laura Jurd (trompete) e Elliot Galvin (piano, acordeão). A formação completa-se com Alam Nathoo (saxofone) e Pete Ibbetson (bateria) e gera uma música de ritmos desconjuntados, melodias com reviravoltas inesperadas e espírito traquinas.
    Nils Wogram Root 70: “Wise men can be wrong” (nWog)
    Dos vários projectos mantidos em simultâneo pelo virtuoso trombonista alemão Nils Wogram, o quarteto Root 70, com Hayden Chisholm (saxofones), Matt Penman (contrabaixo) e Jochen Rückert (bateria), é o mais prolífico – este é já o seu 8.º álbum – e o que segue moldes mais “clássicos”. Esse “classicismo” é reforçado neste disco pelo repertório escolhido, que é inteiramente preenchido com standards. Juntamente com Cape de Bonne Espérance, de Florian Pelissier, é o disco mais “convencional” desta selecção de 2016.
    Michael Wollny Trio: In concert: Klangspuren (ACT)
    O trio do pianista alemão Michel Wollny, com Christian Weber (contrabaixo) e Eric Schaefer (bateria) tem recorrido nos discos de estúdio a alguma electrónica e processamento de som, portanto as versões ao vivo, despidas de artifícios, revelam novas facetas das composições. É uma razão adicional para dar atenção a este excelente conjunto CD + DVD, que diz respeito a concertos ao vivo na Laieszhalle de Hamburgo, a 13 de Novembro de 2015 (CD), e no Forum Leverkusen, a 11 de Novembro de 2014 (DVD).
    Michael Wollny & Vincent Peirani: “Tandem” (ACT)
    O pianista alemão e o acordeonista francês conheceram-se em 2012 num concerto comemorativo dos 20 anos da editora ACT e logo estabeleceram num entendimento telepático, que se materializou agora em disco. Além de composições de ambos os músicos, o programa inclui duas soberbas versões de canções pop – “Hunter” de Björk e “4th of July”, de Sufjan Stevens –, o Adagio para cordas de Samuel Barber e “Vignette”, uma das mais belas composições de Gary Peacock.
    John Zorn/Autoryno: “The Book of Angels 29: Flauros” (Tzadik)
    Pastrami Bagel Social Club (2010) e Cosmopolitan traffic (2013), ambos na Tzadik, davam excelentes indicações quanto à aptidão deste supreendente power trio francês para interpretar as composições do Book of Angels, mas John Zorn só se lembrou deles já no fim da série. David Konopnicki (guitarra), Bertrand Delorme (baixo) e Cyril Grimaud (bateria) assimilam com naturalidade as composições de Zorn para a sua linguagem onde confluem thrash metal, math rock, surf music e, claro, música klezmer.

    John Zorn/Simulacrum: 49 acts of unspeakable depravity in the abominable life and time of Gilles de Rais (Tzadik)
    Após o relativo desanuviamento de The painted bird, o quinto disco do trio Simulacrum regista um recrudescer do negrume e da brutalidade. O tema do disco não pede outra coisa, já que Gilles de Rais (c.1405-1440), que co-comandou, com Joana d’Arc, as forças francesas na Guerra dos Cem Anos, teve uma faceta sinistra, tendo estado envolvido no abuso sexual, tortura e morte de centenas de crianças. O John Zorn do século XXI pode compor música aprazível, luminosa e esmeradamente polida para o quinteto Nova Express ou para The Dreamers, mas continua fascinado com os recantos mais negros da alma humana, onde brotam as pulsões mais perversas e a violência mais desvairada.
    Desde a entrada do formato CD no mercado de massas que os arquivos das editoras e de engenheiros de som amadores têm sido exaustivamente escrutinados em busca de material inédito registado por grandes músicos de jazz. Naturalmente, com a passagem dos anos, as peças trazidas à superfície por este afã arqueológico têm vindo a ser de interesse cada vez mais marginal e poderia crer-se que já pouco material de valor das décadas áureas de 50 e 60 estaria por reeditar. Todavia, os arqueólogos da Resonance Records têm revelado um especial talento para dar com “túmulos” intactos que ficaram a salvo da curiosidade durante todo este tempo (ver Quando o jazz descobriu o Brasil e Ainda há tesouros do jazz clássico por desenterrar?). Em 2016, essa prospecção rendeu um bom disco de Larry Young e um excelente disco da Thad Jones/Mel Lewis Orchestra.
    Thad Jones/Mel Lewis Orchestra: “All my yesterdays: The debut 1966 recordings at the Village Vanguard” (Resonance)
    duplo CD documenta a primeira aparição pública da big band, num registo feito no mítico clube Village Vanguard por um jovem entusiasta de jazz, com poucos meios técnicos mas critério judicioso. A qualidade de som é mais que aceitável e capta a orquestra num momento histórico e numa atmosfera vibrante.
    Larry Young: In Paris: The ORTF Recordings (Resonance)
    duplo CD documenta a passagem do organista Larry Young por Paris em Dezembro de 1964, meses antes de gravar as suas primeiras obras-primas para a Blue Note. Registado nos estúdios da ORTF.


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